O Adoecimento mental de professores no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura e proposta metodológica para investigação de fatores de risco.

MENTAL ILLNESS IN TEACHERS IN BRAZIL: A SYSTEMATIC LITERATURE REVIEW AND METHODOLOGICAL PROPOSAL FOR INVESTIGATING RISK FACTORS

EL ADOECIMIENTO MENTAL DE LOS PROFESORES EN BRASIL: UNA REVISIÓN SISTEMÁTICA DE LA LITERATURA Y PROPUESTA METODOLÓGICA PARA LA INVESTIGACIÓN DE FACTORES DE RIESGO

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/8C0D95

DOI

doi.org/10.63391/8C0D95

Sousa, Fernanda Ribeiro de. O Adoecimento mental de professores no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura e proposta metodológica para investigação de fatores de risco.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A presente pesquisa analisou a saúde mental dos professores da rede pública municipal de Barra do Garças-MT, com foco no papel da gestão escolar e da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). O estudo, baseado em um questionário aplicado a 62 docentes, revelou que, apesar de um ambiente de trabalho acolhedor, a sobrecarga de trabalho, a falta de apoio e os distúrbios psicológicos são desafios significativos enfrentados pela categoria. A pesquisa identificou que o estresse e a ansiedade, seguidos por depressão e síndrome do pânico, são as principais manifestações de adoecimento. Os resultados reforçam que a saúde mental docente é um problema sistêmico, demandando ações coletivas e o envolvimento de gestores e políticas públicas para garantir o bem-estar dos profissionais e, consequentemente, a qualidade do ensino.
Palavras-chave
docência; saúde mental; qualidade de vida no trabalho

Summary

This research analyzed the mental health of public school teachers in Barra do Garças-MT, focusing on the role of school management and Quality of Work Life (QWL). The study, based on a questionnaire applied to 62 teachers, revealed that despite a welcoming work environment, workload, lack of support, and psychological disorders are significant challenges faced by this professional category. The research identified that stress and anxiety, followed by depression and panic disorder, are the main manifestations of illness. The results reinforce that teacher mental health is a systemic problem, demanding collective actions and the involvement of managers and public policies to ensure the well-being of professionals and, consequently, the quality of education.
Keywords
teaching; mental health; quality of work life.

Resumen

Esta investigación analizó la salud mental de los profesores de la red pública municipal de Barra do Garças-MT, centrándose en el papel de la gestión escolar y la Calidad de Vida en el Trabajo (CVT). El estudio, basado en un cuestionario aplicado a 62 docentes, reveló que, a pesar de un ambiente de trabajo acogedor, la sobrecarga de trabajo, la falta de apoyo y los trastornos psicológicos son desafíos significativos que enfrenta la categoría. La investigación identificó que el estrés y la ansiedad, seguidos de la depresión y el trastorno de pánico, son las principales manifestaciones de enfermedad. Los resultados refuerzan que la salud mental docente es un problema sistémico, que exige acciones colectivas y la implicación de gestores y políticas públicas para garantizar el bienestar de los profesionales y, en consecuencia, la calidad de la educación.
Palavras-clave
docencia; salud mental; calidad de vida en el trabajo.

INTRODUÇÃO

A profissão docente tem sido reconhecida globalmente como uma das ocupações mais estressantes e a segunda categoria profissional com maior incidência de doenças de caráter ocupacional. No Brasil, assim como em outros países, a saúde mental dos professores tem se tornado uma preocupação crescente para profissionais da saúde, gestores institucionais e entidades sindicais e governamentais. A natureza emocionalmente exigente do trabalho, somada às transformações sociais e às reformas educacionais, têm ampliado as responsabilidades e expectativas sobre esses profissionais.

Historicamente, o papel do professor expandiu-se para além da mera mediação do conhecimento em sala de aula, incorporando a participação na gestão e planejamento escolares e a articulação com as famílias e a comunidade. Essa ampliação de missão, muitas vezes desacompanhada dos meios pedagógicos e do reconhecimento financeiro e social necessários, gera uma sobrecarga de trabalho e uma sensação de desvalorização. Tais condições contribuem significativamente para o surgimento de queixas e agravos à saúde mental na categoria.

Dados epidemiológicos nacionais e internacionais revelam uma alta prevalência de transtornos mentais entre os docentes, com impactos diretos na qualidade de vida dos indivíduos e na eficácia do processo educacional. O adoecimento de professores não apenas afeta sua produtividade e bem-estar, mas também compromete o aprendizado dos alunos, resultando em redução da criatividade e entusiasmo, perda de atenção e concentração, e reações exageradas em sala de aula. Além disso, os transtornos mentais são uma das principais causas de afastamento do trabalho e aposentadorias precoces na categoria, gerando elevados custos sociais e econômicos.

Diante deste cenário, este estudo busca caracterizar o perfil epidemiológico dos agravos à saúde mental em professores, identificando os principais fatores de risco psicossociais e ocupacionais associados a esta atividade laboral. Para tanto, será apresentada uma revisão sistemática da literatura existente e, posteriormente, uma proposta metodológica para a coleta de dados, com a contextualização de perguntas de um questionário.

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL

Caracterizar o perfil epidemiológico de agravos à saúde mental em professores, em âmbito nacional e internacional, apontando os fatores de risco psicossociais e ocupacionais associados à atividade docente.

OBJETIVOS ESPECÍFICO

Identificar a prevalência dos transtornos mentais comuns (TMC) e da Síndrome de Burnout entre professores de diferentes níveis de ensino.

Analisar a influência de variáveis sociodemográficas (gênero, estado civil, escolaridade, histórico familiar) e ocupacionais (sobrecarga de trabalho, violência, condições escolares) no adoecimento mental dos docentes.

Propor um conjunto de questões para um questionário de pesquisa, relacionando a relevância de cada pergunta ao contexto dos fatores de risco e agravos à saúde mental de professores, conforme a literatura revisada.

METODOLOGIA 

A elaboração deste artigo baseou-se em uma metodologia de pesquisa descritiva, combinando a análise de dados primários e secundários para investigar o perfil de adoecimento mental de professores da rede municipal e os fatores associados a essa condição. O processo foi estruturado nas seguintes etapas:

Foi realizada uma revisão da literatura nacional e internacional para contextualizar o problema de pesquisa e identificar os principais conceitos e fatores de risco relacionados ao adoecimento mental na docência. Essa etapa permitiu fundamentar teoricamente a pesquisa, com a utilização de citações indiretas de autores e estudos relevantes sobre temas como a Síndrome de Burnout, estresse, sobrecarga de trabalho e o impacto das políticas educacionais na saúde dos professores.

O estudo utilizou como principal instrumento de coleta de dados um questionário de autoaplicação, elaborado para ser respondido de forma anônima e confidencial. As perguntas foram divididas em seções para abordar o perfil demográfico e profissional dos participantes (gênero, tempo de atuação, carga horária), o histórico de saúde pessoal e familiar, a prevalência de transtornos mentais, a busca por tratamento e, por fim, a percepção dos professores sobre os fatores que causam adoecimento em seu ambiente de trabalho.

A população de estudo foi composta por 62 professores que atuam no Ensino Fundamental da rede municipal de Barra do Garças-MT. Os dados foram coletados por meio da tabulação das respostas fornecidas no questionário.

A análise dos dados foi de natureza quantitativa e qualitativa. Para as perguntas de múltipla escolha (como gênero, turnos de trabalho, transtornos e profissionais de saúde), foram tabuladas as frequências e os percentuais de cada resposta, permitindo uma análise descritiva do perfil dos professores. Para as perguntas abertas (sobre as causas de adoecimento e o impacto das políticas governamentais), as respostas foram agrupadas por temas recorrentes, possibilitando a identificação dos principais fatores de mal-estar percebidos pelos docentes. Os resultados obtidos foram então correlacionados com os achados da revisão bibliográfica para aprofundar a discussão.

REFERENCIAL TEÓRICO

A DOCÊNCIA COMO PROFISSÃO DE RISCO E SUAS TRANSFORMAÇÕES

A docência, por suas características intrínsecas e pelas demandas crescentes impostas por reformas educacionais e transformações sociais, apresenta-se como um campo fértil para o estudo do adoecimento mental ocupacional. Esta seção abordará os principais agravos, fatores de risco e o perfil de vulnerabilidade identificados na literatura.

O ato de ensinar é inerentemente exigente do ponto de vista emocional, e a docência é, globalmente, a segunda categoria profissional com maior manifestação de doenças ocupacionais (Oliveira & Vasques-Menezes, 2018). As transformações na natureza das demandas de trabalho na última década, incluindo a precarização das condições de trabalho e a expectativa social de excelência no desempenho, são fatores que podem originar agravos à saúde mental dos professores (Magalhães et al., 2021). O trabalho docente, que antes se restringia ao espaço físico das escolas, hoje, por meio da tecnologia, ultrapassa barreiras, adicionando complexidade e sobrecarga (Tardif & Lessard, 2008). 

A reestruturação produtiva neoliberal e o capitalismo organizacional contribuem para a invisibilidade e a sensação de não reconhecimento social dos professores. Essa falta de reconhecimento se soma à carga horária frequentemente não estabelecida, o que pode resultar em um grande desarranjo psicológico (Dal Rosso, 2006). A falta de recursos financeiros nas escolas e os salários, muitas vezes indignos, acentuam essa precariedade.

PRINCIPAIS AGRAVOS À SAÚDE MENTAL EM DOCENTES

Dentre os principais agravos à saúde mental investigados em professores, o estresse e a Síndrome de Burnout se destacam. O estresse é caracterizado por um estado de tensão permanente que pode evoluir para a Síndrome de Burnout quando crônico (Contatore; Malfitano; Barros, 2019).

A Síndrome de Burnout é um transtorno mental comum entre docentes, tanto no Brasil quanto em outros países, independentemente do nível de ensino. É caracterizada por atitudes e sentimentos negativos, despersonalização, falta de realização profissional e exaustão emocional, todos secundários ao estresse prolongado e à exposição a situações de frustração laboral (Carlotto et al., 2012). Apesar das altas taxas de aposentadorias prematuras de professores por motivos de saúde mental, a Síndrome de Burnout nem sempre aparece como diagnóstico nos prontuários investigados, o que é incongruente com os dados que a apontam como uma das condições que mais afetam a categoria (Magalhães et al., 2021).

Além de Burnout e estresse, os Transtornos Mentais Comuns (TMC), que incluem sintomas de depressão, ansiedade e transtornos somatoformes, são frequentemente encontrados em docentes. Estudos brasileiros revelam elevadas prevalências de TMC em professores, variando de 17,8% a 55,9% em diferentes níveis de ensino. Outras manifestações incluem a síndrome da fadiga crônica, o envelhecimento prematuro e aumento do adoecimento por doenças crônico-degenerativas (Magalhães et al., 2021).

PREVALÊNCIA E DIFERENÇAS POR NÍVEL DE ENSINO

Embora a prevalência de agravos à saúde mental seja semelhante em todas as classes de professores, as exigências dos contextos de ensino diferem.

Professores do Ensino Básico: Um estudo na Finlândia identificou 4,3% de professores com transtorno mental, predominando transtornos afetivos (depressão) e relacionados ao estresse. Na África do Sul, transtorno depressivo maior, transtorno de pânico e agorafobia foram os diagnósticos predominantes entre professores afastados, com quase metade apresentando sintomas fóbicos em sala de aula. No Brasil, pesquisas em Palmas, Tocantins, mostraram prevalência média de 1% de afastamentos por transtornos mentais entre 2008 e 2011, enquanto em Porto Alegre, uma pesquisa baseada em instrumentos de rastreio de sintomas indicou prevalência pontual de 34,8% de sintomas em 2013 (Magalhães et al., 2021). No ensino básico brasileiro, a intensificação do trabalho docente devido à expansão de demandas burocráticas e à exploração do senso de profissionalismo intensificou o adoecimento (Magalhães, et al., 2020).

PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS:

Enfrentam desafios distintos, como requisitos de qualificação, cobrança por produtividade e prazos curtos (Magalhães, 2021, resultando em elevados níveis de sofrimento psíquico. Em João Pessoa, Paraíba, uma análise de prontuários mostrou depressão como responsável por 53% dos afastamentos entre professores universitários (Magalhães et al., 2021). Na Espanha, um estudo com professores universitários identificou problemas de saúde mental em 40,8% dos participantes (Moreno; Oliver & Aragoneses, 1991).

FATORES DE RISCO INDIVIDUAIS E SOCIODEMOGRÁFICOS

A saúde mental dos professores é influenciada por diversas variáveis individuais e ocupacionais. Professoras apresentam maiores índices de agravos à saúde mental em comparação com professores do sexo masculino, em pesquisas nacionais e internacionais (Magalhães et al., 2021). Foi identificada uma correlação positiva entre escolaridade e agravos à saúde mental, sendo a prevalência de TMC mais elevada em grupos com maior escolaridade (Carlotto et al., 2012). Estudos divergem, mas a faixa etária de 40 a 49 anos frequentemente apresenta maiores indicadores de agravos (Carlotto et al., 2012). Estado Civil: Professores que não possuem companheiros têm mais chances de desenvolver agravos à saúde mental, um achado corroborado por estudos nacionais e internacionais (Magalhães et al., 2021). A existência de familiares com histórico de transtornos mentais é um fator de risco significativo (Magalhães et al., 2021). No Brasil, professores com filhos foram identificados como mais propensos a agravos à saúde mental (Magalhães et al., 2021).

FATORES DE RISCO OCUPACIONAIS/PSICOSSOCIAIS

Diversos fatores no ambiente de trabalho e nas interações profissionais contribuem para o adoecimento mental dos professores, entre eles podemos citar a sobrecarga de trabalho como fator de risco psicossocial mais consistentemente apontado, tanto nacional quanto internacionalmente. Professores com cargas de trabalho elevadas têm maior probabilidade de desenvolver transtornos mentais, o que leva a queixas de desequilíbrio, ansiedade e estresse (Magalhães et al., 2020).

Outro fator preponderante é ambiguidade do papel: A falta de clareza sobre as atividades a serem realizadas e a postura adequada em situações específicas aumenta a probabilidade de desenvolver TMC (Carlotto et al., 2012). O baixo apoio social, autonomia e autoeficácia percebida, aumentam as chances de um professor ser diagnosticado com TMC e o desejo de mudar de carreira (Magalhães et al., 2021). O autor ainda complementa que a exposição à violência: física e verbal no local de trabalho agrava o sofrimento mental, aumentando as chances de afastamento. Relacionada a essa violência estão as questões comportamentais e disciplinares que são fontes de estresse e esgotamento profissional, dificultando o alcance dos objetivos em sala de aula (Carlotto et al., 2012).

A cultura escolar deficiente e más condições de trabalho em que se incluem infraestrutura física inadequada e número excessivo de alunos em sala, são vistos pelos autores como preditores de transtornos mentais (Alves et al., 2017; Vasconcelos et al., 2020). Esse fator pode ser somado com a falta de Reconhecimento social e baixa remuneração em que contribuem para a desmotivação, a síndrome de Burnout e precárias condições de vida (Magalhães, 2020). O mesmo autor complementa que muitos professores trabalham em mais de uma escola ou turno para complementar a renda, o que acarreta desgaste físico e psíquico (Magalhães, 2014). Para dar peso as reformas educacionais e os sistemas de avaliação, embora visando à melhoria da educação, geram descontentamento e impactam a saúde mental (Magalhães, 2020).

CONSEQUÊNCIAS DO ADOECIMENTO DOCENTE

Os elevados níveis de estresse e agravos à saúde mental em professores levam a altos índices de absenteísmo e aposentadorias antecipadas (Magalhães et al., 2021). O esgotamento emocional, combinado com sintomas de estresse elevado, culmina em despersonalização e baixa realização pessoal (Carlotto et al., 2012), tornando a atividade docente exaustiva e adoecedora. Além disso, o adoecimento impacta o aprendizado dos alunos, pois reduz a criatividade e o entusiasmo do professor (Vieira, Gonçalves & Martins, 2016). Em suma, a literatura aponta para um perfil de risco na categoria docente, que justifica a necessidade urgente de intervenções e políticas de saúde mental mais eficazes.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Para atingir os objetivos propostos, especialmente a caracterização do perfil epidemiológico dos agravos à saúde mental em professores, aplicou-se um questionário. Este instrumento, conforme o modelo referenciado, permite a coleta de dados sobre características sociodemográficas, histórico de saúde e percepções sobre o ambiente e as condições de trabalho. A seguir, contextualiza-se a relevância de questões específicas do questionário à luz da revisão bibliográfica: O questionário foi um instrumento de autoaplicação, elaborado para coletar informações de forma anônima e confidencial, visando obter dados fidedignos sobre a realidade dos professores.

GÊNERO

Esta pergunta é crucial, pois a literatura internacional e nacional consistentemente aponta que professoras do sexo feminino apresentam maiores índices de agravos à saúde mental em comparação com professores do sexo masculino. As razões para essa diferença são multifatoriais, incluindo percepções distintas de saúde mental, conflitos trabalho-família, menor força física, autoexigência, pressões de carreira e diferentes limiares para relatar problemas de saúde. Coletar o gênero permite analisar se essa tendência se mantém na população estudada e explorar as particularidades do adoecimento para cada grupo. Na presente pesquisa, identificou-se que dos 62 professores que responderam, 54 (87.1%) são mulheres e 8 (12.9%) são homens.

QUANTO TEMPO ATUA NA EDUCAÇÃO?

O tempo de atuação profissional é uma variável importante para entender a relação entre experiência e adoecimento mental. Embora os estudos apresentem resultados divergentes sobre a correlação entre tempo de trabalho e agravos à saúde mental, com alguns mostrando professores com menos anos de experiência mais propensos a Burnout e Agorafobia e outros indicando problemas em faixas de experiência intermediária ou mais longa, esta questão ajuda a identificar padrões e grupos de risco em diferentes fases da carreira docente. Ela permite investigar se o desgaste é mais acentuado em início de carreira devido à inexperiência e sobrecarga, ou em fases mais avançadas devido ao acúmulo de estressores. A distribuição dos resultados da pesquisa indica que: 29% atuam na educação de 1 a 5 anos, 24% de 6 a 10 anos, 13% de 11 a 15 anos, 13% de 16 a 20 anos, 10% de 21 a 25 anos, 8% de 26 a 30 anos e 3% de mais de 30 anos.

TRABALHA EM QUANTOS TURNOS?

Esta pergunta aborda diretamente a carga horária de trabalho e a intensificação da jornada. A literatura indica que muitos professores, especialmente no Brasil, trabalham em mais de um turno ou em mais de uma escola para complementar a renda, o que estende a jornada de trabalho formalmente e contribui significativamente para o desgaste físico e psíquico, culminando em desarranjo psicológico. Identificar o número de turnos permite avaliar o grau de sobrecarga e sua relação com o adoecimento. Na pesquisa, obteve-se que 61% trabalham em 1 turno, 34% trabalham em 2 turnos e 5% trabalham em 3 turnos.

TRABALHA EM QUANTAS ESCOLAS? SE TRABALHA EM MAIS DE UMA QUAL SUA CARGA HORÁRIA SEMANAL?

Juntas, estas três questões investigam a intensidade e a natureza da carga de trabalho, que é consistentemente citada como o principal fator de risco psicossocial para o adoecimento mental de professores. Trabalhar em múltiplas escolas e ter uma carga horária elevada ampliam o volume de trabalho e as exigências, muitas vezes em curto período e sem recursos compatíveis. O tipo de escola (pública, privada, federal) também é relevante, pois os contextos se diferenciam em termos de salários, formação continuada, violência e apoio, embora ambos possuam fatores psicossociais que levam ao adoecimento mental. Coletar esses dados permite analisar como a combinação desses fatores impacta a saúde mental dos docente. Nesta questão 78% trabalham em 1 escola, 19% trabalham em 2 escolas e apenas 3% trabalham em 3 escolas. Os que trabalham em duas escolas são municipais e em três escolas trabalham também em escolas estaduais.

VOCÊ TEM ALGUM DESSES TRANSTORNOS?

Esta é uma questão central para identificar a prevalência de transtornos mentais específicos ou sintomas comuns entre os professores. A literatura já aponta alta prevalência de depressão, ansiedade, transtornos do sono e Burnout, além de uso de substâncias psicoativas em professores. Ao listar transtornos comuns, facilita-se o reconhecimento por parte dos respondentes, permitindo mapear o perfil de morbidade psíquica na amostra e comparar com os dados da literatura. A incidência de transtornos entre os professores da rede municipal de Barra do Garças-MT são os seguintes: Transtorno de Ansiedade Social: 13%, Transtorno Depressivo ou Depressão: 11%, Transtorno de Ansiedade Generalizada: 11%, Transtorno por Uso de Substâncias: 3%, Transtorno Afetivo Bipolar: 5%, Transtorno do Sono: 23%, Outros: 34%. Em resumo, o transtorno do sono e “outros” transtornos foram os mais frequentemente mencionados pelos professores que responderam ao questionário.

FAZ TRATAMENTO COM QUAL PROFISSIONAL DA SAÚDE? E ESTE PROFISSIONAL DA SAÚDE É DE QUE REDE DE ATENDIMENTO?

Estas perguntas visam compreender o acesso e a busca por tratamento de saúde mental por parte dos professores. A identificação dos profissionais procurados e da rede de atendimento utilizada (pública ou privada) é fundamental para avaliar as estratégias de cuidado e as lacunas no sistema de suporte à saúde mental. Revela-se se os professores estão buscando ajuda especializada e em que tipo de serviço, o que pode subsidiar a elaboração de intervenções mais eficazes e direcionadas. A ausência de diagnósticos formais em prontuários, como o de Burnout, apesar da alta prevalência, ressalta a importância de entender como e onde os professores buscam auxílio.

Percebeu-se nos resultados da pesquisa que os docentes que procuram Psicólogo são de 23%, Psiquiatra: 15%, Clínico Geral: 11%, Cardiologista: 11%, Neurologista: 8% e Outros profissionais 32%.

PENSANDO NO SEU TRABALHO ENQUANTO DOCENTE QUE ATUA NO ENSINO FUNDAMENTAL, O QUE CONSIDERA COMO FATOR/FATORES QUE TE CAUSA/M ADOECIMENTO OU MAL-ESTAR?

Esta é uma pergunta aberta, de natureza qualitativa, que permite capturar as percepções diretas e subjetivas dos professores sobre os fatores que lhes causam adoecimento e mal-estar. Complementa os dados quantitativos, fornecendo insights ricos sobre os estressores ocupacionais mais relevantes para eles. A literatura já identificou uma vasta gama de fatores, como sobrecarga de trabalho, ambiguidade de papel, insatisfação, baixo apoio social, violência, problemas com alunos, má cultura escolar e condições físicas deficientes. As respostas dos professores aqui podem corroborar ou trazer à tona novos aspectos desses fatores.

Os fatores mais mencionados foram: 

Falta de comprometimento: A falta de envolvimento e acompanhamento por parte dos pais e a falta de compromisso com as tarefas para casa por parte dos alunos foram citadas como fatores de adoecimento.

Sobrecarga e burocracia: A sobrecarga de trabalho, o excesso de burocracia, o retrabalho e o preenchimento de planilhas sobre o mesmo tema foram mencionados como causas de mal-estar.

Condições de trabalho e infraestrutura: Salas superlotadas e a infraestrutura ineficiente, com falta de equipamentos ou equipamentos danificados, foram fatores destacados.

Fatores do ambiente escolar: A indisciplina dos alunos e o barulho em sala de aula foram citados como causas de adoecimento.

Cobrança e falta de apoio: Os professores se sentem adoecidos pela muita cobrança com poucas condições de trabalho e pela falta de apoio para lidar com alunos de inclusão.

Atribuições excessivas: Atribuições que vão além do trabalho em sala de aula, como festas e eventos na escola, também são vistas como fatores que geram mal-estar.

AS MUDANÇAS DO ENSINO E COBRANÇAS POR PARTE DO GOVERNO LHE TROUXERAM ALGUM TIPO DE DESCONTENTAMENTO QUE PUDESSE PROVOCAR ALGUM DISTÚRBIO PSICOLÓGICO? 

Esta questão aborda o impacto das reformas educacionais, novas políticas e sistemas de avaliação que têm sido implementados nas últimas décadas. Essas mudanças, embora visem à melhoria da educação, frequentemente geram insatisfação, sobrecarga e aumento do controle sobre os docentes, afetando sua saúde mental. A resposta a esta pergunta permitirá identificar como as políticas públicas e as cobranças governamentais são percebidas pelos professores como fontes de estresse e distúrbios psicológicos, reforçando a necessidade de que os achados da pesquisa sirvam como referência para que o governo e as organizações envolvidas com a educação apresentem políticas e estratégias para ajudar os professores a lidar com seus problemas de saúde.

Segundo os resultados descritos pelos docentes da rede municipal de Barra do Garças -MT, os professores relatam “muita cobrança, muita pressão psicológica” por parte do governo, o que gera descontentamento por cobrar muito e não dar condições de trabalho”.  A resposta “sim estamos nos sentindo exaustas demonstra a percepção de esgotamento e a busca contínua por um melhor desempenho, mesmo sob pressão. Há um sentimento de “impotência do professor diante da tal demanda”, especialmente no que diz respeito à inclusão de alunos com deficiência e transtornos. Os docentes sentem a “falta de ações e formações eficazes” para aplicar as mudanças exigidas. Um professor mencionou ter “ficado esquecido das coisas por excesso de informação”, o que aponta para um impacto direto na capacidade cognitiva devido à sobrecarga mental. A dificuldade com “prazos mínimos para mudanças grandes” em relação a crianças atípicas (inclusão) é um ponto de descontentamento recorrente.

Sendo assim, o uso deste questionário, alinhado aos achados da revisão de literatura, permitiu uma compreensão aprofundada do perfil de adoecimento mental dos professores e dos fatores a ele associados, tanto em nível individual quanto organizacional e sistêmico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo buscou lançar luz sobre o complexo cenário da saúde mental dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT, confirmando a alta prevalência de sintomas de adoecimento mental, como estresse, ansiedade e depressão, e os associando a fatores laborais específicos. Os resultados da pesquisa reforçam a premissa de que a saúde do professor não pode ser tratada como uma responsabilidade individual, mas sim como uma questão coletiva, intrinsecamente ligada às condições de trabalho, à sobrecarga de tarefas e à falta de apoio adequado.

A análise demonstrou que a sobrecarga de trabalho, as altas exigências burocráticas e a falta de recursos e apoio para lidar com as diversas demandas em sala de aula, especialmente a inclusão, são os principais geradores de sofrimento psíquico. Nesse contexto, a gestão escolar emerge não apenas como um pilar administrativo, mas como um elemento crucial para a promoção de um ambiente de trabalho mais saudável. Uma gestão democrática, empática e atenta às necessidades dos professores tem o potencial de mitigar o impacto desses fatores estressores, promovendo um clima de colaboração e reconhecimento.

As descobertas deste estudo apontam para a necessidade urgente de intervenções. Recomenda-se que as secretarias de educação e as gestões escolares: 

Reduzam a sobrecarga de trabalho, revisando as atribuições e o excesso de tarefas burocráticas que desviam o foco do trabalho pedagógico central.

Ofereçam suporte especializado aos professores que lidam com alunos com necessidades especiais, através de formações continuadas e apoio profissional.

Implementem programas de saúde e bem-estar que ofereçam suporte psicológico e espaços para o diálogo.

Promovam uma cultura de valorização, onde o trabalho docente seja reconhecido não apenas financeiramente, mas também social e profissionalmente.

Este trabalho representa um passo importante para a compreensão do problema em um contexto específico, mas abre portas para futuras pesquisas. Estudos longitudinais, que acompanhem a evolução da saúde mental dos professores ao longo do tempo, e pesquisas que incluam a percepção de outros atores, como gestores, pais e alunos, poderiam enriquecer ainda mais o debate. Em última análise, investir na saúde mental dos professores é investir na base da educação e no futuro das próximas gerações.

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Sousa, Fernanda Ribeiro de. O Adoecimento mental de professores no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura e proposta metodológica para investigação de fatores de risco..International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Edição

v. 5
n. 51
O Adoecimento mental de professores no Brasil: Uma revisão sistemática da literatura e proposta metodológica para investigação de fatores de risco.

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

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