Deficiências de vitamina D e folato como cofatores no desenvolvimento do câncer bucal

VITAMIN D AND FOLATE DEFICIENCIES AS COFACTORS IN THE DEVELOPMENT OF ORAL CANCER

DEFICIENCIAS DE VITAMINA D Y FOLATO COMO COFACTORES EN EL DESARROLLO DEL CÁNCER BUCAL

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/DCBCC6

DOI

doi.org/10.63391/DCBCC6

Novisk, Luciane Carla. Deficiências de vitamina D e folato como cofatores no desenvolvimento do câncer bucal. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Historicamente, associado quase exclusivamente ao tabagismo e ao etilismo, o câncer bucal vem sinalizando ligações com mudanças comportamentais contemporâneas, como o uso crônico de protetores solares e a redução do consumo de farinhas fortificadas, ocasionando deficiência de vitamina D e folato, respectivamente. Esses fatores podem estar redesenhando o perfil de risco, reforçando a importância da informação nutricional baseada em evidências, e da revisão de políticas públicas de fortificação alimentar. Essa revisão integrativa buscou estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas/meta-análises, nas bases PubMed, Web of Science, Scopus e SciELO, que indicam a ligação entre deficiências de vitamina D e folato, ao risco de desenvolvimento de câncer bucal, discutindo mecanismos, análise comportamental e implicações clínicas. Estudos recentes apontam que a deficiência de vitamina D mostra-se prevalente em pacientes com CECO (carcinoma espinocelular oral) e leucoplasia, e reforçam a plausibilidade biológica. Níveis séricos baixos em folato foram associados ao CECO. Ensaios clínicos randomizados não confirmaram o benefício da suplementação indiscriminada.
Palavras-chave
câncer bucal; vitamina D; ácido fólico; deficiências nutricionais; lesões orais potencialmente malignas.

Summary

Historically linked almost exclusively to tobacco and alcohol consumption, oral cancer is now showing associations with contemporary behavioral changes, such as chronic use of sunscreens and reduced intake of fortified flours, leading to deficiencies of vitamin D and folate, respectively. These factors may be reshaping the risk profile, reinforcing the importance of evidence-based nutritional information and the reassessment of public food fortification policies. This integrative review searched PubMed, Web of Science, Scopus, and SciELO for observational studies, clinical trials, and systematic reviews/meta-analyses addressing the association between vitamin D and folate deficiencies and the risk of oral cancer, discussing underlying mechanisms, behavioral aspects, and clinical implications. Recent studies indicate that vitamin D deficiency is highly prevalent among patients with OSCC (oral squamous cell carcinoma) and leukoplakia, supporting biological plausibility. Low serum folate levels have also been associated with OSCC. Randomized clinical trials did not confirm the benefit of indiscriminate supplementation.
Keywords
oral cancer; vitamin D; folic acid; nutritional deficiencies; oral potentially malignant disorders.

Resumen

Históricamente asociado casi exclusivamente al tabaquismo y al consumo de alcohol, el cáncer bucal muestra actualmente vínculos con cambios de comportamiento contemporáneos, como el uso crónico de protectores solares y la reducción del consumo de harinas fortificadas, que ocasionan deficiencia de vitamina D y folato, respectivamente. Estos factores pueden estar redefiniendo el perfil de riesgo, lo que refuerza la importancia de la información nutricional basada en evidencias y de la revisión de las políticas públicas de fortificación alimentaria. Esta revisión integradora buscó en PubMed, Web of Science, Scopus y SciELO estudios observacionales, ensayos clínicos y revisiones sistemáticas/metaanálisis que indicaran la relación entre la deficiencia de vitamina D y folato y el riesgo de desarrollar cáncer bucal, discutiendo mecanismos, aspectos conductuales e implicaciones clínicas. Estudios recientes señalan que la deficiencia de vitamina D es prevalente en pacientes con CCEO (carcinoma epidermoide oral) y leucoplasia, apoyando la coherencia biológica. Niveles séricos bajos de folato también se han asociado al CCEO. Los ensayos clínicos aleatorizados no confirmaron el beneficio de la suplementación indiscriminada.
Palavras-clave
cáncer bucal; vitamina D; ácido fólico; deficiencias nutricionales; lesiones orales potencialmente malignas.

INTRODUÇÃO

O câncer bucal, predominantemente o carcinoma espinocelular oral (CECO), permanece como importante desafio para a saúde pública, sendo caracterizado por diagnóstico tardio e prognóstico limitado. Embora o tabaco e o álcool sejam os principais fatores de risco, há crescente interesse em identificar fatores nutricionais modificáveis que possam influenciar tanto a gênese quanto a progressão de lesões potencialmente malignas (DOPMs), como a leucoplasia oral.

Entre os micronutrientes estudados, destacam-se a vitamina D, pela sua atuação na imunomodulação, diferenciação celular e apoptose, e vitamina B9 (folato, ou ácido fólico), essencial para síntese de nucleotídeos e metilação do DNA. Evidências indicam que as deficiências desses nutrientes podem favorecer as transformações malignas na mucosa oral (Mot et al., 2025; Galeone et al., 2015).

Atualmente, mudanças comportamentais podem estar influenciando esses eixos nutricionais. O uso regular de protetor solar limita a síntese cutânea de vitamina D, enquanto a redução do consumo de trigo (fonte fortificada de ácido fólico em inúmeros países) pode resultar em ingestão insuficiente de folato. Essa revisão integrativa busca atualizar e integrar a evidência epidemiológica, clínica e biológica sobre esses micronutrientes e o risco de câncer bucal.

MÉTODOS

ESTRATÉGIA DE BUSCA

Foi conduzida uma busca sistemática nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science, complementada por consulta a periódicos especializados em nutrição, oncologia e odontologia, além de busca manual em listas de referências. Os termos de busca incluíram combinações de descritores e palavras-chave em inglês e português, tais como: Vitamin D, 25-hydroxyvitamin D, folate, folic acid, oral cancer, oral squamous cell carcinoma, oral potentially malignant disorders, leukoplakia e oral premalignant lesions. O período coberto foi de 2019 a 2025, com inclusão pontual de trabalhos anteriores considerados fundamentais para a discussão conceitual e biológica.

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO

Estudos observacionais (coorte, caso-controle);

Ensaios clínicos randomizados (RCTs);

Revisões sistemáticas e meta-análises;

Estudos biológicos/moleculares relevantes (ex.: receptores VDR, níveis de homocisteína);

Trabalhos focados especificamente em câncer bucal ou, quando necessário, em câncer de cabeça e pescoço com dados aplicáveis à cavidade oral.

CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO

Estudos com amostras exclusivamente animais ou in vitro (exceto quando utilizados como suporte de plausibilidade biológica);

Trabalhos cujo foco principal seja outros tipos de câncer não relacionados à cavidade oral;

Revisões narrativas sem análise crítica ou metodologia explícita;

Publicações duplicadas, sobreposição de amostras ou estudos com qualidade metodológica insuficiente.

RESULTADOS

A deficiência de vitamina D é altamente prevalente em pacientes com câncer de cabeça e pescoço (47–95%), com destaque em casos avançados (Mot et al., 2025). Estudos observacionais relatam níveis mais baixos de vitamina D em pacientes com CECO e leucoplasia, com efeito mais acentuado em fumantes (Maturana-ramírez et al., 2024; See et al., 2023). Em termos fisiopatológicos, a vitamina D atua em imunidade, diferenciação celular e apoptose. Polimorfismos no receptor de vitamina D (VDR) podem modular suscetibilidade ao câncer bucal (Debata et al., 2025).

Já o folato, análises agrupadas mostraram associação inversa entre a ingestão e o risco de câncer de cavidade oral, com aproximadamente 40% menor risco em quintis mais altos de consumo (Galeone et al., 2015). Estudos recentes confirmam folato sérico mais baixo em pacientes com CECO e DOPMs, frequentemente associado à hiper-homocisteinemia (Keshani et al., 2023). A baixa folatemia combinada a consumo elevado de álcool potencializa significativamente o risco de câncer oral, sobretudo na faringe (Sevda et al., 2023). Ensaios clínicos randomizados não demonstraram redução da incidência global de câncer com suplementação de ácido fólico, sugerindo que o benefício ocorre na prevenção de deficiências, não na suplementação indiscriminada (Nih Ods, 2022).

Os estudos incluídos nesta revisão foram organizados na Tabela 1, que sintetiza os achados mais relevantes sobre vitamina D e folato em relação ao câncer bucal e às lesões orais potencialmente malignas. A seleção contempla diferentes desenhos de pesquisa, análises agrupadas, estudos caso-controle, coortes e ensaios clínicos, permitindo visualizar a consistência das associações observadas. No conjunto, observa-se que a deficiência de vitamina D se associa de forma recorrente ao carcinoma espinocelular oral e à leucoplasia, com maior impacto em indivíduos tabagistas, enquanto a baixa folatemia, seja dietética ou sérica, relaciona-se ao aumento do risco de câncer bucal, particularmente quando combinada ao consumo de álcool. A tabela destaca ainda que, embora a suplementação indiscriminada de ácido fólico não tenha reduzido a incidência global de câncer, a prevenção de deficiências específicas permanece como estratégia relevante de intervenção.

Quadro 1 – Síntese dos estudos sobre vitamina D e folato em câncer bucal/OPMDs (2019–2025).

Autor Ano País População Desenho Nutriente / Marcador Ajustes Desfecho Achado principal
Mot et al., 2025 Europa, H&N Revisão sistemática Vitamina D sérica Tabaco, álcool OSCC/OPMDs Alta prevalência de deficiência; associação com OSCC e leucoplasia.
Maturana-Ramírez et al., 2024 América Latina, OSCC Caso-controle Vitamina D sérica Tabaco, estágio OSCC / leucoplasia Níveis de Vit D mais baixos em casos, sobretudo em fumantes.
See et al., 2023 Ásia, OPMDs Coorte Vitamina D sérica Tabaco, idade Leucoplasia / OLP Deficiência associada a risco de OPMDs e displasia.
Debata et al., 2025 Índia, OSCC Mecanístico Polimorfis-

mos do VDR

OSCC Variantes do VDR associadas à suscetibilidade.
Galeone et al., 2015 Multinacional “Pooled-ana-

lysis”

Folato dietético Tabaco, álcool Cavidade oral Maior ingestão associada a 40% menor risco de câncer bucal.
Keshani et al., 2023 Irã, OSCC Caso-controle Folato sérico, B12, homocisteína Tabaco, IMC OSCC Folato sérico menor e homocisteína elevada em casos.
Estudo 2024 (PMC) Ásia, OSCC Caso-controle Folato sérico Tabaco, álcool OSCC Folato significativa-

mente mais baixo em OSCC.

Sevda et al., 2023 Multicêntrico Caso-controle Folato + álcool Tabaco, álcool Cavidade oral/faringe Interação baixa folatemia + alto álcool → risco elevado.
NIH ODS, 2022 Multinacional Revisão de RCTs Suplementa-ção com ácido fólico Câncer total Suplementação não reduziu risco de câncer.

Fonte: elaborado pela autora, com base nos estudos publicados entre 2019 e 2025.

Além das associações epidemiológicas e clínicas, a base fisiopatológica é fundamental para sustentar a relação entre deficiências de micronutrientes e o risco de carcinogênese bucal. A vitamina D, por meio da ligação ao receptor (Vitamin D Receptor – VDR), regula diferenciação e apoptose celular, além de modular vias inflamatórias críticas, como a expressão de IL-6 e TNF-α (citocinas pró-inflamatórias), influenciando a progressão de DOPMs (Mot et al., 2025; Debata et al., 2025). 

O folato, por sua vez, é indispensável para a síntese de nucleotídeos e para a manutenção da metilação do DNA, de modo que sua deficiência gera instabilidade genômica e pode favorecer a hipermetilação de genes supressores tumorais (Galeone et al., 2015; Keshani et al., 2023). Além disso, a interação entre baixa folatemia e alto consumo de álcool amplifica o risco de câncer de cavidade oral e faringe (Sevda et al., 2023). O sinergismo entre deficiências nutricionais, exposição a tabaco e/ou álcool e predisposição genética configura, portanto, um terreno propício à transformação maligna. A seguir, o Quadro 2 mostra a síntese dos principais mecanismos descritos na literatura recente.

Quadro 2 – Principais mecanismos fisiopatológicos associados à deficiência de vitamina D e folato na carcinogênese bucal.

Nutriente Via fisiopatológica Efeito esperado na carcinogênese bucal Evidência-chave
Vitamina D Regulação do ciclo celular (VDR → diferenciação e apoptose) Baixos níveis reduzem apoptose, favorecendo acúmulo de células displásicas Debata et al., 2025; Mot et al., 2025
Vitamina D Modulação imune (↓ IL-6, TNF-α; ↑ resposta Th1/Th2 equilibrada) Deficiência pode gerar ambiente inflamatório crônico pró-tumoral Mot et al., 2025
Vitamina D Reparo do DNA e proteção contra estresse oxidativo Hipovitaminose D associada à instabilidade genômica See et al., 2023
Folato Síntese de nucleotídeos (purinas/pirimidinas) Deficiência prejudica replicação, aumentando quebras de DNA Galeone et al., 2015
Folato Metilação do DNA (via homocisteína/5-MTHF) Hipometilação global → instabilidade; hipermetilação de genes supressores de tumor Keshani et al., 2023
Folato Interação com álcool (inibição da absorção e metabolismo) Baixa folatemia + alto consumo alcoólico → risco elevado de câncer bucal Sevda et al., 2023

Fonte: Elaborado pela autora, com base na pesquisa realizada com estudos publicados entre 2019 e 2025.

Em conjunto, os mecanismos fisiopatológicos descritos oferecem base biológica consistente para a associação entre deficiências de vitamina D e folato e a carcinogênese bucal. No caso da vitamina D, a convergência de evidências aponta para efeitos sobre diferenciação celular, apoptose e modulação da resposta imune, em especial na presença de fatores de risco clássicos como tabaco e álcool. O folato, por sua vez, desempenha papel central na síntese de nucleotídeos e na metilação do DNA, sendo sua deficiência associada a instabilidade genômica e interações adversas com consumo alcoólico elevado. Esses achados reforçam que a vulnerabilidade nutricional pode atuar como cofator relevante na progressão de lesões potencialmente malignas para carcinoma espinocelular oral, integrando-se de forma crítica às evidências epidemiológicas e clínicas sintetizadas nesta revisão.

DISCUSSÃO

As evidências convergem para indicar que tanto a vitamina D quanto o folato exercem influência relevante no risco de carcinogênese bucal, interagindo com fatores de risco clássicos e sendo sustentadas por mecanismos fisiopatológicos bem descritos.

Em relação à vitamina D, observa-se um paradoxo contemporâneo: enquanto o uso regular de protetores solares é fundamental para a prevenção do câncer de pele, ocorre a redução da síntese cutânea de vitamina D, favorecendo as deficiências (Holick, 2019; Mot et al., 2025). Essa deficiência, por sua vez, aparece associada ao risco aumentado de CECO e leucoplasia, especialmente em fumantes (See et al., 2023). A solução não está em abandonar o uso de protetores solares, mas em adotar estratégias complementares, como a avaliação laboratorial dos níveis séricos de 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], principal marcador do status de vitamina D no organismo. Valores abaixo de 20 ng/mL indicam deficiência, entre 20–29 ng/mL sugerem insuficiência e níveis iguais ou superiores a 30 ng/mL são considerados adequados (Martins et al., 2022).

Consensos internacionais sugerem que, em condições clínicas específicas, faixas entre 40–60 ng/mL podem ser mais adequadas (Holick, 2019; Harvard Health, 2016; GrassrootsHealth, 2021). Essa avaliação deve ser priorizada em grupos de risco, como idosos, pessoas com baixa exposição solar, pele escura ou portadores de condições clínicas e metabólicas (Nih, 2020), acompanhada de orientação para exposição solar controlada e, quando indicado, suplementação individualizada.

A fortificação obrigatória de farinhas com ácido fólico foi implementada em diversos países como estratégia de saúde pública para a redução dos defeitos do tubo neural (DTN). Nos Estados Unidos, a obrigatoriedade passou a vigorar em 1998, resultando em uma redução aproximada de 33% na prevalência de DTN (Williams et al., 2005). No Canadá, a medida entrou em vigor em 1998 e levou à queda de 46% dos casos de DTN (De Wals et al., 2007). Na Austrália, a fortificação obrigatória da farinha de trigo iniciou-se em 2009, com impacto significativo na melhora dos níveis séricos de folato e na redução de anomalias congênitas (Bower et al., 2016). Mais recentemente, o Reino Unido aprovou, em 2021, a adição obrigatória de ácido fólico à farinha de trigo não integral, com previsão de implementação gradual e expectativa de redução de até 20% nos casos de DTN (Ghotme et al., 2023). Em países latino-americanos, como Argentina, Colômbia e Chile, programas de fortificação foram instituídos nas últimas duas décadas, demonstrando benefícios similares (Shepherd et al., 2021).

A fundamentação dessas políticas reside em três aspectos: o fechamento precoce do tubo neural, que frequentemente antecede a detecção da gravidez; a baixa cobertura da suplementação pré-concepção em gestações não planejadas; e a efetividade da fortificação em larga escala em garantir acesso equitativo, especialmente para populações vulneráveis (Liu et al., 2004).

Contudo, a adoção da fortificação universal de alimentos não é isenta de desafios. Estudos alertam para o risco de que a ingestão elevada de ácido fólico pode mascarar sintomas de deficiência de vitamina B12, atrasando o diagnóstico e levando a complicações neurológicas em populações idosas (Mason; Lei, 2017). Além disso, há necessidade de sistemas de vigilância nutricional que acompanhem a efetividade da medida e eventuais efeitos adversos de longo prazo. Esses elementos reforçam a relevância de discutir a fortificação em uma perspectiva de aplicação prática: ao mesmo tempo em que os benefícios populacionais são evidentes, é essencial garantir monitoramento contínuo, adaptação de políticas e avaliação de riscos e benefícios em diferentes contextos sociais e dietéticos.

No caso do folato, a política de fortificação de farinhas com ferro e ácido fólico foi determinante para prevenir deficiências populacionais (Brasil, 2002). Contudo, a crescente adoção de dietas sem glúten ou restritivas em carboidratos refinados reduziu o consumo de farinha de trigo, principal veículo dessa fortificação. Esse cenário pode resultar em deficiências subclínicas, sobretudo em indivíduos que não consomem regularmente fontes naturais de folato, como verduras, leguminosas e frutas cítricas.

Como evidenciado em análises agrupadas de estudos, a ingestão adequada associa-se a menor risco de câncer bucal, e a baixa folatemia combinada ao consumo elevado de álcool potencializa o risco (Galeone et al., 2015; Sevda et al., 2023). Isso sugere a necessidade de políticas que considerem a fortificação alternativa em farinhas sem glúten, como as de milho, arroz e mandioca, além de campanhas educativas para diversificação alimentar.

Diante desse cenário, em que mudanças comportamentais e dietéticas recentes podem comprometer a ingestão adequada de folato, torna-se fundamental analisar como diferentes países responderam a esse desafio por meio de políticas de fortificação alimentar. A experiência internacional oferece subsídios valiosos para compreender tanto o impacto positivo da fortificação na prevenção de deficiências populacionais quanto as limitações e controvérsias associadas à sua implementação em larga escala.

Em síntese, tanto a vitamina D quanto o folato exemplificam como fatores nutricionais podem interagir com exposições comportamentais clássicas (tabaco e álcool) para modular o risco de câncer bucal. O paradoxo contemporâneo da vitamina D evidencia a necessidade de estratégias clínicas individualizadas, enquanto a discussão sobre fortificação com folato ressalta a importância de políticas públicas contínuas, adaptadas a novos padrões alimentares. Esses achados convergem para a necessidade de incluir a triagem nutricional e a orientação alimentar como componentes da abordagem preventiva em indivíduos de risco para câncer bucal e DOPMs, além de integrar a nutrição ao debate aplicado em oncologia oral.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise integrativa reforça que deficiências de vitamina D e folato atuam como cofatores com base fisiopatológica na carcinogênese bucal, sustentadas por consistência epidemiológica e coerência com mecanismos biológicos descritos. Sobre a vitamina D, destaca-se o paradoxo contemporâneo: o uso sistemático de protetores solares, essencial para prevenir o câncer de pele, reduz a síntese cutânea desse micronutriente, favorecendo deficiências que aparecem associadas a maior risco de carcinoma espinocelular oral e lesões potencialmente malignas, sobretudo em fumantes. Esse contexto justifica o rastreamento laboratorial em grupos de risco, a orientação para exposição solar controlada e, quando indicado, a suplementação individualizada.

O folato, por sua vez, associa-se a menor risco de câncer bucal quando consumido em níveis adequados, enquanto a suplementação indiscriminada não reduziu a incidência global de câncer. O cenário atual, marcado pela redução do consumo de trigo em função de dietas sem glúten ou restritivas, pode comprometer a ingestão populacional desse micronutriente em países que utilizam a fortificação de farinhas como principal estratégia preventiva, ressaltando a necessidade de diversificação alimentar e de políticas alternativas de fortificação.

No campo da saúde pública, a experiência internacional com programas de fortificação demonstra benefícios consistentes na segurança nutricional populacional e aponta possibilidades de adaptação para a prevenção de câncer bucal. Persistem, contudo, lacunas científicas importantes, como a necessidade de cortes ajustadas e ensaios clínicos direcionados a indivíduos com deficiência comprovada. Assim, este trabalho destaca que a interface entre nutrição, comportamento e oncologia bucal oferece oportunidades concretas de intervenção clínica e populacional, reforçando a importância da triagem nutricional como parte da abordagem multifatorial de risco para câncer bucal. Antes restrito quase exclusivamente a tabagistas e etilistas, o perfil de risco para câncer bucal pode estar se expandindo para uma nova era em que fatores nutricionais e comportamentais emergem como determinantes adicionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Novisk, Luciane Carla. Deficiências de vitamina D e folato como cofatores no desenvolvimento do câncer bucal.International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
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v. 67
n. 7
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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Deficiências de vitamina D e folato como cofatores no desenvolvimento do câncer bucal

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Vol.

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Junho/2025