Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
O último artigo de uma sequência de quatro estudos sobre o rio Sapato, localizado no município de Lauro Freitas, estado da Bahia, versa trazer processos reflexivos sobre a união de três elementos fundamentais à vida humana: a sustentabilidade, a vida em comunidade e a vida em sociedade.
Através de um estudo de caso, de nível exploratório e descritivo, com dados bibliográficos retrospectivos e entrevista, realiza-se um levantamento de informações e dados que corroboraram com a evolução histórica da sociedade, entremeio as distintas condições humanas e ambientais. O estudo sobre o homem, o meio ambiente e as adaptações condicionadas, na busca pelas relações sociais, desenvolvimento infraestrutural e multidimensional, se torna fundamental nesta composição dos estudos sobre o rio Sapato, pois, justificam em parte as ações do homem defronte a natureza e medidas interventivas emergenciais para reverter as consequências destas ações.
O estudo sobre o rio Sapato corresponde a uma avaliação detalhada dos impactos que a ação humana incide sobre o espaço ocupado, especialmente quando a urbanização ocorre de modo desenfreado, sem planejamento, com migração de múltiplas personas sem um direcionamento adequado, transformando não apenas o espaço rural, mas também as estruturas sociais, repercutindo em diversos prejuízos à biodiversidade no bioma Mata Atlântica de Lauro Freitas, Bahia.
Em três seções principais foram abordados os conceitos de sustentabilidade, de inclusão comunitária que se subdivide nos agrupamentos sociais por interesses e, finalmente, na sociedade civil que corresponde a todos os indivíduos, cidadãos domiciliados no Brasil e, em especial, no município de Lauro Freitas, BA.
Para realização deste estudo foi, primeiramente, concluído um levantamento bibliográfico retrospectivo através de produções científicas disponíveis em bases de dados eletrônicas brasileiras, explorando qualitativamente as principais conceituações acerca da sustentabilidade, da comunidade e sociedade, bem como suas contextualidades no contexto histórico. Após, realizou-se a aplicação de uma entrevista com residentes locais do município de Lauro Freitas-BA, sob a forma de questionário (Apêndice A), visando identificar as relações consistentes entre o rio Sapato e a população local. Os dados foram analisados sob abordagem quantitativa e qualitativa, transcritos sob a forma de gráficos e tabelas, bem como dissertação textual.
É imprescindível formar um posicionamento popular sobre o tema rio Sapato para que se possa vislumbrar, dentro do campo da ciência, a importância em agir interventivamente na (des)poluição do rio e no estabelecimento de rotinas para proteger a biodiversidade do bioma predominante no município.
CONCEITUANDO SUSTENTABILIDADE, COMUNIDADE E SOCIEDADE
A sustentabilidade é um tema emergente desde a virada do século que tem como foco formar uma expressão crítica sobre o capitalismo. Não que esteja contrária totalitariamente ao capitalismo, mas demonstra, nitidamente, problemas relacionados ao uso indevido dos recursos naturais para a transformação em massa e produção econômica sobre o capital.
De acordo com Lima (1997) as diversas mudanças contextuais sobre densidade populacional, estilos de vida, comportamento consumidor e falta de capacidade da natureza ser reativa mediante a ocorrência de degradação e depredação, instalam uma crise ambiental e social. “A degradação da natureza, embora possa ter ocorrido em pequena escala nas sociedades anteriores ao capitalismo, é típica do capitalismo e da industrialização, que visam um desenvolvimento econômico ilimitado a partir de recursos finitos.” (Sousa; Abdala, 2020, p.150).
O termo sustentabilidade vem ganhando mais assertividade por estar relacionado as agressões do ser humano ao meio ambiente, sem que incida coscientização sobre a finitude dos recursos e que estes são fundamentais para a sobrevivência humana, o que acarreta, diretamente, num estado de crise ambiental (Ianquinto, 2018).
A sustentabilidade relaciona-se com os aspectos da sociedade, abrangendo dez dimensões, quais são: “[…] dimensão ecológica ou ambiental, dimensão econômica, dimensão social, dimensão espacial ou territorial, dimensão cultural, dimensão política, dimensão jurídico-política, dimensão ética, dimensão psicológica e dimensão tecnológica.” (Iaquinto, 2018, p.157). Portanto, para estudar a sustentabilidade e seus impactos nas relações comunitárias e sociais, é preciso entender como cada dimensão é atingida por ela.
No que diz respeito a comunidade, Peruzzo e Volpato (2009) explicam que a terminologia comunidade pode associar-se a locais específicos onde residem pessoas que pensam em comum, proporcionando uma sensação de bem-estar em meio a hostilidade humana. Conforme esboçam “[…] a palavra “comunidade” evoca sensações de solidariedade, vida em comum, independentemente de época ou de região. Atualmente, seria o lugar ideal onde se almejaria viver, um esconderijo dos perigos da sociedade moderna.” (Peruzzo; Volpato, 2009, p.140).
Neste sentido, a vida comunitária ganha mais valorização pois, a relação social, aquela entre homens distintos, se formaliza mediante a construção de interesses em comum, comunitários, fortalecendo condutas, situações e qualidades que identificariam determinadas pessoas ou não. Ou seja, a comunidade reproduz um sentimento de pertencimento entre pessoas:
Comunidade só existe propriamente quando, sobre a base desse sentimento [da situação comum], a ação está reciprocamente referida – não bastando a ação de todos e de cada um deles frente à mesma circunstância – e na medida em que esta referência traduz o sentimento de formar um todo (Weber, 1973, p.142).
A vida comunitária acontece em sociedade. Então, no que se trata a sociedade, Roble (2022) destaca que ela pode ser concebida como uma necessidade humana, oriunda da necessidade de relacionar-se com os demais humanos, dentro de uma estrutura social que tem costumes, crenças, valores, princípios e bases distintas de ser e vivenciar o cotidiano.
Em que cerne a sociedade brasileira, vivencia-se o Estado Democrático de Direito. Ou seja, uma sociedade democrática, que visa fazer com que o povo exerça seu poder como soberano por meio da representatividade ocorrida entre governantes eleitos. Neste sentido, a sociedade brasileira é soberana e, por esse motivo, tem influência direta na perspectiva de mudanças necessárias, de exigir intervenções e de forçar as governanças municipais, estaduais e federais a agirem em prol a causas e eventos.
RELAÇÕES ENTRE SUSTENTABILIDADE, COMUNIDADE E SOCIEDADE
Tratadas as questões conceituais de sustentabilidade, comunidade e sociedade, essa seção irá abarcar as impressões observadas durante as entrevistas com residentes locais nos entornos do rio Sapato, em Lauro Freitas, na Bahia. Considera-se imprescindível trazer à tona a opinião pública sobre o problema ambiental recorrente.
POSICIONAMENTO POPULAR SOBRE A CONDIÇÃO AMBIENTAL DO RIO SAPATO, EM LAURO FREITAS, BA
A entrevista (Quadro 1) foi realizada pelo pesquisador em formato presencial, através da abordagem direta, de domicílio a domicílio, sendo os dados coletados através de “gravações de áudio”. As informações demográficas foram submetidas a análise estatística, vide tabulação com auxílio do Microsoft Office Excel. Já as informações qualitativas foram submetidas a técnica de análise do discurso e recorrente transcrição em formato escrito.
Quadro 1 – Questionário para populares de Lauro Freitas-BA
Fonte: Dados da pesquisa.
Foram entrevistados um total de quatro (n=4) participantes, sendo três homens e uma mulher, com idade entre 47 a 60 anos, residentes e domiciliados em Lauro Freitas-BA nos entornos da extensão perimetral do rio Sapato há pelo menos 5 anos até 25 anos, com residência própria.
Tabela 1 – Dados demográficos dos participantes
| Gênero | Idade | Tempo de residência | |
| Entrevistado 1 | Masculino | 47 | 17 |
| Entrevistado 2 | Masculino | 58 | 5 |
| Entrevistado 3 | Masculino | 52 | 25 |
| Entrevistado 4 | Feminino | 60 | 20 |
Fonte: Dados da pesquisa.
Os participantes dividem-se equivalentemente entre casados ou divorciados, possuem filhos e residem com mais pessoas nos domicílios. Apenas um participante mora sozinho em sua residência.
Tabela 2 – Dados demográficos dos participantes
| Estado Civil | Filiação | Quantos residentes | |
| Entrevistado 1 | Casado | 2 | 3 |
| Entrevistado 2 | Casado | 0 | 4 |
| Entrevistado 3 | Divorciado | 0 | 1 |
| Entrevistado 4 | Divorciado | 3 | 2 |
Fonte: Dados da pesquisa.
De acordo com o levantamento, os principais motivos que levaram os participantes a residirem no município de Lauro Freitas-BA, 100% deles assentem o fato de ser na região litorânea, “com presença de praia”, o que favorece o contato com a natureza e a vida menos urbanizada; 50% (n=2) citaram a facilidade de trabalho e acesso a educação como motivos; um participante citou a urgência durante o período pandêmico como fator motivador, correspondendo a 25%.
A partir dos dados, percebe-se que a maioria dos populares entrevistados optaram por Lauro Freitas-BA devido ao local ser na região litorânea, próximo a praia, a natureza, com incidência de qualidade de ar, umidade e presença de plantas e vegetação natural, o que proporciona maior conforto e bem-estar humano.
Gráfico 1 – Fatores motivadores para fixar residência em Lauro Freitas-BA
Fonte: Dados da pesquisa.
No entanto, ao questionar-se sobre a qualificação da gestão ambiental, dos programas ambientais gerais do município e dos programas voltados para a preservação do rio Sapato, todos os entrevistados assentiram como “péssimo”.
Gráfico 2 – Qualificação da gestão ambiental, dos programas ambientais de Lauro Freitas e dos programas ambientais para o rio sapato
Fonte: Dados da pesquisa.
A pergunta sequente foi “numa escala de 0 a 5, sendo 0 péssimo e 5 excelente, como você qualifica a condição ambiental do rio Sapato hoje?”. Os resultados para essa questão também foram pessimistas, pois, 50% evidenciaram escala 1, 25% manifestaram escala 2 e 25% classificaram a condição ambiental do rio Sapato em 0.
Esses resultados demonstram nitidamente a insatisfação da comunidade lauro-freitense residente aos arredores do rio Sapato sobre as atuais condições do curso hídrico, bem como dos mecanismos utilizados para sua conservação, em correspondência ao que se prevê as legislações que vigoram o bioma local. Conforme os próprios entrevistados opinam sobre as condições ambientais do rio:
Largado, largado, não existe cuidado. (Entrevistado 1); Moradores que despejam esgoto no rio e a prefeitura não atua para conter essa ação. Além da falta de limpeza. (Entrevistado 2); Um rio que está poluído e no momento não soma com a comunidade.” (Entrevistado 3); É tão triste. É falta de respeito de todos, não apenas da prefeitura. De nós todos, poluirmos um rio que poderíamos passear e aproveitar. (Entrevistado 4).
É perceptível que os populares sentem-se frustrados com a condição do rio Sapato, especialmente pela própria população local utilizar do recurso como depósito de dejetos e efluentes. Não se trata de mera culpabilidade da administração municipal, mas sim, uma consequência desastrosa oriunda da ação dos próprios residentes.
Entre os principais problemas citados sobre o rio Sapato, que são observáveis no cotidiano dos entrevistados, estão a presença das macrófitas aquáticas, baronesas (E. Crassipes), do lixo urbano, dos resíduos sólidos e dos próprios efluentes que vem das casas de forma ilegal:
Rio com vegetação exacerbada, influência de esgoto residencial e descarte de resíduos sólidos.” (Entrevistado 3); “Muitas baronesas que aparecem quando está poluído, muriçocas, esgoto sendo despejado em pleno rio. Uma falta de respeito com a nossa natureza. (Entrevistado 4).
Enquanto ideias para preservar o rio Sapato, os residentes ressaltam a importância de se investir em programas ambientais mais eficazes, a criação de cronogramas para realizar a limpeza do curso hídrico, a criação de um número telefônico para denúncias, tornar a fiscalização uma realidade local e promover programas de educação ambiental para toda a comunidade, com iniciativa da Prefeitura Municipal, Poder Legislativo local e comunidade lauro-freitense.
Investimento em conservação. (Entrevistado 1); A Prefeitura deveria criar um calendário e cronograma de limpezas, além de número telefônico para denúncias, além de fortalecer a fiscalização. (Entrevistado 2); Ligação do homem com poder público para poder somar. (Entrevistado 3); “A prefeitura em primeiro lugar, com um incentivo por meio de educação ambiental para conscientizar as pessoas. (Entrevistado 4).
Sobre as demais questões pertinentes da entrevista, especialmente as relacionadas ao conceito de Sustentabilidade e da Agenda 2030 da ODS, a maioria dos participantes não soube responder as questões, devido a falta de conhecimento sobre os temas. Ressalta-se que este estudo foi dedicado a acompanhar a população local, não tomando por critério a necessidade de educação à níveis mais altos, apenas a opinião popular, assegurada pela soberania brasileira.
Em que se refere a ação humana, todos concordam que o que está acontecendo com o rio Sapato é uma consequência de todos os lauro-freitenses, especialmente por negligenciarem aspectos imprescindíveis da conservação ambiental. Revelam a importância em construir ações corretivas, de boa intenção e em coletivo, para que possam reverter o problema do rio poluído.
Além disso, destacam que se sentem prejudicados pela atual condição do rio, por estar sujo, com mal cheiro e degradando o ecossistema local. Reforçam a ideia de conservar o rio através de investimentos de qualidade e programas que realmente funcionem, não apenas na limpeza do curso hídrico, mas na conscientização de toda a comunidade local.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como foco realizar uma entrevista com moradores locais de Lauro Freitas-BA, a fim de identificar suas opiniões sobre a atual gestão ambiental e especialmente sobre os programas interventivos de revitalização e limpeza do rio Sapato.
Percebe-se, de forma ágil, que os populares sentem-se insatisfeitos, frustrados e desgostosos com a atuação condição ambiental, pois o curso hídrico permanece contaminado, a prefeitura municipal não realiza limpezas com periodicidade necessária, além dos residentes continuarem praticando condutas negligentes, depositando desejos, resíduos e efluentes no curso hídrico.
Não há um consenso entre Poder Público e população local sobre a importância em, primeiramente, evitar a (re)contaminação do rio, que já está altamente poluído. E, em segundo lugar, de tomar providências emergenciais para reverter o quadro caótico ambiental que foi instaurado.
A saber, o município de Lauro Freitas-BA faz parte do bioma Mata Atlântica e tem suas áreas de preservação asseguradas por legislação, inclusive incidindo em processos para criminalizar atos lesivos contra a natureza, fauna e flora local. No entanto, apesar dessa realidade legal, na prática, o rio Sapato continua sendo utilizado como um depósito de lixo urbano.
Conclui-se aqui que apesar das iniciativas da Prefeitura Municipal em intermediar ações corretivas para revitalizar o rio, infelizmente, a realidade vivenciada é outra. Registros fotográficos e a própria visita in loco denunciam a existência da poluição. As macrófitas aquáticas, os resíduos sólidos e próprios estudos realizados por outros pesquisadores locais delatam a existência de lacunas no que se é divulgado pela mídia e do que se é vivenciado no dia-a-dia lauro-freitano.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
IAQUINTO, Beatriz Oliveira. A sustentabilidade e suas dimensões. Revista da ESMESC, v. 25, n. 31, p. 157-178, 2018.
LIMA, Gustavo F. da Costa. O debate da sustentabilidade na sociedade insustentável. Política e Trabalho, Paraíba, n.13, p. 201-222, 1997.
PERUZZO, Cicilia M. Krohling; VOLPATO, Marcelo de Oliveira. Conceitos de comunidade, local e região: inter-relações e diferença. Revista Líbero, São Paulo, v. 12, n. 24, p. 139-152, 2009.
ROBLE, Odilon. Introdução ao conceito de sociedade e de vida coletiva. São Paulo, SP: USP, 2022. 10p.
SOUSA, André Chagas de; ABDALA, Klaus de Oliveira. Sustentabilidade, do conceito à análise. Revista Metropolitana de Sustentabilidade, v. 10, n. 2, p. 146-166, 2020.
WEBER, M. Comunidade e sociedade como estruturas de socialização. In: FERNANDES, F. (Org.). Comunidade e sociedade: leituras sobre problemas conceituais, metodológicos e de aplicação. São Paulo: Editora Nacional e Editora da USP, 1973. p. 140-143.
Área do Conhecimento