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Resumo
INTRODUÇÃO
O ensino da matemática, ao longo da história da educação brasileira, tem enfrentado o desafio de superar práticas pedagógicas descontextualizadas, sendo rotulada por vezes como mera aplicação de fórmulas e algoritmos desvinculados da realidade dos estudantes. Embora políticas educacionais recentes, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), proponham um ensino voltado para o desenvolvimento de competências e habilidades aplicáveis ao cotidiano, ainda é comum encontrar práticas escolares que mantêm a matemática distante das experiências de vida dos alunos. Em contextos de cidades do interior, como Riachão do Poço, na Paraíba, onde a economia local se sustenta em atividades como agricultura, pecuária e piscicultura, essa distância torna-se ainda mais evidente.
Nesse cenário, a piscicultura pode assumir um papel relevante, não apenas do ponto de vista econômico, mas também como espaço de produção de saberes matemáticos empíricos, desenvolvidos e aplicados pela própria comunidade. Entretanto, tais conhecimentos raramente são valorizados ou integrados ao ensino formal. A etnomatemática, perspectiva proposta por Ubiratan D’Ambrosio, propõe justamente a valorização desses saberes, reconhecendo que as práticas culturais de diferentes grupos sociais envolvem raciocínios matemáticos legítimos, ainda que não formalizados nos moldes acadêmicos.
O projeto “A Matemática por trás da Piscicultura: Do Laboratório para a Vida” surge como uma proposta pedagógica que busca aproximar o ensino da matemática do contexto socioeconômico dos estudantes da Escola Cidadã Integral Técnica Riachão do Poço. Por meio de uma abordagem interdisciplinar, envolvendo aulas teóricas, práticas laboratoriais e atividades de campo, o projeto visou desenvolver habilidades matemáticas como geometria, estatística, matemática financeira e análise ambiental a partir de situações reais vivenciadas pelos alunos.
Diante desse contexto, o objetivo geral desta pesquisa é analisar o impacto da contextualização da piscicultura como estratégia de ensino para o desenvolvimento das habilidades matemáticas previstas na BNCC. Como objetivos específicos, propõe-se: (1) identificar os saberes matemáticos presentes nas práticas de piscicultura da comunidade local;
(2) elaborar e aplicar uma sequência didática que integre esses saberes ao ensino formal de matemática; e (3) avaliar os efeitos dessa abordagem no desempenho acadêmico, no engajamento dos alunos e na preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
REFERENCIAL TEÓRICO
EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E A CONTEXTUALIZAÇÃO DO SABER
O ensino de matemática historicamente se constituiu de forma abstrata e distante das realidades sociais, reduzido muitas vezes a um conjunto de técnicas e fórmulas desvinculadas do cotidiano dos estudantes. Entretanto, os avanços da Educação Matemática no Brasil têm buscado superar essa visão fragmentada, valorizando a contextualização e a aproximação com as experiências concretas do aluno. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a matemática deve ser trabalhada como um instrumento de compreensão da realidade, promovendo a resolução de problemas em situações significativas e conectadas ao mundo em que o estudante vive (BRASIL, 2018).
Nesse sentido, Ubiratan D’Ambrosio (1996) aponta que a matemática não deve ser concebida apenas como um corpo rígido de verdades universais, mas como um conjunto de saberes historicamente produzidos e culturalmente situados. Para o autor, “a etnomatemática busca entender o fazer matemático como uma resposta a necessidades de sobrevivência e de transcendência em diferentes culturas” (D’Ambrosio, 1996, p. 7). Essa perspectiva amplia a noção de ensino, incluindo práticas tradicionais, empíricas e locais como legítimas formas de conhecimento.
A ETNOMATEMÁTICA E OS SABERES POPULARES
A perspectiva da etnomatemática se mostra especialmente relevante em contextos como o da cidade de Riachão do Poço, onde a economia está fortemente vinculada à agricultura, pecuária e piscicultura. A matemática presente na vida cotidiana desses trabalhadores manifesta-se em práticas de medição, cálculo, estimativa e organização, que muitas vezes não são reconhecidas num ensino formal. Ao valorizar tais saberes, o ensino da matemática assume uma função social transformadora, aproximando-se das vivências dos estudantes.
Paulo Freire (1996) já alertava para a importância de considerar os conhecimentos prévios dos alunos, ressaltando que a educação deve partir da realidade concreta do educando para a construção de novos saberes. “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (Freire, 1996, p. 47). Essa visão dialoga diretamente com a etnomatemática de D’Ambrosio, na medida em que ambas defendem o respeito e a integração dos saberes populares no processo de ensino-aprendizagem.
INTERDISCIPLINARIDADE E INOVAÇÃO PEDAGÓGICA
Para além da valorização cultural, é preciso destacar o papel da interdisciplinaridade como eixo articulador do processo educativo. Moran (2015) observa que a aprendizagem torna- se mais significativa quando o estudante é colocado diante de desafios reais, que demandam a integração de diferentes áreas do conhecimento. Na mesma direção, Bacich e Moran (2018) discutem as metodologias ativas como estratégias que colocam o aluno no centro do processo, promovendo protagonismo, autonomia e a construção coletiva do saber.
Nesse contexto, a piscicultura apresenta-se como uma oportunidade pedagógica concreta para integrar conteúdos de matemática, biologia e ciências ambientais, permitindo que os estudantes percebam a utilidade prática dos conceitos trabalhados. Ao calcular a área e o volume de tanques, estimar o consumo de ração, projetar custos e analisar estatísticas de produção, os alunos aplicam conteúdos matemáticos em situações que possuem sentido para sua vida cotidiana, e ainda, para sua formação técnica.
CONTEXTUALIZAÇÃO COMO ESTRATÉGIA PARA A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA
A relação entre o saber formal e o saber empírico é central para a construção de uma aprendizagem significativa. Ausubel (1982) destaca que o novo conhecimento só adquire sentido quando pode ser ancorado em estruturas cognitivas já existentes no estudante. Isso implica reconhecer que a matemática não deve ser apresentada como algo distante, mas como parte integrante das práticas sociais e profissionais dos sujeitos.
Nesse sentido, a experiência pedagógica realizada na Escola Cidadã Integral Técnica Riachão do Poço reforça o potencial da contextualização como estratégia metodológica. Ao integrar a matemática às práticas da piscicultura, promove-se uma aprendizagem crítica, funcional e socialmente situada, que fortalece tanto o desempenho acadêmico quanto o protagonismo discente. Como ressalta D’Ambrosio (1996), a matemática deve ser entendida como um instrumento de leitura e de ação no mundo, permitindo que os sujeitos intervenham em sua realidade de forma consciente e criativa.
METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, desenvolvida com turmas do ensino médio técnico em agropecuária da Escola Cidadã Integral Técnica (ECIT) Riachão do Poço, localizada no interior da Paraíba. O projeto foi concebido com o objetivo de integrar os conteúdos matemáticos ao contexto da piscicultura, aproximando o ensino formal da realidade sociocultural dos estudantes.
A proposta foi desenvolvida em três etapas principais. Na primeira etapa, foram realizadas aulas teóricas, nas quais os alunos revisaram conteúdos de geometria, estatística, matemática financeira e análise ambiental, tendo como foco a aplicação prática desses conhecimentos no contexto da piscicultura. Foram abordados temas como cálculo de área e volume de tanques, proporção de rações, controle de crescimento dos peixes e análise de custos de produção.
A segunda etapa consistiu em atividades práticas, realizadas no laboratório de ciências da escola e em campo, onde os estudantes puderam aplicar os conceitos trabalhados em sala de aula em situações reais, observando e medindo tanques de piscicultura, simulando cálculos de alimentação e produção, e realizando registros e análises dos dados obtidos.
Por fim, a terceira etapa foi dedicada à culminância do projeto, com a realização de uma Mostra de Ciências, na qual os alunos apresentaram os resultados das atividades desenvolvidas. Essa fase teve como objetivo promover o protagonismo discente, estimular a socialização do conhecimento produzido e incentivar a adesão ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e às avaliações externas.
Os dados para análise dos resultados foram coletados por meio de observações durante as atividades, registros fotográficos e relatos dos alunos sobre a experiência. A análise foi realizada de forma descritiva, considerando os indicadores de engajamento, participação, compreensão dos conceitos e desempenho escolar, buscando verificar a efetividade da contextualização da piscicultura como estratégia pedagógica para o ensino da matemática.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A aplicação do projeto “A Matemática por trás da Piscicultura: Do Laboratório para a Vida” proporcionou aos estudantes uma vivência diferenciada, onde o ensino da matemática deixou de ser um exercício puramente abstrato para se tornar uma ferramenta de compreensão e intervenção no mundo real. Ao longo das atividades desenvolvidas, foi possível observar um aumento significativo no engajamento dos alunos, que se mostraram mais motivados e participativos ao perceberem a aplicação prática dos conteúdos matemáticos em situações do seu cotidiano.
Durante as aulas teóricas, os alunos demonstraram grande interesse ao relacionar conceitos como área, volume, proporção e análise de dados às práticas de piscicultura da região, reconhecendo no seu dia a dia situações que antes eram vistas apenas como exercícios escolares. Nas atividades laboratoriais e de campo, foi evidente o protagonismo discente, uma vez que os estudantes assumiram um papel ativo na coleta de dados, nos cálculos e nas discussões sobre os processos produtivos da piscicultura.
A culminância do projeto, realizada na Mostra de Ciências da escola, permitiu que os alunos apresentassem de forma pública o conhecimento adquirido, explicando para a comunidade escolar as etapas do projeto e a importância da matemática na gestão de uma piscicultura eficiente e sustentável. Essa experiência fortaleceu a autoconfiança dos estudantes, ao mesmo tempo em que evidenciou a relevância da contextualização no processo de ensino- aprendizagem.
Outro aspecto relevante foi o impacto do projeto no desempenho acadêmico. Foi possível perceber uma melhoria nos resultados das avaliações internas, especialmente nas disciplinas de matemática e Biologia, além de um aumento no interesse dos alunos em participar do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e sobre esse, ocorreu uma adesão de 96% dos discentes que estavam na terceira série do ensino médio. Esse dado destacou relevância de construir uma ponte entre teoria e prática para um avanço pedagógico. A integração entre o saber formal e o saber empírico da comunidade local mostrou-se uma estratégia eficaz para potencializar a aprendizagem e despertar nos estudantes uma percepção mais ampla do papel da matemática em suas vidas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência desenvolvida por meio do projeto “A Matemática por trás da Piscicultura: Do Laboratório para a Vida” evidenciou o potencial da contextualização como estratégia para tornar o ensino da matemática mais significativo e próximo da realidade dos estudantes. Ao integrar conteúdos curriculares a uma prática cultural e econômica presente no cotidiano da comunidade, foi possível estimular o engajamento dos alunos, promover o protagonismo discente e fortalecer o vínculo entre escola e território.
Os resultados obtidos demonstram que a valorização dos saberes locais, articulada ao currículo escolar, favorece a construção de uma aprendizagem mais crítica e funcional, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de compreender e intervir de forma consciente em sua realidade. Além disso, o projeto mostrou-se eficiente como ferramenta de preparação para avaliações externas, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ao trabalhar competências e habilidades exigidas de forma aplicada e contextualizada.
Por fim, destaca-se que a iniciativa pode ser ampliada e adaptada a outras temáticas e áreas do conhecimento, reforçando a importância de projetos pedagógicos interdisciplinares que respeitem a cultura local e potencializem a aprendizagem através da realidade vivida pelos alunos. A experiência reafirma o papel da escola como espaço de integração entre o saber acadêmico e o saber popular, contribuindo para uma educação matemática mais humanizadora e transformadora.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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