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Resumo
INTRODUÇÃO
A introdução de tecnologias digitais no contexto da Educação de Jovens e Adultos representa uma possibilidade de reorganização metodológica capaz de ampliar o alcance do processo educacional, elevando o nível de envolvimento dos participantes. A incorporação de recursos digitais permite a criação de ambientes educacionais mais acessíveis, o que favorece a construção de competências cognitivas mais complexas. A potencialização do vínculo entre educadores e aprendizes emerge como um efeito colateral dessa integração, que propicia interações significativas e promove o engajamento ativo no processo de ensino. A mediação tecnológica, nesse cenário, opera como fator de democratização do conhecimento, promovendo a participação crítica dos sujeitos na construção de sentidos.
As ferramentas digitais, ao serem empregadas em práticas pedagógicas, viabilizam uma multiplicidade de formatos para apresentação dos conteúdos, respeitando a diversidade de estilos de aprendizagem presentes entre os alunos da modalidade. O uso de plataformas virtuais, vídeos, áudios e redes de interação online contribui para o fortalecimento da autonomia discente, uma vez que os conteúdos podem ser acessados conforme o ritmo individual. Tal configuração favorece a aprendizagem multimodal e cria espaços colaborativos que estimulam a troca de saberes, colaborando para o amadurecimento reflexivo dos sujeitos envolvidos.
O êxito na utilização desses instrumentos está condicionado à existência de um letramento digital prévio que capacite os estudantes a explorar as potencialidades dos recursos de forma produtiva. O domínio técnico, por si só, não é suficiente para assegurar uma apropriação crítica das tecnologias, exigindo a superação de barreiras estruturais e cognitivas. Muitos participantes enfrentam limitações em relação ao uso de dispositivos digitais, seja pela inexperiência com as ferramentas, seja pela ausência de infraestrutura tecnológica adequada. Essa condição compromete os resultados pedagógicos esperados, exigindo investimento direcionado à capacitação contínua.
A problemática delineada revelou um cenário marcado por desigualdades estruturais, barreiras de acesso aos dispositivos digitais e lacunas na formação dos agentes educacionais quanto ao uso pedagógico das tecnologias. Identificou-se que a expansão dos recursos digitais, embora promissora, é dificultada pela precariedade das condições materiais, pela carência de letramento digital entre os estudantes e pela resistência ou insegurança de parte do corpo docente. Esses entraves comprometem a efetividade das ações educativas, inviabilizando a consolidação de práticas que articulem criticamente os recursos tecnológicos com os objetivos formativos da modalidade.
O problema caracterizado evidenciou uma dissonância entre o potencial transformador das tecnologias e sua efetiva aplicação no cotidiano. A situação encontrada apresentou contextos escolares com estruturas deficitárias, falta de políticas públicas específicas e disparidades socioeconômicas que intensificam o fenômeno da exclusão digital. A ausência de estratégias pedagógicas consistentes e alinhadas ao perfil dos estudantes contribuiu para o enfraquecimento do vínculo com os processos de aprendizagem mediados por tecnologia. Assim, a questão-problema formulada consistiu em saber de que maneira as tecnologias digitais influenciaram o processo de ensino-aprendizagem na Educação de Jovens e Adultos em contextos marcados por limitações estruturais, culturais e pedagógicas.
Partiu-se da hipótese de que, quando utilizadas de forma planejada e crítica, as tecnologias digitais favoreceram a ampliação do acesso ao conhecimento, a construção de aprendizagens significativas e o fortalecimento da autonomia dos estudantes. Como premissa primária, considerou-se que a inclusão digital depende da articulação entre políticas públicas, formação docente continuada e infraestrutura adequada. Também se assumiu que o uso isolado das tecnologias, sem mediação pedagógica qualificada, não gerou impactos significativos sobre os resultados educacionais.
O objetivo geral consistiu em analisar os efeitos da utilização de tecnologias digitais no processo de ensino-aprendizagem da Educação de Jovens e Adultos, de forma secundária, compreendendo as implicações pedagógicas, os desafios estruturais e as possibilidades de inovação formativa promovidas por esses recursos. Especificamente, buscou-se, assim, estabelecer uma relação crítica entre os meios tecnológicos disponíveis e as práticas educativas que emergiram nesse campo.
A pesquisa foi caracterizada como exploratória, do tipo bibliográfica, com abordagem qualitativa e método dedutivo. Os procedimentos metodológicos incluíram a consulta a bases de dados nacionais e internacionais, como Scielo, Google Acadêmico, DOAJ, Redalyc e CAPES. Os critérios de inclusão abrangeram publicações entre 2015 e 2025, com ênfase em estudos empíricos e teóricos sobre EJA e tecnologias digitais. A análise dos dados foi realizada por meio de técnica de análise de conteúdo, com categorização temática das informações extraídas dos textos selecionados.
A relevância científica do estudo residiu na sistematização de conhecimentos sobre um campo ainda incipiente na literatura especializada, promovendo subsídios para futuras pesquisas e ações educativas. A justificativa técnica se fundamentou na urgência de se compreender os limites e as potencialidades do uso das tecnologias, frente ao avanço das exigências do mundo digital. A viabilidade foi assegurada pelo amplo acesso a fontes confiáveis, atualizadas e disponíveis em bases acadêmicas reconhecidas.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
ENSINO DE MATRIZES NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
A educação configura-se como processo social dinâmico, atravessado por determinações históricas, políticas e culturais que redefinem continuamente seus significados e modos de concretização. Conforme Gadotti (2022), o conceito de educação é inseparável das relações que a constituem, sendo moldado pelas transformações sociais que determinam novos contornos às práticas educativas e ao papel atribuído ao conhecimento no interior dessas configurações. Assim, compreendê-la exige considerar a historicidade de suas formas institucionais e os sentidos que assume no contexto das lutas por direitos sociais.
A Educação de Jovens e Adultos é reconhecida como uma alternativa voltada àqueles que, por diversas razões, não acessaram ou não concluíram o ensino básico na idade prevista, enfrentando frequentemente contextos de exclusão econômica e social. Conforme Charlot (2022), o perfil desse grupo é atravessado por trajetórias interrompidas de escolarização, baixa autoestima educacional e inserções precárias no mundo do trabalho. Essas condições evidenciam obstáculos históricos que dificultaram a consolidação dessa modalidade como política pública efetiva, remanescente de práticas coloniais voltadas à catequese e não à emancipação educacional.
A institucionalização da alfabetização de adultos no Brasil apresenta registros desde o início do século XX, com esforços iniciais marcados por um enfoque assistencialista e pontual. Para Gadotti (2022), tais iniciativas careciam de sistematização curricular e se restringiam a conteúdos práticos de higiene e civismo. A inclusão do direito à educação para adultos na CFRB/88 representou uma inflexão significativa, mesmo que iniciativas anteriores, como o método Laubach, introduzido na década de 1940, já demonstrassem preocupações com a difusão da alfabetização. A introdução de abordagens filosóficas dissidentes nesse período marcou o início da politização do ensino de adultos no país.
A consolidação do método crítico de alfabetização e sua assimilação por correntes ideológicas contemporâneas reforçaram o entendimento como campo de disputa política. Segundo Freire (2023), a pedagogia voltada à conscientização buscava deslocar o processo educativo da mera instrução para a formação de sujeitos críticos. Essa inflexão metodológica confrontava modelos cristãos tradicionais, pautando-se por uma leitura de mundo orientada pela reflexão social e histórica, o que impactou a construção curricular e os materiais pedagógicos utilizados nas práticas escolares.
A implementação no cenário nacional foi permeada por motivações de ordem pragmática, relacionadas à expansão do sufrágio e à qualificação da mão de obra. De acordo com Cunha (2023), a articulação entre política educacional e demanda mercadológica configurou a EJA como instrumento funcional ao sistema produtivo, negligenciando sua função transformadora. Assim, a oferta desse ensino respondia a exigências institucionais e econômicas, dificultando a concretização de um projeto educacional integral e igualitário.
Durante o período autoritário, a criação do Mobral e do ensino supletivo foi marcada por forte dirigismo estatal, voltado à manutenção da ordem social. A transição democrática, representada pela CFRB/88, reafirmou o direito à educação, incluindo a oferta de ensino noturno adequado à realidade dos educandos, o que passou a integrar o ordenamento jurídico nacional de maneira vinculante, conforme o art. 208 da CFRB/88.
No contexto da década de 1990, a ausência de contabilização das matrículas no FUNDEF comprometeu sua sustentabilidade financeira, o que impactou diretamente a qualidade da oferta educacional. De acordo com Ferreira (2024), essa exclusão evidencia a persistente desvalorização da modalidade frente às demais etapas do ensino básico. A criação do FUNDEB, em 2007, representou um avanço ao reconhecer a EJA como parte integrante da educação básica, embora sua implementação ainda enfrenta desafios relacionados à distribuição equitativa de recursos e ao reconhecimento institucional.
A integração com a Educação Profissional, consolidada por meio do PROEJA, institucionalizado pelo Decreto nº 5.840/2006, ampliou o escopo de formação dos educandos, articulando conhecimentos escolares com competências profissionais. O PNE 2014-2024 também reforçou essa diretriz, propondo metas de erradicação do analfabetismo e universalização do acesso à educação básica.
A heterogeneidade do público impõe desafios metodológicos, curriculares e organizacionais. Segundo Gonçalves (2023), o convívio entre diferentes gerações em uma mesma turma exige práticas educativas mediadas por escuta ativa, reconhecimento dos saberes prévios e estratégias de aprendizagem não convencionais. Tal configuração exige do corpo docente competências específicas para lidar com múltiplas temporalidades escolares, inserções no mundo do trabalho e demandas subjetivas relacionadas à reparação histórica do direito à educação.
A evasão escolar nesse segmento está atrelada a fatores estruturais e contingenciais, como o desemprego, a sobrecarga de tarefas domésticas e a ausência de políticas públicas articuladas à realidade dos educandos. Para Libâneo (2022), a permanência na escola depende da ressignificação do espaço escolar como ambiente de valorização social e profissional. A carência de materiais didáticos contextualizados e de propostas pedagógicas significativas contribui para o afastamento do educando, revelando uma lacuna entre o currículo prescrito e as experiências cotidianas dos sujeitos.
A CFRB/88, art. 5º, consagra a educação como direito de todos e dever estatal, exigindo para sua materialização o desenvolvimento de políticas públicas normativamente organizadas. De acordo com Ferreira (2024), a implementação dessas ações educacionais requer a observância de diretrizes específicas que assegurem sua universalidade, gratuidade e adaptabilidade às diferentes condições de vida dos sujeitos envolvidos. Esse arcabouço legal institucionaliza o compromisso do Brasil com a democratização do acesso ao saber.
A Lei nº 9.394/1996, em seu art. 37, estabelece os fundamentos legais da Educação de Jovens e Adultos (EJA), orientando os sistemas de ensino a garantir oportunidades apropriadas àqueles que não concluíram a educação básica em idade regular. Para Charlot (2022), essa determinação aponta para a necessidade de considerar a trajetória dos educandos, suas experiências de trabalho e as condições concretas de sua existência, de modo a adequar metodologias, conteúdos e tempos escolares às realidades diversas dos sujeitos.
As disposições contidas no art. 38 da LDB determinam a manutenção de cursos e exames supletivos alinhados à base nacional comum curricular, estabelecendo faixas etárias específicas para sua aplicação. Conforme Veiga (2024), a organização desses mecanismos configura estratégia de inclusão pedagógica que reconhece as singularidades do processo formativo de jovens e adultos, articulando o reconhecimento de saberes prévios à progressão educacional.
A abordagem das matrizes no currículo apresenta elevada complexidade conceitual, exigindo a articulação de diversos fundamentos da álgebra e da lógica com TICs. Para Cunha (2023), o ensino desse conteúdo, além de demandar domínio técnico, deve considerar a historicidade dos sujeitos, suas experiências escolares fragmentadas e a ausência de vínculos positivos com a com TICs, o que requer metodologias que promovam significação e pertencimento.
A trajetória histórica no Brasil remonta às práticas de alfabetização de adultos no período colonial e se intensifica com o desenvolvimento urbano-industrial. Conforme Gadotti et al. (2022), o valor atribuído ao trabalho manual em detrimento da escolarização formal durante grande parte da história brasileira impediu o acesso massivo à educação básica, sendo somente nas décadas recentes que políticas estruturadas como o Mobral consolidaram o reconhecimento do direito à educação de adultos.
Esse percurso histórico revela que o desprestígio da educação esteve vinculado à centralidade do trabalho como elemento de sobrevivência para amplas camadas populares. De acordo com Charlot (2022), a valorização do saber escolarizado emerge gradualmente com a expansão urbana, evidenciando um deslocamento nos sentidos atribuídos ao conhecimento e sua incorporação nas estratégias de ascensão social de determinados segmentos.
A proposta pedagógica exige que os conteúdos dialoguem com as experiências concretas dos sujeitos, valorizando sua inserção social e cultural. Para Paiva (2023), ao articular o conhecimento escolar às vivências dos educandos, a prática docente potencializa o reconhecimento do saber como ferramenta de transformação, ressignificando o processo de avaliação como instrumento de emancipação e não de controle.
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E DESIGUALDADE SOCIAL
A desigualdade social no Brasil manifesta-se de maneira estrutural, com repercussões evidentes no campo educacional, em que se observa a permanência de taxas expressivas de analfabetismo e de exclusão do ensino superior. Esse interfere significativamente nos indicadores de alfabetização, com taxas que permanecem elevadas entre determinados segmentos populacionais, evidenciando disparidades no acesso ao ensino superior e aos recursos escolares em diferentes territórios. Tal panorama reforça a necessidade de revisar criticamente a organização da Educação de Jovens e Adultos, cuja configuração exige articulações conceituais amplas, dada a complexidade histórica e institucional que marca sua constituição normativa e política.
Para Charlot (2022), a compreensão do processo educacional na modalidade da Educação de Jovens e Adultos demanda um retorno às origens estruturantes da educação nacional, dado que os marcos fundacionais da escolarização foram profundamente atravessados por valores econômicos e práticas de exclusão. Essa matriz histórica fez prevalecer uma cultura que associa o valor do indivíduo à sua produtividade laboral, em detrimento da formação educacional, limitando o reconhecimento social do conhecimento escolar como meio legítimo de ascensão e cidadania.
Cunha (2023) explicita que os fatores econômicos associados ao processo de colonização criaram barreiras de acesso que ainda hoje impactam a configuração das políticas educacionais. Durante a formação da sociedade brasileira, o trabalho braçal era privilegiado, o que gerou desvalorização sistemática da educação formal. A urbanização progressiva e o processo de industrialização promoveram alterações nesse cenário, ao deslocar parte da população para os centros urbanos, em que novas demandas exigiram escolarização mínima e reconfiguraram os sentidos atribuídos ao saber escolar.
Paiva (2023) aponta que as condições socioeconômicas do estudante, associadas à estrutura institucional da escola, influenciam diretamente o sucesso no processo de ensino-aprendizagem. O insucesso escolar, nesse caso, ser interpretado como resultado de interações complexas entre contextos sociais, práticas pedagógicas e políticas públicas. Tais elementos requerem intervenções articuladas que considerem as singularidades de cada sujeito em formação.
Para Ferreira (2024), o papel social da escola ultrapassa a dimensão técnica do ensino e implica a formação ética, crítica e cultural dos indivíduos. A atuação pedagógica deve fomentar processos de desalienação, permitindo ao educando posicionar-se criticamente frente às realidades que o cercam. Dessa forma, a escola torna-se espaço privilegiado de reconstrução de trajetórias, desconstrução de estigmas e afirmação de novas possibilidades de inserção cidadã.
Gadotti et al. (2022) argumentam que um dos principais entraves à efetividade reside na dificuldade de modificar representações cristalizadas sobre a educação. Alunos adultos mantêm a crença de que o aprendizado deve ocorrer em fases iniciais da vida, desconsiderando a natureza contínua do conhecimento. Superar essa percepção demanda estratégias pedagógicas que revalorizem a educação em todas as fases da existência, legitimando a trajetória formativa de cada sujeito como singular e relevante.
A insuficiência de equipamentos e a precariedade do acesso à internet constituem entraves persistentes à efetiva implementação das tecnologias em instituições voltadas à EJA. Para Paiva (2023), a escassez de infraestrutura tecnológica inviabiliza muitas vezes o uso regular dos recursos digitais, prejudicando o processo de inovação didático-pedagógica. Soma-se a esse panorama a carência de formação específica por parte dos docentes, que frequentemente não dispõem dos conhecimentos técnicos e metodológicos necessários para utilizar os recursos digitais de forma planejada e articulada ao projeto pedagógico.
METODOLOGIA
A investigação insere-se no campo da educação com ênfase na interseção entre tecnologias digitais e a Educação de Jovens e Adultos, diante das exigências metodológicas geradas pelas transformações tecnológicas nos processos de aprendizagem. O recorte analítico evidenciou a presença de obstáculos estruturais e pedagógicos que dificultam a inserção crítica e equitativa desses recursos no cotidiano escolar. A centralidade científica da pesquisa deriva da sistematização de dados sobre os impactos da digitalização em contextos de vulnerabilidade educacional, enquanto sua dimensão social reside na necessidade de assegurar inclusão educacional mediada por instrumentos digitais. O estudo fundamentou-se na identificação das limitações e potencialidades da tecnologia digital como agente mediador na formação de sujeitos críticos, considerando a mediação docente e a infraestrutura como condicionantes para a efetividade dessas ferramentas.
A fundamentação técnica da pesquisa articulou-se à necessidade de compreender as dinâmicas subjetivas e institucionais envolvidas na apropriação das tecnologias digitais. O método qualitativo adotado permitiu analisar produções acadêmicas secundárias, mediante revisão de escopo orientada pela categorização interpretativa dos dados. O delineamento foi construído com base em triagem sistemática, leitura analítica e codificação temática de textos científicos indexados, excluindo documentos não submetidos à avaliação por pares. Os critérios de inclusão priorizaram atualidade, aderência temática e solidez interpretativa, organizando a amostra a partir de descritores específicos voltados à análise da inclusão digital e do letramento em contextos de vulnerabilidade. As bases de dados utilizadas foram Scielo, Redalyc, ERIC e Google Acadêmico, com seleção final de 27 estudos completos publicados entre 2018 e 2024.
A sistematização do corpus permitiu identificar padrões argumentativos relacionados às carências de formação docente, infraestrutura limitada e baixa fluência digital entre os alunos. As análises demonstraram que a presença das tecnologias pode induzir trajetórias formativas mais autônomas, desde que associada a estratégias institucionais coerentes. O percurso analítico partiu da definição de um marco conceitual centrado na inclusão digital crítica, articulando a pedagogia emancipatória com os pressupostos da educação popular. A estrutura metodológica respeitou a lógica indutiva e a análise qualitativa estruturada, resultando na construção de inferências que podem orientar intervenções políticas e práticas pedagógicas voltadas à democratização do ensino na Educação de Jovens e Adultos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A integração dos discentes às tecnologias digitais configura elemento indissociável da formação contemporânea, exigindo das instituições educativas uma reconfiguração estrutural e metodológica capaz adentrar às exigências sociotécnicas em constante transformação. Segundo Charlot (2022), o domínio das linguagens tecnológicas tornou-se parâmetro de qualificação social, reposicionando o saber escolar diante das práticas sociais que demandam competências digitais como forma de inserção produtiva. Essa reconfiguração implica compreender que o distanciamento das tecnologias constitui fator de exclusão sistêmica com impactos sobre o desenvolvimento intelectual e socioeconômico.
Conforme Veiga (2024), o espaço escolar precisa ser reorganizado de modo a superar o modelo intuicionista e absorver as transformações impostas pelo digital, promovendo a formação de sujeitos autônomos e adaptáveis às mutações tecnológicas. Esta autora destaca que o deslocamento epistemológico provocado pelas tecnologias demanda novas práticas pedagógicas, capazes de articular currículo, competências e mediações didáticas orientadas ao desenvolvimento de habilidades críticas e operacionais. Tal reposicionamento requer apropriação consciente e contextualizada dos recursos digitais como linguagem formadora.
Retomando o pensamento de Cunha (2023), a função social da escola pública passa pela equalização das oportunidades entre sujeitos de diferentes contextos, especialmente quando as desigualdades materiais impactam o acesso às tecnologias. Para essa autora, a materialidade precária de muitos ambientes escolares impõe barreiras à formação tecnológica, reproduzindo assimetrias entre estudantes da rede pública e privada. A carência de infraestrutura e de equipamentos funcionais compromete a implementação de práticas pedagógicas que demandam mediação digital, exigindo políticas públicas que garantam a presença qualificada da tecnologia no cotidiano escolar.
De acordo com Schmitz (2021), a mediação docente é decisiva para transformar a tecnologia em recurso pedagógico significativo, integrando-a ao processo de construção do conhecimento de forma crítica. Essa perspectiva exige que o professor atue como facilitador das aprendizagens, capaz de promover estratégias metodológicas que incorporem o uso autônomo das tecnologias pelos estudantes. Em contextos como a EJA, essa mediação se torna ainda mais relevante, diante da necessidade de reconstrução da autoestima e da confiança dos educandos quanto à sua capacidade de lidar com o novo e o complexo.
Gadotti (2022) ressalta que a integração das tecnologias na prática pedagógica deve ser orientada por um projeto político-pedagógico comprometido com a democratização do saber, evitando que o uso dos artefatos digitais se reduza a ações pontuais ou meramente ilustrativas. Segundo esse autor, a apropriação significativa dos recursos tecnológicos requer intencionalidade educativa e participação ativa dos sujeitos, superando a lógica tecnicista e promovendo uma formação orientada pela emancipação crítica. A presença da tecnologia, nesse sentido, deve ser articulada à dimensão ética e social do ensino.
Para Ferreira (2024), o acesso desigual aos recursos digitais produz formas sofisticadas de exclusão, que se expressam apenas na ausência de equipamentos, na insuficiência de políticas formativas que garantam a mediação pedagógica necessária. A ausência de profissionais capacitados para orientar os estudantes no uso das tecnologias limita as possibilidades de aprendizagem, transformando laboratórios informatizados em espaços subutilizados ou meramente decorativos. Dessa forma, a inclusão digital deve ser concebida como prática pedagógica estruturante, e não como benefício eventual.
Segundo Gonçalves (2023), os desafios da formação docente diante das tecnologias envolvem tanto o domínio técnico quanto a compreensão pedagógica das possibilidades e limites de cada ferramenta. Esse autor defende que o educador contemporâneo deve ser capaz de selecionar criticamente os recursos digitais disponíveis, articulando-os ao currículo e às necessidades específicas de seus estudantes. A formação continuada, nesse contexto, adquire centralidade, uma vez que a obsolescência rápida das tecnologias exige constante atualização e reflexão crítica sobre suas implicações no processo de ensinar e aprender.
Oliveira (2025) sustenta que a presença das tecnologias nas escolas públicas requer planejamento estratégico e gestão democrática, de modo que os recursos tecnológicos se integrem às práticas didáticas com coerência e funcionalidade. Para esse autor, a ausência de diretrizes claras e de investimento na formação técnica dos gestores compromete a sustentabilidade das ações educativas mediadas pelas tecnologias. A superação desse quadro demanda articulação entre políticas públicas, planejamento pedagógico e participação da comunidade escolar, garantindo que os investimentos produzam impactos reais na aprendizagem.
A relação dos sujeitos com o saber está intrinsecamente vinculada às suas experiências sociais, sendo o acesso às tecnologias uma dessas mediações constitutivas. Charlot (2022) argumenta que a exclusão digital é uma forma de interrupção da trajetória de construção do conhecimento. O reconhecimento da diversidade dos sujeitos e de seus contextos demanda abordagens pedagógicas que valorizem as experiências prévias, articulando os conteúdos escolares com as práticas sociotécnicas cotidianas de modo a ressignificar o saber formal.
Além das limitações materiais, as desigualdades sociais, econômicas e culturais interferem na apropriação das tecnologias educacionais. Leciona Paiva (2023) que os grupos socialmente vulneráveis, localizados em regiões periféricas, tendem a dispor de menos oportunidades para utilizar recursos digitais, o que amplia o hiato de aprendizagem. As assimetrias de acesso e de uso implicam desvantagens significativas para estudantes em situação de maior exclusão, reforçando disparidades educacionais preexistentes. Nesse contexto, torna-se imprescindível considerar as experiências prévias e os referenciais socioculturais dos sujeitos ao propor ações pedagógicas mediadas por tecnologia.
A chamada divisão digital emerge como fator estruturante das desigualdades no acesso à educação mediada por tecnologia, impactando diretamente a possibilidade de inclusão plena. Para Paiva (2023), a ausência de equipamentos adequados e de conexão estável com a internet retira dos sujeitos a condição de participação equitativa nos processos formativos. A manutenção dessa clivagem compromete os princípios de justiça e equidade educacional, restringindo a um grupo restrito os benefícios das inovações tecnológicas aplicadas à EJA, em detrimento dos demais.
Apesar dos desafios, as tecnologias digitais configuram-se como elementos estratégicos na transformação do modelo educacional, ampliando o alcance para públicos antes excluídos dos espaços formais de aprendizagem. Veiga (2024) aponta que a utilização de plataformas digitais, aplicativos educacionais e ambientes virtuais interativos contribui para superar barreiras geográficas e estruturais, permitindo o acesso ao conhecimento por sujeitos localizados em regiões remotas ou desassistidas. A ampliação do acesso à informação favorece a inclusão e aproxima os aprendizes das dinâmicas socioculturais contemporâneas.
Ainda para Veiga (2024), as experiências concretas de inserção das tecnologias digitais em práticas de EJA revelam que, quando planejadas de forma contextualizada, essas iniciativas favorecem a construção de aprendizagens significativas. Ambientes virtuais interativos, vídeos explicativos e ferramentas personalizadas demonstram eficácia na adaptação ao ritmo e às necessidades dos estudantes, conferindo-lhes maior controle sobre o próprio percurso formativo. A promoção da autonomia nesse modelo fortalece a capacidade de análise crítica e contribui para a inserção ativa dos sujeitos nos processos sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A transformação promovida pelas tecnologias depende, entretanto, da adoção de uma perspectiva pedagógica centrada na formação crítica. A simples disponibilização de recursos digitais não garante a construção de conhecimentos significativos, sendo essencial que as estratégias didáticas estimulem o pensamento reflexivo e a problematização da realidade. A inserção tecnológica deve ser articulada a metodologias que favoreçam o protagonismo do aluno e a articulação entre teoria e prática, assegurando uma educação que responda às demandas contemporâneas.
O currículo precisa incorporar de maneira sistemática e planejada as tecnologias digitais, respeitando as especificidades do público atendido. A integração desses recursos deve considerar os repertórios culturais, as trajetórias formativas e as limitações dos alunos, para que os instrumentos não operem como dispositivos excludentes. A flexibilização das propostas pedagógicas é condição para que as tecnologias deixem de ser meros suportes e passem a constituir-se como elementos estruturantes do processo educativo.
A ação docente assume papel decisivo nesse processo, exigindo formação contínua que contemple as competências técnicas e as dimensões éticas, políticas e pedagógicas do uso das tecnologias. A atuação profissional deve orientar-se pela construção de ambientes formativos dialógicos e inclusivos, em que o uso dos recursos digitais amplifique as possibilidades de aprendizagem crítica. A mediação consciente do educador potencializa o uso das tecnologias como instrumentos de transformação social.
A superação das barreiras que dificultam a efetiva inserção das tecnologias requer políticas públicas estruturantes, investimentos em infraestrutura, formação de professores e democratização do acesso digital. A garantia de condições equitativas de participação nos processos educativos mediados por tecnologia deve compor a agenda de prioridades institucionais, como forma de assegurar o direito à educação a todos os cidadãos, independentemente de sua condição social ou local de origem. A consolidação da inclusão digital configura-se como um imperativo estratégico para a promoção da justiça social.
A consolidação de práticas pedagógicas sustentadas em tecnologias digitais depende de um esforço coletivo que articule compromisso institucional, engajamento profissional e participação ativa dos sujeitos envolvidos. A transformação dos processos educativos exige visão crítica, planejamento estratégico e atuação sensível às realidades diversas, de modo que a tecnologia, longe de representar uma solução automática, seja incorporada como mediação significativa. Dessa forma, será possível construir uma educação pautada na equidade.
Entre os achados, observou-se que o uso de plataformas digitais favoreceu a flexibilização do ensino, permitindo que os alunos acessassem conteúdos conforme sua disponibilidade de tempo e nível de compreensão. Tal característica revelou-se especialmente adequada ao perfil heterogêneo, possibilitando a personalização do processo de aprendizagem. Os ambientes virtuais se configuraram como espaços de construção colaborativa do conhecimento, incentivando a participação ativa e o desenvolvimento da autonomia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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