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Resumo
INTRODUÇÃO
A religiosidade afro-brasileira, em especial o Candomblé, é um patrimônio cultural que incorpora saberes ancestrais ligados à natureza, especialmente às plantas medicinais e rituais, conhecidas como ervas sagradas. Essas ervas desempenham papel central nas práticas religiosas, utilizadas em banhos, defumações, oferendas e curas espirituais, consolidando-se como elementos simbólicos e práticos no culto aos orixás (Santos; Moura, 2017). O conhecimento tradicional sobre essas plantas é transmitido oralmente nas comunidades, configurando um sistema complexo de saberes integrados à identidade cultural e espiritual dos praticantes.
Em Baía Formosa, no estado do Rio Grande do Norte, o Candomblé possui uma presença sentida desde meados do século XX, tendo crescido em meio à urbanização e às transformações sociais. A cidade, reconhecida por sua diversidade cultural, abriga apenas um terreiro que mantêm viva a tradição afro-brasileira, incluindo o manejo e uso das ervas na liturgia e práticas curativas (Alves; Pereira, 2019). Contudo, a modernidade impõe desafios à preservação desse conhecimento: mudanças ambientais, pressões urbanas e influências externas alteram as formas tradicionais de cultivo e transmissão dos saberes.
Esse cenário demanda uma reflexão sobre como o conhecimento tradicional das ervas está sendo transformado no contexto atual, o que envolve aspectos sociais, culturais e ambientais, bem como as perspectivas de resistência e adaptação nas comunidades religiosas (Oliveira; Costa, 2021).
Este estudo tem como objetivo geral analisar as transformações ocorridas no conhecimento tradicional das ervas utilizadas nos terreiros de Candomblé em Campina Grande/PB, considerando os impactos da modernidade sobre suas práticas, significados e formas de transmissão.
Para isso, busca-se, especificamente, compreender o papel simbólico e ritual das ervas no contexto religioso do Candomblé e sua importância na construção identitária das comunidades afro-religiosas; investigar os desafios enfrentados pelos terreiros na preservação e cultivo dessas plantas em meio às pressões urbanas, ambientais e socioculturais; e identificar estratégias de resistência e adaptação adotadas pelas comunidades religiosas para manter vivos os saberes tradicionais, como práticas de cultivo sustentável, cooperação com agricultores e uso de sementes crioulas.
O estudo se justifica pela importância de documentar e compreender os processos de transformação dos saberes tradicionais, fundamentais para a preservação cultural das comunidades afro-brasileiras. As ervas não são apenas recursos naturais, mas também símbolos de resistência, identidade e religiosidade. Em um contexto de crescente urbanização e modernização, a perda ou descaracterização desses saberes pode representar um enfraquecimento cultural e espiritual.
REFERENCIAL TEÓRICO
O CANDOMBLÉ EM BAÍA FORMOSA/RN: CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL
A presença do Candomblé em Baía Formosa, município situado no litoral sul potiguar, remonta ao período das caravelas de exploração de pau-brasil, quando migrantes negros provenientes de outras regiões do Nordeste e do Brasil trouxeram consigo suas práticas religiosas, culturais e seus saberes ancestrais. Este processo de formação dos terreiros na cidade está intimamente ligado à história da diáspora africana, resistência cultural e construção de identidades afro-brasileiras no contexto urbano (Silva; Moura, 2017).
O único terreiro de Candomblé em Baía Formosa emergiu, como um baluarte de resistência e preservação cultural, erguidos em resposta às adversidades sociais impostas pelo racismo e pela marginalização das religiões de matriz africana. Em um contexto histórico marcado pela discriminação e pela tentativa de apagamento das identidades afrodescendentes, essas comunidades religiosas se consolidaram como espaços de sociabilidade, proteção e manutenção dos valores espirituais dos povos africanos.
Mais especificamente, os grupos banthus e indígenas exerceram uma influência determinante nas práticas religiosas locais, transmitindo conhecimentos, rituais e cosmologias que se mantêm vivos até os dias atuais. Nesse terreiro, a cultura africana encontrou um refúgio, onde os membros da comunidade podiam expressar livremente sua fé, celebrar seus ancestrais e compartilhar seus saberes, resistindo à opressão e reafirmando a importância de suas raízes. Além de sua dimensão religiosa, os terreiros se constituíram como centros de apoio mútuo, onde os indivíduos encontravam amparo, solidariedade e um senso de pertencimento, fundamentais para enfrentar as dificuldades decorrentes da exclusão social e da discriminação racial (Ferreira, 2018).
Ao longo do século XX, o terreiro se consolidou no centro urbano da cidade, ocupando espaços que garantiam certa autonomia para a realização de rituais, cultos e transmissões de saberes. A formação desses espaços religiosos também se deu através da mobilização comunitária e da troca intergeracional, mantendo viva a tradição dos cânticos, danças, liturgias e o uso das ervas sagradas, elementos fundamentais do Candomblé (Gomes; Almeida, 2020).
Além da função espiritual, os terreiros desempenham um papel crucial na cultura local, atuando como centros de resistência étnico-racial e difusão da identidade afro-brasileira. As celebrações religiosas, festivais, e manifestações culturais relacionadas ao Candomblé tornaram-se parte integrante da vida cultural de Baía Formosa, influenciando a música, a dança, a culinária e as artes visuais (Souza; Pereira, 2019).
A influência do Candomblé também se manifesta na valorização dos saberes tradicionais das ervas e na preservação da relação simbiótica com o meio ambiente, aspectos que reverberam no cotidiano da população, sobretudo entre os praticantes da religião e seus familiares. Esta conexão cultural e espiritual contribui para o fortalecimento da identidade negra local e para o reconhecimento da diversidade religiosa, apesar dos desafios enfrentados em um contexto urbano marcado por preconceitos e estigmatizações (Martins, 2021).
A crescente valorização da religiosidade afro-brasileira em Campina Grande não se restringe apenas à dimensão espiritual dos terreiros, mas se reflete em sua crescente participação em movimentos sociais, culturais e políticos. Essa ampliação de atuação tem impulsionado a visibilidade da religião, colocando em foco debates fundamentais sobre direitos humanos, liberdade religiosa e a preservação do patrimônio cultural afro-brasileiro (Costa, 2022).
ERVAS NO CANDOMBLÉ
As ervas desempenham papel central no Candomblé, uma religião de matriz africana que valoriza profundamente a natureza e seus elementos como manifestações do divino. O uso ritualístico das plantas é multifacetado, incluindo desde a purificação dos espaços sagrados até a preparação de banhos, defumações, oferendas e remédios tradicionais (Ferreira; Santos, 2019).
No âmbito ritualístico, as ervas são utilizadas para invocar, agradar e comunicar-se com os orixás — entidades divinas que governam forças da natureza e aspectos da vida humana. Cada orixá está associado a determinadas plantas que carregam significados específicos e energias particulares, tornando o manejo dessas ervas um ato sagrado e ritualizado (Souza; Lima, 2021). A escolha das ervas, seu preparo e aplicação obedecem a saberes ancestrais e tradições passadas de geração em geração dentro dos terreiros.
Além do uso ritualístico, as ervas têm função medicinal dentro do Candomblé, integrando práticas de cura que combinam o corpo físico e o espiritual. Muitos praticantes recorrem às plantas para tratar doenças físicas, espirituais e psíquicas, reconhecendo a saúde como um estado de equilíbrio entre corpo, mente e espírito (Martins et al., 2020). Essa visão holística reflete uma epistemologia que valoriza o conhecimento tradicional, diferenciando-se dos modelos biomédicos ocidentais, ao integrar o sagrado no cuidado da saúde.
Simbolicamente, as ervas transcendem sua materialidade física, representando as forças da natureza e os ancestrais que permeiam a cosmologia do Candomblé. Cada planta carrega consigo uma energia e um poder específico, estabelecendo uma conexão entre o mundo terreno e o espiritual, atuando como mediadoras entre os seres humanos e as divindades. Essa percepção das ervas como portais para o sagrado confere a elas um papel central nos rituais e nas práticas de cura, onde a utilização das plantas não se limita ao tratamento de doenças físicas, mas abrange a busca pelo equilíbrio e pela harmonia espiritual.
O uso das plantas, portanto, reforça a identidade cultural e religiosa dos praticantes, reafirmando seu pertencimento a uma comunidade com história, valores e tradições próprias. Ao manipular as ervas, os membros do Candomblé perpetuam saberes ancestrais, transmitindo conhecimentos e memórias que sustentam a continuidade da religião enquanto prática viva (Alves; Pereira, 2017). As plantas simbolizam a continuidade do vínculo entre os humanos e seus orixás, expressando o respeito e a reciprocidade que são fundamentais para a manutenção dessa relação sagrada. Essa conexão entre o mundo material e o espiritual, mediada pelas ervas, revela a complexidade e a profundidade da religiosidade afro-brasileira, que se manifesta não apenas nas práticas religiosas, mas também na vida cotidiana de seus adeptos.
No universo do Candomblé, as ervas são entendidas como manifestações tangíveis dos orixás na natureza. Cada orixá possui suas ervas sagradas, que funcionam como símbolos e canais para sua presença e poder nos terreiros. Por exemplo, a arruda está associada a Xangô, o alecrim a Ogum, e o manjericão a Oxalá, entre outras plantas que possuem conexões específicas e são indispensáveis nos rituais (Costa; Ferreira, 2018).
Essa conexão se manifesta em múltiplas práticas, como banhos de ervas para proteção, descarrego e fortalecimento espiritual, que visam harmonizar o indivíduo com a energia do orixá regente (Silva; Oliveira, 2016). As ervas também são utilizadas na confecção de patuás, defumações e elementos para altares, cada um com uma finalidade espiritual específica, reafirmando a presença e a ação dos orixás no cotidiano dos praticantes.
A importância das ervas para a conexão com os orixás transcende o âmbito estritamente religioso, atuando como um elo vital que reforça vínculos comunitários e identitários. Ao mesmo tempo que servem como instrumentos espirituais, as plantas também simbolizam a continuidade e a transmissão dos saberes ancestrais, unindo gerações em torno de práticas que celebram a origem e a história das comunidades afro-religiosas. O cuidado dedicado ao cultivo e à manutenção das ervas — seja em espaços próprios ou adaptados nos contextos urbanos — propicia não apenas a preservação de conhecimentos, mas também o fomento de uma rede de solidariedade e suporte mútuo.
Nesse processo, o compartilhamento dos saberes, a realização de rituais e a transmissão de tradições atuam como catalisadores de uma identidade coletiva, contribuindo para o fortalecimento dos laços sociais em um cenário urbano desafiador. Em locais como Campina Grande, onde as pressões da modernização e a escassez de espaços dedicados às práticas culturais ameaçam a continuidade das tradições, as ervas assumem papel central na valorização e preservação de um patrimônio imaterial. Essas práticas, ao unir o cuidado com a natureza e a vivência coletiva dos rituais, oferecem não só um refúgio espiritual, mas também uma forma de resistência e afirmação da identidade, permitindo que as comunidades afro-religiosas mantenham seus espaços e tradições mesmo diante das adversidades contemporâneas (Nascimento; Costa, 2022).
As culturas tradicionais, como a do terreiro de Candomblé em Baía Formosa, têm visto seus saberes ancestrais enfrentarem desafios impostos pela modernidade, que frequentemente privilegia a homogeneização cultural, o consumismo e a ciência hegemônica, relegando saberes empíricos e modos de vida ancestrais a um segundo plano (Santos; Almeida, 2018). Essa pressão pode gerar perda, desvalorização e até mesmo a descaracterização dos saberes tradicionais, afetando a identidade e a continuidade cultural dessas comunidades.
A modernidade traz consigo a secularização dos espaços e uma visão de mundo orientada para a objetividade e a tecnologia, o que muitas vezes entra em choque com a religiosidade e as práticas simbólicas baseadas no sagrado e na relação harmoniosa com a natureza (Pereira; Gomes, 2019). Essa tensão gera conflitos e a necessidade de estratégias de resistência, adaptação e ressignificação por parte das comunidades tradicionais, que buscam preservar seus conhecimentos e práticas frente às mudanças sociais.
A TRANSFORMAÇÃO DO CONHECIMENTO TRADICIONAL DAS ERVAS
O conhecimento tradicional sobre as ervas utilizado nas práticas religiosas e medicinais vem sofrendo significativas transformações nas últimas décadas (Santos et al., 2017). Tais mudanças refletem não apenas as transformações urbanas e ambientais, mas também as tensões e diálogos entre saberes ancestrais e o avanço da ciência moderna.
O processo acelerado de urbanização, especialmente em cidades como Campina Grande, provoca impacto direto sobre as práticas tradicionais de cultivo e coleta das ervas sagradas para o Candomblé e outras religiões de matriz africana. À medida que o espaço urbano se expande, áreas rurais e naturais são substituídas por construções, dificultando o acesso a locais propícios para o cultivo em larga escala (Almeida; Pereira, 2017).
Os terreiros urbanos frequentemente enfrentam restrições físicas, legais e ambientais para manter hortas tradicionais, que exigem espaço, condições climáticas e solo específicos. A contaminação do solo e a poluição atmosférica nas cidades representam desafios adicionais para o cultivo saudável das plantas, comprometendo sua qualidade e propriedades medicinais (Silva; Moura, 2017). Essa realidade impõe a necessidade de adaptação dos praticantes, que precisam buscar soluções criativas para preservar a tradição de uso das ervas em ambientes limitados.
Diante das limitações urbanas, os adeptos do Candomblé e outros saberes ancestrais têm adotado alternativas para manter viva a prática do cultivo e uso das ervas. Uma das estratégias consiste na implantação de hortas verticais, vasos suspensos e pequenos jardins em quintais ou espaços comunitários, que permitem o aproveitamento de áreas reduzidas (Fonseca et. al., 2019).
Por meio desse relacionamento, os saberes tradicionais são mantidos e adaptados às novas realidades, fortalecendo a identidade cultural e a autonomia das comunidades locais. Ademais, essa articulação solidária estimula a criação de redes de apoio mútuo, onde o conhecimento ancestral e os métodos sustentáveis se integram de forma a promover a segurança alimentar, a preservação ambiental e a resiliência frente a desafios contemporâneos, contribuindo significativamente para a continuidade dos cultivos tradicionais (Santos et al., 2017).
Outra alternativa importante para a valorização dos saberes tradicionais e a preservação dos recursos naturais está na prática da coleta sustentável em áreas naturais remanescentes. Essa abordagem preza por uma utilização consciente dos recursos, respeitando rigorosamente os ciclos e tempos impostos pela natureza. Ao adotar técnicas como a extração seletiva e a rotação de áreas de coleta, as comunidades garantem não apenas o reaproveitamento dos recursos disponíveis, mas também a regeneração dos ecossistemas.
Por fim, o uso de sementes crioulas e o resgate de variedades tradicionais têm sido incentivados para preservar a biodiversidade das plantas utilizadas nos rituais e medicinas. Essa iniciativa não apenas protege o patrimônio biocultural, mas também fortalece a autonomia das comunidades de agricultores e curandeiros ao reafirmarem suas práticas tradicionais frente à crescente homogeneização dos cultivos.
A adoção de sementes crioulas evidencia uma resistência tanto cultural quanto ambiental, permitindo que espécies adaptadas às condições locais continuem a florescer e a ser transmitidas de geração em geração. Esse movimento de valorização das variedades antigas estimula, ainda, a inovação a partir do saber tradicional, ao promover práticas agrícolas que combinam conhecimentos ancestrais com técnicas modernas de manejo sustentável, fortalecendo a resiliência dos sistemas agroecológicos e contribuindo para a segurança alimentar e a preservação dos ecossistemas (Gomes; Almeida, 2020).
A interface entre o conhecimento tradicional das ervas e a ciência moderna tem gerado tanto oportunidades quanto desafios, configurando um campo fértil para a inovação e o diálogo intercultural. Por um lado, áreas como a etnobotânica e a fitoterapia têm reconhecido a importância dos saberes ancestrais como fontes ricas para o desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos naturais (Oliveira; Costa, 2021). Essa convergência entre práticas tradicionais e pesquisas laboratoriais tem permitido a identificação de compostos bioativos que podem revolucionar os tratamentos médicos, promovendo terapias mais integrativas e menos invasivas.
Contudo, esse mesmo encontro também tem exposto tensões, uma vez que a exploração comercial dos recursos naturais e dos conhecimentos tradicionais, sem a devida proteção legal e ética, pode levar à biopirataria e ao desrespeito aos direitos das comunidades originárias. Dessa forma, é fundamental estabelecer políticas que assegurem o reconhecimento e a compensação justa aos detentores desses saberes, promovendo um equilíbrio que valorize tanto a inovação científica quanto a preservação dos direitos culturais e ambientais (Silva; Almeida, 2020).
No entanto, a apropriação comercial e científica dos saberes tradicionais, muitas vezes realizada sem o reconhecimento adequado ou a compensação pelas comunidades originárias, tem fomentado intensas discussões éticas e conflitos sobre biopirataria e direitos de propriedade intelectual. Essa prática, que se manifesta na extração dos conhecimentos sobre plantas medicinais e rituais sem o estabelecimento de protocolos de repartição de benefícios, evidencia uma desigualdade histórica na relação entre detentores do saber e grandes interesses de mercado.
Esse distanciamento entre a ciência moderna e a visão holística tradicional gera desafios para a integração dos dois campos, mas também aponta para oportunidades de inovação, como o surgimento de terapias integrativas que combinam métodos clínicos com rituais de cura. Assim, fomentar um diálogo respeitoso e interdisciplinar entre ambos os paradigmas é primordial para que se reconheça e preserve a complexidade dos saberes ancestrais, promovendo uma abordagem de saúde mais completa e humanizada (Fonseca et. al., 2019).
METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como exploratória, com o objetivo de proporcionar uma compreensão aprofundada sobre as transformações do conhecimento tradicional das ervas em um terreiro de Candomblé em Baía Formosa/RN. A abordagem adotada é qualitativa, pois busca interpretar os significados atribuídos às práticas com ervas no contexto religioso, social e cultural das comunidades afro-brasileiras.
Para tanto, a pesquisa adotou uma abordagem metodológica qualitativa que privilegiou o contato direto e o engajamento com as comunidades envolvidas. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com lideranças religiosas, como pais e mães de santo, que não apenas detêm o conhecimento ritualístico, mas também atuam de forma determinante na preservação e transmissão dos saberes tradicionais.
Essas entrevistas foram planejadas para criar um ambiente de diálogo aberto, onde as experiências vivenciadas pelos participantes pudessem ser compartilhadas livremente, revelando a complexidade dos processos de formação e manutenção dos rituais que utilizam as ervas sagradas. A seleção criteriosa dos participantes levou em conta a relevância simbólica e a atuação prática dessas lideranças, garantindo que as diversas vozes presentes nos terreiros fossem representadas e valorizadas.
Simultaneamente, as observações em campo desempenharam um papel primordial para a compreensão do contexto situacional dos terreiros e dos rituais. Durante as visitas, foi possível acompanhar, de forma etnográfica, a dinâmica dos espaços sagrados, onde normas e ritmos próprios se manifestam de maneira visível.
Essa imersão permitiu ao pesquisador captar não apenas os atos e gestos associados às práticas, mas também o ambiente emocional e social que permeia esses encontros, evidenciando como os saberes são vivenciados e ressignificados no cotidiano das comunidades. O respeito às tradições e a conduta discreta adotada durante as observações facilitaram um acesso mais genuíno às interações e contribuíram para uma compreensão mais profunda dos códigos simbólicos que regem os rituais.
Complementando as abordagens de campo, a análise documental agregou uma dimensão histórica e teórica essencial ao estudo. Foram examinados registros, textos religiosos e produções acadêmicas que dialogam com o universo dos saberes tradicionais e das práticas de utilização das ervas sagradas.
Essa análise permitiu o cruzamento de informações empíricas com debates teóricos, contribuindo para a identificação de padrões e a compreensão das estratégias de resistência, adaptação e transmissão desses conhecimentos no ambiente urbano contemporâneo. Ao utilizar a técnica de análise de conteúdo, os dados foram organizados e categorizados de modo a destacar não só os aspectos formais dos rituais, mas também as articulações simbólicas e as relações de poder que influenciam a preservação e o resgate dos saberes ancestrais.
Juntas, essas abordagens metodológicas possibilitaram a construção de um panorama abrangente e detalhado, no qual o confronto entre práticas tradicionais e contextos urbanos modernos se apresenta como um campo de negociação entre o passado e o presente. A integração de entrevistas, observações em campo e análise documental reforça a importância de métodos diversificados para captar a riqueza e a complexidade dos processos culturais, evidenciando como os saberes sagrados se adaptam, se transformam e se perpetuam em face dos desafios impostos pela modernidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos a partir da observação do terreiro de Candomblé em Baía Formosa/RN e da análise das falas dos(as) entrevistados(as) evidenciam que o conhecimento tradicional das ervas continua desempenhando um papel essencial na prática religiosa e na construção identitária das comunidades afro-religiosas locais. As ervas sagradas permanecem integradas aos rituais, banhos, defumações, oferendas e práticas de cura espiritual, sendo tratadas não apenas como elementos naturais, mas como portadoras de axé e de vínculos com os orixás (Santos; Moura, 2017; Costa; Ferreira, 2018).
Contudo, os terreiros enfrentam desafios significativos diante da urbanização acelerada, que não só remodela a paisagem urbana, mas também desencadeia uma série de impactos ambientais adversos. Com a expansão das construções e a impermeabilização dos solos, a disponibilidade de áreas verdes tem diminuído drasticamente, comprometendo condições ideais para o cultivo de ervas sagradas.
As áreas destinadas à agricultura tradicional vão se reduzindo, enquanto a poluição atmosférica e a contaminação do solo, oriundas de atividades industriais e do tráfego intenso, afetam negativamente a qualidade e a biodiversidade das plantas utilizadas nos rituais. Esse cenário impõe limitações que não apenas dificultam a manutenção do cultivo tradicional, mas também ameaçam a transmissão dos saberes ancestrais, uma vez que os elementos essenciais para a prática cultural se tornam escassos (Almeida; Pereira, 2017).
Essa limitação na oferta e na qualidade das ervas tem impulsionado muitas casas religiosas a adotarem estratégias adaptativas inovadoras, evidenciando a resiliência e a criatividade dos terreiros na preservação dos saberes ancestrais. Diante da escassez de espaço e condições para o cultivo tradicional, têm sido implementadas alternativas como o cultivo em vasos e hortas verticais, técnicas que permitem otimizar o uso de ambientes urbanos limitados.
A construção de parcerias com agricultores periurbanos possibilita o acesso a áreas com condições mais favoráveis para o cultivo, estabelecendo uma rede colaborativa que integra saberes tradicionais com práticas modernas de manejo. Essas iniciativas não só garantem a continuidade dos cultivos essenciais para os rituais, mas também demonstram a capacidade de adaptação das casas religiosas aos desafios contemporâneos, promovendo uma interação sustentável entre o ambiente urbano e as práticas culturais milenares (Fonseca et al., 2019).
Observou-se uma crescente preocupação com a sustentabilidade no uso das ervas, refletindo uma abordagem que transcende a utilização dos recursos naturais para fins puramente comerciais e econômicos. Por meio da adoção de práticas de coleta seletiva, as comunidades asseguram que a extração das ervas respeite os ritmos e ciclos da natureza, favorecendo a regeneração das espécies e mantendo o equilíbrio dos ecossistemas.
Esse cuidado ambiental se manifesta, por exemplo, quando os coletores evitam áreas de reprodução das plantas ou quando seguem calendários específicos que indicam os períodos ideais para a coleta, garantindo que as populações vegetais não sejam degradadas ao longo do tempo (Oliveira; Costa, 2021). Ademais, o incentivo ao uso de sementes crioulas mostra um compromisso com a manutenção da diversidade genética, preservando características originais que muitas vezes se perdem em processos de hibridização industrializada.
Esse movimento sustentável revela uma articulação intrínseca entre espiritualidade e cuidado ambiental, amplificando a visão de mundo presente nas tradições religiosas afro-brasileiras. Nessa perspectiva, a natureza é valorizada não apenas como fonte de insumos para as práticas rituais, mas como uma entidade viva e sagrada, que merece respeito e proteção. Essa visão holística impulsiona rituais e práticas que reverenciam a vida em todas as suas formas, evidenciando uma relação de reciprocidade entre o ser humano e o meio ambiente.
Assim, a sustentabilidade passa a ser entendida como um ato de respeito não só ao planeta, mas também aos ancestrais e à tradição que molda essas práticas espirituais. Em um contexto de crescente pressão ambiental e urbana, a integração desses valores tradicionais torna-se uma estratégia vital para a preservação dos saberes ancestrais e para a manutenção de um equilíbrio ecológico e cultural, desafiando paradigmas modernos que, muitas vezes, promovem a exploração descontrolada dos recursos naturais (Martins et. al., 2020).
A pesquisa destacou, de forma contundente, que o diálogo entre os saberes tradicionais e a ciência moderna é permeado por tensões que vão além da simples divergência metodológica. Enquanto áreas como a etnobotânica e a fitoterapia reconhecem e valorizam as propriedades terapêuticas das ervas por meio do estudo dos compostos e dos efeitos observados nos tratamentos, a abordagem biomédica tende, muitas vezes, a reduzir as plantas a meros depósitos de princípios ativos isolados (Fonseca et al., 2019). Essa visão fragmentada ignora os aspectos simbólicos e espirituais que são intrínsecos às tradições, onde a erva é vista não apenas como um recurso físico, mas como um ser dotado de energia, capaz de estabelecer uma conexão com o sagrado e com os elementos naturais.
Essa redução dos saberes tradicionais à mera biologia desconsidera a complexidade dos sistemas culturais que envolvem a planta, os rituais e as práticas que a cercam. Nas comunidades, as ervas são empregadas em contextos que vão além do tratamento físico, envolvendo rituais, crenças e simbolismos que promovem a integralidade do ser humano e a harmonização com a natureza (Silva; Moura, 2017).
A partir dessa perspectiva, a eficácia dos remédios naturais não se restringe à punção de um composto químico, mas é resultado de uma interação profunda entre sujeito, cultura e ambiente. Tal descompasso entre os paradigmas enfatiza a necessidade urgente de se estabelecer um diálogo intercultural mais sensível e abrangente, que permita a integração das abordagens científicas e tradicionais de forma a enriquecer ambos os campos.
Este cenário aponta para a importância de reconhecer os saberes das comunidades indígenas e afro-brasileiras como legítimos e eficazes, possuindo um potencial transformador para a prática médica e terapêutica. A promoção de abordagens integrativas, que levem em conta tanto a precisão dos métodos biomédicos quanto a integralidade e o simbolismo das tradições, podem abrir novas perspectivas para a saúde. O fortalecimento desse diálogo não só valorizaria os conhecimentos ancestrais, mas também incentivaria a criação de políticas que protejam e promovam os direitos das comunidades detentoras desses saberes, contribuindo para um modelo de cuidado de saúde mais holístico e humanizado (Martins et al., 2020; Fonseca et al., 2019).
Por fim, a presença ativa do terreiro em movimentos de resistência cultural e política demonstra que a preservação do uso ritualístico das ervas é, ao mesmo tempo, um ato de afirmação identitária e um instrumento de luta pelos direitos da população negra e pela diversidade religiosa. Essa atuação vai além do simples resgate de práticas ancestrais, configurando-se como uma resposta estratégica às pressões de um contexto social historicamente marcado por estigmatizações e preconceitos. A mobilização desses espaços sagrados evidencia a importância de manter viva a memória coletiva e os saberes tradicionais, transformando os terreiros em agentes ativos de combate às formas contemporâneas de opressão e exclusão.
As práticas com as ervas, portanto, não podem ser vistas como vestígios obsoletos do passado, mas sim como estratégias dinâmicas que se adaptam e se reconfiguram frente aos desafios atuais. Ao utilizar elementos naturais em seus rituais, os terreiros reafirmam a conexão intrínseca entre o corpo, o espírito e a terra, promovendo uma visão holística que contrasta com a padronização cultural e a marginalização das tradições afro-brasileiras. Essa integração de práticas ancestrais com demandas contemporâneas fortalece a identidade negra, oferecendo uma plataforma de resistência que celebra a diversidade e promove o diálogo intergeracional, essencial para a construção de uma sociedade mais justa e plural (Martins, 2021; Costa, 2022).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da análise realizada, conclui-se que o conhecimento tradicional das ervas em um terreiro de Candomblé em Baía Formosa/RN continua sendo um elemento central na construção da identidade religiosa e cultural das comunidades afro-brasileiras. O estudo permitiu compreender que tais saberes vão além de uma simples prática medicinal ou ritualística — eles constituem um patrimônio imaterial transmitido oralmente, profundamente enraizado na espiritualidade, na resistência histórica e na relação simbiótica com a natureza.
Ao investigar os impactos da modernidade sobre esse conhecimento ancestral, foi possível identificar os principais desafios enfrentados pelas comunidades religiosas, entre eles a escassez de espaços adequados para o cultivo, a degradação ambiental, a pressão urbana e a invisibilidade social.
Esses fatores têm afetado significativamente a continuidade das práticas tradicionais, exigindo que os terreiros desenvolvam estratégias criativas de adaptação e resistência. Nesse contexto, práticas como hortas verticais, cooperação com agricultores periurbanos e o uso de sementes crioulas se mostraram fundamentais para garantir a sobrevivência e o resgate dos saberes tradicionais.
Além disso, o estudo evidenciou que há um movimento crescente em direção à sustentabilidade, no qual a coleta consciente e o cultivo responsável das ervas reafirmam uma cosmovisão ancestral que reconhece a natureza como sagrada. Essa abordagem amplia o debate contemporâneo sobre meio ambiente e espiritualidade, demonstrando como os saberes afro-brasileiros podem oferecer respostas éticas e ecológicas aos desafios modernos.
Ao discutir a interface entre o saber tradicional e a ciência moderna, o trabalho revelou tensões significativas, sobretudo em relação à apropriação indevida e à marginalização dos conhecimentos ancestrais. Ainda assim, vislumbra-se um campo fértil para o diálogo intercultural, onde as práticas integrativas podem enriquecer tanto os sistemas de saúde quanto a valorização da diversidade epistemológica. Assim, os terreiros reafirmam-se como espaços de memória, resistência e inovação, preservando um legado que é, ao mesmo tempo, espiritual, ecológico e político.
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