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Resumo
INTRODUÇÃO
A fotografia, usada como fonte para a escrita da História, é um recurso um tanto novo para aquele que a utiliza ao seu fazer histórico. Esse documento é fundamental para a construção da História, pois registram apenas parte, como os registros nos cartórios, nas repartições do governo ou em posse de particulares. Logo, a fotografia traz a informação sobre um dado nascimento, óbito ou outro registro, que necessita de entrecruzamento de mais fontes e textos para uma ideia histórica final.
Sob esse viés, sabe-se que o conteúdo histórico é oriundo de um levantamento de fontes, sejam elas primárias ou secundárias. Ou seja, sua origem pode ser de documentos (fonte primária) ou de textos oriundos de documentos (fontes secundárias), seja qual for a classificação da fonte, sua base é sempre documental, provas do passado que nos chega aos dias de hoje. Dessa forma é possivel conhecer um trecho registrado de uma época, nunca seu passado total, contendo sempre informações que, juntamente com outras, tecem o conhecimento humano sobre como chegamos ao que vivemos atualmente. O uso dessa fonte pictórica, portanto, é imprescindível para legitimidade do fazer científico no campo historiográfico.
A História, por sua vez, como ciência das humanidades, criada em meados do séc. XIX, até os dias atuais, está cada vez mais aguçada e aprimorada, haja vista que as suas próprias fontes estão se transformando na mesma medida em que se multiplica os temas abordados por ela. Jornais, filmes, entrevistas, memórias orais, ou mesmo, a própria fotografia, por exemplo, tema desse artigo. Para tanto, esse documento é uma das últimas inovações em termos de pesquisas históricas, pois data seu início, de uso na historiografia, por volta da déc. de 70 do século passado (Ciavatta, p.14, 2023), quando seu desenvolvimento tecnológico já estava avançado e disseminado pela população e seu uso passou a ser mais requisitado e praticado. Juntamente com fontes que eram agregadas nesta época, um arsenal de novos lugares e coisas que estavam contribuindo para o saber histórico.
Essa mudança, na forma de se fazer História, é do início do séc. XX, quando um grupo de historiadores fundou a escola dos Annales na França, em 1929 (Burke, 1991). Uma escola de cunho histórico-intelectual que propunha novas formas de se fazer a História através de novas fontes e novos temas levantados. Uma corrente que acompanhava as mudanças de mentalidade de sua época, nas artes, na escrita etc. Período situado entre as duas grandes e filha de um momento de inovação tecnológica, como o cinema, o automóvel, o avião e toda uma mentalidade que se intitulava como a “modernidade” da civilização humana. Essa escola propunha na época temas não trabalhados até então, através de ataque à tendência positivista nas pesquisas. Tendência esta que se baseava seus estudos na filosofia de Augusto Comte, o qual defendia a ciência acima de qualquer pensamento, como o subjetivo e o supersticioso. Pregava-se, nesse contexto, a experimentação para se chegar à verdade, cientificando todo pensamento elaborado para o conhecimento. Criador também da Sociologia e defensor do uso de documentos oficiais para a estruturação da História.
Em contrapartida, os Annales vão lutar até os dias de hoje, os quais apresentam os mais variados temas, a saber: mentalidades, micro e macro história, história total e cultural. Atualmente, esta manifestação historiográfica está na 4º geração, sempre apresentando novas tendências e fontes para o fazer desta ciência, e esta última faz uma apologia ao uso de outras disciplinas como a antropologia e a sociologia na construção do saber histórico. É nesta tendência, por sinal, que é possível encontrar o uso de fontes imagéticas nas pesquisas, tais como a pintura, o filme e a fotografia, fontes novas para novos temas (Mauad, 2008). Assim que a historiografia vai deixando temas econômicos e políticos para trás, a nova história vai surgindo com novos objetos e suas respectivas fontes.
O uso imagético nas pesquisas da História representa, hoje, cerca de 10% dos trabalhos da pós-graduação (Fontanini, p.59), uma tendência até que expressiva visto que seu uso remonta a déc. 70. E seu aumento nos estudos se deu, principalmente, pelo aumento dos usos destes recursos em nosso cotidiano, sem percebemos seu aumento. São vídeos e fotos que constantemente chegam a nós pelos nossos celulares. Novas tecnologias, portanto, analógicas ou não que vão possibilitar as pesquisas. Acredita-se que estas novas fontes desenvolveram a chamada Nova História, pois contribuem para que novos temas recebam estes documentos, que não precisam ser papéis de arquivos, muito menos oficiais.
Já a fotografia, que vai ser usada como fonte, surge em inícios do séc. XIX. Para ser mais específico, com o francês Joseph Niépce, no ano de 1826, seguido e aprimorado pelo seu conterrâneo Louis Daguerre que a tornou mais prática em 1839. Até mesmo o Brasil se destacou na área, Herculano Florence, em 1833, contribuiu para esta invenção, além de cunhar o termo photografia que significa em grego, escrever com a luz (Mauad, 1996). Tecnologia esta que se desenvolverá nos anos que se seguirão a invenção, culminando ao que chegamos atualmente, as fotos sendo realizadas pelos telefones portáteis, os celulares. Usadas nos dias de hoje como fonte para a História do Tempo Presente, a maneira mais avançada de fazer uma “imagem/documental” (Burke, 2004). Termo mais adequado para se referir ao material usado pelas pesquisas históricas imagéticas, seguindo seus estudiosos, ou mesmo, “imagem/monumento” para alguns (Mauad, p.08, 1996).
À princípio, a fotografia surge como algo documental e artístico (Silva1, p.02), não tinha a intenção comercial e disseminada que temos hoje. Era praticada por poucos e era trabalhosa, pesada e exigia a permanência de um longo tempo em frente à câmera. Ela comumente recebe o nome de “retrato” porque, em sua origem, substituiu os retratos pintados à óleo nas telas dos artistas de então, colaborando para seu fim (Benjamin). Ela representava, ainda, a mentalidade científica do séc. XIX, pensada e efetivada sob o ideal positivista (Martins, p. 41, 2008). Até mesmo algumas destas produções foram pensadas para a posteridade, em seus enquadramentos e posterior arquivamento (Kossoy, p.42, 1980). Seu uso comercial se deu, consequentemente, a partir de sua aplicação nos cartões-postais, sua primeira utilização prática e rentável (Kossoy, p.63, 2002). Assim como os catálogos confeccionados para as Exposições Universais que aconteceram em Paris e Londres a partir de 1850, as quais traziam o que havia de mais inusitado em monumentos e natureza nos países participantes ao redor do mundo.
Na imprensa, por sua vez, o destaque fica para as Revistas Ilustradas, que circularam no Brasil, por volta do fim do séc. XIX e começo de XX (Kossoy, p.103, 2020). Periódicos como o Fon-Fon, O Cruzeiro, Careta dentre outras (Mauad, 2008). Além dos jornais em menor intensidade, mas que vão inovar também nas matérias que trazem fatos em seu bojo. Nessa época, portanto, surge o primeiro contato que temos de fotografias históricas, que registraram um momento, num local com determinadas pessoas. Elas são históricas por excelência, sempre registrando algo que acontece ao passado (Sousa).
Enfim, até D. Pedro II, em seu reinado, já era um bom apreciador deste novo recurso tecnológico, posava para fotos ornamentadas e retratos, além de colecionar estes materiais (Kossoy1). Sua utilização inicial era elitizada, não eram todos que tinham o acesso, além de ser uma operação muito custosa. Já seu tema principal, inicial, era a paisagem, que não tinha pressa para registrada, atendendo às necessidades do lento processo fotográfico.
DESENVOLVIMENTO
A fotografia vai começar a ser utilizada como ingrediente para a concepção da História a pouco tempo atrás, principalmente quando aumenta seu uso cotidiano, aumentando o contato do historiador com estas novas fontes e consequentemente seu interesse por elas, percebendo-as como uma possível fonte para suas pesquisas. Uma fonte em que, muitas vezes, não foram produzidas com esta finalidade, a de registrar uma época e seus valores, mas sim a de fazer apenas uma captura de um momento (Sônego, p.115, 2010).
Esse documento, também, possui limitações no âmbito da História, visto que foi inventado somente no séc. XIX e, por consequência, só pode nos informar sobre dados que possivelmente aconteceram a partir desta data. Mas também não é a única fonte imagética que conhecemos, as pinturas rupestres, os quadros à óleo ou mesmo a xilogravura são, da mesma maneira, imagens que podemos analisar e extrair informações preciosas de lugares e tempos da vida humana (Silva2, p.08). Pois, antes do invento da fotografia, os recursos imagéticos que existiam e registravam as informações de um momento eram as pinturas à óleo, que eternizavam em suas telas, paisagens e retratos de lugares bucólicos e pessoas importantes na sociedade de então. Estas fontes são examinadas da mesma maneira que analisamos as fotografias, com análises iconográficas, sobre o que contém na obra e iconológica, sobre qual é a interpretação possível do material observado.
Como dito outrora, no início do uso da fotografia, de sua invenção, ela era usada também como registro, documento de algo, assim como o é feito cotidianamente, quando produzimos uma foto, ela passa a ser um registro de algo para que será contemplada posteriormente. Acontece que esse posteriormente seria pelas pesquisas em História, não se pensava que o homem a utilizaria como fonte para esta ciência, devido ao fato que esta própria ciência só vai se aperfeiçoar, com o uso de fotografias, a partir dos anos 70 do século passado. Muito do que foi produzido no passado, em termos fotográficos, não se pensava como registro histórico, como uma minuciosa pesquisa por este profissional, desde as roupas utilizadas pelos sujeitos na fotografia até a arquitetura encontra neste mesmo documento. Passado, às vezes, mais de cem anos de sua criação, apesar que a categorização das primeiras fotografias era a de fotografia-documento, pois tinha a obrigação de ser a mais fiel possível ao objeto ou local registrado, acompanhando a mentalidade cientificista e industrial de então (Kossoy, 2020).
A característica artística desse recurso só vai aflorar bem mais tarde, depois que passa de fotografia-documento para fotografia-expressão, quando se iniciou o lado artístico do fotografar. Vale lembrar que por volta dos anos 20 do séc. XX, enquanto a pintura procurava se aprimorar com o expressionismo em seus quadros, a fotografia buscava ser a mais fiel possível ao seu trabalho de registrar a realidade (Martinz, p.159, 2008). Fato este que, só com exceção das fotografias artísticas, sempre foi o objetivo da fotografia. Mas nada a impede, atualmente, de ser artística. Como os trabalhos do fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado, que em muito com o acervo de imagens artísticas brasileira, fazendo em seus retratos, uma denúncia social, mais importante que os temas simples de fotografias comuns.
Atualmente, o maior problema do uso de fotos na pesquisa histórica é quanto a sua preservação e acessibilidade às fontes. Acervos de fotografias não é um dado encontrado no meio social brasileiro. O acondicionamento de tais fontes ainda é escasso e pouco praticado por nós. São raros os que existem e muitas vezes faltam informações, como autor, data e local. Não há pelo menos até os dias de hoje, uma cultura arquivística de fotos produzidas por nós brasileiros, preservadas e acondicionadas para futuras pesquisas históricas ou não. Ainda hoje, essa demanda é baixa, haja vista que tais pesquisas são fatos de poucas décadas atrás, o que condena as fontes imagéticas a um segundo plano, ao escanteio.
No entanto, apesar de todos os obstáculos para que a fotografia seja usada no cotidiano das pesquisas dos nossos historiadores, ela o é. A imagem sempre teve muitas utilidades no meio social do homem, que remontam aos desenhos rupestres nas cavernas da Pré-história. Mas talvez o uso mais importante de imagens na História da humanidade, seja o ocorrido durante a Idade Média, em específico, nas igrejas desta época. São pinturas, mosaicos e vitrais que ilustravam as missas, já que boa parte da população da época era analfabeta, e faziam das imagens, trechos bíblicos para serem lidos e interpretados pelos camponeses (Burke, p.59, 2024).
Outra função pedagógica da fotografia foi a que era utilizada pelos antropólogos do séc, XIX, uma ciência que iniciava seus primeiros passos, não só por estar em seu início mas também por acompanhar o aprimoramento da História e o surgimento da Sociologia, fatos concomitantes. O registro etnográfico, portanto, vai ser um dos usos da ciência, de fotografias-documentos, arquivando fotos e fotos de índios sul-americanos por exemplo. Índios eram registrados em suas mais diversas atividades e locais, atendendo uma curiosidade que provinha dos antropólogos europeus desta época. Como o livro de Lévi-Strauss, “Saudades do Brasil”,publicado em 1955 e que tinha por objetivo divulgar, através da fotografia, a existência destes povos na região amazônica, com seus hábitos e nuances (Paranaguá, p.70, 2025).
Ultimamente, o uso da fotografia para estudos em Humanas tem aumentado significativamente, ciências como a fotografia, a linguística, a psicologia e a sociologia tem se debruçado nas fontes imagéticas como um novo recurso metodológico (Kossoy, 2001). E com isto, muitos resultados tem surgido em nosso meio, acadêmico ou não. No ano de 2001, a Folha de São Paulo lançou uma coleção que vinculou ao seu jornal de domingo, a “Coleção 100 anos de fotografia pelas lentes da folha”, uma amostra de como este recurso tecnológico vem ocupando espaço entre nós. Esta promoção, por exemplo, teve 10 volumes e abarcou registros antigos da cidade de São Paulo em sua maioria, trazendo as imagens mais importantes publicadas neste jornal desde o ano de 1921 (Haddad, 2021). Um tema importante, com um recurso que está, como mostra esta coleção, adquirindo cada vez mais atenção das pesquisas universitárias.
Outra manifestação do crescente uso de fotografias em seus trabalhos pedagógicos, é o aumento de textos acadêmicos com a temática de imagens nas revistas científicas, em especial, as nacionais após os anos 2000 (Fontanini, p.33). Um índice que nos mostra o quanto este tipo de fonte está sendo importante para o pesquisador brasileiro. Visto que seu uso é recente e atende, justamente, a nova demanda, oriundas de novas problemáticas (Costa), novas interrogações. Seu uso passa a ser imprescindível em alguns casos e notórios em outros em outros, à exemplo da Guerra do Paraguai, que conta com registros realizados na época, antes durante e após o conflito. Um dos poucos atritos militares que o Brasil se enveredou e que pode ser captado pelas lentes fotográficas, indo de encontro aos desenvolvimentos tecnológicos deste recurso pictórico, sendo que o primeiro registro data de 1826, e a guerra citada acima é de 1870, ou seja, uma novidade ainda para a época. Além de que são poucos os registros que abordam conflitos envolvendo o Brasil, ou mesmo, outro do séc. XIX.
As salas de aula são, também, um outro meio pelos quais se pode usar estas fontes no ensino de História, a partir da 5º série do Ensino Fundamental II já é possível apresentar nas aulas o quanto esta fonte é importante para se entender o passado (Rovani, p.06). Ensinar a ler uma fotografia é importantíssimo, o que pode ser facilitado com a tutoria de um professor, que simplifica esta atividade. Formando alunos que possam usar, sempre, fotografias particulares ou não para entender o seu passado, de sua família , da cidade ou mesmo do País (Agnaleto).
A fotografia nada mais é que um artefato (SUSIN, p.05), um objeto do passado que chegou à nós como qualquer outra relíquia, que necessita ser analizada e inseri-la num contexto para sua interpretação e apreciação. A maioria dos fotos que chegaram até nós, não foram feitas com intenções históricas, mas sim, momentâneas. Independentemente de suas origens e modelos, elas têm exercido bem seu papel de registro de época, sempre trazendo novas informações ou ilustrando as já coletadas, de forma explícita ou não. Como já dizem das análises fotográficas: elas não dizem nada, é preciso que se façam as perguntas certas (Mauad, p.10, 1996). Sem indagações, uma fotografia não tem valor, não passa de um olhar congelado do tempo, uma imagem deslocada, solta.
Sendo assim, para uma boa análise documental da fotografia, faz-se necessário, além de textos complementares da imagem (Kossoy, 2001), uma interdisciplinaridade com outras ciência também é vital, com a semiótica, a sociologia ou mesmo a antropologia (Susin). Ciências estas que podem colaborar em muito para construção da História através de imagens, trazendo ferramentas para uma melhor manipulação. Enfim, além da fotografia não revelar nada por si só, precisamos de ajuda de ciências irmãs para realizarmos sua análise. Tendo em mente que, na maioria dos casos, a fotografia não teve os mesmos motivos que seu leitor, o historiador (Silva2), a realidade captada não é sempre a mesma da analisada, supostamente imparcial (Sônego). Navegando por um documento onde não procuramos palavras, mas sim, características inarráveis do momento registrado. Temos a história dela e através dela.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A questão da interpretação de uma fotografia é uma atividade bem delicada em termos iconológicos. A maioria das fotografias que chegaram a nós são registros feitos por quem tinha o poder aquisitivo suficiente para pagar por esta tecnologia a tempos atrás. Não era um recurso popularmente difundido como o é hoje em dia, onde todos tem acesso. Situação que amplia os temas captados, ampliando também aqueles que a praticam. São várias pessoas fotografando vários objetos. Em contrapartida, as fotos mais antigas são, quanto mais antiga, mais elitista, mais representando a mentalidade de quem tem o poder (Silva3, p.17). Sendo assim, não estudamos o passado, mas o que os historiadores construíram acerca dele (Neves, p.08).
Para melhor analisar um documento pictórico, a fotografia, no caso, faz-se preciso entender que ela pode ser fragmentada em três partes: o objeto enquadrado, a intenção do fotógrafo e a leitura feita pelo observador do material (Susin, p.05). São etapas bem distintas umas das outras, aquilo que é fotografado não é a mesma mensagem que fica gravado na foto e, por sua vez, aquele que analisa um retrato não consegue ver fielmente o momento retratado. Há sempre uma subjetividade significativa em cada ação, naquele que é fotografado, na fotografia em si e no olhar daquele que a analisa. Dificilmente estas ações são atividades imparciais, assim como todo documento, seja ele imagético, sonoro, oral ou escrito (Burke, p.36). Aliás, quando se analisa um retrato, a primeira informação a ser pensada deve ser o fotógrafo, um filtro cultural da ideia a ser registrada (Kossoy, 2020).
Normalmente a fotografia é usada para ilustrar uma outra fonte, a escrita. Ela normalmente acompanha um texto, uma ideia, mas o contrário também é possível, para compreendermos uma foto a priori, necessitamos do auxílio de outros recursos, como textos, depoimentos ou mesmo um guia presente na observação realizada (Pisaneshi). Tudo isso para ser a serva mais humilde das ciências humanas, um retrato pretensamente fiel da realidade, pois capta um dado momento e o registra como algo que dificilmente pode ser contestado (Kossoy, p.116, 2020). Fazendo um levantamento fotográfico, uma escolha do que deve ou não ser preservado pela História (Meneguel), assim como o de qualquer outra fonte desta ciência.
Apesar de buscar uma fidelidade do objeto fotografado, ela não o é, ela só registra algo no tempo e no espaço, um momento. Já, a sua leitura, é por conta daquele que a contempla, que tenta extrair dela alguma mensagem. Não nos devemos nos preocupar com possíveis montagens, como faziam alguns japoneses de uma seita que existiu no estado de São Paulo, a Shindo Renmei (Morais, 2000), a qual manipulava fontes fotográficas para passar aos seus conterrâneos. Divulgando, caluniamente, que o Japão havia ganho a 2º Guerra Munial, que os EUA pediram um cordo de paz. Tudo isso em fotos alteradas, veiculadas num jornal da comunidade japonesa da época, enganando muitos descendentes que estavam aqui no Brasil para trabalhar nas lavouras de café.
Ademais, esse tipo de fotografia adulterada não deixa de ser um documento do passado. Aliás, um documento de como se fazia um documento falsificado. Como diria a historiadora especializada no uso, Ana Maria Mauad, “não importa se a imagem mente, o importante é saber por que mentiu e como mentiu” (Mauad, p.15, 1996). Por mais adulterado que esteja o documento imagético, ele carrega em si uma história, de mutações talvez, mas uma carga de significados que cada leitura, em cada época, produz um tipo de interpretação. Manipulações e análises de diferentes naturezas ocorrem ao longo da vida de uma fotografia (Silva3). A qual tem uma força mais produtora que reprodutora da realidade.
Enfim, a fotografia é, sem sombra de dúvida, uma ótima fonte para a História, ela congela um instante para depois ser descongelada e analisada (Martins, p. 65, 2008). E, assim como qualquer outra fonte, carrega em si as impressões pessoais de quem a confeccionou. Já seu uso nas ciências humanas atuais se deve ao aumento de sua produção e disseminação, que amplia as discussões teórico-metodológica sobre o tema (Silva2, p.01), assim como as produções acadêmicas. Além disso, vale ressaltar, que por mais que ela seja uma fonte que depende de outras para ser interpretada, ela cumpre seu papel imagético, ou seja, em muitas situações ela vai trazer ao historiador e seu leitor, ferramentas para tatear o passado, para colocar mais vida e luz sobre qualquer tema que partilhe da História.
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