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Resumo
INTRODUÇÃO
A Educação Infantil constitui a etapa inicial e fundamental do processo educacional, sendo responsável por promover o desenvolvimento integral da criança em suas múltiplas dimensões: motora, cognitiva, afetiva e social. Nesse cenário, a psicomotricidade desponta como uma abordagem relevante, ao favorecer a aprendizagem por meio da articulação entre movimento, percepção e interação com o meio. Mais do que um conjunto de práticas corporais, a psicomotricidade configura-se como uma ciência que integra corpo e mente, contribuindo significativamente para o fortalecimento da autonomia, da expressividade e das competências fundamentais ao desenvolvimento infantil.
Desde os primeiros anos de vida, o movimento representa uma das principais formas de a criança se relacionar com o mundo. Atividades como brincar, correr, pular e manipular objetos não se limitam a ações espontâneas, mas constituem experiências fundamentais na construção do conhecimento. Nesse sentido, a psicomotricidade assume papel central no contexto pedagógico da Educação Infantil, ao proporcionar vivências que estimulam, de maneira integrada, as habilidades motoras, cognitivas e emocionais das crianças, favorecendo sua formação global e preparando-as para etapas posteriores da escolarização.
Este artigo tem como finalidade analisar as contribuições da psicomotricidade para o desenvolvimento infantil no âmbito da Educação Infantil, a partir de uma abordagem teórica fundamentada em pesquisa bibliográfica. Para tanto, serão abordados os fundamentos históricos e conceituais da psicomotricidade, bem como suas possibilidades de aplicação prática no contexto pedagógico. Busca-se, com isso, evidenciar o potencial dessa abordagem para enriquecer os processos de ensino e aprendizagem, promovendo uma educação mais integral, lúdica e sensível às reais necessidades das crianças em seus primeiros anos de formação.
A psicomotricidade compreende a articulação entre movimento, cognição e afetividade, sendo reconhecida como uma ciência que estuda o ser humano a partir da experiência corporal em movimento, considerando as dimensões interna (subjetiva) e externa (ambiental) da vivência. As atividades psicomotoras estão profundamente relacionadas ao processo de maturação e desenvolvimento, uma vez que o corpo representa o ponto de partida para as aquisições cognitivas, emocionais e fisiológicas da criança (Associação Brasileira de Psicomotricidade, 2017).
Autores como Le Boulch (1982), destacam que o movimento não deve ser visto apenas como uma atividade física, mas como uma forma essencial de expressão e comunicação que integra corpo e mente. Para esse autor, a psicomotricidade deve ser inserida nas práticas pedagógicas de forma intencional e estruturada, favorecendo o desenvolvimento global da criança. Wallon (1968), por sua vez, enfatiza a importância da afetividade e do tônus corporal no processo de desenvolvimento infantil, argumentando que a motricidade está intrinsecamente ligada às emoções e à construção da inteligência. Suas contribuições fundamentam a compreensão da criança como um ser integral, cuja aprendizagem depende da interação dinâmica entre os aspectos emocionais, cognitivos e motores. Segundo a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (2004), a psicomotricidade é:
[…] a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. É sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto. Psicomotricidade, portanto, é um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito, cuja ação é resultante de sua individualidade, sua linguagem e sua socialização. (Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, 2004, s.p.)
A psicomotricidade tem como objetivo desenvolver aspectos corporais, motores, intelectuais, psicológicos e afetivos do indivíduo, promovendo na criança o conhecimento de seu próprio corpo e sua utilização como meio de expressão e comunicação. Nesse contexto, o brincar e as atividades lúdicas assumem papel fundamental, pois constituem espaços privilegiados para que a criança se manifeste, crie, transforme e interaja com o ambiente que a cerca. Desde os primeiros anos de vida, o ato de brincar revela-se essencial para o crescimento, o desenvolvimento e a construção do conhecimento.
Conforme destaca Oliveira (2015, p. 9), “a psicomotricidade se caracteriza por uma educação que se utiliza do movimento para atingir outras aquisições mais elaboradas, como as intelectuais”. Entre os objetivos centrais apontados pela autora está o auxílio à criança para que tome consciência de seu esquema corporal, o que favorece uma maior interiorização dos movimentos e a compreensão dos principais conceitos educacionais, aspectos fundamentais para o desenvolvimento intelectual (Oliveira, 2015, p. 10). Em relação à origem do termo, psicomotricidade resulta da combinação de duas palavras: “psique”, de origem grega, que designa os fenômenos da mente, como sensações e percepções, e “motricidade”, de origem latina, que remete à força ou movimento.
A inserção da psicomotricidade na Educação Infantil revela-se de fundamental importância, uma vez que o movimento constitui uma dimensão essencial do desenvolvimento humano e da cultura. A psicomotricidade atua diretamente no aprimoramento das capacidades motoras infantis e no processo de aprendizagem. Desse modo, a educação psicomotora deve ser reconhecida como alicerce primordial nos primeiros anos escolares, visto que influencia significativamente a alfabetização, promovendo a consciência corporal, a lateralidade, a orientação espacial e temporal, bem como a coordenação motora.
Para além de sua função educativa, a psicomotricidade desempenha papel preventivo e potencializa a autonomia da criança em seu processo de aprendizagem. Por tratar da inter-relação entre o corpo, o sujeito e o meio físico e sociocultural, a psicomotricidade fundamenta-se em diversas áreas do conhecimento, tais como a neurofisiologia, a psiquiatria, a psicologia e a educação, sendo analisada a partir de múltiplos enfoques teóricos e práticos (Mello, 1989).
Este estudo foi realizado por meio de uma pesquisa bibliográfica, apoiando-se em obras consagradas que abordam a psicomotricidade no âmbito da Educação Infantil. De acordo com Lakatos (1991), essa metodologia permite não somente a compreensão e a resolução de questões já conhecidas, mas também a investigação aprofundada sob diferentes perspectivas, ampliando a análise com novos enfoques teóricos.
O desenvolvimento do artigo está organizado em duas seções principais: a primeira, denominada “Psicomotricidade: uma breve análise histórico-conceitual”, explora os fundamentos teóricos da disciplina; a segunda seção dedica-se à discussão das relações entre a Educação Infantil e a psicomotricidade. Ao término, apresentam-se as considerações finais, que sintetizam as principais reflexões advindas da pesquisa.
PSICOMOTRICIDADE: UMA BREVE ABORDAGEM HISTÓRICO-CONCEITUAL
Para compreender a psicomotricidade em sua plenitude, é imprescindível resgatar sua trajetória histórica e os conceitos que a embasam. Segundo Costa (2012), suas raízes podem ser encontradas tanto nas civilizações americanas quanto nas europeias, que exerceram influência significativa em seu desenvolvimento ao longo do tempo. Na Antiguidade, pensadores como Platão, Aristóteles e Descartes já exploravam a relação entre corpo e mente, reflexões que serviram de base para os estudos posteriores na área psicomotora. No âmbito da psicologia moderna, autores como Lewin, Merleau-Ponty, Wallon e Piaget desempenharam papel fundamental ao aprofundar a compreensão das interações entre movimento, cognição e afetividade, contribuindo para consolidar os fundamentos teóricos da psicomotricidade (Bueno, 1998).
A partir do século XIX, o corpo humano passou a ser objeto de investigação por diferentes campos do saber, como a Neuropsicologia e a Neurologia, que buscavam compreender a estrutura e o funcionamento do cérebro. Posteriormente, a Psicologia e a Psicanálise passaram a direcionar seus estudos para a inteligência e suas possíveis disfunções. De acordo com Costa (2012), foi nesse período que se começou a observar que diversas alterações motoras não estavam necessariamente associadas a lesões neurológicas, revelando, assim, os limites das explicações puramente biológicas e a necessidade de abordagens mais integradas e interdisciplinares.
Nesse cenário, no início do século XX, destaca-se a atuação do neuropsiquiatra francês Ernest Dupré, considerado o pioneiro da psicomotricidade. Em suas investigações, Dupré identificou que muitos distúrbios motores tinham origem em fatores de ordem psíquica, e não exclusivamente neurológica. Foi a partir de seus estudos, por volta de 1920, que o termo “psicomotricidade” passou a ser empregado. A consolidação dessa área como campo científico exigiu o diálogo com outras disciplinas voltadas ao comportamento motor e ao desenvolvimento humano (Oliveira, 2015).
Segundo Mello (1989), a psicomotricidade pode ser compreendida como a ciência que investiga o ser humano por meio da experiência corporal em movimento, estabelecendo conexões entre os universos interno (psíquico) e externo (ambiental). Embora considerada uma área relativamente recente no campo educacional e terapêutico, sua origem remonta à própria trajetória histórica da compreensão do corpo, a qual passou por distintas transformações até alcançar as concepções atuais que enfatizam a integração entre corpo, mente e movimento.
No campo científico, o psicólogo francês Henri Wallon figura como um dos principais teóricos a contribuir para os fundamentos da psicomotricidade. Em seus estudos de 1925, Wallon propôs uma articulação entre os aspectos afetivos, motores e cognitivos no processo de desenvolvimento da criança, evidenciando a centralidade do movimento na constituição da personalidade e na aprendizagem. Para o autor, o gesto corporal é indissociável das emoções e do contexto social em que o sujeito está inserido, influenciando diretamente seu comportamento e sua forma de aprender. Nesse sentido, a psicomotricidade visa promover o desenvolvimento global do indivíduo, por meio de um trabalho sistematizado que contempla as condutas motoras, a consciência corporal, o equilíbrio, a coordenação motora, bem como as noções de espaço e tempo.
Fonseca (1998), observa que o desenvolvimento histórico da psicomotricidade está intimamente ligado às mudanças no modo como o corpo humano passou a ser concebido pelas ciências. A partir do século XIX, os estudos neurocientíficos avançaram significativamente, especialmente com o aprofundamento das investigações do sistema nervoso por parte dos neurologistas. Paralelamente, os psiquiatras passaram a investigar as relações entre a motricidade e distúrbios psíquicos, o que contribuiu para ampliar a compreensão sobre a articulação entre os aspectos físicos, emocionais e sociais no processo de desenvolvimento humano.
Nesse contexto, Gonçalves (1983), apresenta uma compilação das contribuições de diversos estudiosos da psicomotricidade, destacando abordagens teóricas que enriqueceram o campo:
A partir das contribuições teóricas apresentadas, Gonçalves (1983, p. 21), sintetiza a psicomotricidade como “uma ciência que estuda o indivíduo por meio de seu movimento, em seus aspectos motores, afetivos e cognitivos, resultantes da relação do sujeito com seu meio social”. Essa definição evidencia o caráter integrador da área, ao considerar o movimento como uma manifestação complexa que articula dimensões físicas e psíquicas do ser humano.
Nesse mesmo sentido, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (SBP, 2011, s.p.), conceitua a psicomotricidade como “a ciência que tem como objeto o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo.” Essa abordagem amplia a compreensão da corporeidade como meio de expressão, interação e construção de conhecimento.
Portanto, apesar das diferentes ênfases teóricas, é possível observar uma convergência entre as concepções que reconhecem no movimento corporal um elemento central no desenvolvimento da subjetividade e nos processos de aprendizagem, especialmente na infância, quando corpo e mente ainda se estruturam de maneira integrada.
Entre os principais teóricos que contribuíram para a valorização do desenvolvimento motor na infância, destacam-se Jean Piaget e Henri Wallon, cujas abordagens estabeleceram importantes vínculos entre motricidade, cognição e afetividade. Para Piaget (1987), o desenvolvimento intelectual ocorre por meio de um processo contínuo de equilibração, no qual o sujeito avança progressivamente de formas cognitivas menos estruturadas para estágios superiores de organização mental. O autor atribui especial relevância ao período sensório-motor — que compreende os primeiros dois anos de vida — como base essencial para a construção da inteligência prática, anterior à aquisição da linguagem e ao pensamento simbólico.
Brandão (1984), corrobora essa perspectiva ao enfatizar que, mesmo após o surgimento dos movimentos voluntários, a criança só será capaz de elaborar novas formas de ação quando desenvolver a capacidade de representação mental dos objetos e das situações vivenciadas. Ou seja, a experiência corporal antecede e fundamenta o pensamento lógico.
Le Boulch (1982), por sua vez, amplia o debate ao integrar outras abordagens teóricas na compreensão do desenvolvimento psicomotor. O autor reconhece a contribuição da psicanálise, ao evidenciar a centralidade do afeto no processo de constituição do sujeito, e do behaviorismo, ao destacar o papel dos estímulos e instrumentos como mediadores da aprendizagem. Segundo ele, a educação psicomotora não deve ser vista como um recurso complementar, mas como parte constitutiva da formação integral da criança desde os primeiros anos escolares.
No campo da Educação Infantil, Oliveira (1992), destaca que a construção da percepção corporal pela criança ocorre a partir da vivência prática com o próprio corpo em ação. É por meio dessas experiências que o sujeito em desenvolvimento elabora noções fundamentais e organiza seu esquema corporal, compreendendo-se progressivamente em relação ao espaço e ao tempo. Nesse contexto, a psicomotricidade se apresenta como um recurso pedagógico estratégico, pois promove a consciência corporal, o domínio da lateralidade, a orientação espacial e a temporalidade, aspectos indispensáveis à organização do pensamento e à expressão pessoal da criança.
Com base nessa perspectiva, a psicomotricidade assume um papel central no desenvolvimento integral infantil, na medida em que estabelece vínculos diretos com a aprendizagem formal. Oliveira (1992), argumenta que um desenvolvimento psicomotor bem estruturado oferece à criança condições mais adequadas para enfrentar os desafios escolares, favorecendo tanto o rendimento acadêmico quanto a formação de competências cognitivas e socioemocionais.
ANÁLISES SOBRE EDUCAÇÃO INFANTIL E PSICOMOTRICIDADE
A Educação Infantil constitui uma etapa decisiva no processo de desenvolvimento humano, na qual a escola assume um papel essencial ao oferecer experiências pedagógicas significativas em um ambiente seguro e afetivamente acolhedor. Por meio de práticas lúdicas, interações sociais e atividades intencionalmente planejadas, a criança tem a possibilidade de ampliar seu repertório de saberes, ao mesmo tempo em que desenvolve competências motoras, cognitivas, emocionais e sociais. Maluf (2009), destaca que os primeiros anos de vida são cruciais na formação do sujeito, pois correspondem a um período de intensa plasticidade cerebral, no qual se consolidam aspectos estruturantes da identidade, bem como as bases do desenvolvimento físico, afetivo e intelectual.
Nesse contexto, a psicomotricidade se revela como um eixo integrador da prática pedagógica, uma vez que favorece a construção do conhecimento por meio da ação corporal e da experiência sensório-motora. Conforme Oliveira (2015, p. 34), é através do corpo em movimento que a criança inicia sua exploração do mundo, inicialmente por meio da observação visual e da manipulação de objetos. Essa relação com o meio, no entanto, só se efetiva à medida que a criança adquire habilidades motoras fundamentais, como a coordenação óculo-manual — necessária para segurar, soltar e deslocar objetos — e a percepção espacial, que lhe permite compreender a distância entre si e o objeto com o qual interage.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Brasil, 1996), estabelece que a Educação Infantil constitui a etapa dedicada ao desenvolvimento integral da criança de até cinco anos, abrangendo os aspectos físico, psicológico, intelectual e social. Essa etapa é oferecida em creches, destinadas a crianças de zero a três anos, e em pré-escolas, para crianças de quatro e cinco anos. Além disso, a LDB ressalta que a Educação Infantil deve complementar a ação da família e da comunidade, valendo-se de práticas lúdicas que promovam tanto a construção do conhecimento quanto o desenvolvimento das habilidades motoras e cognitivas.
No campo teórico, Piaget (1990) enfatiza a relevância das atividades sensório-motoras na primeira infância, salientando que o movimento é um componente essencial para o desenvolvimento das capacidades infantis, especialmente nas fases que antecedem a aquisição da linguagem. Segundo o autor, o desenvolvimento mental ocorre por meio de um processo contínuo de equilibração, no qual a criança transita progressivamente de estados de menor para maior organização e complexidade cognitiva.
Nesse sentido, Le Boulch (1982) enfatiza que a psicomotricidade representa um recurso pedagógico fundamental para o desenvolvimento da percepção, da atenção e da organização mental. O autor defende que a educação psicomotora deve ser considerada uma base indispensável na formação escolar, uma vez que contribui para a consciência corporal, o desenvolvimento da lateralidade, a organização espacial e temporal, além do aprimoramento da coordenação motora.
Complementando essa perspectiva, Barreto (2000) ressalta que o desenvolvimento psicomotor desempenha papel crucial na prevenção de dificuldades de aprendizagem, atuando na reeducação de aspectos como tônus muscular, postura, ritmo e lateralidade. Oliveira (1992), por sua vez, argumenta que a psicomotricidade pode atuar preventivamente contra as inadaptações escolares, promovendo condições mais favoráveis ao desempenho acadêmico ao fortalecer as potencialidades motoras da criança.
De maneira complementar, Gomes (1998, p. 15), destaca que a educação psicomotora deve contemplar as funções motoras, perceptivas, afetivas e sócio-motoras. Essas dimensões são fundamentais para que a criança possa explorar o ambiente, construindo sua identidade por meio de experiências concretas e das interações sociais que vivencia.
Mendonça (2004), ressalta a relevância dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento psicomotor, sublinhando a importância da identificação precoce de eventuais distúrbios que possam interferir no aprendizado da leitura e da escrita. Nesse contexto, a afetividade presente no vínculo entre professor e aluno assume papel crucial. Freire (1997, p. 171), reforça essa ideia ao afirmar que a proximidade afetiva proporciona à criança um ambiente de segurança e liberdade, favorecendo seu processo de aprendizagem.
De acordo com Mendonça (2004), é papel do professor atuar de maneira integrada sobre as múltiplas dimensões do desenvolvimento infantil, promovendo a construção da unidade corporal e da identidade do sujeito. Nessa perspectiva, a psicomotricidade estabelece uma relação dialética entre corpo, mente e contexto social, mediada pela afetividade e pela singularidade da personalidade.
Alves (2012), ressalta três elementos fundamentais para o desenvolvimento motor: o equilíbrio, a lateralidade e o esquema corporal. O equilíbrio, essencial para a coordenação motora, pode ser dividido em estático — como a manutenção da postura ereta — e dinâmico, exemplificado pela habilidade de deslocar-se sobre uma linha estreita. A lateralidade refere-se à predominância funcional de um dos hemisférios cerebrais, que define a preferência manual da criança, classificando-a como destra, canhota ou ambidestra. Por fim, o esquema corporal consiste na representação consciente que a criança constrói de seu próprio corpo, configurando-se como um componente indispensável para a interação com o meio ambiente e para o desenvolvimento cognitivo.
Dessa forma, conforme discutido, a psicomotricidade configura-se como uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento integral da criança, integrando e promovendo o avanço das habilidades motoras, cognitivas, afetivas e sociais. Além de potencializar o processo de aprendizagem, especialmente nos aspectos relacionados à leitura e à escrita, a psicomotricidade desempenha papel fundamental na construção da identidade e na promoção da autonomia infantil (Mendonça, 2004; Alves, 2012; Oliveira, 2015).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida neste trabalho revela que o estudo da psicomotricidade possui raízes históricas profundas, remontando à Antiguidade, período em que o corpo humano já despertava interesse, embora fosse analisado de maneira segmentada, separando-se os aspectos físicos e os espirituais. Essa abordagem fragmentada prevaleceu por muitos séculos, permeando reflexões filosóficas e investigações científicas. Foi apenas no final do século XIX que a psicomotricidade passou a ser sistematicamente estudada no âmbito médico, especialmente pela neurologia, que se dedicou a compreender distúrbios motores sem manifestações neurológicas claras, evidenciando a necessidade de uma perspectiva interdisciplinar para seu entendimento.
Dessa forma, torna-se imprescindível que o professor tenha consciência dos fundamentos psicomotores, promovendo atividades que contemplem experiências motoras, sensoriais, afetivas e sociais significativas. Considerando que cada criança possui um ritmo de desenvolvimento singular, é necessário planejar intervenções que respeitem suas especificidades e fases de crescimento, contribuindo, assim, para um processo educativo mais eficaz e humanizado.
A escola, portanto, assume papel estratégico como espaço de promoção do desenvolvimento infantil. Ao integrar a psicomotricidade às práticas pedagógicas, os resultados refletem-se positivamente em diversos aspectos do crescimento da criança, especialmente no que diz respeito à construção do esquema corporal, à organização do pensamento e à interação com o meio. Diante disso, conclui-se que refletir sobre as práticas pedagógicas e reformular metodologias de ensino, incorporando a psicomotricidade ao processo de ensino-aprendizagem, representa um caminho essencial para garantir o desenvolvimento pleno das crianças na Educação Infantil.
Nesse contexto, ressalta-se a importância do professor como mediador no processo de desenvolvimento infantil, atuando como agente facilitador de experiências significativas. Compete a ele oferecer estímulos variados que incorporem a psicomotricidade de forma intencional, integrada e preventiva, contribuindo para a formação global da criança. O presente estudo também procurou promover uma postura crítica e reflexiva quanto à inserção da psicomotricidade no cotidiano escolar, especialmente na Educação Infantil — fase essencial para o desenvolvimento das competências motoras, cognitivas, afetivas e sociais que alicerçam o processo de aprendizagem.
Os objetivos inicialmente propostos foram plenamente contemplados, ao evidenciar a relevância da psicomotricidade na promoção do desenvolvimento integral da criança e ao demonstrar os prejuízos ocasionados por sua ausência na prática pedagógica. A negligência dessa dimensão pode comprometer significativamente a qualidade do processo educativo, dificultando a articulação entre corpo, mente e interação social. Como destaca Fonseca (2008), é imprescindível que saúde e educação, bem como seus respectivos profissionais e metodologias, sejam constantemente revisitados e reelaborados sob uma perspectiva psicopedagógica interdisciplinar, a fim de garantir a efetiva aproximação entre teoria e prática.
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