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Resumo
INTRODUÇÃO
A leishmaniose é inegavelmente uma das doenças mais antigas que afetam o ser humano. Registros de casos de leishmaniose cutânea remontam ao primeiro século d.C. na Ásia Central. As lesões apresentadas recebiam denominações de acordo com a região em que ocorriam, como ferida de Balhk, em alusão a cidade afegã, botão de Alepo em referência a Síria ou botão de Baghdad referindo-se ao Iraque. Esta enfermidade era conhecida pelos itinerantes como botão do oriente. A leishmaniose é uma doença zoonótica com ampla disseminação em nosso território, e tem como agente causador o protozoário do gênero Leishmania, transmitido pela picada da fêmea do flebotomíneos infectados causando lesões na pele e mucosas, com ciclo evolutivo que se da principalmente entre o mosquito transmissor e o hospedeiro vertebrado (Cimerman, 2002).
Leishmaniose Tegumentar Americana é uma infecção não contagiosa, com feridas que podem cronificar por meses, curar espontaneamente, ou evoluir para uma necrose culminando na úlcera leishmaniotica. Por outro lado, alternativamente a resposta, a lesão pode não necrosar evoluindo para a forma verrucosa e papilomatosa. Esse estado de higidez representa um grave problema no âmbito da saúde pública devido a sua alta incidência, ampla distribuição demográfica e a capacidade de deixar sequelas desfigurantes, destrutivas e incapacitantes. Trata-se de patologia endêmica com predominância em áreas dos trópicos e subtropicais. No Brasil, a leishmaniose tem mostrado um crescimento geográfico preocupante, com casos notificados em todos os estados, embora com maior incidência na região norte (Neves et al., 2003).
CONTEXTO EPIDEMIOLÓGICO
A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), é uma zoonose de relevante interesse epidemiológico, especialmente nas regiões tropicais e subtropicais da américa latina, com destaque para o Brasil onde sua incidência e expressiva. Laranjal do Jari, localizada no estado do Amapá, apresenta um cenário peculiar no que diz respeito a saúde pública onde o controle de vetores e essencial para entender a persistência da LTA, sendo que essa doença não só impacta a saúde individual, mas também compromete o bem estar social e econômico da comunidade inteira.
Os aspectos sociais e culturais desempenham um papel fundamental na compreensão da Leishmaniose Tegumentar Americana na região de Laranjal do Jari, onde diferentes faixas etárias podem apresentar variações significativas no impacto da doença e nas práticas de prevenção e tratamento. O reconhecimento da relação entre as variáveis sociais, ambientais e laborais é fundamental para implementar estratégias eficazes de atenuação. Entre 2009 e 2015, o município foi uma região de monitoramento intenso, com flutuações nos casos ligados no comportamento de deslocamento de população e alterações em ecossistemas, como desmatamento e urbanização descontrolada.
Nestes anos, o SINAM forneceu relatos essenciais que permitiram aos gestores de saúde uma resposta adaptativa a situação. Além da iniciativa de controle de vetor, é vital que as campanhas de conscientização em saúde abordem também os determinantes sociais que são frequentemente negligenciados. As condições de moradias e os serviços de saúde disponíveis são fatores que devem ser levados em consideração ao se construir um plano abrangente de atuação. Dessa forma a interação entre áreas diversas como saúde, educação e habitação devem ser priorizada para que os esforços intersetoriais possam resultar em uma redução efetiva do número de casos da doença, assegurando a sustentabilidade das ações a longo prazo, e promovendo um ambiente mais seguro para a população local.
Práticas impróprias aliadas ao manejo inadequado nas áreas urbanas e rurais, contribui para a manutenção da circulação do agente etiológico, a Leishmania brasiliense que está relacionada com o desenvolvimento de lesões mucocutâneas. O estudo do perfil epidemiológico revela também que a LTA afeta desigualmente faixas etárias distintas, com uma maior incidência em adolescentes e adultos jovens, implicando na necessidade de estratégias de vigilância e controle que envolva educação e saúde e participação comunitária. Assim, a compressão do contexto epidemiológico de Leishmaniose Tegumentar Americana em Laranjal do Jari é fundamental para a elaboração de políticas públicas eficazes que visem a mitigação da doença e a melhoria nas condições de saúde da população local.
OBJETIVO DO ESTUDO
GERAL
Relatar incidência de casos de Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) em Laranjal do Jari, no estado do Amapá distribuídos por faixa etária, entre 2009 a 2015. Durante esse intervalo, foram observados registros de casos da doença, considerando a prevalência em diferentes grupos etários. A análise busca identificar padrões de incidência e a possível relação de fatores socioambientais, contribuindo para a compreensão da dinâmica epidemiológica da LTA na região. A coleta de dados permitirá ver um panorama detalhado, visando o encaminhamento para ações de saúde pública e para a prevenção eficaz da doença.
ESPECÍFICO
Correlacionar os indicadores epidemiológicos da Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), registrados pela Superintendência de Vigilância Sanitária do Amapá (SVS/Ap), por faixa etária, com informações disponíveis na literatura. Relatar a ocorrência de LTA, em Laranjal do Jari no estado do Amapá distribuído por faixa etária no período de 2009 a 2015. Nesse período serão analisados os registros da doença, focando os diferentes grupos etários. Pretende-se identificar a faixa mais atingida pela infecção.
METODOLOGIA
A pesquisa proposta foi conduzida utilizando um método analítico descritivo, com base em dados fornecidos pela Superintendência de Vigilância Sanitária do Amapá (SVS/Ap), configurando-se como um estudo retrospectivo baseados na quantidade de casos diagnosticados em Laranjal do Jari, segmentados pela faixa etária nos anos de 2009 a 2015
RESULTADOS
Durante o intervalo de tempo estudado, 2009 a 2015, foi constatado que, de um total de 952 pacientes atendidos nas unidades de saúde responsáveis pela coleta e realização dos testes para LTA, 565 indivíduos pertenciam ao grupo economicamente ativo, apresentando idades entre 21 e 50 anos. Os que se apresentaram na faixa de 0 a 20 anos somaram um total de 321 indivíduos, na amostragem. Enquanto aqueles que se apresentam com mais de 60 anos, somaram apenas 66 casos positivos para LTA no estudo em questão. (Tabela 1).
Tabela 1 – Número de casos da infecção por LTA por idade em L. do Jari no período de 2009/2015.
| IDADE | PERÍODO 2009 /2015 |
| 0———–10 | 75 |
| 11———-20 | 246 |
| 21———-30 | 254 |
| 31———40 | 198 |
| 41———50 | 113 |
| 51——–60 | 39 |
| 61——–70 | 19 |
| 71——–80 | 08 |
| 81——–90 | 00 |
| 91——–100 | 00 |
| Total | 952 |
Fonte: SVS 2009/2015
Número de casos da infecção por LTA por idade em L. do Jari no período de 2009/2015.
Fonte: Elaboração do autor com base em pesquisas (2025).
Ao correlacionar o número de casos positivos para Leishmaniose Tegumentar Americana nos pacientes analisados. Observou-se uma incidência maior de casos positivos no grupo labora mais ativo, totalizando 565 casos entre as idades de 21 a 50 anos correspondendo a 59,4% da amostragem. Os pacientes na faixa entre 0 e 20 anos, acorreram com 321 casos perfazendo 33,7% do total. Já o grupo acima dos 50 anos registrou apenas 66 casos, o que equivale a 6,84% do estudo. Evidencia-se assim a tendência na faixa etária com maior fator ocupacional entre os casos reportados. (Tabela 2)
Tabela 2 – Percentual de casos da infecção por LTA por idade em L. do Jari no período de 2009/2015
| IDADE | PERÍODO 2009 /2015 | % |
| 0———–10 | 75 | 7,9 |
| 11———-20 | 246 | 25,8 |
| 21———-30 | 254 | 26,7 |
| 31———40 | 198 | 20,8 |
| 41———50 | 113 | 11,9 |
| 51——–60 | 39 | 4,1 |
| 61——–70 | 19 | 2,0 |
| 71——–80 | 08 | 0,84 |
| 81——–90 | 00 | 00 |
| 91——–100 | 00 | 00 |
| Total | 952 | 100 |
Fonte: SVS 2009/2015.
Figura 2 – Percentual de casos da infecção por LTA por idade em L. do Jari no período de 2009/2015
Fonte: Elaboração do autor com base em pesquisas (2025).
DISCUSSÃO
A Leishmaniose Tegumentar Americana no Brasil (LTA), carece de dados confiáveis e muito provavelmente está subestimada. Embora diversas estimativas tenham sido realizadas, vários estudos brasileiros evidenciam a presença da LTA em todo território nacional, revelando coeficientes de incidência variados (Basano & Camargo, 2004). De acordo o estudo envolvendo 952 indivíduos atendidos nas unidades de saúde responsáveis por realizar pesquisa para LTA em Laranjal do Jari, 59,4% dos que apresentaram resultados positivos, encontravam-se na faixa etária economicamente ativa (21 a 50 anos), refletindo características epidemiológicas observadas por Name et al (2005).
O diagnóstico mais prevalente foi realizado por Pesquisa Direta de Leishmania (PDL) que identificou 87,84% dos casos em contraste com a intradermorreação de Montenegro que detectou 15,5%. Conforme a literatura a PDL demonstra maior sensibilidade para a forma cutânea da doença. Nos últimos 20 anos a LTA tem evidenciado um crescimento significativo tanto em termo de magnitude quanto de expansão geográfica, com surtos nas regiões sul, sudeste, centro oeste, nordeste e mais recentemente na região norte (área amazônica). Isto se dá devido ao intenso processo de colonização, o que se reflete nos dados do estudo ao considerar a diversidade etária e ocupacional dos indivíduos afetados, que incluem agricultores, garimpeiros, estudantes, donas de casa, transportadores, pedreiros. O padrão epidemiológico observado e característico da construção de estradas, instalação de empresas mineradoras, expansão da fronteira agropecuária e a exploração desordenada de madeiras na floresta (Brasil,2000).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As conclusões sobre a abordagem da Leishmaniose Tegumentar Americana, em Laranjal do Jari /Amapá, revelam a importância de estratégias para o controle e prevenção da doença, deixando claro a necessidade de ações integradas entre a saúde pública, educação e o fundamental engajamento da comunidade local.
O estudo em questão foi conduzido com base nos dados fornecidos pela Superintendência de Vigilância Sanitária do Amapá (SVS/AP), abrangendo o período entre 2009 e 2015, resultando nas seguintes conclusões:
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASANO, S.A & CAMARGO, L.M.A. Leishmaniose tegumentar americana: Histórico, epidemiologia e perspectivas de controle. Revista Brasileira de Epidemiologia. Volume 7, Nº 3, 2004.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual de Controle da Leishmaniose Tegumentar Americana. Brasília: Ministério da Saúde, 2000;
CIMERMAN, Benjamin. Parasitologia Humana e Seus Fundamentos. 2ª ed. São Paulo: Editora Atheneu 2002;
FALQUETO, A.; SESSA, P. A.; VAREJÃO, J. B.; BARROS, G. C.; MOMEN, H. & GRIMALDI Jr., G., 1991. Leishmaniose no Estado do Espírito Santo, Brasil. Outras evidências sobre o papel do cão como reservatório da infecção para os seres humanos. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 86:499-500
FORATTINI, O. P. Entomologia Médica. 4. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 1973;
NEVES, David Pereira. Parasitologia Humana. 10ª ed. São Paulo: Editora Atheneu 2003;
PIRMEZ, C.; COUTINHO, S. G.; MARZOCHI, M. C. A.; NUNES, M. P. & GRIMALDI JR., G., 1988. Leishmaniose tegumentar americana: estudo clínico e imunológico de cães naturalmente infectados com Leishmania braziliensis em área endêmica do Rio de Janeiro, Brasil. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, 38:52-58.
SABROZA, P. C., 1981. O Domicílio como Fator de Risco na Leishmaniose Tegumentar Americana: Estudo Epidemiológico em Jacarepaguá, Município do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.
TALHARI, Sinésio. Leishmaniose no Estado do Amazonas. Aspectos epidemiológicos, clínicos e terapêuticos. Anais Brasileiro de Dermatologia , v.63, n. 6, p433-438, 1988.
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