A invasão da Ucrânia pela Rússia: Revisionismo geopolítico e a nostalgia da União Soviética

THE INVASION OF UKRAINE BY RUSSIA: GEOPOLITICAL REVISIONISM AND THE NOSTALGIA FOR THE SOVIET UNION

LA INVASIÓN DE UCRANIA POR RUSIA: REVISIONISMO GEOPOLÍTICO Y LA NOSTALGIA DE LA UNIÓN SOVIÉTICA

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/C6AA59

DOI

doi.org/10.63391/C6AA59

Castanho, Luiz Tadeu Sichero . A invasão da Ucrânia pela Rússia: Revisionismo geopolítico e a nostalgia da União Soviética. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo analisa a guerra entre Rússia e Ucrânia sob a perspectiva do revisionismo geopolítico e da tentativa russa de restaurar uma esfera de influência semelhante à da extinta União Soviética. A partir de uma contextualização histórica, demonstra-se que a Ucrânia possui uma identidade nacional distinta e anterior à própria formação do Estado russo, sendo frequentemente alvo de repressões e políticas assimilacionistas. A pesquisa baseia-se em abordagem qualitativa e exploratória, com revisão bibliográfica e documental, contemplando obras de autores como Serhii Plokhy, Timothy Snyder e Orlando Figes. A análise revela que a retórica oficial russa distorce fatos históricos para justificar a invasão, negando a soberania ucraniana e promovendo a ideia de que ambos os povos formam uma unidade histórica indivisível. Além disso, a ofensiva militar viola normas fundamentais do direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas e o Memorando de Budapeste. O artigo também destaca o uso da guerra informacional como ferramenta estratégica, com campanhas de desinformação, censura interna e ciberataques. Conclui-se que a atuação da Rússia representa uma ameaça à ordem internacional baseada em normas, configurando-se como um projeto autoritário e neocolonialista. O caso ucraniano torna-se, assim, paradigmático.
Palavras-chave
Rússia; Ucrânia; revisionismo; direito internacional.

Summary

This article analyzes the war between Russia and Ukraine from the perspective of geopolitical revisionism and Russia’s attempt to restore a sphere of influence similar to that of the former Soviet Union. Drawing on a historical contextualization, it demonstrates that Ukraine has a distinct national identity predating the very formation of the Russian state, while having frequently been the target of repressions and assimilationist policies. The research is based on a qualitative and exploratory approach, with bibliographic and documentary review, encompassing works by authors such as Serhii Plokhy, Timothy Snyder, and Orlando Figes. The analysis reveals that Russia’s official rhetoric distorts historical facts to justify the invasion, denying Ukrainian sovereignty and promoting the idea that both peoples form an indivisible historical unity. Furthermore, the military offensive violates fundamental norms of international law, including the United Nations Charter and the Budapest Memorandum. The article also highlights the use of informational warfare as a strategic tool, involving disinformation campaigns, internal censorship, and cyberattacks. It concludes that Russia’s actions represent a threat to the rules-based international order, constituting an authoritarian and neo-colonialist project. The Ukrainian case thus becomes paradigmatic.
Keywords
Russia; Ukraine; revisionism; international law.

Resumen

Este artículo analiza la guerra entre Rusia y Ucrania desde la perspectiva del revisionismo geopolítico y del intento ruso de restaurar una esfera de influencia semejante a la de la extinta Unión Soviética. A partir de una contextualización histórica, se demuestra que Ucrania posee una identidad nacional distinta y anterior a la propia formación del Estado ruso, siendo frecuentemente objeto de represiones y políticas asimilacionistas. La investigación se basa en un enfoque cualitativo y exploratorio, con revisión bibliográfica y documental, contemplando obras de autores como Serhii Plokhy, Timothy Snyder y Orlando Figes. El análisis revela que la retórica oficial rusa distorsiona hechos históricos para justificar la invasión, negando la soberanía ucraniana y promoviendo la idea de que ambos pueblos forman una unidad histórica indivisible. Además, la ofensiva militar viola normas fundamentales del derecho internacional, incluyendo la Carta de las Naciones Unidas y el Memorando de Budapest. El artículo también destaca el uso de la guerra informacional como herramienta estratégica, con campañas de desinformación, censura interna y ciberataques. Se concluye que la actuación de Rusia representa una amenaza para el orden internacional basado en normas, configurándose como un proyecto autoritario y neocolonialista. El caso ucraniano se convierte, así, en paradigmático.
Palavras-clave
Rusia; Ucrania; revisionismo; derecho internacional.

INTRODUÇÃO

A guerra entre Rússia e Ucrânia, intensificada a partir de fevereiro de 2022 com a invasão em larga escala do território ucraniano, constitui um dos eventos mais marcantes da política internacional contemporânea. Muito além de um conflito regional, a ofensiva russa revela um projeto geopolítico revisionista que visa restaurar a influência imperial da antiga União Soviética, desafiando normas internacionais consolidadas desde o fim da Guerra Fria.

Desde a dissolução da URSS, em 1991, a Ucrânia consolidou sua independência política e buscou aproximação com instituições ocidentais, como a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Esse movimento foi interpretado pelo Kremlin como uma ameaça estratégica, alimentando tensões que culminaram na anexação da Crimeia, em 2014, e posteriormente na intervenção militar em outras regiões do país. A narrativa construída pelo governo russo, que apresenta a Ucrânia como um Estado artificial ou subordinado historicamente à Rússia, tem sido utilizada para justificar a violação da soberania ucraniana.

Este artigo parte da hipótese de que a guerra atual reflete não apenas interesses geopolíticos, mas uma tentativa deliberada de reconstrução de uma identidade imperial russa, apoiada em revisionismo histórico, autoritarismo e negação da autodeterminação de povos vizinhos. O objetivo é analisar os fundamentos ideológicos e estratégicos da invasão russa, com base em uma revisão crítica da literatura acadêmica, documentos oficiais e relatórios de organismos internacionais. O estudo também avalia as implicações jurídicas, políticas e simbólicas desse conflito para a ordem internacional e os princípios que regem a convivência entre Estados soberanos.

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA: DA UNIÃO SOVIÉTICA À UCRÂNIA INDEPENDENTE

A compreensão da guerra entre Rússia e Ucrânia exige uma retomada histórica das origens dessas nações, cujas trajetórias políticas e culturais foram entrelaçadas, mas não idênticas. Ao contrário do que afirmam certas narrativas revisionistas promovidas pelo Kremlin, a Ucrânia possui uma identidade nacional e histórica própria, com raízes anteriores à própria constituição da Rússia como Estado.

A civilização conhecida como Rus’ de Kiev, florescente entre os séculos IX e XIII, é comumente considerada o berço cultural dos povos eslavos orientais. Fundada por povos nórdicos (variagos) e eslavos, essa entidade política tinha sua capital em Kiev e desenvolveu uma estrutura social, política e religiosa que influenciaria profundamente os futuros Estados da região. A cristianização do povo eslavo oriental em 988, sob o reinado de Vladimir, o Grande, é um marco histórico celebrado tanto por russos quanto por ucranianos; no entanto, Kiev, e não Moscou, era o centro desse processo.

Com a invasão mongol no século XIII, a Rus’ de Kiev entrou em declínio, e novos centros de poder surgiram, entre eles Moscou, que se consolidaria como núcleo da expansão do que viria a ser o Império Russo. A Ucrânia, por sua vez, ficou sob influência de diferentes potências, como o Grão-Ducado da Lituânia, a Comunidade Polaco-Lituana e, posteriormente, o Império Austro-Húngaro, desenvolvendo uma trajetória política distinta da russa.

A partir do século XVII, parte do território ucraniano foi gradualmente incorporado ao Império Russo, processo que culminou na russificação forçada, repressão cultural e tentativas de assimilação identitária. A primeira experiência de independência ucraniana ocorreu após a Revolução Russa de 1917, com a criação da República Popular da Ucrânia, rapidamente esmagada pelos bolcheviques e incorporada à recém-fundada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922.

Durante o período soviético, a Ucrânia sofreu imensamente com políticas repressivas. O episódio mais trágico foi o Holodomor (1932–1933), uma fome artificial causada pelas políticas de coletivização de Josef Stalin, que resultou na morte de milhões de ucranianos. Muitos estudiosos classificam o Holodomor como um genocídio, dada sua intencionalidade e impacto devastador sobre a população rural ucraniana. Além disso, o regime soviético promoveu o deslocamento forçado de populações, repressão à língua ucraniana e controle ideológico sobre a historiografia.

A dissolução da União Soviética em 1991 marcou um ponto de inflexão na história contemporânea da Ucrânia. Após um referendo nacional em dezembro daquele ano, mais de 90% da população ucraniana votou pela independência, inclusive em regiões com maioria étnica russa, como a Crimeia. A Federação Russa, criada a partir dos restos do aparato estatal soviético, reconheceu inicialmente a independência da Ucrânia e sua integridade territorial, inclusive por meio do Memorando de Budapeste (1994), no qual a Ucrânia abriu mão de seu arsenal nuclear em troca de garantias de segurança.

Entretanto, nos anos seguintes, a Rússia passou a reinterpretar essa história de modo revisionista, alegando que Ucrânia e Rússia seriam “um só povo”, uma visão amplamente rejeitada pela historiografia acadêmica e pela maioria da população ucraniana. Tal narrativa serve como base ideológica para as intervenções militares russas a partir de 2014, configurando um projeto neocolonialista de restauração de poder sobre o espaço pós-soviético.

REVISÃO DE LITERATURA

A guerra entre Rússia e Ucrânia tem sido amplamente debatida por especialistas em história, política internacional e geopolítica, com destaque para análises que associam o conflito ao passado soviético e ao imperialismo russo. Diversos autores defendem que o comportamento atual da Federação Russa é motivado por um projeto de revisionismo geopolítico, cujas raízes remontam à dissolução da União Soviética e à consequente perda de influência da Rússia sobre as ex-repúblicas soviéticas.

Segundo Serhii Plokhy (2015), historiador ucraniano e professor em Harvard, a história compartilhada entre Rússia e Ucrânia tem sido distorcida pelo Kremlin para justificar projetos expansionistas. Em sua obra The Gates of Europe, Plokhy argumenta que a identidade ucraniana se consolidou ao longo de séculos, frequentemente em oposição ao domínio russo, e que a ideia de que ambos os povos formam uma única nação é uma construção ideológica recente, empregada como instrumento de controle.

Timothy Snyder (2018), historiador da Universidade Yale, destaca em The Road to Unfreedom que a invasão da Crimeia e a guerra no Donbass fazem parte de um processo deliberado de negação da soberania ucraniana. Para Snyder, Putin busca restaurar uma “Rússia eterna”, na qual a democracia é descartada em nome da estabilidade e da grandeza imperial. O autor afirma: A Rússia atual não é uma continuação da União Soviética, mas uma tentativa de criar um Estado mitológico anterior à modernidade ocidental (Snyder, 2018).

Já Orlando Figes (2022), em A História da Rússia, aponta que a construção da narrativa histórica oficial russa ignora deliberadamente o papel da Ucrânia como centro da antiga Rus’ de Kiev. Figes argumenta que o nacionalismo russo contemporâneo se sustenta em um discurso de negação da alteridade ucraniana, promovido por intelectuais e elites políticas russas com o objetivo de legitimar ambições imperiais (Figes, 2022).

Além das contribuições historiográficas, estudos no campo das Relações Internacionais também interpretam o conflito sob a ótica do realismo ofensivo. John Mearsheimer (2014), por exemplo, sustenta que a expansão da OTAN para o leste foi interpretada por Moscou como uma ameaça existencial, o que explicaria parte da agressividade russa. No entanto, autores críticos dessa abordagem, como Fiona Hill e Angela Stent, afirmam que esse argumento ignora o desejo de autodeterminação das nações do leste europeu e reforça uma lógica que naturaliza o expansionismo autoritário russo.

A literatura mais recente também enfatiza o papel das memórias coletivas e da manipulação da história como instrumentos de guerra. Conforme observa Cynthia Weber (2022), a guerra híbrida promovida pela Rússia não se limita ao campo militar, mas envolve narrativas históricas fabricadas que visam enfraquecer o inimigo moral e politicamente. Nesse sentido, a desinformação torna-se uma arma de guerra tão potente quanto os mísseis e tanques.

Portanto, a revisão de literatura aponta para um consenso entre os estudiosos de que a guerra da Rússia contra a Ucrânia não é um conflito meramente territorial ou de segurança, mas sim parte de uma estratégia de reconstrução imperial. A combinação entre revisionismo histórico, autoritarismo e manipulação ideológica caracteriza a atuação russa como uma ameaça direta à ordem internacional baseada em normas e soberania.

VIOLAÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL PELA RÚSSIA NA INVASÃO DA UCRÂNIA

A invasão da Ucrânia pela Rússia configura uma grave violação ao direito internacional contemporâneo, especialmente aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas (1945), que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado (art. 2º, § 4º). Ao lançar uma ofensiva militar em larga escala contra um Estado soberano, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU e sem base em legítima defesa, a Federação Russa rompe com normas básicas da convivência internacional.

O Memorando de Budapeste de 1994 é outro documento internacional relevante nesse contexto. Nele, a Rússia, juntamente com os Estados Unidos e o Reino Unido, comprometeu-se a respeitar as fronteiras e a soberania da Ucrânia em troca da renúncia, por parte dos ucranianos, ao seu arsenal nuclear herdado da União Soviética. A violação desse acordo não apenas compromete a credibilidade da Federação Russa como ator internacional, mas também abala a confiança em instrumentos multilaterais de não proliferação nuclear (Slobozhan, 2022).

Organismos internacionais como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e a Corte Internacional de Justiça (CIJ) emitiram declarações e pareceres condenando a agressão russa. A Assembleia Geral das Nações Unidas também aprovou, em março de 2022, a Resolução ES-11/1, que condena inequivocamente a invasão e exige a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia. Ainda que essas resoluções não tenham força vinculante, elas revelam o isolamento diplomático da Rússia e a ampla reprovação da comunidade internacional.

Além da violação da soberania ucraniana, há denúncias de crimes de guerra cometidos pelas forças russas, como ataques deliberados contra civis, uso de munições proibidas e destruição de infraestrutura civil vital (AI, 2022). Tais ações afrontam os Princípios de Genebra e o Estatuto de Roma, do qual a Ucrânia é signatária. O Tribunal Penal Internacional (TPI) abriu investigações formais sobre possíveis crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio no território ucraniano.

A GUERRA DE PROPAGANDA E DESINFORMAÇÃO COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA RUSSA

A ofensiva russa contra a Ucrânia vai além do campo militar e territorial: ela inclui uma sofisticada guerra informacional voltada à manipulação da opinião pública, deslegitimação do inimigo e erosão da confiança nas instituições democráticas. Essa prática, que integra a chamada guerra híbrida, combina elementos de desinformação, ciberataques e propaganda estatal.

Desde 2014, com a anexação da Crimeia, o Kremlin passou a intensificar o uso de narrativas históricas manipuladas, apresentando a Ucrânia como um Estado artificial e governado por neonazistas. Essa retórica, apesar de infundada, é amplamente difundida por meios de comunicação estatais russos, como a RT (Russia Today) e a Sputnik News, e replicada por redes sociais com o auxílio de bots, fake news e perfis falsos (RID, 2022).

Timothy Snyder (2022) argumenta que a propaganda russa se sustenta na “política do inevitável”, em que a história é distorcida para validar ações presentes, naturalizando a submissão da Ucrânia e demonizando o Ocidente. O discurso sobre “desnazificação”, por exemplo, é amplamente rebatido por analistas e historiadores, uma vez que a Ucrânia é uma república democrática cujo presidente, Volodymyr Zelensky, é judeu.

A guerra cibernética também tem sido uma frente ativa do conflito. A Ucrânia foi alvo de múltiplos ataques a sistemas bancários, redes elétricas e instituições públicas, muitos deles atribuídos a grupos hackers ligados ao serviço de inteligência russo (GRU). Essas ações visam gerar caos interno, dificultar a resposta estatal e desmoralizar a resistência ucraniana.

Além da dimensão interna, a desinformação russa também atua sobre públicos externos. Campanhas foram detectadas na América Latina, África e Europa, com o objetivo de enfraquecer o apoio internacional à Ucrânia e gerar confusão sobre as responsabilidades pelo conflito (EEAS, 2023). Essa estratégia evidencia o uso da informação como arma, e torna-se um dos maiores desafios contemporâneos à segurança internacional e à democracia.

METODOLOGIA

Este artigo adota uma abordagem qualitativa e exploratória, com base em pesquisa bibliográfica e documental, tendo como objetivo compreender as motivações geopolíticas da Rússia na guerra contra a Ucrânia, especialmente sob a ótica do revisionismo histórico e da tentativa de reconstrução de uma esfera de influência semelhante à da extinta União Soviética.

A investigação foi estruturada a partir de fontes primárias e secundárias. Entre as fontes primárias, foram analisados discursos oficiais de líderes políticos, declarações da Organização das Nações Unidas (ONU), resoluções da Assembleia Geral, pronunciamentos da OTAN, documentos da União Europeia e do Tribunal Penal Internacional (TPI), além de trechos de entrevistas e comunicados dos governos russo e ucraniano.

As fontes secundárias consistem em obras acadêmicas de referência na área de história, relações internacionais e direito internacional, com destaque para autores como Serhii Plokhy (2015), Timothy Snyder (2018, 2022), Orlando Figes (2022) e Thomas Rid (2020), entre outros. Também foram incluídos artigos científicos indexados em bases como Scopus, JSTOR e Scielo, além de relatórios de organizações como a Amnesty International, o European External Action Service (EEAS) e o International Crisis Group.

A análise dos dados foi orientada por uma perspectiva geopolítica crítica, que considera os discursos, narrativas e ações como instrumentos de poder e dominação simbólica. Foram observados elementos como: (i) manipulação histórica e mitos fundacionais no discurso político russo; (ii) a violação de normas internacionais; e (iii) o uso da desinformação como ferramenta estratégica na guerra híbrida.

A metodologia não busca quantificar impactos materiais do conflito, mas sim interpretar os significados políticos, simbólicos e jurídicos da guerra, a partir da interação entre atores estatais e instituições internacionais. Essa estratégia permite compreender a invasão da Ucrânia não como um evento isolado, mas como parte de um processo histórico e ideológico mais amplo.

ANÁLISE E DISCUSSÃO

A análise do conflito entre Rússia e Ucrânia à luz do revisionismo geopolítico evidencia que a invasão não se resume a disputas territoriais ou a preocupações legítimas de segurança. Trata-se de uma ação planejada e sustentada por uma narrativa histórica distorcida, que visa justificar o ressurgimento de uma esfera de influência russa sobre o espaço pós-soviético. Essa visão, articulada pelo presidente Vladimir Putin em diversos discursos, resgata a ideia de que russos e ucranianos formam “um único povo”, negando à Ucrânia sua autonomia histórica e política (Putin, 2021).

A reinterpretação da história — negando a centralidade da Rus’ de Kiev na formação da identidade ucraniana e minimizando eventos como o Holodomor, serve como base ideológica para o expansionismo russo, como demonstram os estudos de Plokhy (2015) e Figes (2022). A propaganda do Kremlin, ao rotular o governo ucraniano como “neonazista”, distorce deliberadamente o passado para criar uma justificativa moral para a guerra, deslegitimando a resistência ucraniana e a democracia representada por seu presidente judeu.

Além da manipulação histórica, o comportamento da Rússia evidencia uma violação sistemática das normas do direito internacional, como o artigo 2º da Carta das Nações Unidas e os compromissos firmados no Memorando de Budapeste. A recusa russa em aceitar a soberania ucraniana é acompanhada por ações que atentam contra a integridade civil e institucional da Ucrânia, incluindo bombardeios contra alvos não militares, denúncias de crimes de guerra e perseguições em áreas ocupadas.

O apoio de potências ocidentais à Ucrânia, como a entrega de armamentos, apoio financeiro e sanções à Rússia, configura um cenário de guerra indireta ou por procuração, que remete à lógica da Guerra Fria. No entanto, diferentemente do período bipolar clássico, o atual conflito é marcado por novas tecnologias e pela guerra híbrida, em que a desinformação, os ciberataques e as campanhas de propaganda têm papel central. Como argumenta Rid (2020), a Rússia tornou a informação uma arma estratégica de primeiro nível.

Internamente, o governo russo impõe censura a veículos de imprensa independentes e criminaliza manifestações contra a guerra, construindo um ambiente de controle ideológico total. Externamente, promove campanhas sistemáticas de desinformação em redes sociais, visando desacreditar instituições ocidentais, dividir a opinião pública internacional e ampliar sua influência em regiões como América Latina e África (EEAS, 2023).

Essa combinação de autoritarismo, revisionismo histórico, agressão militar e manipulação da informação permite afirmar que a política externa russa sob Vladimir Putin representa uma ameaça à ordem internacional liberal baseada em regras. A Ucrânia torna-se, nesse contexto, não apenas uma vítima direta da violência imperialista, mas também um símbolo da resistência democrática contra o avanço de regimes autoritários com ambições expansionistas.

Dessa forma, o conflito em curso assume um caráter paradigmático: ele é ao mesmo tempo um episódio de guerra territorial, um embate simbólico entre projetos de mundo e um alerta global sobre os riscos do colapso das instituições multilaterais diante de violações impunes do direito internacional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada com a anexação da Crimeia em 2014 e intensificada com a invasão em larga escala em 2022, representa muito mais do que um conflito regional. A análise desenvolvida neste artigo permite concluir que a ofensiva russa está inserida em um projeto geopolítico revisionista, orientado pela nostalgia imperial e pela tentativa de reconfiguração da ordem internacional em moldes autoritários.

A utilização de uma narrativa histórica distorcida, que nega a existência de uma identidade ucraniana autônoma e reivindica a unidade forçada entre os povos eslavos orientais, sustenta ideologicamente a agressão militar. Essa narrativa, promovida pelo Kremlin, ignora eventos históricos como o Holodomor, o referendo de independência de 1991 e os compromissos internacionais assumidos pela própria Rússia no pós-Guerra Fria, como o Memorando de Budapeste.

A atuação da Rússia configura uma violação direta ao direito internacional, à soberania da Ucrânia e aos princípios fundamentais das Nações Unidas. Além disso, o uso sistemático da desinformação, da censura interna e da propaganda externa reforça o caráter híbrido do conflito, no qual as armas convencionais são complementadas por estratégias psicológicas e informacionais que desafiam os fundamentos das democracias contemporâneas.

A resistência ucraniana, com apoio da comunidade internacional, tornou-se um símbolo de defesa não apenas da integridade territorial, mas também dos valores democráticos. No entanto, o prolongamento da guerra e a impunidade das ações russas colocam em xeque a eficácia dos mecanismos multilaterais de segurança coletiva e evidenciam a urgência de reformas estruturais no sistema internacional.

Portanto, o conflito na Ucrânia deve ser compreendido como um marco histórico do século XXI, cujos desdobramentos afetarão profundamente o equilíbrio global, a estabilidade regional e a credibilidade das instituições internacionais. Cabe à comunidade internacional não apenas condenar a violação em curso, mas também agir de forma firme e coordenada para conter o avanço de projetos autoritários e revisionistas que ameaçam a paz e a autodeterminação dos povos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Castanho, Luiz Tadeu Sichero . A invasão da Ucrânia pela Rússia: Revisionismo geopolítico e a nostalgia da União Soviética.International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
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Acesso em: 2024-09-03.

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