A contribuição da terapia ocupacional para o desenvolvimento infantil de crianças neurodivergentes: Um enfoque no setting terapêutico e na organização do ambiente sensorial.

THE CONTRIBUTION OF OCCUPATIONAL THERAPY TO THE CHILD DEVELOPMENT OF NEURODIVERGENT CHILDREN: A FOCUS ON THE THERAPEUTIC SETTING AND THE ORGANIZATION OF THE SENSORY ENVIRONMENT

LA CONTRIBUCIÓN DE LA TERAPIA OCUPACIONAL AL DESARROLLO INFANTIL DE NIÑOS NEURODIVERGENTES: UN ENFOQUE EN EL SETTING TERAPÉUTICO Y EN LA ORGANIZACIÓN DEL ENTORNO SENSORIAL

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/42604F

DOI

doi.org/10.63391/42604F

Cruz, Vilma da . A contribuição da terapia ocupacional para o desenvolvimento infantil de crianças neurodivergentes: Um enfoque no setting terapêutico e na organização do ambiente sensorial.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar a contribuição da Terapia Ocupacional no atendimento clínico a crianças neurodivergentes, com enfoque na organização do setting terapêutico e nas estratégias de intervenção fundamentadas no perfil do ambiente sensorial. A pesquisa, de caráter bibliográfico, fundamenta-se em autores consagrados nacional e internacionalmente, como Jean Ayres, Winnie Dunn, Tina Champagne, Sheila Cavalcante e Ana Paula Serrata Malfitano. O trabalho defende a tese de que o ambiente terapêutico não é apenas o local da intervenção, mas sim uma ferramenta ativa e co-terapêutica, capaz de favorecer a autorregulação, o vínculo e o engajamento funcional. No contexto da neurodiversidade — que inclui o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e os Transtornos do Processamento Sensorial (TPS) —, a adaptação do setting ao perfil sensorial da criança torna-se fundamental para garantir uma prática ocupacional centrada na pessoa. As contribuições da neuroplasticidade e das abordagens baseadas na Integração Sensorial demonstram que a organização intencional do ambiente pode potencializar o desenvolvimento e a participação infantil. O estudo conclui que a Terapia Ocupacional, ao compreender e planejar o setting como um dispositivo terapêutico, reafirma seu papel essencial no cuidado de crianças neurodivergentes, promovendo autonomia, inclusão e qualidade de vida.
Palavras-chave
terapia ocupacional; neurodivergência; integração sensorial; setting terapêutico; desenvolvimento infantil.

Summary

This article aims to analyze the contribution of Occupational Therapy to the clinical care of neurodivergent children, focusing on the therapeutic setting and intervention strategies based on sensory profiles. This is a bibliographic research grounded in nationally and internationally recognized authors such as Jean Ayres, Winnie Dunn, Tina Champagne, Sheila Cavalcante, and Ana Paula Serrata Malfitano. The study argues that the therapeutic environment is not merely the location of intervention but an active and co-therapeutic tool capable of enhancing self-regulation, bonding, and functional engagement. In the context of neurodiversity—including Autism Spectrum Disorder (ASD), Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD), and Sensory Processing Disorders (SPD)—adapting the setting to the child’s sensory profile becomes essential to ensure person-centered occupational practice. Contributions from neuroplasticity and approaches based on Sensory Integration demonstrate that intentional environmental organization can enhance development and child participation. The study concludes that Occupational Therapy, by understanding and planning the setting as a therapeutic device, reaffirms its essential role in the care of neurodivergent children, promoting autonomy, inclusion, and quality of life.
Keywords
occupational therapy; neurodivergence; sensory integration; therapeutic setting; child development.

Resumen

Este artículo tiene como objetivo analizar la contribución de la Terapia Ocupacional en la atención clínica a niños neurodivergentes, con un enfoque en la organización del entorno terapéutico y en las estrategias de intervención basadas en el perfil sensorial. Se trata de una investigación bibliográfica fundamentada en autores reconocidos a nivel nacional e internacional, como Jean Ayres, Winnie Dunn, Tina Champagne, Sheila Cavalcante y Ana Paula Serrata Malfitano. El trabajo defiende la tesis de que el setting terapéutico no es solo el lugar de la intervención, sino una herramienta activa y co-terapéutica, capaz de favorecer la autorregulación, el vínculo y la participación funcional. En el contexto de la neurodiversidad —que incluye el Trastorno del Espectro Autista (TEA), el Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad (TDAH) y los Trastornos del Procesamiento Sensorial (TPS)—, la adaptación del entorno al perfil sensorial del niño se vuelve fundamental para garantizar una práctica ocupacional centrada en la persona. Las contribuciones de la neuroplasticidad y los enfoques basados en la Integración Sensorial demuestran que la organización intencional del ambiente puede potenciar el desarrollo y la participación infantil. El estudio concluye que la Terapia Ocupacional, al comprender y planificar el setting como dispositivo terapéutico, reafirma su papel esencial en el cuidado de niños neurodivergentes, promoviendo autonomía, inclusión y calidad de vida.
Palavras-clave
terapia ocupacional; neurodivergencia; integración sensorial; setting terapéutico; desarrollo infantil.

INTRODUÇÃO

A Terapia Ocupacional, enquanto campo da saúde e da reabilitação, tem ganhado crescente relevância no cuidado às infâncias neurodivergentes, especialmente aquelas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtornos do Processamento Sensorial (TPS). O crescente reconhecimento dessas condições como expressões válidas da diversidade neurológica desafia os modelos tradicionais de patologização e exige uma mudança de paradigma nas práticas terapêuticas, centrando-se mais na funcionalidade, na autonomia e na participação social da criança (Silberman, 2015).

A concepção de neurodiversidade, cunhada por autores como Armstrong (2012), propõe que diferenças neurológicas devem ser compreendidas como variações humanas naturais e não como doenças a serem curadas. Esta perspectiva influencia diretamente a formação de terapeutas ocupacionais e a organização dos contextos terapêuticos, exigindo espaços mais acolhedores, adaptativos e centrados no sujeito. Nesse sentido, o setting terapêutico, entendido como o conjunto de elementos físicos, sensoriais, relacionais e simbólicos do ambiente clínico, adquire papel fundamental na intervenção (Mosey, 1986; Champagne, 2011).

Autores como Ayres (2005) e Dunn (2001) destacam que a organização sensorial do ambiente influencia diretamente o comportamento e a capacidade de regulação da criança. A integração sensorial é um processo neurológico através do qual o cérebro organiza e interpreta os estímulos recebidos pelos sentidos, e falhas nesse processo são comuns em crianças neurodivergentes. Logo, um setting estruturado de forma sensorialmente responsiva pode representar um facilitador essencial para o vínculo terapêutico, a segurança emocional e o desenvolvimento funcional (Miller et al., 2007).

Na prática da Terapia Ocupacional, a compreensão do ambiente como agente co-terapêutico vem sendo defendida por diversos estudiosos, inclusive no contexto brasileiro. Malfitano et al. (2016) e Cavalcante (2009) sublinham a importância de dispositivos terapêuticos que considerem o cotidiano da criança e seus contextos de vida, integrando cuidado, escuta qualificada e recursos concretos que favoreçam a expressão e a autonomia. 

Assim, a construção de um ambiente intencional, adaptado às especificidades do perfil sensorial de cada criança, torna-se um eixo estruturante do processo terapêutico. Este artigo tem como objetivo analisar, por meio de pesquisa bibliográfica, a contribuição da Terapia Ocupacional para o desenvolvimento infantil de crianças neurodivergentes, com foco na organização do setting terapêutico e no uso de estratégias sensoriais individualizadas. 

A intenção é articular contribuições teóricas da neurociência, da prática clínica ocupacional e das abordagens centradas na criança para reforçar a importância do ambiente como dispositivo de cuidado. A escolha de uma abordagem teórica se justifica pelo desejo de aprofundar o conhecimento já produzido na área, confrontando autores e perspectivas que sustentem a inediticidade do recorte. A literatura existente sobre o setting terapêutico ainda carece de sistematização quando se trata de sua função específica no atendimento às infâncias neurodivergentes, o que confere originalidade à presente proposta.

A construção do texto será organizada em três eixos centrais: (1) a relação entre neurodivergência e desenvolvimento infantil no contexto da Terapia Ocupacional; (2) a conceituação e a função do setting terapêutico; e (3) os fundamentos da neurociência ocupacional e da integração sensorial como subsídios para práticas mais eficazes.

Pretende-se, ao final, oferecer subsídios teóricos que orientem a prática clínica em Terapia Ocupacional com crianças neurodivergentes, reafirmando o compromisso da profissão com uma atuação responsiva, humanizada e cientificamente embasada.

Nesse percurso, o artigo também busca valorizar produções acadêmicas brasileiras, reconhecendo a relevância de um conhecimento situado, plural e comprometido com a realidade das infâncias no contexto nacional. A inclusão de referências nacionais contribui para o fortalecimento da Terapia Ocupacional como ciência da intervenção social e clínica no Brasil.

Com esse objetivo, a seguir será apresentado o primeiro eixo de discussão teórica: A relação entre neurodivergência e desenvolvimento infantil na perspectiva da Terapia Ocupacional.

REFERENCIAL TEÓRICO

EIXO 1 – A RELAÇÃO ENTRE NEURODIVERGÊNCIA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL NA PERSPECTIVA DA TERAPIA OCUPACIONAL

A neurodivergência, termo cunhado para descrever condições neurológicas como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia, entre outros, desafia as concepções tradicionais sobre desenvolvimento infantil. Segundo Silberman (2015), o conceito de neurodiversidade propõe a compreensão das diferenças neurológicas como variações humanas, não como patologias. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional (TO) desempenha um papel essencial ao propor intervenções baseadas na funcionalidade, nas habilidades e no cotidiano da criança.

A compreensão do desenvolvimento infantil na perspectiva da neurodivergência exige uma abordagem interdisciplinar que inclua as funções neurológicas, cognitivas, motoras e sensoriais. Ayres (2005) introduziu a teoria da Integração Sensorial, a qual tem sido amplamente utilizada por terapeutas ocupacionais para compreender e intervir nas dificuldades de processamento sensorial comumente presentes em crianças neurodivergentes. A proposta é identificar e modificar barreiras que afetam a capacidade da criança de participar efetivamente nas atividades do dia a dia.

Dentro desse marco teórico, a TO visa promover a autonomia e a inclusão social da criança. Malfitano et al. (2016) enfatizam a importância da atuação do terapeuta ocupacional na promoção de práticas voltadas para os direitos sociais e a equidade, principalmente em contextos de vulnerabilidade. A TO, portanto, não se limita ao ambiente clínico, mas expande suas ações para a escola, a família e a comunidade, construindo uma rede de apoio ao desenvolvimento.

Dunn (2001) contribui com um modelo teórico essencial: o Sensory Profile, que permite mapear os padrões de resposta sensorial da criança, sendo uma ferramenta vital para planejar intervenções individualizadas. Crianças neurodivergentes podem manifestar hiper ou hiporreatividade sensorial, o que afeta sua interação social, aprendizagem e bem-estar emocional. A identificação precoce desses padrões é essencial para favorecer o desenvolvimento funcional.

Kolb e Whishaw (2015) destacam que o cérebro infantil é altamente plástico, o que torna o período da infância propício para intervenções terapêuticas que reorganizem redes neurais disfuncionais. A TO pode aproveitar esse potencial por meio de atividades significativas, adaptadas às necessidades e capacidades de cada criança. Ao considerar os estímulos sensoriais, motores e afetivos, as intervenções são estruturadas de modo a favorecer o engajamento da criança em seus contextos naturais.

Doidge (2011) complementa esse entendimento ao demonstrar que experiências vividas moldam as funções cerebrais, o que reforça a necessidade de ambientes terapêuticos ricos em estímulos positivos e controlados. A neuroplasticidade é, portanto, a base científica que justifica a eficácia das intervenções da TO em crianças neurodivergentes. Esse princípio favorece a criação de estratégias personalizadas e centradas na criança.

A contribuição de Cavalcante (2009) também é relevante ao tratar da relação entre TO, saúde mental e cotidiano. Crianças neurodivergentes muitas vezes vivenciam desafios emocionais, sendo a TO uma ponte para expressão, regulação emocional e participação ativa. A dimensão afetiva do atendimento terapêutico é fundamental para a construção de vínculos e para o fortalecimento do protagonismo infantil.

A TO também contribui na identificação de barreiras ambientais que impedem a criança de exercer plenamente seu direito ao brincar, ao aprender e ao conviver. Como propõe Ayres (2005), a integração sensorial bem sucedida está diretamente relacionada ao desempenho ocupacional satisfatório. Assim, a TO busca potencializar a relação da criança com seu corpo, seu espaço e seu tempo.

Por fim, ao adotar uma visão ampliada da criança neurodivergente, a TO não a reduz a um diagnóstico, mas reconhece sua singularidade e potencial. A atuação terapêutica fundamentada cientificamente e sustentada pela escuta sensível é, portanto, essencial para o desenvolvimento integral dessas crianças em contextos de inclusão e cidadania.

EIXO 2 – O SETTING TERAPÊUTICO COMO ESPAÇO DE MEDIAÇÃO, ESCUTA E CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA

O setting terapêutico constitui um espaço fundamental na prática da Terapia Ocupacional, especialmente no atendimento a crianças neurodivergentes. Trata-se de um ambiente estruturado para favorecer segurança emocional, estímulo sensorial adequado e engajamento nas atividades. Champagne (2011) defende que o espaço terapêutico deve considerar as necessidades sensoriais da criança para facilitar a regulação emocional e o desempenho ocupacional.

Na perspectiva da TO, o setting não é apenas físico, mas simbólico: é o lugar onde o vínculo terapêutico se constrói e onde a criança é reconhecida como sujeito de direitos. Cavalcante (2009) enfatiza a importância do cuidado no cotidiano, valorizando a escuta e a singularidade da criança. O terapeuta atua como mediador entre o sujeito, sua história, seu corpo e o mundo que o cerca.

O setting terapêutico precisa ser adaptado para responder às especificidades do perfil sensorial de cada criança. Segundo Dunn (2001), o ambiente deve ser modulado conforme a reatividade da criança aos estímulos, o que inclui som, luz, texturas e organização espacial. Crianças com hipersensibilidade auditiva, por exemplo, necessitam de espaços silenciosos e previsíveis.

Além disso, o setting favorece a observação clínica qualificada. O terapeuta pode identificar padrões de comportamento, dificuldades de modulação sensorial e desafios na motricidade, atenção e interação social. Essas informações subsidiam a elaboração do plano terapêutico centrado na criança e em seus contextos reais de vida.

A autonomia é um dos principais objetivos da Terapia Ocupacional, e o setting terapêutico deve oportunizar experiências que promovam a autoeficácia. De acordo com Case-Smith e O’Brien (2015), oferecer atividades que desafiem as habilidades da criança de modo positivo fortalece sua autoconfiança e contribui para sua participação ativa na vida cotidiana.

Outro aspecto importante é o papel da ludicidade. O brincar terapêutico, realizado em setting estruturado, possibilita à criança elaborar vivências emocionais, desenvolver habilidades sociais e motoras e exercer o protagonismo. Ayres (2005) já apontava o valor terapêutico das atividades sensoriais no contexto do brincar.

O setting também é um espaço de formação para as famílias. Ao observar e participar das sessões, pais e cuidadores compreendem melhor as necessidades da criança e aprendem estratégias de manejo que podem ser aplicadas no cotidiano. Essa parceria fortalece o processo terapêutico e contribui para a generalização dos ganhos.

No contexto brasileiro, Malfitano et al. (2016) destacam que o setting terapêutico deve ser ampliado para além das quatro paredes da clínica, incluindo espaços escolares, comunitários e domiciliares. Essa concepção amplia o alcance da Terapia Ocupacional e permite uma intervenção contextualizada e sensível às realidades socioculturais.

Desse modo, o setting terapêutico se configura como espaço ético-político. É onde se afirma o direito da criança neurodivergente a um cuidado qualificado, personalizado e inclusivo. É um território de escuta, acolhimento e construção de possibilidades para que cada criança possa exercer sua subjetividade e seu direito à participação.

EIXO 3 – A TERAPIA OCUPACIONAL COMO PROMOTORA DE PARTICIPAÇÃO E INCLUSÃO EM CONTEXTOS ESCOLARES

A atuação da Terapia Ocupacional no ambiente escolar tem ganhado reconhecimento por sua capacidade de promover acessibilidade, participação e equidade no processo educativo de crianças neurodivergentes. De acordo com Polatajko, Townsend e Craik (2007), a ocupação — entendida como engajamento significativo nas atividades cotidianas — é mediadora do aprendizado e da inclusão, sendo papel da Terapia Ocupacional garantir que a criança possa participar de forma plena e significativa nas rotinas escolares.

A escola é um espaço privilegiado de socialização e desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras, sociais e emocionais. No entanto, crianças com padrões neurológicos diversos frequentemente enfrentam barreiras que dificultam sua inclusão efetiva. Nesse sentido, a Terapia Ocupacional atua de modo colaborativo com professores, gestores e famílias, propondo adaptações curriculares e ambientais que favoreçam o engajamento da criança com o conteúdo escolar (Cavalcante & Goldfarb, 2016).

Uma das estratégias mais utilizadas é a análise da demanda ocupacional das tarefas escolares, isto é, a avaliação do quanto a tarefa exige em termos motores, sensoriais e cognitivos, e o quanto essas demandas estão alinhadas com o perfil da criança. Segundo Case-Smith e O’Brien (2015), ao compreender o descompasso entre as exigências escolares e as capacidades individuais da criança, o terapeuta ocupacional pode adaptar o ambiente ou propor recursos de tecnologia assistiva que eliminem barreiras à aprendizagem.

Além disso, o terapeuta ocupacional desempenha um papel essencial no apoio à autorregulação comportamental e emocional da criança no ambiente escolar. Dunn (2001) destaca que crianças com disfunções no processamento sensorial tendem a reagir de maneira intensa ou inibida a estímulos rotineiros da sala de aula, como sons, luzes ou movimentações. O planejamento de rotinas sensoriais e o uso de estratégias de modulação podem favorecer a permanência e o engajamento da criança em sala.

A parceria entre Terapia Ocupacional e escola também contribui para a valorização da singularidade da criança e a construção de uma pedagogia inclusiva. Segundo Santos (2020), a escuta ativa às necessidades do estudante e a compreensão das suas formas particulares de aprender são elementos fundamentais para a efetivação do direito à educação. A TO atua, portanto, como elo entre os princípios da educação inclusiva e a prática pedagógica cotidiana.

Outra contribuição relevante da TO no ambiente escolar está na promoção do brincar como ferramenta pedagógica e terapêutica. Ayres (2005) já indicava que o brincar é o principal meio pelo qual a criança aprende, se comunica e organiza suas experiências. Intervenções baseadas em jogos sensoriais, atividades lúdicas estruturadas e oficinas corporais permitem que a criança vivencie o conteúdo escolar de modo ativo, prazeroso e contextualizado.

Do ponto de vista da política pública, o trabalho intersetorial entre saúde e educação é um dos pilares da atenção integral à criança. Como observa Malfitano et al. (2016), a atuação do terapeuta ocupacional em contextos escolares está prevista em políticas nacionais, como a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e a Resolução CNE/CEB nº 4/2009. A presença do terapeuta na escola deve ser entendida como uma ação de fortalecimento do direito à aprendizagem e à participação plena.

É importante destacar que a presença da TO na escola também incide sobre práticas pedagógicas mais sensíveis e responsivas. Quando o professor compreende os fatores sensoriais, motores e emocionais que impactam a aprendizagem, pode ajustar suas estratégias didáticas, tornando a sala de aula mais inclusiva. Essa prática de formação continuada mediada pela TO é uma forma potente de inclusão.

Por fim, a atuação da Terapia Ocupacional na escola promove o empoderamento da criança neurodivergente, permitindo que ela reconheça e valorize suas capacidades. Como afirmam Polatajko et al. (2007), a inclusão não deve ser apenas física, mas ocupacional: é preciso garantir que cada sujeito possa fazer parte ativamente da construção do saber e da vida em comunidade. A TO, ao centrar suas ações na participação, contribui para que as crianças neurodivergentes se tornem protagonistas de sua trajetória escolar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A articulação entre os três eixos desenvolvidos neste referencial teórico evidencia o papel estratégico da Terapia Ocupacional na promoção do desenvolvimento, da autonomia e da inclusão de crianças neurodivergentes. O primeiro eixo estabeleceu as bases conceituais sobre neurodiversidade, destacando o entendimento das condições neurológicas como variações humanas legítimas, e evidenciou como a Terapia Ocupacional, ancorada em modelos como o de Integração Sensorial (Ayres, 2005) e no mapeamento sensorial de Dunn (2001), pode favorecer o engajamento funcional da criança nos diversos contextos da vida.

O segundo eixo aprofundou o papel do setting terapêutico como espaço de escuta, construção de vínculo e fortalecimento da subjetividade da criança. Com base nas contribuições de Champagne (2011), Cavalcante (2009) e Case-Smith & O’Brien (2015), compreendemos que o ambiente terapêutico não se limita ao espaço físico, mas envolve uma dimensão simbólica e relacional. É nesse espaço que se constroem práticas de cuidado que consideram as necessidades sensoriais, emocionais e relacionais de cada sujeito, com ênfase na promoção da autonomia e da participação.

Já o terceiro eixo promoveu um diálogo entre os avanços da neurociência e as práticas da Terapia Ocupacional, destacando a plasticidade cerebral como substrato teórico para intervenções eficazes e centradas na criança. As obras de Kolb & Whishaw (2015) e Doidge (2011) foram fundamentais para sustentar a relevância das experiências ocupacionais significativas na reorganização funcional do cérebro infantil. Além disso, reafirmou-se a importância da atuação intersetorial entre saúde e educação como estratégia para a construção de contextos verdadeiramente inclusivos.

A interligação desses três eixos evidencia que o cuidado em Terapia Ocupacional com crianças neurodivergentes não é apenas técnico ou clínico, mas ético, político e afetivo. Requer escuta, conhecimento científico, sensibilidade e compromisso com os direitos humanos. 

A construção de práticas fundamentadas e inovadoras exige constante atualização teórica, articulação com as evidências neurocientíficas e, sobretudo, respeito à singularidade de cada criança. Nesse sentido, a Terapia Ocupacional reafirma sua relevância no campo da saúde, da educação e da cidadania, atuando como promotora da inclusão em sua forma mais plena: aquela que reconhece, valoriza e celebra a diversidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

AYRES, A. J. Sensory Integration and the Child. Los Angeles: Western Psychological Services, 2005.

CASE-SMITH, J.; O’BRIEN, J. C. Occupational Therapy for Children and Adolescents. 7. ed. St. Louis: Elsevier, 2015.

CHAMPAGNE, T. Sensory Modulation in Mental Health. OT Practice, v. 16, n. 11, p. CE1–CE8, 2011.

CAVALCANTE, S. C. (Org.). Terapia Ocupacional e Saúde Mental: Produção do Cuidado e Cotidiano. São Paulo: Roca, 2009.

DE CARLO, Marysia Mara Rodrigues do Prado. Bartalotti, Celina Camargo. Terapia ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas (2001) 

DOIDGE, N. O Cérebro que se Transforma. Rio de Janeiro: Record, 2011.

DUNN, W. The Sensory Profile: User’s Manual. San Antonio: Psychological Corporation, 2001.

KOLB, B.; WHISHAW, I. Q. Fundamentals of Human Neuropsychology. 7. ed. New York: Worth Publishers, 2015.

LOPES, R. E.; MALFITANO, A. P. S. Terapia Ocupacional Social: desenhos teóricos e contornos práticos São Paulo: Editora. Senac, 2016… 2016.

MALFITANO, A. P. S.; LUZ, A. M. H.; MAGALHÃES, L. C.; BERTOLIN, M. Terapia Ocupacional: Fundamentos e Perspectivas para o Trabalho em Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, 2016.

POLATAJKO, H. J.; TOWNSEND, E. A.; CRAIK, J. The Canadian Model of Occupational Performance and Engagement (CMOP-E). In: TOWNSEND, E. A.; POLATAJKO, H. J. Enabling Occupation II: Advancing an Occupational Therapy Vision for Health, Well-being, & Justice through Occupation. Ottawa: CAOT Publications ACE, 2007.

SANTOS, R. D. Educação Inclusiva e Práticas Pedagógicas Sensíveis à Diversidade. Curitiba: Appris, 2020.

SILBERMAN, S. NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity. New York: Avery, 2015.

Cruz, Vilma da . A contribuição da terapia ocupacional para o desenvolvimento infantil de crianças neurodivergentes: Um enfoque no setting terapêutico e na organização do ambiente sensorial..International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 51
A contribuição da terapia ocupacional para o desenvolvimento infantil de crianças neurodivergentes: Um enfoque no setting terapêutico e na organização do ambiente sensorial.

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025