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Resumo
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher constitui um grave problema de saúde pública e de violação dos direitos humanos, manifestando-se em diferentes formas; física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. atingindo mulheres de todas as idades, classes sociais e contextos culturais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 30% das mulheres no mundo já sofreram algum tipo de violência praticada por seus parceiros íntimos (Silva et al., 2023). No Brasil, os índices permanecem alarmantes, com registros crescentes de violência doméstica e sexual, agravados durante a pandemia de COVID-19, o que reforça a necessidade de estratégias de intervenção mais eficazes (SICSU et al., 2024).
Nesse cenário, a enfermagem ocupa posição estratégica na linha de frente da identificação, acolhimento e assistência às vítimas. O enfermeiro, por estar em contato direto e contínuo com a população nos serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária, desempenha papel fundamental na escuta qualificada, na detecção precoce de sinais de violência, na notificação compulsória e no encaminhamento adequado às redes de apoio e proteção (Silva et al., 2023). A literatura evidencia, entretanto, que muitos profissionais ainda enfrentam dificuldades relacionadas à falta de preparo técnico, insegurança diante dos aspectos legais e ausência de protocolos específicos, o que compromete a integralidade do cuidado (Alves et al., 2024).
O problema central que norteia esta pesquisa é: como o enfermeiro pode atuar de forma efetiva na assistência e identificação de situações de violência contra a mulher, contribuindo para a prevenção, notificação e recuperação integral da vítima? Tal questionamento se torna relevante diante das lacunas identificadas na formação acadêmica e na prática clínica, que muitas vezes resultam em atendimentos fragmentados e pouco resolutivos (Faria; Witzel; Rosa, 2023).
A justificativa deste estudo baseia-se na urgência de fortalecer a capacitação dos enfermeiros para que possam desempenhar suas funções de maneira segura e humanizada, reconhecendo os sinais de violência e oferecendo suporte clínico, psicológico e social. Além de contribuir para a redução dos agravos à saúde das mulheres, a atuação qualificada do enfermeiro pode fomentar a criação de políticas públicas mais eficazes e de protocolos institucionais que garantam acolhimento e dignidade às vítimas (Bezerra et al., 2023).
Dessa forma, o objetivo deste trabalho é analisar a atuação do enfermeiro frente à assistência e identificação de violência contra a mulher, considerando os desafios enfrentados, as estratégias adotadas e as perspectivas de melhoria no cuidado.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa, realizada a partir de revisão integrativa de artigos publicados em bases científicas nacionais e internacionais, que discutem o papel do enfermeiro na atenção às mulheres em situação de violência. A análise será conduzida à luz de referenciais teóricos da saúde coletiva, do cuidado de enfermagem e dos direitos humanos.
Por fim, este trabalho discutirá, ao longo de seus capítulos, a contextualização da violência contra a mulher, a responsabilidade legal e ética do enfermeiro, as práticas de assistência na Atenção Básica e nos serviços especializados, além dos desafios e possibilidades para uma atuação mais efetiva no enfrentamento dessa realidade.
REFERENCIAL TEÓRICO
A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER COMO PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA
A violência contra a mulher é um fenômeno social complexo e multifatorial, que se manifesta em diferentes esferas, doméstica, comunitária, institucional e estrutural e tem impactos diretos na saúde física, psicológica e social das vítimas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera esse fenômeno uma grave violação dos direitos humanos, sendo responsável por elevados índices de morbidade e mortalidade feminina em todo o mundo (Silva et al., 2023).
No Brasil, dados recentes demonstram que cerca de uma em cada cinco mulheres já sofreu violência doméstica, e milhões foram espancadas ao menos uma vez em suas vidas, muitas sem acesso a atendimento adequado ou sem realizar denúncia (SICSU et al., 2024). Essa realidade evidencia a dimensão do problema e a necessidade de políticas públicas integradas, voltadas para a prevenção, identificação e enfrentamento do fenômeno.
A literatura aponta que os impactos da violência contra a mulher vão além dos danos físicos, atingindo diretamente a saúde mental e a qualidade de vida, uma vez que a exposição contínua a agressões gera quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades de inserção social (Silva et al., 2022). Portanto, reconhecer a violência como problema de saúde pública é condição essencial para a atuação efetiva da enfermagem na proteção e no cuidado das vítimas.
A RESPONSABILIDADE LEGAL E ÉTICA DO ENFERMEIRO NA IDENTIFICAÇÃO E ASSISTÊNCIA
O papel do enfermeiro frente às situações de violência contra a mulher não se restringe à prestação de cuidados imediatos. Ele engloba também responsabilidades legais, éticas e sociais, uma vez que a profissão se fundamenta em princípios de integralidade, acolhimento e defesa da vida. No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres determinam que os profissionais de saúde, incluindo enfermeiros, devem identificar, notificar e encaminhar os casos às autoridades competentes (Silva et. al., 2023).
A notificação compulsória, prevista pelo Ministério da Saúde, é uma das ferramentas mais importantes na construção de dados epidemiológicos sobre violência, permitindo o planejamento de ações preventivas e o fortalecimento das redes de apoio. Entretanto, estudos mostram que muitos enfermeiros ainda têm dificuldades em realizar a notificação, seja por insegurança, falta de conhecimento sobre os protocolos, ou receio de envolvimento em processos legais (Alves., 2024).
Além da responsabilidade legal, a dimensão ética da profissão exige que o enfermeiro ofereça atendimento humanizado, respeitando os direitos e a autonomia da paciente. Isso inclui o sigilo profissional, o acolhimento sem julgamentos e a criação de um ambiente seguro para que a mulher sinta confiança em relatar a violência sofrida (Faria; Witzel; Rosa, 2023).
A PRÁTICA DA ENFERMAGEM NA ATENÇÃO BÁSICA E NOS SERVIÇOS ESPECIALIZADOS
A enfermagem desempenha papel central na Atenção Primária à Saúde (APS), considerada a porta de entrada preferencial para mulheres em situação de violência. Nessa esfera, o enfermeiro tem condições de estabelecer vínculo com a usuária, identificar sinais de agressão por meio da escuta qualificada, notificar os casos e realizar os devidos encaminhamentos (Silva et al., 2023). O trabalho em rede, articulado com equipes multiprofissionais e instituições de apoio, potencializa a resolutividade dos atendimentos.
Nos serviços especializados, como centros de referência e hospitais, o enfermeiro atua na assistência imediata às vítimas de violência física e sexual, garantindo medidas de proteção, coleta de evidências forenses, suporte emocional e encaminhamentos para acompanhamento psicológico e jurídico (SICSU et al., 2024).
A literatura evidencia, contudo, que ainda há lacunas na formação profissional, sendo necessária a ampliação de programas de capacitação e protocolos institucionais para padronizar condutas e assegurar a integralidade do cuidado (Bezerra et al., 2023).
Assim, tanto na atenção básica quanto nos serviços especializados, a atuação do enfermeiro é decisiva para romper o ciclo de violência, promover o empoderamento feminino e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada em uma revisão bibliográfica integrativa da literatura. Essa abordagem foi escolhida por possibilitar a análise de diferentes estudos científicos sobre a atuação do enfermeiro frente à assistência e identificação de violência contra a mulher, permitindo a construção de um panorama crítico sobre o tema.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O levantamento bibliográfico foi realizado em bases científicas nacionais e internacionais, como SciELO, LILACS, BVS e PubMed, utilizando os descritores “violência contra a mulher”, “enfermagem” e “assistência de enfermagem”. A busca resultou em 25 artigos, dos quais foram aplicados critérios de inclusão e exclusão para refinar o material analisado.
Os critérios de inclusão adotados foram: artigos completos, disponíveis gratuitamente, publicados em português, inglês ou espanhol, que abordassem diretamente a atuação do enfermeiro frente à violência contra a mulher. Foram desconsiderados, artigos publicados antes de 2022, duplicados ou que não respondiam ao objetivo da pesquisa. Após a aplicação desses critérios, foram selecionados oito artigos para compor a amostra final.
INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
A coleta dos dados foi realizada por meio de análise documental, considerando o conteúdo dos artigos selecionados, seus objetivos, resultados e conclusões.
POPULAÇÃO E AMOSTRA
A população inicial foi composta por 25 artigos encontrados nas bases consultadas. A amostra final, definida a partir de amostragem intencional, correspondeu a oito artigos que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos.
PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DOS DADOS
Os dados foram analisados por meio da técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2016), permitindo identificar categorias temáticas relacionadas ao papel do enfermeiro na identificação, acolhimento, notificação e assistência às mulheres vítimas de violência. A análise buscou sistematizar os achados, comparando-os e discutindo-os à luz dos referenciais teóricos e legais pertinentes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
A revisão da literatura permitiu selecionar oito artigos publicados a partir de 2022 que discutem a atuação do enfermeiro frente à violência contra a mulher em diferentes contextos: violência doméstica, sexual, obstétrica e de gênero. Os dados indicaram que a enfermagem tem papel central tanto na identificação precoce dos casos quanto no acolhimento humanizado e encaminhamento adequado das vítimas. No entanto, observou-se que os estudos convergem na constatação de que os profissionais ainda enfrentam dificuldades relacionadas à falta de capacitação, ausência de protocolos claros e insegurança quanto às questões legais.
ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO
Alves et al. (2024) ressaltaram que a violência doméstica compromete não apenas a saúde física da mulher, mas também sua saúde mental, destacando a necessidade de o enfermeiro adotar condutas pautadas no respeito, acolhimento e segurança. De forma semelhante, Silva et al. (2023) identificaram que, na atenção primária, a escuta ativa e o vínculo com a usuária são elementos fundamentais para aumentar a resolutividade dos casos, embora os profissionais ainda relatem barreiras para realizar notificações e encaminhamentos adequados.
No âmbito da violência sexual, SICSU et al. (2024) apontaram que a enfermagem não apenas presta os primeiros cuidados, mas também desempenha função essencial na coleta de evidências forenses e no apoio emocional às vítimas, exigindo preparo técnico e psicológico adequado. Faria, Witzel e Rosa (2023) reforçam que a capacitação contínua é imprescindível para que o enfermeiro ofereça informações sobre direitos, tratamento e evolução clínica às mulheres vítimas de violência sexual.
A violência obstétrica também se apresentou como uma dimensão relevante. Zecca e Polido (2022) destacaram que práticas intervencionistas desnecessárias, como cesarianas em excesso, ainda desumanizam o parto no Brasil, sendo a enfermagem um dos principais instrumentos de mudança nesse cenário, a partir da humanização da assistência.
Outro aspecto discutido foi a repercussão da violência de gênero na qualidade de vida das próprias profissionais de enfermagem. Silva et al. (2022) evidenciaram que estudantes de enfermagem vítimas de violência de gênero apresentaram índices reduzidos de bem-estar psicológico e ambiental, o que compromete sua atuação e reforça a necessidade de políticas institucionais de proteção.
RESULTADOS
As dificuldades relatadas pelos profissionais podem ser explicadas por fatores como falta de preparo acadêmico para lidar com casos de violência, ausência de protocolos institucionais unificados, além do estigma social que ainda envolve as vítimas (Bezerra et al., 2023). Esses elementos contribuem para a subnotificação dos casos e para a manutenção do ciclo de violência.
LIMITAÇÕES E SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS
Entre as limitações identificadas está o número restrito de artigos recentes disponíveis sobre a temática, o que sugere uma lacuna na produção científica. Além disso, a maioria dos estudos tem caráter descritivo ou de revisão, carecendo de pesquisas de campo que analisem práticas efetivas em diferentes realidades de saúde. Sugere-se que investigações futuras aprofundem a análise da eficácia dos protocolos existentes, além de avaliar programas de capacitação voltados especificamente ao enfermeiro na identificação e notificação de casos de violência contra a mulher.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar a atuação do enfermeiro frente à assistência e identificação de violência contra a mulher, considerando os desafios, as estratégias e as perspectivas de melhoria no cuidado.
Os resultados indicaram que a enfermagem possui papel central na identificação precoce, no acolhimento humanizado e na notificação compulsória dos casos de violência. Constatou-se, ainda, que os enfermeiros atuam de forma decisiva tanto na atenção primária quanto em serviços especializados, sendo responsáveis por prestar cuidados clínicos, realizar encaminhamentos adequados, coletar evidências forenses e oferecer suporte emocional às vítimas. Entretanto, verificou-se que a prática profissional ainda enfrenta obstáculos como a ausência de capacitação específica, insegurança diante dos aspectos legais e a falta de protocolos institucionais, fatores que contribuem para a subnotificação e fragilidade da rede de proteção.
A relevância deste estudo está na contribuição para o campo da saúde coletiva e da enfermagem, ao evidenciar a necessidade de fortalecimento da formação acadêmica e da educação continuada dos profissionais. Além disso, os achados apontam para a importância de inserir o tema da violência de gênero de maneira mais efetiva nas políticas públicas de saúde, de modo a ampliar a resolutividade e a integralidade do cuidado prestado às mulheres em situação de violência.
Como limitação, o estudo foi restrito a apenas oito artigos recentes, selecionados dentro de critérios específicos. Esse recorte reduzido pode não contemplar toda a complexidade do fenômeno da violência contra a mulher em diferentes contextos sociais e culturais, o que reforça a necessidade de investigações complementares.
Pesquisas futuras poderão explorar, de forma mais aprofundada, a eficácia de protocolos institucionais já existentes, além de analisar práticas inovadoras de acolhimento e capacitação profissional. Também se sugere a realização de estudos de campo que envolvam a perspectiva de enfermeiros atuantes em diferentes cenários de cuidado, a fim de subsidiar políticas mais assertivas e práticas mais humanizadas.
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