O renascimento e o renascer da matemática: A redescoberta do saber clássico e o início da matemática moderna

THE RENAISSANCE AND REBIRTH OF MATHEMATICS: THE REDISCOVERY OF CLASSICAL KNOWLEDGE AND THE BEGINNING OF MODERN MATHEMATICS

EL RENACIMIENTO Y EL RENACIMIENTO DE LAS MATEMÁTICAS: EL REDESCUBRIMIENTO DEL CONOCIMIENTO CLÁSICO Y EL COMIENZO DE LAS MATEMÁTICAS MODERNAS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/8AEE06

DOI

doi.org/10.63391/8AEE06

Silva, Adriano Dantas da. O renascimento e o renascer da matemática: A redescoberta do saber clássico e o início da matemática moderna. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Entre os séculos XIV e XVII, a Europa mergulhou em um período de profundas transformações culturais e intelectuais conhecido como Renascimento. Impulsionado pelo humanismo e pela redescoberta de textos clássicos gregos e árabes, esse movimento marcou um verdadeiro renascer do pensamento científico e artístico. No centro desse renascimento, a matemática ressurgiu como uma ferramenta fundamental para compreender o mundo e expressar ideias com precisão e beleza. De uma ciência muitas vezes restrita aos mosteiros e manuscritos medievais, ela voltou à cena com vigor renovado, sendo aplicada na arte, na arquitetura, na astronomia e na engenharia. Durante a Idade Média, muitos saberes clássicos foram preservados em manuscritos árabes e bizantinos, mas foi apenas com o Renascimento que esses conhecimentos voltaram a circular amplamente na Europa. A redescoberta de obras de Euclides, Arquimedes e Diofanto, aliada ao surgimento da imprensa e ao espírito humanista, permitiu que a matemática deixasse de ser apenas contemplativa e passasse a ser aplicada em áreas como arte, astronomia, engenharia e comércio. Logo, esse trabalho tem como objetivo Analisar como o Renascimento impulsionou o renascer da matemática por meio da redescoberta do saber clássico e da valorização do pensamento racional, destacando as transformações que levaram à consolidação da matemática moderna como linguagem fundamental da ciência e instrumento essencial para o avanço do conhecimento humano. Este estudo será desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa e exploratória, tendo como base a pesquisa bibliográfica e a análise histórica. Inicialmente, será realizado um levantamento de fontes, incluindo livros, artigos acadêmicos e materiais digitais confiáveis, com o objetivo de reunir informações relevantes sobre o Renascimento, a história da matemática e o desenvolvimento do pensamento científico nesse período.
Palavras-chave
matemática; renascimento; pensamento científico.

Summary

Between the 14th and 17th centuries, Europe was plunged into a period of profound cultural and intellectual transformation known as the Renaissance. Driven by humanism and the rediscovery of classical Greek and Arabic texts, this movement marked a true rebirth of scientific and artistic thought. At the heart of this renaissance, mathematics reemerged as a fundamental tool for understanding the world and expressing ideas with precision and beauty. From a science often restricted to monasteries and medieval manuscripts, it returned to the scene with renewed vigor, being applied in art, architecture, astronomy and engineering. During the Middle Ages, much classical knowledge was preserved in Arabic and Byzantine manuscripts, but it was only with the Renaissance that this knowledge began to circulate widely again in Europe. The rediscovery of works by Euclid, Archimedes and Diophantus, combined with the emergence of the printing press and the humanist spirit, allowed mathematics to cease being merely contemplative and begin to be applied in areas such as art, astronomy, engineering and commerce. Therefore, this work aims to analyze how the Renaissance drove the rebirth of mathematics through the rediscovery of classical knowledge and the appreciation of rational thought, highlighting the transformations that led to the consolidation of modern mathematics as a fundamental language of science and an essential instrument for the advancement of human knowledge. This study will be developed from a qualitative and exploratory approach, based on bibliographic research and historical analysis. Initially, a survey of sources will be carried out, including books, academic articles and reliable digital materials, with the aim of gathering relevant information about the Renaissance, the history of mathematics and the development of scientific thought during this period.
Keywords
mathematics; renaissance; scientific thought.

Resumen

Entre los siglos XIV y XVII, Europa se vio inmersa en un período de profunda transformación cultural e intelectual conocido como el Renacimiento. Impulsado por el humanismo y el redescubrimiento de los textos clásicos griegos y árabes, este movimiento marcó un verdadero renacimiento del pensamiento científico y artístico. En el corazón de este renacimiento, las matemáticas resurgieron como una herramienta fundamental para comprender el mundo y expresar ideas con precisión y belleza. De una ciencia a menudo restringida a monasterios y manuscritos medievales, resurgió con renovado vigor, aplicándose al arte, la arquitectura, la astronomía y la ingeniería. Durante la Edad Media, gran parte del conocimiento clásico se conservó en manuscritos árabes y bizantinos, pero fue solo con el Renacimiento que este conocimiento comenzó a circular ampliamente de nuevo en Europa. El redescubrimiento de las obras de Euclides, Arquímedes y Diofanto, junto con el surgimiento de la imprenta y el espíritu humanista, permitió que las matemáticas dejaran de ser meramente contemplativas y comenzaran a aplicarse en áreas como el arte, la astronomía, la ingeniería y el comercio. Por tanto, este trabajo tiene como objetivo analizar cómo el Renacimiento impulsó el renacimiento de las matemáticas mediante el redescubrimiento del conocimiento clásico y la apreciación del pensamiento racional, destacando las transformaciones que llevaron a la consolidación de las matemáticas modernas como lenguaje fundamental de la ciencia y un instrumento esencial para el avance del conocimiento humano. Este estudio se desarrollará desde un enfoque cualitativo y exploratorio, basado en la investigación bibliográfica y el análisis histórico. Inicialmente, se realizará una revisión de fuentes, incluyendo libros, artículos académicos y materiales digitales confiables, con el objetivo de recopilar información relevante sobre el Renacimiento, la historia de las matemáticas y el desarrollo del pensamiento científico durante este período.
Palavras-clave
matemáticas; renacimiento; pensamiento científico.

INTRODUÇÃO 

Entre os séculos XIV e XVII, a Europa mergulhou em um período de profundas transformações culturais e intelectuais conhecido como Renascimento. No centro desse renascimento, a matemática ressurgiu como uma ferramenta fundamental para compreender o mundo e expressar ideias com precisão e beleza. De uma ciência muitas vezes restrita aos mosteiros e manuscritos medievais, ela voltou à cena com vigor renovada, sendo aplicada na arte, na arquitetura, na astronomia e na engenharia. 

O estudo do Renascimento como marco do renascer da matemática é essencial para compreender como o conhecimento científico evolui em ciclos de esquecimento e redescoberta.

Esse movimento não apenas revalorizou o saber antigo, mas também lançou as bases para a matemática moderna, com o desenvolvimento da álgebra simbólica, da geometria analítica e do cálculo. Assim, estudar esse período é fundamental para entender como a matemática se consolidou como linguagem universal da ciência e ferramenta indispensável para o progresso humano.

Logo, esse trabalho tem como objetivo Analisar como o Renascimento impulsionou o renascer da matemática por meio da redescoberta do saber clássico e da valorização do pensamento racional, destacando as transformações que levaram à consolidação da matemática moderna como linguagem fundamental da ciência e instrumento essencial para o avanço do conhecimento humano.

Este estudo é desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa e exploratória, tendo como base a pesquisa bibliográfica e a análise histórica. Inicialmente, será realizado um levantamento de fontes, incluindo livros, artigos acadêmicos e materiais digitais confiáveis, com o objetivo de reunir informações relevantes sobre o Renascimento, a história da matemática e o desenvolvimento do pensamento científico nesse período.

A seguir, será feita uma análise do contexto sociocultural dos séculos XIV a XVII, enfocando a redescoberta de obras clássicas greco-romanas e árabes, e como essas influências contribuíram para o florescimento da matemática. Esse estudo será enriquecido por investigações sobre personagens-chave como Euclides, Arquimedes, François Viète, René Descartes, Isaac Newton e Gottfried Leibniz, cujas contribuições foram decisivas para o nascimento da matemática moderna.

Além disso, os dados obtidos serão organizados de forma interpretativa e crítica, buscando compreender como a redescoberta do saber clássico influenciou a transformação da matemática em uma linguagem universal da ciência. Por fim, todo o conteúdo será estruturado em formato textual, com embasamento teórico e linguagem clara, adequada ao público-alvo da pesquisa.

O RENASCIMENTO E O RENASCER DA MATEMÁTICA

O Renascimento, movimento cultural e intelectual que floresceu na Europa entre os séculos XIV e XVII, representou uma ruptura com os paradigmas medievais e uma revalorização do saber clássico. Impulsionado pelo humanismo, pela redescoberta de textos antigos e pelo avanço da imprensa, esse período marcou o ressurgimento da matemática como ciência fundamental para o entendimento do mundo. A matemática, antes restrita a círculos religiosos e filosóficos, passou a ser aplicada em áreas como arte, astronomia, engenharia e comércio, tornando-se uma linguagem universal da ciência moderna. Como traduz o Portal.

Durante o Renascimento, a matemática passa também a assumir um outro papel, mais aplicada aos avanços da época. Em meados do século XV, deu-se um sensível aumento na produção de trabalhos matemáticos. Para isso contribuíram fatos relevantes, como a queda de Constantinopla, em 1453, as grandes navegações e o invento da impressão com tipos móveis que possibilitaram a maior difusão das obras. Como consequência desse período de mudanças, o estudo matemático, no Renascimento, assumiu características de Matemática Aplicada, a qual passou a ser utilizada em campos como a arte, óptica, mecânica, cartografia e contabilidade. A aritmética da época era amplamente comercial e objetivava explicar a escrita dos números, efetuar cálculos com eles. (Portal, 2010, p. 1)

Durante a Idade Média, muitos textos matemáticos da Grécia Antiga foram preservados por estudiosos árabes e bizantinos. Com a queda de Constantinopla em 1453, esses manuscritos chegaram à Europa Ocidental, reacendendo o interesse pelo pensamento lógico e geométrico dos antigos. Obras de Euclides, Arquimedes, Diofanto e Ptolomeu foram traduzidas e estudadas com entusiasmo.

Nesse contexto, Galileu Galilei declarou que o livro da natureza está escrito em linguagem matemática (Galilei, apud Citações e Frases Famosas, 2023, p, 143). Essa perspectiva revela o espírito renascentista, que valorizava a matemática como a chave para desvendar os mistérios do universo.

O Renascimento trouxe uma nova abordagem para a matemática: ela passou a ser utilizada de forma aplicada em diferentes áreas do saber humano. Na arte, a perspectiva linear desenvolvida por Filippo Brunelleschi e teorizada por Leon Battista Alberti baseava-se em princípios geométricos. Na arquitetura, as proporções matemáticas guiavam projetos de igrejas e palácios. Já na astronomia, os cálculos de Copérnico e Kepler foram essenciais para a consolidação do modelo heliocêntrico.

René Descartes, representando o pensamento da época, afirmou: “As matemáticas têm invenções sutilíssimas e servirão de muito, não apenas para satisfazer os curiosos como para tornar mais fáceis todas as artes e diminuir o trabalho dos homens” (Descartes, 1973, p. 9). Sua citação mostra como a matemática se consolidava como uma aliada do progresso técnico e científico.

O desenvolvimento matemático do Renascimento abriu caminho para o surgimento de novos campos de estudo. A álgebra simbólica ganhou forma com François Viète, que introduziu o uso sistemático de letras para representar variáveis. John Napier, por sua vez, criou os logaritmos, o que facilitou cálculos complexos e contribuiu para o avanço da astronomia e da engenharia. A união entre álgebra e geometria realizada por René Descartes, com a criação da geometria analítica, foi decisiva para o nascimento da matemática moderna.

A consagração desse movimento veio com a criação do cálculo diferencial e integral por Isaac Newton e Gottfried Leibniz. Essa ferramenta tornou-se indispensável para a física, a economia e muitas outras áreas. Segundo Hardy “A teoria dos números tem sido chamada de a mais pura das disciplinas matemáticas, e sua beleza é comparável à da arte.” (Hardy, 1992, p. 84). A declaração sintetiza o prestígio que a disciplina passou a exercer na ciência moderna.

O Renascimento foi um marco decisivo na trajetória da matemática. Ao resgatar saberes clássicos e aplicá-los com olhar renovado, os pensadores renascentistas não apenas preservaram o legado antigo, mas também lançaram as bases de um novo modo de pensar. Mais do que um conjunto de técnicas, a matemática tornou-se uma linguagem universal, capaz de descrever desde as estruturas cósmicas até os detalhes estéticos de uma obra de arte.

Como bem afirmou Russell “A matemática, vista corretamente, possui não apenas verdade, mas também suprema beleza — uma beleza fria e austera, como a da escultura.” (Russell, 1919, p. 60), evidenciando sua beleza e poder enquanto expressão do pensamento humano mais refinado.

O INÍCIO DA MATEMÁTICA MODERNA: A CONSOLIDAÇÃO DE UMA NOVA LINGUAGEM CIENTÍFICA

A matemática moderna representa uma das mais profundas transformações no pensamento científico da humanidade. A partir dos séculos XVII e XVIII, a matemática deixou de ser apenas uma ferramenta de cálculo e passou a ser uma linguagem formal, abstrata e universal, capaz de descrever fenômenos naturais, sociais e tecnológicos com precisão. Esse novo paradigma foi impulsionado por avanços como a geometria analítica, o cálculo diferencial e integral, a álgebra simbólica e a teoria das probabilidades. O presente trabalho tem como objetivo analisar o surgimento da matemática moderna, destacando seus principais marcos, pensadores e impactos na ciência e na sociedade.

O surgimento da matemática moderna está intimamente ligado ao espírito racionalista e científico que emergiu na Europa a partir do século XVII. O Renascimento já havia resgatado o saber clássico, mas foi com o Iluminismo e a Revolução Científica que a matemática passou a ocupar um papel central na construção do conhecimento.

Um dos marcos fundadores da matemática moderna foi a criação da geometria analítica por René Descartes, em sua obra La Géométrie (1637). Ao unir álgebra e geometria, Descartes permitiu que curvas e superfícies fossem representadas por equações, inaugurando uma nova forma de pensar o espaço. Para Descartes, “as matemáticas têm invenções sutilíssimas e servirão de muito, não apenas para satisfazer os curiosos como para tornar mais fáceis todas as artes e diminuir o trabalho dos homens” (Descartes, 1973, p. 47). Essa visão utilitária e racional da matemática foi essencial para sua consolidação como ciência.

Outro pilar da matemática moderna foi o desenvolvimento do cálculo diferencial e integral, realizado de forma independente por Isaac Newton e Gottfried Leibniz. Essa nova linguagem matemática permitiu descrever o movimento, a variação e o infinito com precisão inédita.

Segundo Kline, “A matemática é a mais abstrata das ciências, e por isso mesmo a mais poderosa” (Kline, 1993, p. 2). O cálculo exemplifica essa capacidade de lidar com o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Por meio de limites, derivadas e integrais, ele permite modelar fenômenos contínuos com precisão surpreendente. Essa linguagem matemática tornou-se indispensável para compreender desde o movimento dos planetas até o comportamento de partículas subatômicas. Assim, o cálculo não apenas descreve o mundo — ele o revela em profundidade.

A álgebra moderna começou a se consolidar com François Viète, que introduziu o uso sistemático de letras para representar incógnitas e constantes. Posteriormente, matemáticos como Euler, Lagrange e Gauss expandiram a álgebra para além da resolução de equações, criando estruturas abstratas como grupos, anéis e corpos.

A teoria das probabilidades surgiu no século XVII com os trabalhos de Blaise Pascal e Pierre de Fermat, inicialmente motivados por jogos de azar. Com o tempo, tornou-se uma ferramenta essencial para lidar com a incerteza e o acaso em diversas áreas do conhecimento.

Pascal declarou: “Entre dois espíritos iguais, postos nas mesmas condições, aquele que sabe geometria é superior ao outro e adquire um vigor especial” (Pascal, 2017, p. 43). A geometria e a probabilidade passaram a ser vistas como formas complementares de raciocínio lógico.

A matemática moderna se caracteriza por: Abstração crescente: conceitos como conjuntos, funções e estruturas algébricas. Pelo Formalismo lógico: uso de axiomas, teoremas e demonstrações rigorosas. E Universalidade: aplicação em todas as ciências e áreas do conhecimento. E por sua Linguagem simbólica: padronização de símbolos e notações.

Segundo Burton “A matemática é a rainha das ciências, e a teoria dos números é a rainha da matemática.” (Burton, 2007, p. 398). Essa frase sintetiza o prestígio e a centralidade da matemática no pensamento moderno.

A matemática moderna permitiu o avanço da física, da engenharia, da economia, da informática e de inúmeras outras áreas. Ela se tornou a base da modelagem científica, da simulação computacional e da inteligência artificial.

Como afirmou Courant; Robbins “A matemática pura é uma expressão da mente humana que reflete a vontade, o pensamento e a emoção humanos.” (Courant; Robbins, 1996, p. 3). Essa poesia lógica molda o mundo contemporâneo.

O início da matemática moderna representou uma verdadeira revolução no modo de pensar, conhecer e transformar o mundo. Ao desenvolver novas linguagens, métodos e estruturas, os matemáticos dos séculos XVII e XVIII lançaram as bases de uma ciência que continua a evoluir e a impactar profundamente a sociedade. Com sua capacidade de abstração, precisão e universalidade, a matemática moderna tornou-se não apenas uma ferramenta, mas uma forma de ver e compreender a realidade.

A MATEMÁTICA DO RENASCIMENTO E SUA APLICAÇÃO NOS DIAS ATUAIS

Durante os séculos XIV a XVII, a Europa vivenciou um período de transformações intensas conhecido como Renascimento. Esse movimento, impulsionado pela redescoberta dos saberes clássicos e pela valorização da razão e da ciência, marcou o renascer da matemática como instrumento para compreender e transformar o mundo. Muito além de uma prática contemplativa, a matemática passou a ser reconhecida como linguagem da natureza e fundamento do progresso intelectual e técnico.

Galileu Galilei sintetizou essa nova visão ao afirmar que “o grande livro da natureza está escrito em linguagem matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas” (Galilei, 2000, p. 43). Essa metáfora revela o espírito da época: o universo era algo a ser decifrado racionalmente, e a matemática seria a chave. O impacto desse pensamento ainda reverbera, uma vez que os conceitos estruturados nesse período permanecem vivos e atuantes na ciência, na tecnologia e na educação contemporâneas.

Um dos campos onde isso é mais evidente é na geometria e no uso da perspectiva. A perspectiva linear, desenvolvida por Filippo Brunelleschi e sistematizada por Leon Battista Alberti, revolucionou a arte renascentista e estabeleceu os fundamentos para a representação espacial. Hoje, os mesmos princípios geométricos são aplicados em softwares de modelagem tridimensional, design gráfico, realidade virtual, arquitetura digital e jogos eletrônicos. Como destaca Henri Poincaré afirmou que “a geometria é a arte de pensar corretamente” (Poincaré, 1952, p. 20)  — e continua sendo a espinha dorsal dos ambientes digitais e virtuais do século XXI.

No campo da álgebra, o grande salto veio com François Viète, que introduziu o uso simbólico de letras para representar incógnitas. Essa inovação foi decisiva para a criação de uma linguagem algébrica que ainda hoje estrutura a lógica computacional. Linguagens de programação como Python, C++ e JavaScript operam com base nos mesmos fundamentos algébricos. René Descartes, em sua contribuição à geometria analítica, escreveu que “As matemáticas têm invenções sutilíssimas e servirão de muito, […] para tornar mais fáceis todas as artes e diminuir o trabalho dos homens” (Descartes, 1973, p. 47).. Essa visão se concretiza na automação de processos, algoritmos inteligentes e sistemas computacionais de alta complexidade.

Na área das ciências naturais, o desenvolvimento do cálculo diferencial e integral por Newton e Leibniz foi uma das maiores heranças do Renascimento. Com ele, tornou-se possível modelar fenômenos como velocidade, aceleração, crescimento populacional e variação de preços. Hoje, o cálculo é indispensável na física, na biologia, na engenharia e na economia. Paul Dirac, ao refletir sobre o papel da matemática, afirmou: Várias vezes, quando não sabia como prosseguir, simplesmente tive que esperar até sentir que a matemática me conduzia pela mão (Dirac, 1978, p. 145). De fato, o cálculo renascentista tornou-se a base de tudo, desde simulações de voo até inteligência artificial.

Na trigonometria, os estudos dos renascentistas viabilizaram avanços na cartografia e na navegação. Os métodos matemáticos usados para calcular ângulos e distâncias em alto-mar são os mesmos aplicados hoje no GPS, em satélites de mapeamento, em softwares de engenharia civil e em games baseados em física realista. Bertrand Russell destacou a dimensão estética da matemática ao afirmar que a matemática, vista corretamente, possui não apenas verdade, mas também suprema beleza — uma beleza fria e austera, como a da escultura (Russell, 1985, p. 86).e a trigonometria representa perfeitamente essa dupla natureza entre ciência e estética.

No campo das finanças e da contabilidade, a obra Summa de Arithmetica, de Luca Pacioli, publicada em 1494, sistematizou o método das partidas dobradas, ainda utilizado na contabilidade contemporânea. Essa estrutura está presente em balanços patrimoniais, livros fiscais e sistemas de gestão financeira. Além disso, o cálculo de juros simples e compostos — fundamentos da matemática renascentista — continua sendo aplicado diariamente em bancos, investimentos e contratos.

No ambiente educacional, o legado renascentista também se manifesta. A valorização do raciocínio lógico, do método dedutivo e da interdisciplinaridade são princípios que moldam as práticas pedagógicas atuais. Competições como as Olimpíadas de Matemática recuperam a tradição renascentista de debates matemáticos, como os famosos embates entre Tartaglia e Cardano (Torrente; Reis, 2023, p, 1-17). Hoje, essas práticas formam jovens pensadores críticos e criativos.

Carl B. Boyer, renomado historiador da matemática, destaca que “o Renascimento foi um período de transição em que a matemática começou a se libertar das limitações da tradição clássica e medieval, abrindo caminho para a criação de novos métodos e conceitos” (Boyer, 1996, p. 295). Para ele, a inovação se deu não apenas pelo resgate do saber antigo, mas pela superação desse saber. “Os matemáticos do Renascimento não se limitaram a preservar o legado clássico; eles o transformaram e o expandiram” (Boyer, 1996, p. 305).

Ainda segundo Boyer (1996, p. 301), “a álgebra simbólica, desenvolvida por Viète e seus sucessores, foi um dos maiores avanços do período, pois permitiu a generalização e a abstração dos problemas matemáticos”. Tal abstração é a base das linguagens de programação, dos modelos estatísticos e até dos sistemas criptográficos que protegem informações digitais na atualidade.

Além disso, Boyer aponta que a invenção da imprensa teve um papel revolucionário na democratização do saber: “a circulação ampliada de tratados matemáticos acelerou o progresso da disciplina” (Boyer, 1996, p. 289). Esse mesmo espírito continua vivo nas plataformas de educação online e nos repositórios de livros abertos, que tornam o conhecimento matemático acessível globalmente.

Por fim, o matemático Richard Courant destacou a beleza e profundidade da matemática ao afirmar que “a matemática é uma expressão da mente humana que reflete a vontade, o pensamento e a emoção humanos” (Courant; Robbins, 1996, p. 3). Essa poesia, iniciada com o compasso e o pergaminho dos renascentistas, segue sendo escrita com código, gráficos e dados — nas universidades, nos laboratórios, nas empresas e nos satélites que orbitam a Terra.

Em síntese, a matemática do Renascimento é muito mais do que um capítulo da história: é uma herança viva que continua a moldar a forma de pensar, cria e transforma o mundo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise da matemática renascentista permitem compreender como o conhecimento científico não evolui de maneira linear, mas sim em ciclos de resgate, ruptura e reinvenção. O Renascimento foi, sem dúvida, uma dessas viradas históricas que possibilitaram o reencontro com saberes antigos e o florescimento de novas ideias, muitas das quais permanecem estruturando o mundo contemporâneo.

Os conceitos matemáticos desenvolvidos entre os séculos XIV e XVII não só representaram grandes avanços para sua época, como também anteciparam transformações que moldariam os séculos seguintes. Seja na sistematização da álgebra simbólica, na aplicação da geometria à arte, ou nas descobertas da astronomia e da física, esse legado permanece vivo e essencial.

A perspectiva linear desenvolvida nas obras artísticas renascentistas ainda é a base das tecnologias de visualização em 3D, do design gráfico e da realidade virtual. O uso da geometria nos ambientes digitais modernos demonstra que a matemática do passado ganhou novo fôlego com as ferramentas tecnológicas atuais.

Na ciência e na engenharia, o cálculo e a trigonometria criados ou sistematizados por pensadores renascentistas continuam sendo ferramentas essenciais para a modelagem de fenômenos naturais, análises estruturais e projeções econômicas. Suas fórmulas e métodos podem ser encontradas tanto em livros antigos quanto em linguagens de programação modernas.

A contabilidade, a economia e as finanças também se beneficiam diretamente da matemática renascentista. O sistema de partidas dobradas e os princípios de cálculo de juros são práticas herdadas diretamente dos tratados de autores como Luca Pacioli e aplicadas todos os dias em bancos, empresas e governos.

Além disso, o próprio ensino da matemática preserva o legado renascentista ao valorizar a lógica, a resolução de problemas e a interdisciplinaridade. A matemática deixou de ser um conjunto de fórmulas para ser um processo de investigação, diálogo e descoberta, como defendiam os humanistas do século XVI.

A partir da contribuição de estudiosos como Carl B. Boyer, compreendem-se que o Renascimento não apenas recuperou o saber clássico, mas soube questioná-lo e superá-lo. A nova matemática não se limitava a repetir ideias, mas criava conceitos inéditos, mais abstratos e poderosos, que permitiam entender o mundo com maior profundidade e precisão.

O pensamento matemático renascentista também mostra o valor da integração entre diferentes áreas do conhecimento. A união de arte, ciência, filosofia e matemática naquele período inspirou formas de compreender o mundo que hoje reaparecem nas ciências interdisciplinares e na inovação tecnológica.

Refletir sobre a matemática do Renascimento é, portanto, refletir sobre a permanência do raciocínio humano ao longo do tempo. É reconhecer que os algoritmos que estruturam aplicativos modernos e as equações que modelam pandemias ou aquecimento global têm raízes no espírito de curiosidade, rigor e criatividade que marcou aquele período.

Dessa forma, conclui-se que a matemática renascentista não pertence apenas ao passado. Ela é parte integrante da base do presente e continua abrindo caminhos para o futuro. Seu legado não está apenas nos livros de história, mas no cotidiano, na ciência, na arte e na tecnologia que moldam vidas.

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Silva, Adriano Dantas da. O renascimento e o renascer da matemática: A redescoberta do saber clássico e o início da matemática moderna.International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
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Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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