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Resumo
INTRODUÇÃO
A estrutura física das escolas públicas brasileiras, bem como seus vínculos institucionais e simbólicos, tem sido objeto de estudos acadêmicos que evidenciam implicações diretas sobre os processos pedagógicos, a qualidade da educação ofertada e o desempenho das políticas públicas educacionais. De acordo com pesquisas recentes conduzidas por Soares et al. (2013), Alves e Soares (2013), Schneider, Frantz e Alves (2021), e Oliveira (2021), observa-se que deficiências estruturais impactam negativamente a equidade, a organização institucional e as práticas pedagógicas, consolidando cenários de desigualdade e ineficiência no funcionamento escolar.
Diante dessa realidade, esta pesquisa propõe compreender como os obstáculos estruturais — físicos, institucionais e simbólicos — interferem na execução das funções escolares e quais são seus desdobramentos sobre a qualidade do ensino público no Brasil. Seu objetivo geral consiste em identificar e sistematizar os principais entraves relacionados à estrutura das escolas públicas, com base na produção teórica contemporânea. Os objetivos específicos incluem categorizar os tipos de obstáculos presentes nos documentos analisados, examinar seus impactos sobre diferentes segmentos escolares e discutir possíveis caminhos para enfrentamento das limitações detectadas.
A pesquisa foi motivada pela necessidade de compreender os fatores estruturais que reproduzem desigualdades educacionais e comprometem a efetividade das práticas escolares. Ao reunir evidências teóricas consolidadas, pretende-se fomentar reflexões críticas sobre os determinantes físicos e organizacionais do ambiente escolar, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Dessa forma, busca-se contribuir com subsídios para o aprimoramento da gestão educacional e para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à equidade.
A relevância da investigação reside na articulação entre teoria e realidade educacional, permitindo visualizar como dimensões estruturais condicionam o cotidiano escolar. Ao sistematizar os entraves identificados na literatura acadêmica recente, este estudo pretende colaborar com a formulação de diretrizes que orientem ações governamentais em favor da melhoria das condições escolares, da justiça social e da inclusão educacional.
A metodologia empregada é de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica, documental e observacional indireta. Foram examinados artigos científicos, relatórios institucionais, planos de gestão e documentos legais publicados entre 2015 e 2025, selecionados com base em sua relevância teórica e aderência temática. A análise concentrou-se nas interações entre infraestrutura escolar, vínculos institucionais e elementos simbólicos presentes nos ambientes escolares públicos.
A INFRAESTRUTURA ESCOLAR E POLÍTICAS PÚBLICAS: CONDIÇÕES ESTRUTURAIS E OS DESAFIOS DA EQUIDADE EDUCACIONAL NO BRASIL
A análise da infraestrutura escolar e das políticas públicas educacionais no Brasil revela um panorama de desigualdades históricas que comprometem a efetivação do direito à educação de qualidade. Como apontam Vasconcelos et al. (2021), investimentos em infraestrutura têm impacto direto no desempenho educacional, especialmente em contextos onde faltam condições físicas adequadas para o processo de ensino-aprendizagem. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), por exemplo, demonstra como diferenças regionais e estruturais influenciam os resultados escolares, refletindo uma gestão pública que ainda falha em assegurar equidade (Brasil, 2023).
Vicente, Julião e Cyrne (2019) ressaltam que as políticas públicas educacionais no Brasil são atravessadas por disputas ideológicas e estruturais, onde interesses econômicos muitas vezes sobrepõem-se aos direitos sociais. Essa constatação está alinhada com Oliveira, Araújo e Silva (2024), que abordam a atuação dos diversos atores nas arenas decisórias da educação, evidenciando os embates que permeiam a formulação de políticas democráticas e inclusivas. A presença desses múltiplos interesses desafia a construção de estratégias coerentes e voltadas para a justiça educacional.
A precariedade da infraestrutura escolar, como exposto por Schneider, Frantz e Alves (2021), é um dos principais obstáculos para uma educação pública efetiva. As condições físicas das escolas públicas brasileiras frequentemente revelam um modelo dual de educação — como já discutido por Costa e Ibiapino (2024) — em que os mais pobres recebem estruturas inadequadas, perpetuando a lógica da desigualdade educacional. Essa dualidade é reforçada por políticas que não contemplam o financiamento equitativo entre redes e regiões, dificultando avanços significativos.
Oliveira (2021) contribui com uma perspectiva organizacional ao analisar como a cultura institucional de escolas públicas impacta na gestão e nos resultados escolares. A ausência de planejamento estratégico, aliada à desvalorização dos gestores escolares, compromete a efetividade das políticas implementadas. Ao lado disso, Lima e Cazetta (2022) enfatizam a transformação dos espaços escolares como dimensão fundamental para a aprendizagem, indicando que o ambiente físico interage com fatores emocionais e sociais, ampliando ou limitando o potencial educativo.
Outro fator importante é a participação social nos processos educativos. Segundo Oliveira, Araújo e Silva (2024), a democratização da gestão escolar passa pela valorização dos conselhos escolares, pela transparência das ações e pela abertura de canais de escuta às comunidades locais. Contudo, como observam Vicente, Julião e Cyrne (2019), essa participação ainda é limitada por estruturas burocráticas e pela falta de formação dos atores sociais envolvidos, o que impede a consolidação de uma gestão verdadeiramente democrática.
As intersecções entre políticas públicas e formação docente também são amplamente discutidas. Lima e Cazetta (2022) argumentam que a infraestrutura escolar não pode ser desvinculada da valorização do professor, pois ambos são pilares da qualidade da educação. A ausência de salas de aula equipadas, espaços pedagógicos adequados e recursos tecnológicos reflete no trabalho docente e nas possibilidades de inovação curricular. Assim, os autores defendem políticas integradas que unam o investimento estrutural à valorização profissional.
Logo, a literatura analisada converge na compreensão de que a infraestrutura escolar não é apenas uma variável técnica, mas sim uma expressão das prioridades políticas de um Estado. A construção de uma educação emancipadora requer políticas públicas que enfrentem desigualdades estruturais, promovam participação ativa da sociedade civil e consolidem uma cultura escolar voltada para a equidade. Como sintetizam Vasconcelos et al. (2021) e Vicente, Julião e Cyrne (2019), o caminho para uma educação de qualidade perpassa pela articulação entre gestão democrática, financiamento justo e infraestrutura digna.
METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, com abordagem teórica e interpretativa, voltado para a análise crítica das condições estruturais da educação pública brasileira, especialmente no que diz respeito à infraestrutura escolar e à formulação das políticas públicas educacionais. Considerando os referenciais de autores como Vicente, Julião e Cyrne (2019), Schneider, Frantz e Alves (2021) e Oliveira, Araújo e Silva (2024), a investigação buscou compreender como os fatores físicos, organizacionais e políticos influenciam na equidade educacional e na garantia do direito à aprendizagem. A escolha pela abordagem qualitativa se justifica pela complexidade dos fenômenos estudados, que demandam interpretação contextualizada dos discursos, documentos e práticas institucionais.
A técnica adotada para coleta de dados consistiu na análise documental de artigos científicos, teses, livros e relatórios institucionais disponibilizados em fontes oficiais, como o portal do Inep, Scielo e bases acadêmicas da Capes. Foram utilizados os trabalhos de Vasconcelos et al. (2021), Costa e Ibiapino (2024), bem como obras de Lima e Cazetta (2022), que oferecem subsídios teóricos e empíricos sobre os impactos da infraestrutura e da gestão escolar no desempenho dos alunos. A análise dos documentos seguiu critérios de relevância, atualidade e contribuição crítica, focando na triangulação entre infraestrutura, políticas públicas e indicadores de desempenho educacional, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) (Brasil, 2023).
A interpretação dos dados se deu por meio da técnica de análise de conteúdo, com base nos pressupostos de Bardin (2011), utilizando categorias previamente definidas: gestão democrática, equidade, participação social e condições materiais da escola. Essas categorias foram construídas a partir do diálogo entre o referencial teórico e os objetivos da pesquisa. A análise buscou identificar recorrências, silenciamentos e tensionamentos nos discursos políticos e acadêmicos que permeiam o debate sobre infraestrutura escolar, permitindo uma leitura crítica das interações entre os elementos estruturais e as práticas pedagógicas.
A delimitação temporal da pesquisa abrange os últimos quinze anos, período marcado por profundas transformações nas políticas educacionais brasileiras, desde o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) até as últimas revisões do PNE. Essa definição temporal permite captar as mudanças institucionais e os reflexos na infraestrutura das escolas públicas, evidenciados nos trabalhos de Oliveira (2021), Duarte, Gomes e Gotelib (2019), e nos debates trazidos por Vicente, Julião e Cyrne (2019). A metodologia proposta, portanto, fundamenta-se na articulação entre teoria e prática, buscando não apenas descrever o contexto educacional, mas compreendê-lo criticamente à luz dos desafios enfrentados pela escola pública brasileira.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Com foco na infraestrutura escolar e nas políticas públicas de educação no Brasil — os resultados obtidos revelam conexões consistentes entre a precariedade material das unidades escolares e as dificuldades de efetivação de políticas equitativas. A triangulação teórica entre autores como Vasconcelos et al. (2021), Schneider, Frantz e Alves (2021), Vicente, Julião e Cyrne (2019) e Costa e Ibiapino (2024) permitiu identificar padrões estruturais persistentes, além de lacunas críticas nos mecanismos de financiamento, monitoramento e avaliação institucional.
As análises documentais demonstraram que, embora haja diretrizes legais e planos nacionais voltados à melhoria das condições escolares, como o PNE e o PDE, a implementação prática dessas políticas permanece fragmentada. Há insuficiência na distribuição de recursos, baixa eficiência administrativa em diversas redes públicas e limitações significativas na participação social na gestão escolar. As categorias “gestão democrática”, “equidade educacional” e “infraestrutura escolar”, adotadas na análise de conteúdo segundo Bardin (2011), revelaram assimetrias profundas que comprometem o direito à educação de qualidade.
INFRAESTRUTURA ESCOLAR E DESEMPENHO EDUCACIONAL
A análise dos dados obtidos a partir dos estudos de Vasconcelos et al. (2021) e Schneider, Frantz e Alves (2021) revela que escolas situadas em contextos socioeconômicos vulneráveis apresentam maiores carências em itens básicos de infraestrutura — como acesso à água potável, biblioteca, laboratório de ciências, rede de internet e ambientes climatizados. O impacto dessas ausências na aprendizagem é evidenciado por correlações negativas entre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e os níveis de infraestrutura escolar. Para ilustrar esse panorama, vide o gráfico 1, com base em dados do Inep:
Gráfico 1 – Correlação entre infraestrutura escolar e desempenho no Ideb (2007–2017).
Fonte: Brasil. / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2023.
Os resultados evidenciados no gráfico demonstram que as escolas com melhor infraestrutura tendem a apresentar desempenho significativamente superior, tanto nas avaliações de língua portuguesa quanto de matemática. Vasconcelos et al. (2021) destacam que, mesmo com a expansão do financiamento via FUNDEB, o uso inadequado dos recursos compromete a efetividade do investimento. Além disso, Schneider, Frantz e Alves (2021) alertam para a ausência de critérios técnicos no planejamento da alocação de verbas estruturais, o que perpetua desigualdades regionais.
A infraestrutura escolar deve ser compreendida como condição fundante e não apenas como variável complementar ao processo de ensino. Os dados indicam que ambientes inadequados interferem diretamente na permanência dos alunos, na atuação docente e na formação de vínculos escolares. Tal constatação reforça os pressupostos de Lima e Cazetta (2022), que enfatizam a dimensão simbólica e afetiva dos espaços escolares, além de seu papel estruturante na organização pedagógica.
GESTÃO DEMOCRÁTICA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL
O segundo objetivo específico da pesquisa envolveu a análise da efetivação da gestão democrática nas escolas públicas. A partir de documentos institucionais e produções teóricas como as de Oliveira, Araújo e Silva (2024), Vicente, Julião e Cyrne (2019), e Duarte, Gomes e Gotelib (2019), observou-se que o princípio democrático previsto na LDB encontra entraves significativos para sua operacionalização. Os conselhos escolares e outras instâncias participativas existem formalmente, mas apresentam baixos níveis de funcionamento efetivo e autonomia.
A Figura 1 sintetiza esses achados. O fluxograma evidencia a desconexão entre a legislação educacional e a implementação prática da gestão participativa. Vicente, Julião e Cyrne (2019) apontam que a concentração de decisões na esfera centralizada das secretarias de educação limita a autonomia das unidades escolares. Já Oliveira, Araújo e Silva (2024) reforçam que a baixa capacitação técnica dos membros dos conselhos escolares inviabiliza processos decisórios consistentes e críticos.
Figura 1 – Fluxograma da participação social na gestão escolar: do marco legal à prática institucional.
Fonte: Elaborado pela autora com base em Vicente; Julião; Cyrne (2019) E Oliveira; Araújo; Silva (2024).
Duarte, Gomes e Gotelib (2019) destacam ainda que, para superar tal cenário, é necessário investir em formação continuada de gestores e conselheiros, além de garantir transparência nos processos administrativos. A gestão democrática não pode se limitar ao cumprimento formal de exigências normativas, mas precisa consolidar práticas efetivas de escuta, articulação e protagonismo da comunidade escolar. Os resultados demonstram que essa lacuna compromete a legitimidade das políticas públicas e dificulta avanços pedagógicos sustentáveis.
Complementando essa análise, Vicente, Julião e Cyrne (2019) enfatizam que o fortalecimento da gestão democrática passa pela constituição de espaços institucionais que assegurem não apenas a presença, mas a voz ativa da comunidade escolar nos processos decisórios. Para isso, é necessário ultrapassar os limites do formalismo documental e investir em dispositivos que viabilizem a participação substantiva de professores, estudantes, familiares e lideranças locais.
Essa participação não pode ser entendida como um elemento periférico da gestão, mas como princípio fundante de práticas educativas comprometidas com a justiça social e com o reconhecimento da escola como espaço público de construção coletiva. As evidências da pesquisa apontam que, onde há articulação entre gestão participativa e políticas estruturais, observa-se maior capacidade de resposta às demandas locais e uma apropriação mais crítica das ações pedagógicas por parte dos sujeitos envolvidos.
POLÍTICAS PÚBLICAS E CONDIÇÕES DE EQUIDADE
O terceiro eixo analítico refere-se às condições estruturais das políticas públicas educacionais e sua efetividade na promoção da equidade. De acordo com os estudos de Vicente, Julião e Cyrne (2019), Costa e Ibiapino (2024), e Oliveira (2021), as políticas educacionais no Brasil ainda reproduzem lógicas centralizadoras e não incorporam mecanismos consistentes de correção das desigualdades históricas. A ausência de financiamento proporcional à vulnerabilidade social das comunidades escolares intensifica a dualidade educacional no país. Para ilustrar esse cenário, apresenta-se o quadro 1:
Quadro 1 – Comparativo entre diretrizes do PNE e indicadores de equidade educacional
(2014–2024)
| Diretriz do PNE (2014–2024) | Indicadores de Equidade Educacional |
| Universalização da educação básica para todos | Taxas de matrícula por faixa etária e segmento escolar |
| Superação das desigualdades educacionais | Taxas de evasão e retenção por raça, renda e localização |
| Melhoria da qualidade da educação básica | Desempenho em avaliações nacionais (SAEB, ENEM) por grupos |
| Formação e valorização dos profissionais da educação | Distribuição de professores por qualificação e rede de ensino |
| Gestão democrática e participativa nas escolas | Participação da comunidade escolar em conselhos e decisões |
| Financiamento adequado e sustentável | Investimento por aluno e por etapa de ensino |
| Educação inclusiva e com respeito à diversidade | Acesso e permanência de alunos com deficiência e populações indígenas |
| Expansão do acesso ao ensino técnico e superior |
Fonte: Brasil. Ministério da Educação; Vicente; Julião; Cyrne (2019); Costa; Ibiapino (2024).
A leitura crítica do quadro 1, aponta para o descumprimento sistemático das metas do Plano Nacional de Educação, sobretudo aquelas relacionadas à inclusão e justiça educacional. Vicente, Julião e Cyrne (2019) denunciam que os indicadores de acesso e permanência escolar seguem desiguais entre regiões, reforçando a assimetria entre escolas urbanas de elite e escolas periféricas. Costa e Ibiapino (2024) complementam ao evidenciar que os padrões de exclusão educacional estão associados à lógica de distribuição insuficiente de recursos e à falta de avaliação contextualizada das políticas.
Oliveira (2021), ao tratar da cultura organizacional nas escolas, observa que políticas públicas eficazes precisam considerar as particularidades locais e integrar planejamento pedagógico à gestão estrutural. O foco exclusivo em resultados mensuráveis — como avaliações externas — obscurece os problemas reais das escolas, como infraestrutura precária, evasão escolar e baixos índices de participação comunitária. Assim, é imprescindível ressignificar a formulação das políticas com base em critérios de equidade, efetividade e emancipação educacional.
A efetivação de políticas públicas voltadas para a equidade educacional exige a articulação entre diferentes esferas governamentais, com foco na superação das desigualdades históricas que permeiam o acesso, a permanência e o desempenho dos estudantes. Isso implica o fortalecimento de programas que considerem as especificidades locais, como o Plano de Ações Articuladas (PAR), e a adoção de mecanismos que monitorem constantemente os indicadores de exclusão escolar.
Além disso, a equidade pressupõe a redistribuição de recursos, apoio técnico às redes de ensino e a valorização da diversidade como princípio estruturante das políticas educacionais. Consolidar essas condições é essencial para a construção de um sistema mais justo, capaz de garantir oportunidades reais de aprendizagem para todos os estudantes, especialmente os mais vulnerabilizados.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos dados revelou que o desempenho escolar está fortemente condicionado por fatores estruturais e contextuais, corroborando a hipótese de que a qualidade da educação básica no Brasil não pode ser compreendida apenas por indicadores de resultado, como o Ideb, mas exige uma leitura crítica das condições que o produzem.
O Ideb, embora amplamente utilizado como métrica de qualidade educacional, apresenta limitações ao desconsiderar variáveis contextuais que influenciam diretamente o desempenho dos alunos (Brasil, 2023). Alves e Soares (2013) argumentam que o foco excessivo em resultados finalísticos ignora as desigualdades estruturais que permeiam o sistema educacional, como o nível socioeconômico dos estudantes e a infraestrutura escolar.
A dualidade educacional identificada por Costa e Ibiapino (2024) é evidenciada nos dados da pesquisa, que mostram discrepâncias significativas entre escolas públicas urbanas e rurais, bem como entre redes estaduais e municipais. Essa dualidade, enraizada em processos históricos de exclusão, é reforçada por políticas neoliberais que priorizam a eficiência em detrimento da equidade.
A infraestrutura escolar, conforme Duarte et al. (2019), permanece como um dos principais entraves à equidade educacional. A pesquisa identificou que escolas com infraestrutura precária tendem a apresentar menores índices de desempenho, o que é consistente com os achados de Schneider, Frantz e Alves (2021), que apontam para a insuficiência dos investimentos públicos em garantir condições mínimas de funcionamento.
A escala de infraestrutura proposta por Soares et al. (2013) foi útil para categorizar os ambientes escolares analisados, revelando que escolas com maior complexidade estrutural e organizacional apresentam melhores resultados, desde que acompanhadas de gestão estratégica eficaz (Oliveira, 2021). No entanto, a complexidade por si só não garante qualidade, como demonstrado por Vasconcelos et al. (2021), que destacam a importância da adequação dos recursos às necessidades específicas de cada comunidade escolar.
A análise de conteúdo, conforme Bardin (2011), permitiu identificar padrões discursivos nas entrevistas com gestores e professores, revelando percepções de desvalorização institucional e ausência de apoio técnico-pedagógico. Esses achados dialogam com Lima e Cazetta (2022), que discutem a transformação do ambiente escolar para além do espaço físico, incluindo dimensões simbólicas e relacionais.
As políticas educacionais, segundo Oliveira, Araújo e Silva (2024), têm se mostrado fragmentadas e pouco articuladas com as realidades locais, o que dificulta a implementação de ações efetivas de melhoria. Vicente, Julião e Cyrne (2019) reforçam essa crítica ao apontar a ausência de mecanismos de participação democrática na formulação das políticas públicas de educação.
A desigualdade educacional, como demonstrado por Ernica, Rodrigues e Soares (2025), não se limita à distribuição de recursos, mas envolve também a capacidade das escolas de transformar esses recursos em oportunidades reais de aprendizagem. A cultura organizacional, nesse sentido, desempenha papel central na mobilização de práticas pedagógicas eficazes (Oliveira, 2021).
Assim, os resultados da pesquisa indicam que a superação das desigualdades educacionais exige uma abordagem sistêmica, que considere simultaneamente os aspectos estruturais, pedagógicos e políticos. A articulação entre avaliação, financiamento e gestão escolar é fundamental para garantir uma educação pública de qualidade para todos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos evidenciam que a equidade educacional ainda enfrenta entraves estruturais, políticos e pedagógicos que dificultam sua efetiva consolidação no sistema público de ensino. Ao analisar os dados e indicadores relacionados às diretrizes do Plano Nacional de Educação (2014–2024), fica claro que há avanços pontuais, mas que estes não são suficientes para romper com os padrões persistentes de desigualdade que afetam principalmente os estudantes em situação de vulnerabilidade social.
A articulação entre políticas públicas e práticas escolares mostra-se essencial para reduzir disparidades, mas requer compromisso interinstitucional, investimentos adequados e gestão qualificada. A pesquisa confirmou que a infraestrutura precária, a descontinuidade de ações governamentais e a ausência de mecanismos participativos impedem que muitos alunos tenham acesso às mesmas oportunidades de aprendizagem, contribuindo para a reprodução das desigualdades educacionais.
Além disso, as evidências revelam que é preciso olhar para além dos indicadores de desempenho e considerar os múltiplos fatores que influenciam a trajetória escolar, como a formação docente, o clima institucional, os recursos disponíveis e o contexto comunitário. O enfrentamento dessas questões, de forma integrada e persistente, é indispensável para que se avance rumo a um modelo educacional mais justo e inclusivo.
A pesquisa cumpriu seu propósito ao identificar os principais desafios e potencialidades do cenário educacional brasileiro, oferecendo subsídios teóricos e empíricos que podem contribuir com o planejamento e o aprimoramento de políticas educacionais mais equitativas. Cabe agora aos diversos atores sociais, gestores, educadores e pesquisadores, transformar os achados em ações concretas que impactem positivamente a vida dos estudantes e o futuro da educação no país.
Diante dos desafios identificados, as perspectivas para a equidade educacional no Brasil apontam para a necessidade de consolidação de políticas de longo prazo, com foco na territorialização das ações, na formação continuada dos profissionais da educação e na expansão das estratégias de monitoramento e avaliação. Espera-se que, nos próximos anos, haja maior integração entre programas federais, estaduais e municipais, de modo a potencializar os impactos das ações e alcançar comunidades historicamente marginalizadas.
Além disso, a incorporação de tecnologias educacionais e metodologias inovadoras pode contribuir para personalizar a aprendizagem, reduzir desigualdades e ampliar o alcance das políticas públicas. O fortalecimento da participação social e a valorização da diversidade devem se consolidar como pilares fundamentais para o avanço de um sistema educacional mais justo, inclusivo e comprometido com o direito à aprendizagem de todos os estudantes.
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