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Resumo
INTRODUÇÃO
A evasão escolar é um problema estrutural e persistente no Brasil, afetando significativamente o desenvolvimento educacional e social de crianças e adolescentes. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) indicam que milhões de jovens brasileiros, especialmente nas regiões mais vulneráveis socialmente, continuam a abandonar a escola antes de concluir a educação básica (INEP, 2021). Essa evasão não apenas compromete o direito fundamental à educação, previsto na Constituição Federal de 1988, mas também perpetua ciclos de exclusão social e pobreza, dificultando a mobilidade social e o desenvolvimento pleno desses indivíduos (Silva & Rodrigues, 2020).
Em resposta a esse problema, foi criado o Programa de Busca Ativa Escolar (BAE), desenvolvido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com o Governo Federal e organizações da sociedade civil. O programa tem como objetivo principal identificar, registrar e acompanhar estudantes que estão fora da escola, promovendo sua reintegração ao ambiente educacional. A Busca Ativa Escolar se distingue por sua metodologia intersetorial, que envolve a colaboração de diferentes órgãos governamentais, como a educação, a saúde, a assistência social e até a área de segurança pública, além de contar com o apoio de ONGs e comunidades locais (UNICEF, 2020).
O processo de Busca Ativa baseia-se em uma rede de colaboração que visa identificar rapidamente crianças e adolescentes em situação de exclusão escolar, compreender as razões para essa exclusão e tomar medidas práticas para trazê-los de volta ao ambiente educacional. Assim, o programa não se limita a um diagnóstico, mas oferece um caminho concreto para a resolução do problema, envolvendo uma atuação conjunta de diversos agentes públicos e privados (Carvalho & Mendes, 2021). Essa abordagem é inovadora, pois permite regular a complexidade das causas da evasão escolar, que podem estar relacionadas tanto a fatores econômicos quanto sociais, familiares e individuais (Araújo & Freitas, 2019).
No entanto, a efetividade do BAE depende crucialmente de como ele é implementado no nível municipal, onde a política educacional ganha sua concretude. É nesse espaço que as diretrizes nacionais precisam ser adaptadas às realidades locais, e é também onde as dificuldades de infraestrutura, gestão de recursos e integração entre diferentes setores se tornam mais evidentes (Oliveira et al., 2022). Neste contexto, a percepção dos educadores municipais — especialmente professores e gestores escolares, que estão na linha de frente do programa — é um fator determinante para avaliar as potencialidades e limitações da iniciativa.
Embora a metodologia do programa seja robusta, os desafios de implementação no âmbito local podem variar de acordo com a disponibilidade de recursos, a capacitação dos profissionais envolvidos, e a integração efetiva entre as secretarias e os agentes responsáveis pela sua execução. Portanto, é crucial analisar como os educadores municipais percebem o impacto do programa, as barreiras que enfrentam e as estratégias que utilizam para superá-las. Este estudo busca investigar essas percepções, fornecendo uma análise detalhada sobre a implementação do BAE em um município de médio porte e discutindo os desafios e as oportunidades que surgem no contexto local.
Ao analisar as percepções dos educadores, este trabalho não apenas contribui para a avaliação crítica do programa, mas também oferece subsídios para que gestores públicos e formuladores de políticas possam aprimorar a execução do BAE. É importante destacar que, para garantir o sucesso da Busca Ativa Escolar, é necessário um esforço contínuo de fortalecimento das capacidades locais, maior investimento em infraestrutura, e a promoção de uma cultura de sensibilização e engajamento comunitário sobre a importância da educação. Esse estudo também sugere que uma maior integração entre as políticas educacionais e sociais pode ampliar o impacto do programa, permitindo que ele alcance de forma mais eficaz aqueles que se encontram em situação de exclusão escolar.
Por fim, é essencial que os municípios contem com mecanismos adequados de monitoramento e avaliação para acompanhar o progresso do programa e identificar áreas de melhoria. Assim, espera-se que a análise das experiências e percepções dos educadores contribua para uma implementação mais eficaz e sustentável da Busca Ativa Escolar em todo o território nacional.
REFERENCIAL TEÓRICO
A aparência da evasão escolar é uma questão complexa que envolve múltiplos fatores. Estudos apontam que a evasão está frequentemente relacionada a uma combinação de fatores socioeconômicos, familiares e institucionais. Alunos oriundos de famílias em situação de vulnerabilidade social tendem a enfrentar barreiras econômicas, como a necessidade de trabalhar para complementar a renda familiar, ou que acabam por interromper sua trajetória escolar (Cavalcanti & Oliveira, 2019). Além disso, a desestruturação familiar, a falta de apoio pedagógico e de políticas públicas inclusivas são aspectos que agravam essa situação. No contexto escolar, a evasão pode ser intensificada por dificuldades institucionais, como a ausência de infraestrutura adequada, falta de projetos pedagógicos que consideram a realidade dos estudantes e a ineficiência em atender alunos com deficiência ou que apenas de apoio socioemocional (Souza & Lima, 2020) .
A Busca Ativa Escolar (BAE) , proposta pelo UNICEF e parceiros, surge como uma metodologia que busca enfrentar esses fatores de forma preventiva e intersetorial, com o intuito de identificar precocemente crianças e adolescentes que estão fora da escola e promover ações para reintegrá-los ao ambiente educacional (UNICEF, 2020). O diferencial da BAE é justamente em sua abordagem intersetorial, que envolve uma colaboração entre diferentes áreas, como educação, saúde, assistência social e justiça. Isso permite uma resposta mais coordenada e eficaz ao problema da exclusão escolar, uma vez que muitas das causas estão fora da esfera puramente educacional.
No entanto, a eficácia da BAE está diretamente associada à capacitação dos agentes envolvidos no programa e à capacidade dos municípios de mobilizar recursos locais para viabilizar a iniciativa (Silva et al., 2021). Segundo os autores, os municípios que implementam o programa de maneira eficiente são aqueles que conseguem integrar suas políticas públicas de forma articulada, promovendo formações contínuas para os profissionais envolvidos, bem como oferecendo suporte material e tecnológico para a realização das ações de busca ativa. A formação de equipes intersetoriais é um dos pilares do sucesso do programa, pois garante que as diferentes áreas possam compartilhar informações e trabalhar em conjunto para solucionar as causas da evasão escolar.
O papel dos educadores na implementação de políticas educacionais também foi amplamente discutido na literatura. Freire (1996) defende que o educador é um agente fundamental de transformação social, pois é ele quem tem contato direto com os estudantes e suas realidades. Para Freire, a implementação de qualquer política educacional, incluindo a Busca Ativa Escolar, depende da percepção e do engajamento desses profissionais. Eles não são apenas executores de diretrizes, mas atores críticos que interpretam e adaptam as políticas às condições locais, ou que fazem com que suas percepções, experiências e desafios sejam fundamentais para o sucesso das iniciativas.
Em relação à percepção dos educadores sobre programas como o BAE, vários estudos indicam que a atitude positiva dos profissionais, aliada à sua compreensão da importância do programa, é crucial para sua implementação eficaz (Gomes & Mendes, 2020). No entanto, também se destaca a necessidade de capacitação contínua e o suporte institucional como elementos fundamentais. Educadores que não se sintam devidamente configurados ou que não tenham o apoio necessário para lidar com as demandas do programa podem acabar interpretando suas responsabilidades de forma limitada, comprometendo os resultados da política pública. Assim, a formação de educadores e gestores deve ser contínua, abrangendo aspectos técnicos, como o uso de ferramentas tecnológicas para registrar e monitorar os dados dos estudantes, bem como o desenvolvimento de competências para lidar com questões sociais e emocionais presentes no cotidiano escolar.
Outro aspecto relevante discutido na literatura é a articulação intersetorial , que se refere à capacidade dos diversos setores envolvidos na BAE — educação, saúde, assistência social, entre outros — trabalharem de forma integrada e coordenada. Essa articulação é um dos maiores desafios na implementação de políticas públicas complexas, especialmente em municípios menores e com menos recursos (Oliveira & Martins, 2022). De acordo com Silva et al. (2021), muitos municípios enfrentam dificuldades para estabelecer mecanismos eficientes de comunicação e colaboração entre as secretarias, o que compromete o andamento do programa. A falta de infraestrutura tecnológica adequada também é uma barreira, uma vez que o registro e o monitoramento das ações da BAE desativam ferramentas digitais que nem sempre estão disponíveis.
DEMANDAS PARA A IMPLEMENTAÇÃO EFICAZ DA BAE:
Diante dos fatores planejados, é possível destacar algumas critérios para que a Busca Ativa Escolar atinja seus objetivos com maior eficácia:
Esses critérios são críticos para que o programa alcance um impacto significativo e sustentável na redução da exclusão escolar no Brasil.
METODOLOGIA
Este estudo utilizou uma abordagem qualitativa com o objetivo de explorar as percepções dos educadores sobre a implementação do Programa de Busca Ativa Escolar (BAE) no nível municipal. A escolha do método pelo qualitativo se justifica pela natureza das características investigadas, que exige uma compreensão aprofundada das experiências e visões dos participantes (Creswell, 2014). Uma abordagem qualitativa permite captar nuances e detalhes das percepções individuais, possibilitando uma análise mais rica e contextualizada dos desafios e potencialidades do programa na prática educacional.
AMOSTRAGEM
Foi composta por 20 educadores, sendo 12 professores e 8 gestores escolares, todos atuantes na rede pública estadual de ensino de um município de médio porte, localizado na região Centro Oeste do Brasil. A escolha desse município foi feita pela implementação recente da BAE, que oferece um contexto adequado para avaliar os primeiros resultados do programa e os desafios enfrentados durante sua execução. Os participantes foram selecionados por meio de amostragem intencional, levando em consideração seu envolvimento direto com o programa e a diversidade de suas funções dentro das instituições escolares (Patton, 2002).
COLETA DE DADOS
Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas entre julho e agosto de 2024. A técnica de entrevista semiestruturada foi escolhida para permitir flexibilidade nas respostas, ao mesmo tempo em que orienta o diálogo por meio de questões previamente estabelecidas.
O roteiro das entrevistas foi composto por perguntas abertas que abordaram três eixos principais: (1) a percepção dos educadores sobre a implementação do BAE no município, (2) a avaliação da eficácia do programa no combate à evasão escolar, e (3) os desafios enfrentados no dia a dia para garantir a execução do programa. Exemplos de perguntas incluem: “Quais são os maiores desafios enfrentados para implementar o BAE em sua escola?” e “Como você está disponível a eficácia do programa até o momento?”.
Cada entrevista teve duração média de 45 a 60 minutos e foi realizada individualmente, em local e horários definidos conforme a conveniência dos participantes. As entrevistas foram gravadas com o consentimento dos entrevistados e, posteriormente, transcritas na íntegra para análise.
ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos dados foi realizada utilizando a técnica de Análise de Conteúdo conforme proposta de Bardin (2011). Essa técnica envolve a consistência e categorização das respostas em temas principais, possibilitando a identificação de padrões e recorrências no discurso dos participantes. O processo de análise foi realizado em três etapas: (1) pré-análise, em que as transcrições foram revisadas e organizadas; (2) exploração do material, fase em que as falas dos participantes foram categorizadas em unidades de significado, e (3) tratamento e interpretação dos resultados, onde foram geradas inferências a partir das categorias identificadas.
Na fase de obtenção , as falas dos educadores foram comprovadas com base em categorias previamente definidas, como “desafios na implementação”, “percepção da eficácia do programa”, “integração intersetorial” e “recursos e infraestrutura”. Além dessas, categorias emergentes também foram identificadas ao longo do processo, como “necessidade de maior sensibilização comunitária” e “deficiências na capacitação contínua”. A partir dessas categorias, buscou-se estabelecer relações entre as falas dos participantes e o referencial teórico adotado, de modo a compreender os fatores que facilitam ou dificultam a implementação do BAE no município treinado.
CONSIDERAÇÕES ÉTICAS
O estudo rigorosamente as normas éticas condicionais pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta a pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil. Todos os participantes foram informados sobre os objetivos do estudo e aprovaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O anonimato dos participantes foi garantido, e suas identidades foram protegidas mediante atribuição de códigos numéricos durante o tratamento dos dados (Brinkmann & Kvale, 2015).
Além disso, foi respeitado o direito dos participantes de interromper a entrevista ou de cancelar o estudo a qualquer momento, sem qualquer prejuízo ou justificativa de necessidade.
LIMITAÇÕES METODOLÓGICAS
É importante destacar algumas limitações do estudo. A primeira referência é ao tamanho da amostra, que, apesar de suficiente para uma análise qualitativa detalhada, não permite generalizações para outros contextos municipais. Além disso, uma pesquisa foi realizada em um único município, o que restringe as informações ao seu contexto específico. Futuros estudos poderiam ampliar a análise para diferentes regiões e tipos de municípios, a fim de verificar se os desafios e as percepções identificadas neste estudo se mantêm em outros cenários.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo indicam que os educadores têm percepções extremamente positivas sobre o Programa de Busca Ativa Escolar (BAE), confirmando sua importância para a redução da evasão escolar e a reintegração dos estudantes ao ambiente educacional.
Entretanto, surgem desafios operacionais que limitam a plena eficácia do programa no âmbito municipal. A seguir, são detalhados os principais temas emergentes das entrevistas e discutidos à luz da literatura.
RELEVÂNCIA DO PROGRAMA
Os educadores consideraram a BAE uma estratégia crucial para o combate à exclusão escolar, destacando sua capacidade de articulação de diferentes serviços públicos, como saúde e assistência social, na identificação e apoio a estudantes vulneráveis. A maioria dos entrevistados relatou que o programa proporcionou uma compreensão mais aprofundada das causas da evasão escolar, além de possibilitar intervenções mais rápidas e eficazes. Um gestor destacado:
“O programa nos ajuda não só a identificar, mas a entender o porquê de tantas crianças estarem fora da escola e agirem rapidamente.”
Essa percepção está alinhada com a proposta intersetorial da BAE, descrita pela UNICEF (2020) como fundamental para enfrentar as múltiplas dimensões que são reduzidas para a evasão escolar. Na verdade, a integração de diferentes setores é apontada por Silva et al. (2021) como um fator chave para o sucesso do programa, já que muitos dos fatores que levam à evasão não são apenas educacionais, mas também sociais e econômicas.
DESAFIOS OPERACIONAIS
Apesar da relevância do programa, os educadores mencionaram vários desafios operacionais que dificultam sua implementação eficiente. Um dos problemas mais relatados foi a falta de infraestrutura adequada . As escolas, em muitos casos, não fornecem ferramentas tecnológicas suficientes para o registro e monitoramento das informações necessárias à execução da BAE. Além disso, há uma escassez de profissionais capacitados para realizar as visitas domiciliares e o acompanhamento individual dos estudantes. Uma professora comentou:
“Muitas vezes, não temos pessoal suficiente para fazer visitas domiciliares ou a tecnologia disponível para registrar os dados específicos.”
Essa limitação reforça o argumento de Oliveira e Martins (2022) sobre a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura tecnológica e recursos humanos para garantir a sustentabilidade do programa em municípios com menos recursos. Sem essas condições mínimas, as ações de busca ativa ficam comprometidas, o que pode resultar na perda de muitos alunos que poderiam ser reintegrados ao ambiente escolar.
Outro desafio levantado foi a falta de um acompanhamento contínuo e de uma maior integração com outros programas sociais. Embora a BAE preveja essa articulação intersetorial, os atores dizem que, na prática, essa colaboração ainda é fragmentada, o que compromete o sucesso da iniciativa educativa. Para muitos, o envolvimento de outros setores do governo e da sociedade é essencial, mas ainda há uma lacuna significativa nesse sentido. Essa visão é corroborada por Gomes e Mendes (2020), que argumentam que a implementação eficaz das políticas públicas educacionais depende de uma integração sistemática entre os setores envolvidos.
CAPACITAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO
A necessidade de capacitação contínua foi um dos aspectos mais indicados pelos entrevistados. Apesar das formações iniciais oferecidas no início do programa, os educadores acreditam que é necessário um acompanhamento regular para garantir que todos os envolvidos estejam preparados para enfrentar as diferentes realidades que encontrarem. Uma gestora afirmou:
“Precisamos de mais formações práticas, principalmente para lidar com as famílias que apresentam resistência em enviar os filhos de volta à escola.”
A literatura reforça essa necessidade de capacitação. Freire (1996) já defendeu o papel central do educador como agente de transformação social, ressaltando a importância de uma formação contínua que prepare os profissionais para enfrentar os desafios pelas mudanças sociais e econômicas. Sem essa capacitação constante, a atuação dos educadores no contexto da BAE pode se tornar limitada, comprometendo o alcance do programa.
ENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE
Outro ponto importante levantado foi a sensibilização da comunidade quanto à importância da educação e à necessidade de apoio ao programa. Muitos educadores relatando dificuldades em envolver as famílias no processo de reintegração dos estudantes. A resistência de alguns pais em colaborar com a escola foi apontada como um obstáculo recorrente. Um dos destaques:
“A escola sozinha não consegue resolver o problema. Precisamos de mais apoio da sociedade como um todo.”
O envolvimento comunitário é um fator crucial para o sucesso das políticas de inclusão escolar, conforme apontado por Souza & Lima (2020). Sem o envolvimento das famílias e da comunidade local, o alcance das políticas públicas fica restrito. A literatura sugere que estratégias de conscientização e engajamento devem ser rompidas paralelamente às ações do programa, para formar uma cultura de valorização da educação e garantir que todos os atores sociais compreendam sua responsabilidade no combate à exclusão escolar (Cavalcanti & Oliveira, 2019).
EXIGÊNCIAS PARA IMPLEMENTAÇÃO EFETIVA
Com base nos resultados, algumas exigências para a implementação mais eficaz da BAE são possíveis:
MELHORIA DA INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA
A infraestrutura tecnológica das escolas desempenha um papel crucial na efetividade do Programa de Busca Ativa Escolar (BAE). Para que o programa funcione de forma otimizada, é necessário que as instituições de ensino recebam investimentos específicos em equipamentos e ferramentas digitais. Isso inclui a instalação de computadores, tablets, sistemas de gestão de dados e plataformas de comunicação online que facilitam o registro, monitoramento e acompanhamento dos estudantes em situação de exclusão escolar.
Com uma infraestrutura tecnológica adequada, os educadores poderão registrar de maneira rápida e eficiente as informações sobre os alunos, compartilhar dados com outros setores (como saúde e assistência social), e acompanhar em tempo real o progresso das ações de reintegração escolar. Além disso, o uso de tecnologias digitais pode permitir uma comunicação mais eficiente entre as escolas, famílias e serviços de apoio, melhorando a eficiência e a resposta às necessidades dos estudantes.
AUMENTO DA EQUIPE PROFISSIONAL
Um dos maiores desafios para a implementação do BAE é a falta de profissionais capacitados para realizar as tarefas operacionais do programa, especialmente as visitas domiciliares e o acompanhamento contínuo dos alunos. Para garantir o sucesso do programa, é fundamental que haja uma ampliação da equipe profissional envolvida. Isso inclui a contratação de agentes sociais, assistentes educacionais e profissionais da saúde, todos capacitados para lidar com as diferentes demandas que o programa impõe.
A função desses profissionais é crucial, pois as visitas domiciliares e o contato direto com as famílias dos alunos em risco de evasão escolar são medidas preventivas e corretivas essenciais para garantir a permanência dos alunos na escola. Além disso, uma equipe profissional mais ampla também garante que as escolas possam atender um número maior de alunos em situação de exclusão, otimizando a abrangência do programa e o impacto positivo nas taxas de evasão escolar.
FORMAÇÕES CONTÍNUAS E PRÁTICAS
A capacitação dos educadores e demais profissionais envolvidos no BAE deve ser contínua e focada em aspectos práticos da execução do programa. Essas formações precisam abordar tanto as competências técnicas quanto as socioemocionais, preparando os profissionais para lidar com as diferentes realidades que enfrentam nas escolas e nas comunidades. O treinamento deve incluir módulos sobre o uso de tecnologias aplicadas ao registro e monitoramento de dados, comunicação com famílias em situação de vulnerabilidade, e estratégias para reintegração escolar eficaz.
Além disso, as capacitações devem ser regulares, garantindo que os profissionais estejam sempre atualizados em relação às novas metodologias e práticas do programa. Treinamentos práticos, como simulações de visitas domiciliares e workshops sobre mediação de conflitos, também podem preparar melhor os agentes para lidar com situações complexas que muitas vezes envolvem resistência familiar e dificuldades sociais.
SENSIBILIZAÇÃO COMUNITÁRIA
A participação da comunidade é um fator decisivo para o sucesso do BAE, uma vez que a reintegração e a permanência escolar não dependem apenas das ações da escola, mas do envolvimento ativo das famílias e do entorno social dos alunos. Para isso, é necessário implementar programas de sensibilização comunitária que promovam a conscientização sobre a importância da educação e da responsabilidade coletiva na garantia do direito à escola. Campanhas de conscientização, reuniões com líderes comunitários, e parcerias com ONGs e associações locais podem aumentar o engajamento da comunidade no combate à exclusão escolar.
A resistência de algumas famílias em enviar os filhos de volta à escola, muitas vezes ligada a questões socioeconômicas e culturais, pode ser superada por meio de diálogos abertos, palestras, e ações educativas que mostram o valor da educação para o desenvolvimento pessoal e social. Assim, a sensibilização comunitária se torna um elemento essencial entre a escola e a comunidade, criando um ambiente favorável para a execução bem-sucedida do programa.
MAIOR INTEGRAÇÃO INTERSETORIAL
O sucesso do BAE depende diretamente da articulação entre diferentes órgãos governamentais e sociais. A integração intersetorial é uma estratégia fundamental para garantir que todas as causas da evasão escolar sejam tratadas de forma holística. A exclusão escolar relatada é causada por um único fator; geralmente é o resultado de uma combinação de questões econômicas, sociais, de saúde e familiares. Por isso, é necessário que as secretarias de educação, saúde, assistência social e direitos humanos trabalhem de forma coordenada para identificar e solucionar os problemas que levam à evasão. Essa articulação pode incluir o compartilhamento de informações entre as áreas, a realização de ações conjuntas (como campanhas de vacinação e mutirões de serviços sociais nas escolas), e a criação de protocolos de atendimento integrados.
Um fluxo de comunicação mais eficiente e a criação de comitês intersetoriais também podem contribuir para uma resposta mais rápida e eficaz às necessidades dos alunos e suas famílias. Com uma integração robusta entre setores, o BAE pode enfrentar não apenas os sintomas de evasão escolar, mas também suas causas estruturais, garantindo uma intervenção mais eficaz e rigorosa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo incluiu uma análise detalhada das percepções dos educadores sobre o Programa de Busca Ativa Escolar (BAE), destacando tanto os pontos positivos quanto os desafios enfrentados na implementação do programa em nível municipal. Os educadores aprovaram a BAE como uma iniciativa necessária para o combate à exclusão escolar e para a reintegração de alunos, especialmente os mais vulneráveis, ao sistema educacional. No entanto, os desafios apontados revelam a necessidade urgente de instruções estruturais e operacionais para que o programa possa atingir o seu pleno potencial.
A falta de infraestrutura tecnológica foi um dos principais problemas identificados, limitando o registo e acompanhamento adequado dos alunos fora da escola. Para mitigar essa questão, é essencial que os governos invistam em ferramentas digitais que facilitem as operações cotidianas do programa. A contratação de mais profissionais treinados e capacitados também é uma exigência crucial, visto que a execução eficaz da BAE depende de visitas domiciliares e acompanhamento contínuo das famílias. Sem uma equipe ampliada e devidamente treinada, a abrangência e o impacto da iniciativa comprometida.
Outro ponto relevante destacado foi a necessidade de capacitação contínua . As formações iniciais, apesar de importantes, não são suficientes para preparar os educadores para os diversos desafios encontrados na prática, como a resistência de algumas famílias em reintegrar seus filhos à escola. Capacitações regulares, focadas tanto em habilidades práticas quanto em competências técnicas, são fundamentais para melhorar a atuação dos profissionais envolvidos.
A sensibilização da comunidade surge como um fator decisivo para o sucesso da BAE. Sem o apoio e a compreensão das famílias e da sociedade em geral, a reintegração escolar se torna mais difícil e, em muitos casos, inviável. Portanto, é necessário desenvolver campanhas de conscientização que demonstrem a importância da educação e o impacto positivo que a permanência escolar tem no futuro das crianças e adolescentes.
Por fim, a integração intersetorial é apontada como essencial para o sucesso sustentável da BAE. A evasão escolar não é causada por um único fator, e, por isso, a colaboração entre as secretarias de educação, saúde, assistência social e outros setores deve ser reforçada para garantir uma resposta mais abrangente e eficaz. A criação de comitês intersetoriais, o compartilhamento de informações e a realização de ações conjuntas são algumas das medidas necessárias para garantir que as políticas públicas alcancem resultados reais na luta contra a exclusão escolar.
Dessa forma, para que a BAE atinja seus objetivos de maneira eficiente e eficaz, alguns critérios precisam ser atendidos:
Sem essas disciplinas, o potencial do BAE continuará limitado, e muitos alunos permanecerão à margem do sistema educacional. Cabe aos gestores públicos, em parceria com os educadores e a comunidade, implementar as mudanças permitidas para garantir que a educação seja um direito acessível a todos.
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