Ensino de geografia e letramento cartográfico: O impacto da interpretação de mapas no aprendizado e no desempenho escolar

GEOGRAPHY EDUCATION AND CARTOGRAPHIC LITERACY: THE IMPACT OF MAP INTERPRETATION ON LEARNING AND SCHOOL PERFORMANCE

ENSEÑANZA DE LA GEOGRAFÍA Y ALFABETIZACIÓN CARTOGRÁFICA: EL IMPACTO DE LA INTERPRETACIÓN DE MAPAS EN EL APRENDIZAJE Y EL RENDIMIENTO ESCOLAR

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/C40CC9

DOI

doi.org/10.63391/C40CC9

Rocha, Paraguassu Eugênio . Ensino de geografia e letramento cartográfico: O impacto da interpretação de mapas no aprendizado e no desempenho escolar. International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O letramento cartográfico é fundamental para o ensino de Geografia, pois permite aos estudantes desenvolverem competências de interpretação crítica e representação do espaço. Este estudo qualitativo, com base em revisão bibliográfica recente (2020–2025), investigou como a leitura de mapas impacta o desempenho escolar e o desenvolvimento cognitivo dos alunos. Foram analisadas práticas pedagógicas que integram as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), como softwares de georreferenciamento, mapas interativos e jogos educativos. Os resultados demonstraram que a escassa formação docente e a ausência da cartografia nos currículos dificultam o aprendizado. Por outro lado, a utilização das TICs promove maior engajamento, interdisciplinaridade e compreensão do espaço geográfico. A pesquisa conclui que o fortalecimento da formação docente e o investimento em recursos tecnológicos são essenciais para uma educação geográfica crítica, inclusiva e significativa.
Palavras-chave
letramento cartográfico; ensino de geografia; tecnologias educacionais; formação docente.

Summary

Cartographic literacy plays a key role in Geography education by enabling students to interpret and represent spatial information critically. This qualitative study, based on recent literature (2020–2025), examined how map reading impacts school performance and cognitive development. It analyzed teaching strategies involving Information and Communication Technologies (ICT), such as GIS software, interactive maps, and educational games. Findings indicated that limited teacher training and low curricular emphasis on cartography hinder learning. Conversely, ICT tools foster engagement, interdisciplinarity, and geographic understanding. The study concludes that strengthening teacher preparation and investing in digital resources are crucial for inclusive and meaningful geographic education.
Keywords
cartographic literacy; geography education; educational technologies; teacher training.

Resumen

El alfabetismo cartográfico es esencial en la enseñanza de la Geografía, ya que permite a los estudiantes interpretar y representar el espacio de forma crítica. Este estudio cualitativo, basado en bibliografía reciente (2020–2025), analizó cómo la lectura de mapas influye en el rendimiento escolar y el desarrollo cognitivo. Se evaluaron estrategias pedagógicas que integran las TIC, como software de georreferenciación, mapas interactivos y juegos educativos. Los resultados mostraron que la baja formación docente y la escasa presencia de la cartografía en el currículo dificultan el aprendizaje. No obstante, el uso de TIC promueve la participación, la interdisciplinariedad y una comprensión más amplia del espacio geográfico. El estudio concluye que es necesario invertir en formación docente y recursos tecnológicos para una educación geográfica más inclusiva y significativa.
Palavras-clave
alfabetización cartográfica; enseñanza de la geografía; tecnologías educativas; formación docente.

INTRODUÇÃO

A alfabetização cartográfica constitui um componente essencial no ensino de Geografia, pois oferece aos estudantes a possibilidade de interpretar e representar o espaço geográfico de maneira crítica, contextualizada e analítica. Em um cenário global marcado por transformações territoriais rápidas e avanços tecnológicos contínuos, a competência para ler e interpretar mapas tornou-se indispensável à formação de sujeitos críticos e socialmente engajados (monmonier, 2018). Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2022 revelam que cerca de 60% dos estudantes brasileiros enfrentam dificuldades na leitura de representações espaciais, o que compromete seu desempenho em disciplinas como Geografia e Matemática (OECD, 2022).

Apesar da relevância da cartografia no desenvolvimento do pensamento geográfico, persistem obstáculos significativos para sua efetiva inserção no processo de ensino-aprendizagem. Entre os principais desafios destacam-se a formação insuficiente dos docentes e a escassez de materiais didáticos atualizados e adaptados às demandas contemporâneas da educação geográfica (Castrogiovanni; Kato, 2020). A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em sua versão de 2018, reconhece a importância do letramento cartográfico, orientando que os estudantes desenvolvam habilidades relacionadas à leitura de mapas, interpretação de escalas e compreensão de fenômenos espaciais representados graficamente (Brasil, 2018). No entanto, a falta de capacitação específica e a dificuldade de integrar tecnologias digitais ao ensino comprometem a efetividade dessas diretrizes (Callai, 2019).

Diante desse cenário, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) surgem como ferramentas promissoras para dinamizar o ensino da cartografia. Recursos como softwares de georreferenciamento, mapas interativos, aplicativos de localização e jogos educativos podem contribuir para o engajamento dos alunos e favorecer aprendizagens mais significativas (Montello; Friendly, 2020). Além disso, metodologias ativas como a aprendizagem baseada em problemas (ABP) e a gamificação demonstram potencial para estimular a autonomia e o raciocínio espacial dos estudantes (Pontuschka; Paganelli; Cacete, 2017). A integração da cartografia com outras áreas do conhecimento, como Matemática e História, também amplia a compreensão do espaço em múltiplas escalas e contextos (Oliveira; Karnal, 2021).

Neste contexto, o presente artigo propõe uma análise crítica sobre o impacto da interpretação de mapas no desempenho escolar, tendo como foco o desenvolvimento do letramento cartográfico como instrumento formativo. A pesquisa busca responder às seguintes questões norteadoras: (1) de que forma o letramento cartográfico influencia o aprendizado e o desempenho dos alunos? (2) Quais são os principais desafios enfrentados pelos professores no ensino da cartografia no Ensino Fundamental? (3) como as TICs podem potencializar o ensino e a aprendizagem cartográfica no contexto da educação básica?

A investigação fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, com base em revisão bibliográfica de produções acadêmicas publicadas entre 2020 e 2025, priorizando fontes indexadas e de alto impacto na área. A seleção das referências considerou critérios de relevância e atualidade, possibilitando uma análise aprofundada das dificuldades enfrentadas no ensino da cartografia, bem como das metodologias inovadoras empregadas para superá-las. Os dados analisados permitiram refletir sobre como a formação docente, o uso das TICs e a adoção de práticas pedagógicas ativas podem contribuir para a construção de uma educação geográfica mais inclusiva, crítica e significativa.

REVISÃO DE LITERATURA

A ALFABETIZAÇÃO CARTOGRÁFICA E SUA RELEVÂNCIA NO ENSINO DE GEOGRAFIA

A alfabetização cartográfica constitui um elemento central no desenvolvimento da compreensão espacial dos estudantes, pois permite a interpretação e representação de informações geográficas de forma crítica, reflexiva e contextualizada. Para Castellar e Girotto (2021), a cartografia no ambiente escolar deve ir além da mera leitura de mapas, estimulando a análise de diferentes escalas, linguagens e representações. Essa perspectiva amplia a autonomia dos alunos e favorece a construção de um pensamento geográfico mais sofisticado.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) enfatiza a necessidade de desenvolver competências cartográficas desde os anos iniciais do Ensino Fundamental, promovendo o domínio de noções como localização, orientação e representação do espaço geográfico (Brasil, 2018). Contudo, como observam Callai e Kaercher (2020), ainda há entraves significativos à implementação dessas diretrizes, especialmente no que tange à carência de materiais didáticos atualizados e à insuficiência de formação docente específica na área da cartografia.

O ensino cartográfico, quando articulado de forma interdisciplinar, pode promover aprendizagens mais significativas e integradas. De acordo com Oliveira e Karnal (2021), a conexão entre cartografia, matemática e história amplia as possibilidades de análise das relações espaciais e temporais, contribuindo para a construção de uma visão mais crítica e contextualizada da realidade. Tal abordagem favorece o desenvolvimento de competências essenciais à leitura do mundo, por meio da compreensão das interações entre sociedade e natureza.

A necessidade de adaptar os materiais didáticos às novas tecnologias também tem se destacado na literatura recente. Montello e Friendly (2020), apontam que o uso de mapas digitais, aplicativos interativos e plataformas de geolocalização pode tornar a aprendizagem mais dinâmica e atrativa, promovendo maior envolvimento dos estudantes. No entanto, a inserção eficaz dessas ferramentas demanda formação continuada dos professores, de modo que possam integrá-las de maneira pedagógica e significativa ao currículo escolar.

Por fim, a alfabetização cartográfica deve ser compreendida não apenas como uma habilidade técnica, mas como um processo de letramento crítico e emancipador. Conforme argumentam Almeida e Passini (2021), o ensino da cartografia deve estimular os alunos a refletirem sobre os significados políticos, sociais e culturais das representações espaciais, ampliando sua consciência sobre as dinâmicas territoriais e os conflitos que permeiam o espaço geográfico. Assim, a educação cartográfica torna-se uma via potente para a formação de cidadãos mais críticos, participativos e socialmente responsáveis.

TECNOLOGIAS DIGITAIS NO ENSINO CARTOGRÁFICO

O avanço das tecnologias digitais têm provocado mudanças significativas no ensino da cartografia, oferecendo novas possibilidades para a construção do conhecimento geográfico. Ferramentas como sistemas de informação geográfica (SIG), plataformas de georreferenciamento e aplicativos interativos vêm sendo incorporadas às práticas pedagógicas, ampliando o acesso e a análise de dados espaciais. Para Goodchild (2022), a popularização dessas tecnologias tem contribuído para a democratização do conhecimento geográfico, permitindo que os estudantes desenvolvam análises mais complexas sobre fenômenos territoriais diversos.

Entre os recursos tecnológicos mais utilizados no contexto educacional, destacam-se os mapas digitais interativos e os softwares de SIG, como o Google Earth e o ArcGIS. Segundo Castellar e Girotto (2021), essas plataformas proporcionam uma experiência de aprendizagem mais dinâmica e envolvente, ao estimular a exploração espacial por meio da interatividade e da visualização de fenômenos em múltiplas escalas. Tais ferramentas favorecem a compreensão do espaço geográfico como construção social, dinâmica e relacional.

Além disso, o uso de realidade aumentada e gamificação tem se mostrado eficaz para engajar os estudantes na aprendizagem cartográfica. Conforme apontam Moreira e Sugui (2020), essas estratégias tornam o ensino mais atrativo e lúdico, favorecendo a assimilação de conceitos espaciais. Jogos educativos baseados em mapas, como o Geoguessr, vêm sendo aplicados em sala de aula como forma de estimular o interesse pela Geografia e fortalecer o letramento cartográfico.

Apesar dos benefícios, a implementação dessas tecnologias ainda enfrenta desafios importantes. Almeida e Passini (2021) alertam que a escassez de infraestrutura tecnológica em muitas escolas públicas, aliada à ausência de formação continuada para os professores, compromete o uso pedagógico eficaz dessas ferramentas. Tal cenário evidencia a necessidade urgente de políticas públicas que contemplem a capacitação docente e a modernização dos recursos educacionais nas instituições de ensino básico.

Outro fator essencial para a efetividade do uso das tecnologias digitais é o desenvolvimento de estratégias metodológicas que integrem de maneira crítica esses recursos ao planejamento pedagógico. Montello e Friendly (2020) destacam que a simples adoção de ferramentas tecnológicas não assegura aprendizagens significativas. Para isso, é necessário que os docentes mobilizem metodologias ativas, como a aprendizagem baseada em problemas (ABP), promovendo a investigação e a análise crítica de temas socioespaciais relevantes.

Por fim, a inserção das tecnologias digitais no ensino da cartografia deve vir acompanhada de uma reflexão ética e política. Goodchild (2022) chama a atenção para os riscos de exclusão educacional gerados pelo acesso desigual às tecnologias, o que pode aprofundar ainda mais as disparidades no processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, torna-se indispensável que as políticas públicas garantam a universalização do acesso às ferramentas digitais, assegurando uma educação geográfica mais equitativa, crítica e inclusiva.

DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A FORMAÇÃO DOCENTE EM CARTOGRAFIA

A formação de professores constitui um dos principais entraves para a consolidação de um ensino de cartografia significativo na educação básica. Muitos docentes de Geografia concluíram sua formação inicial com deficiências substanciais na área cartográfica, o que compromete diretamente a qualidade da mediação pedagógica em sala de aula. Essa lacuna, segundo Callai e Kaercher (2020), resulta da reduzida ênfase dada à cartografia nos cursos de licenciatura, que ainda privilegiam abordagens teóricas em detrimento das práticas pedagógicas voltadas ao ensino-aprendizagem do espaço geográfico.

A inexistência de políticas consistentes de formação continuada agrava esse cenário. Conforme apontam Almeida e Passini (2021), a maior parte dos professores enfrenta dificuldades para acompanhar as inovações metodológicas e tecnológicas no campo da cartografia, recorrendo, assim, a práticas convencionais centradas na memorização de conteúdos e na reprodução mecânica de mapas. Essa abordagem limita a autonomia dos alunos e restringe o desenvolvimento do pensamento geográfico crítico.

Uma alternativa promissora está na implementação de programas de capacitação específicos para a cartografia escolar. De acordo com Oliveira e Karnal (2021), cursos de formação continuada favorecem a adoção de metodologias mais ativas e a incorporação de tecnologias digitais, como softwares de georreferenciamento, plataformas de mapas interativos e jogos educativos. Além disso, iniciativas de colaboração entre universidades e escolas têm se mostrado eficazes na qualificação docente e no aprimoramento das práticas pedagógicas em Geografia.

O papel das políticas públicas também merece destaque nesse debate. A formulação de diretrizes curriculares que reconheçam a importância do ensino cartográfico pode contribuir significativamente para o fortalecimento da formação inicial dos professores. Castellar e Girotto (2021), ressaltam que medidas como a produção e distribuição de materiais didáticos específicos e o fomento à pesquisa sobre ensino de cartografia são fundamentais para a valorização da área e para a consolidação de uma educação geográfica mais robusta.

Outro aspecto essencial refere-se à adaptação dos cursos de licenciatura às exigências da cultura digital contemporânea. Para Montello e Friendly (2020), é imprescindível que a formação docente contemple o uso pedagógico das tecnologias digitais e o domínio de metodologias ativas que promovam a aprendizagem investigativa e colaborativa. O professor, nesse contexto, deve atuar como mediador de processos interativos e significativos de construção do saber geográfico.

Por fim, é necessário que a formação em cartografia transcenda os limites técnicos e seja orientada por uma abordagem crítica e emancipadora. Conforme argumenta Goodchild (2022), a alfabetização cartográfica deve estimular nos alunos a leitura dos mapas como representações políticas e culturais, capazes de revelar disputas territoriais e desigualdades socioambientais. Assim, investir na qualificação docente é também apostar em uma educação geográfica transformadora, capaz de formar sujeitos conscientes de seu lugar no mundo.

METODOLOGIA

A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com ênfase em revisão bibliográfica, tendo como objetivo analisar criticamente as contribuições teóricas sobre o letramento cartográfico e seu impacto no aprendizado e desempenho escolar no ensino de Geografia. Segundo Minayo (2022), os estudos qualitativos são indicados para compreender fenômenos sociais e educacionais em profundidade, considerando suas múltiplas dimensões interpretativas. Nesse sentido, o estudo está alicerçado na análise de publicações acadêmicas atuais, que discutem a integração entre cartografia escolar, metodologias pedagógicas e uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs).

A coleta de dados foi realizada por meio da seleção criteriosa de artigos científicos, livros, dissertações e teses publicados entre os anos de 2020 e 2025, priorizando fontes indexadas em bases reconhecidas como SciELO, Google Acadêmico, CAPES Periódicos e Web of Science. Os critérios de inclusão envolveram a atualidade, a relevância para o campo da Educação Geográfica, a autoria reconhecida e o alinhamento temático com os objetivos do estudo. Foram excluídas publicações sem rigor metodológico ou que apresentassem dados desatualizados ou não aplicáveis à realidade da educação básica brasileira.

A amostra documental não é probabilística, mas intencional, conforme o escopo da pesquisa qualitativa. A análise do material bibliográfico foi conduzida por meio de leitura exploratória, leitura analítica e organização em categorias temáticas emergentes, conforme orientações de Gil (2023). Tais categorias permitiram identificar aspectos recorrentes sobre os desafios da formação docente, a aplicação das TICs no ensino cartográfico, as práticas interdisciplinares e o uso de metodologias ativas como a gamificação e a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP).

Embora a pesquisa não envolva sujeitos humanos, respeitaram-se os princípios éticos da pesquisa científica, especialmente no que se refere à integridade, à fidedignidade das fontes e à correta citação dos autores, conforme a NBR 6023:2023 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). A utilização de fontes confiáveis visa garantir a validade e a replicabilidade dos resultados apresentados, além de permitir que futuros pesquisadores possam retomar ou aprofundar as análises desenvolvidas neste estudo.

A principal limitação desta pesquisa consiste na natureza secundária dos dados, uma vez que não foram aplicados instrumentos empíricos de coleta direta com professores ou estudantes. Contudo, a profundidade e diversidade das fontes analisadas permitem traçar um panorama abrangente sobre os desafios e as possibilidades do ensino cartográfico na contemporaneidade, fundamentando propostas e reflexões consistentes sobre práticas pedagógicas mais eficazes e inclusivas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos a partir da revisão bibliográfica qualitativa revelam que o ensino de cartografia na educação básica enfrenta desafios estruturais e metodológicos que comprometem significativamente a aprendizagem dos estudantes. De acordo com o relatório mais recente do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), aproximadamente 60% dos estudantes brasileiros apresentam dificuldades na leitura e interpretação de representações espaciais, o que impacta diretamente seu desempenho em disciplinas que exigem raciocínio espacial, como Geografia e Matemática (OECD, 2022). Corroborando esse dado, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) também aponta baixos índices de acerto em questões relacionadas à análise cartográfica (INEP, 2023), evidenciando a fragilidade da alfabetização cartográfica no currículo escolar.

Um dos principais entraves identificados refere-se à insuficiência da formação docente específica na área de cartografia. Callai (2019) argumenta que muitos professores de Geografia não são devidamente preparados para trabalhar com leitura e interpretação de mapas, o que resulta em práticas fragmentadas e pouco contextualizadas. Além disso, como apontam Castrogiovanni e Kato (2020), a carência de materiais didáticos atualizados, bem como a ausência de abordagens interdisciplinares e metodologias ativas, limita o engajamento dos estudantes e restringe o desenvolvimento de habilidades espaciais.

Nesse contexto, a inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) tem se mostrado uma estratégia eficaz para superar parte dessas limitações. Estudos de Almeida e Passini (2021) demonstram que o uso de plataformas como Google Earth e softwares de georreferenciamento, quando bem aplicados, promovem maior interatividade e contextualização no ensino cartográfico. O programa Escola Interativa e o projeto Mapas Digitais na Educação são exemplos de iniciativas que ampliaram o acesso dos estudantes ao conhecimento geográfico por meio da tecnologia. Contudo, Montello e Friendly (2020) alertam que o sucesso dessas ferramentas depende diretamente da infraestrutura escolar disponível e da formação técnica e pedagógica dos professores.

A aplicação de metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) e a gamificação, também apresentou resultados positivos. Pontuschka, Paganelli E Cacete (2017) evidenciam que jogos digitais e atividades lúdicas baseadas em mapas interativos favorecem a assimilação de conceitos cartográficos de maneira mais significativa. Moreira e Sugui (2020), destacam que essas estratégias contribuem para a motivação dos alunos, promovendo a aprendizagem por meio da experimentação e do protagonismo estudantil. Ferreira e Silva (2023), reforçam que o ensino híbrido e a aprendizagem cooperativa podem ampliar a autonomia dos discentes no processo de construção do saber geográfico.

Outro ponto de destaque diz respeito à interdisciplinaridade como potencializadora do ensino cartográfico. A iniciativa “Cartografia Integrada no Ensino Fundamental”, analisada por Cavalcanti (2022), demonstrou que a articulação entre as disciplinas de Geografia, Matemática e História permite uma compreensão mais ampla das relações espaciais e temporais. Oliveira e Karnal (2021), também defendem que a integração curricular favorece a formação de um pensamento crítico e contextualizado, além de melhorar o desempenho acadêmico por meio de conexões significativas entre conteúdos.

Apesar dos avanços observados, persistem desafios importantes, como a falta de políticas públicas voltadas à valorização da formação docente e à modernização da infraestrutura escolar. Castellar e Girotto (2021), enfatizam a necessidade de investimentos em cursos de capacitação continuada, produção de materiais didáticos contextualizados e criação de diretrizes curriculares que reconheçam a centralidade da cartografia na formação cidadã. Além disso, Rezende e Lima (2023), ressaltam a importância de ampliar o acesso a bibliotecas cartográficas digitais e plataformas de dados geoespaciais, promovendo maior equidade na apropriação desses saberes.

Os achados desta pesquisa indicam que o fortalecimento do letramento cartográfico requer a reformulação das práticas pedagógicas tradicionais, a inserção crítica de tecnologias digitais e a promoção de metodologias inovadoras que dialoguem com as realidades socioculturais dos alunos. O aprimoramento dessas práticas pode não apenas melhorar o desempenho acadêmico, mas também contribuir para a formação de sujeitos mais conscientes, capazes de interpretar o espaço geográfico e intervir de forma crítica na sociedade (Goodchild, 2022).

Tabela 1 – Desafios e estratégias para o ensino da cartografia na educação básica

Fonte: Elaborado pela autora com base em revisão bibliográfica (2020–2025).

A Tabela 1 sintetiza os principais desafios enfrentados no ensino da cartografia na educação básica e as estratégias identificadas na literatura para enfrentá-los. Observa-se que muitos dos entraves estão relacionados à formação inicial e continuada dos docentes, à carência de recursos didáticos atualizados e à limitada integração entre cartografia e tecnologias digitais. Esses fatores comprometem significativamente a qualidade do ensino geográfico, restringindo o desenvolvimento de competências espaciais essenciais para a leitura crítica do mundo.

As soluções apresentadas, fundamentadas em estudos recentes, destacam a importância da adoção de metodologias ativas, como a gamificação e a aprendizagem baseada em problemas, além do uso de tecnologias como softwares de SIG e mapas digitais interativos. A literatura também evidencia que projetos interdisciplinares e políticas públicas de investimento em infraestrutura escolar são fundamentais para uma educação cartográfica mais inclusiva e eficaz. Dessa forma, os dados sistematizados reforçam a necessidade de ações estruturais e pedagógicas que favoreçam a transformação das práticas docentes e a promoção do letramento cartográfico como eixo integrador no ensino de Geografia.

Por fim, ressalta-se a importância de futuras investigações que analisem a eficácia de estratégias didáticas inovadoras em diferentes contextos escolares, incluindo ambientes com recursos limitados e populações em situação de vulnerabilidade. Estudos comparativos entre abordagens tradicionais e metodologias ativas no ensino da cartografia podem ampliar a compreensão sobre o impacto dessas práticas na aprendizagem e no desenvolvimento das competências geográficas dos estudantes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente pesquisa evidenciou a relevância do letramento cartográfico como componente essencial para o desenvolvimento do pensamento espacial e para a construção de uma educação geográfica mais crítica, contextualizada e formativa. O estudo demonstrou que a capacidade de interpretar mapas está diretamente relacionada ao desempenho acadêmico e à formação de sujeitos capazes de compreender e intervir no espaço em que vivem.

Entre os principais desafios identificados estão a insuficiência da formação docente específica, a carência de recursos didáticos atualizados e a limitada integração entre cartografia e tecnologias educacionais. Tais fatores comprometem a eficácia do processo de ensino-aprendizagem, evidenciando a necessidade de investimentos em formação continuada, políticas públicas específicas e ampliação da infraestrutura tecnológica nas escolas.

As estratégias analisadas apontam para a eficácia da utilização de metodologias ativas, como a aprendizagem baseada em problemas e a gamificação, bem como o uso de ferramentas digitais interativas. Essas abordagens contribuem para o engajamento dos estudantes, facilitam a assimilação de conceitos e promovem um aprendizado mais significativo e duradouro.

A interdisciplinaridade também se destacou como elemento potencializador do ensino cartográfico, ao possibilitar conexões entre saberes geográficos, matemáticos, históricos e sociais. A articulação curricular entre diferentes áreas do conhecimento amplia a compreensão dos fenômenos espaciais e fortalece a formação integral dos alunos.

Com base nas evidências levantadas, conclui-se que o fortalecimento do ensino de cartografia exige uma reformulação nas práticas pedagógicas, aliada à valorização docente, ao uso intencional das tecnologias digitais e à construção de currículos que considerem a cartografia como ferramenta indispensável para a leitura crítica do território.

Sugere-se que futuras investigações explorem a aplicação das metodologias discutidas em diferentes contextos escolares, com ênfase na inclusão digital, no atendimento a estudantes com necessidades específicas e na formação de profissionais de áreas estratégicas como Engenharia, Arquitetura e Planejamento Urbano. Ampliar o debate sobre a alfabetização cartográfica é, portanto, um passo fundamental para a consolidação de uma educação geográfica transformadora e socialmente relevante.

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Referencias

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Acesso em: 2024-09-03.

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Ensino de geografia e letramento cartográfico: O impacto da interpretação de mapas no aprendizado e no desempenho escolar

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Amor patológico, dependência afetiva e ciúme patológico: Uma revisão abrangente da literatura científica
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