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Resumo
INTRODUÇÃO
A pandemia de COVID-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, continua a desafiar os sistemas de saúde globais devido à emergência de novas variantes com maior transmissibilidade ou capacidade de evasão imunológica (Rambaut et al., 2020).
No Brasil, a vigilância genômica desempenha um papel crucial na identificação e monitoramento dessas variantes, especialmente em regiões como o Piauí, onde o Laboratório de Vigilância Genômica e Biologia Molecular (LVGBM-Fiocruz-PI) conduz análises em parceria com o Laboratório Central de Saúde Pública Dr. Costa Alvarenga (Lacen-PI) (Fiocruz, 2025).
Este estudo de caso tem como objetivo analisar a circulação das variantes XFG (linhagem XFG.3.4.1) e BA.2.86 (predominantemente sub-linhagem LP.8.1.4) no Piauí, com base em 43 genomas sequenciados entre janeiro e agosto de 2025. A variante XFG, identificada como uma subvariante da Omicron, e a BA.2.86, conhecida como Pirola, apresentam características que reforçam a importância da vigilância contínua (OMS, 2025). Este trabalho descreve as características genômicas, origem, perfil epidemiológico e distribuição geográfica dessas variantes no estado, contribuindo para a formulação de estratégias de saúde pública.
METODOLOGIA
COLETA DE DADOS
Os dados foram obtidos a partir de 43 genomas sequenciados pelo LVGBM-Fiocruz-PI, em parceria com o LACEN-PI, entre janeiro e agosto de 2025. As amostras foram coletadas de pacientes com diagnóstico confirmado de COVID-19, provenientes de sete municípios (cinco no Piauí e dois no Maranhão). Os dados incluem variante, linhagem, cobertura genômica, idade, sexo, município de residência, unidade federativa (UF) e data de coleta.
SEQUENCIAMENTO E ANÁLISE GENÔMICA
O sequenciamento genômico foi realizado utilizando o pipeline Viral Flow (versão 1.3.1), desenvolvido pela Rede Genômica Fiocruz (Konings et al., 2021). A classificação das linhagens foi feita com o software PangoLineages (versão 4.3.1), seguindo a nomenclatura dinâmica para SARS-CoV-2 (Rambaut et al., 2020). A cobertura genômica das amostras variou entre 76,0% e 100,0%, garantindo alta confiabilidade na identificação das variantes.
ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA
Os dados foram analisados para determinar a distribuição geográfica, faixa etária, sexo e período de coleta. Foram elaboradas tabelas para sintetizar a distribuição dos casos por município e sub-linhagem, com ênfase nas variantes XFG e BA.2.86. A análise foi conduzida utilizando ferramentas estatísticas básicas, com foco na descrição quantitativa dos casos.
RESULTADOS
VARIANTE XFG
O estudo identificou 21 casos da linhagem XFG.3.4.1 do SARS-CoV-2, distribuídos em sete municípios da região, com a maior concentração em Teresina, onde foram registrados 12 casos. Esses dados foram obtidos a partir do relatório da Fiocruz-PI e do LACEN-PI, que utilizam sequenciamento genômico para monitorar a circulação do vírus. A cobertura genômica, que indica a qualidade da leitura do genoma viral nas amostras, variou entre 76,0% e 99,7%, sendo na maioria dos casos acima de 90%, o que garante uma análise confiável. As idades dos afetados variaram de 3 a 96 anos, abrangendo crianças, adultos e idosos, com 16 casos em mulheres e 5 em homens. A Tabela 1, presente no relatório da Rede Genômica Fiocruz, detalha a distribuição geográfica desses casos, destacando a predominância em Teresina e a presença em outros municípios como Altos, Parnaíba, Campo Maior, São João do Piauí, Morro Cabeça no Tempo, Caxias e Timon. A Tabela 1 apresenta a distribuição geográfica dos casos.
Tabela 1 – Distribuição de casos da variante XFG (linhagem XFG.3.4.1) por município.
| Município | UF | Número de Casos |
| Teresina | PI | 12 |
| Altos | PI | 2 |
| Parnaíba | PI | 2 |
| Morro Cabeça do Tempo | PI | 1 |
| Campo Maior | PI | 1 |
| São João do Piauí | PI | 1 |
| Caxias | MA | 1 |
| Timon | MA | 1 |
Fonte: LVGBM-Fiocruz-PI, 2025.
Os casos foram registrados entre 15 de julho e 6 de agosto de 2025, com maior concentração no final de julho. A alta transmissibilidade da variante XFG foi confirmada pela rápida disseminação em múltiplos municípios em um curto período.
VARIANTE BA.2.86
A variante BA.2.86 foi detectada em 22 casos, todos em Teresina, com idades variando de 10 meses a 97 anos, afetando 15 mulheres e 7 homens. A cobertura genômica variou de 90,1% a 100,0%. A sub-linhagem predominante foi a LP.8.1.4, com 16 casos, seguida por PD.2 (3 casos), PD.1.2 (1 caso), LP.8.1.1 (1 caso) e LF.7.5 (1 caso). A Tabela 2 detalha a distribuição por sub-linhagem.
Tabela 2 – Distribuição das sub-linhagens da variante BA.2.86 em Teresina, PI.
| Sub-linhagem | Número de Casos |
| LP.8.1.4 | 16 |
| PD.2 | 3 |
| PD.1.2 | 1 |
| LP.8.1.1 | 1 |
| LF.7.5 | 1 |
Fonte: LVGBM-Fiocruz-PI, 2025.
Os casos ocorreram entre 20 de janeiro e 21 de julho de 2025, com maior frequência em janeiro e fevereiro, indicando uma circulação significativa no início do ano.
DISCUSSÃO
A variante XFG, identificada como uma subvariante da Omicron é classificada como variante sob monitoramento (VUM) pela Organização Mundial da Saúde em junho de 2025, apresenta mutações específicas na proteína spike que conferem maior capacidade de evasão imunológica. Essa variante surge de uma recombinação entre as subvariantes LF.7 e LP.8.1.2, incorporando mutações chave como His445Arg, Asn487Asp, Gln493Glu, S31P, K182R, R190S, A475V, N487D e Q493E, que facilitam a adesão ao receptor ACE2 e a resistência a anticorpos neutralizantes gerados por vacinas ou infecções anteriores. Comparada à variante dominante NB.1.8.1 (Nimbus), a XFG exibe sobreposições em algumas mutações, mas diferenças distintas que podem conferir vantagens evolutivas, potencializando sua dominância em cenários de imunidade populacional heterogênea (OMS, 2025; Konings et al., 2021).
Sua detecção em sete municípios, incluindo dois no Maranhão (Caxias e Timon), sugere uma disseminação regional facilitada pela alta transmissibilidade, possivelmente exacerbada por fluxos migratórios e proximidade geográfica entre os estados. A concentração de casos em Teresina reflete não apenas a maior densidade populacional e mobilidade urbana, mas também o papel da capital como hub de transporte e comércio, fatores que favorecem a propagação do vírus (Fiocruz, 2025).
Essa distribuição geográfica limitada, com apenas 21 casos identificados, pode indicar uma fase inicial de introdução da variante no Nordeste brasileiro, destacando a necessidade de intensificar a vigilância em áreas fronteiriças para prevenir uma expansão mais ampla. Além disso, a faixa etária ampla dos casos (de 3 a 96 anos) sugere que a XFG não apresenta seletividade por idade, afetando tanto crianças quanto idosos, o que reforça a importância de campanhas de vacinação bivalente adaptadas a novas variantes.
Por outro lado, a variante BA.2.86, conhecida como Pirola e identificada inicialmente em 2023, destaca-se por sua divergência genética, com mais de 30 mutações na proteína spike em relação à linhagem ancestral BA.2 (Konings et al., 2021).
Em 2025, suas sub-linhagens, como a LP.8.1.4, continuam a evoluir, com atualizações indicando dominância temporária em certas regiões antes da ascensão de variantes como XFG e NB.1.8.1. Sua exclusividade em Teresina pode estar associada a fatores como maior acesso a serviços de saúde e testagem na capital, o que pode resultar em uma detecção mais eficiente em comparação com áreas rurais. A predominância da sub-linhagem LP.8.1.4 (16 casos) indica uma adaptação local da variante, possivelmente influenciada por condições imunológicas da população, como níveis de vacinação ou exposição prévia a outras linhagens Omicron. Essa sub-linhagem, parte da família BA.2.86, mantém mutações que conferem resistência a anticorpos, mas estudos recentes sugerem que vacinas atualizadas ainda oferecem proteção contra formas graves da doença (OMS, 2025; Fiocruz, 2025).
Comparando as duas variantes, a XFG demonstra uma maior capacidade de disseminação geográfica em curto prazo, enquanto a BA.2.86 exibe uma persistência urbana, possivelmente devido a diferenças em sua estabilidade ambiental ou afinidade por receptores celulares. A vigilância genômica realizada pelo LVGBM-Fiocruz-PI em parceria com o LACEN-PI, utilizando ferramentas como o pipeline Viral Flow e o software PangoLineages, foi essencial para a identificação precisa das linhagens. A alta cobertura genômica (média de 97,8% para XFG e 98,6% para BA.2.86) reforça a confiabilidade dos dados, minimizando erros de sequenciamento e permitindo análises filogenéticas robustas. No entanto, limitações do estudo incluem o número reduzido de amostras (43 genomas), que pode não capturar a diversidade total da circulação viral no Piauí, e a ausência de dados sobre vacinação ou comorbidades dos pacientes, o que poderia enriquecer a análise de fatores de risco (Rambaut et al., 2020).
Esses resultados destacam a importância de manter programas de monitoramento contínuo para antecipar surtos e orientar políticas públicas, como a alocação de recursos para testagem em áreas periféricas e a atualização de vacinas para cobrir mutações emergentes. Em um contexto global onde variantes como XFG representam 22,7% dos casos em maio de 2025, o Piauí serve como modelo para regiões de baixa densidade populacional, enfatizando a integração entre laboratórios regionais e redes nacionais como a Rede Genômica Fiocruz (Fiocruz, 2025).
Futuras pesquisas poderiam explorar a correlação entre essas variantes e taxas de hospitalização, bem como o impacto de intervenções não farmacológicas na contenção da disseminação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos 43 genomas sequenciados pelo LVGBM-Fiocruz-PI revelou a circulação das variantes XFG e BA.2.86 no Piauí, com perfis epidemiológicos distintos. A variante XFG demonstrou maior dispersão geográfica, enquanto a BA.2.86 foi restrita a Teresina, com predominância da sub-linhagem LP.8.1.4. A vigilância genômica é uma ferramenta indispensável para o monitoramento de variantes emergentes, permitindo a adoção de medidas preventivas como vacinação atualizada, uso de máscaras e higiene das mãos. Este estudo reforça a necessidade de fortalecer a capacidade de testagem e sequenciamento em regiões menos populosas para uma resposta mais eficaz à pandemia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FIOCRUZ. Relatório de circulação de linhagens de SARS-CoV-2. Teresina: LVGBM-Fiocruz-PI, 2025.
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REDE GENÔMICA FIOCRUZ. Dashboard de vigilância epidemiológica do SARS-CoV-2 no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2025. Disponível em: https://www.genomahcov.fiocruz.br/dashboard-pt/. Acesso em: 3 set. 2025.
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