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Resumo
INTRODUÇÃO
A disciplina na primeira infância representa um dos pilares fundamentais para a formação de sujeitos autônomos, empáticos e emocionalmente saudáveis. Longe de ser uma imposição autoritária, a disciplina deve ser compreendida como um processo educativo complexo e longitudinal, essencial para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e cognitivas que sustentam a convivência social e a aprendizagem.
Entretanto, a indisciplina no contexto da educação infantil tem se tornado um desafio recorrente para educadores e cuidadores, sendo muitas vezes tratada de forma superficial ou meramente reativa. Diversos estudos indicam que a indisciplina é um fenômeno multifatorial, relacionado a variáveis como estágio de neurodesenvolvimento, práticas parentais, ambiente emocional, estrutura escolar, e influências socioculturais.
Diante disso, este artigo tem como objetivo analisar as principais causas da indisciplina na educação infantil e apresentar abordagens fundamentadas que favoreçam um desenvolvimento saudável e coerente com as necessidades infantis.
Justifica-se este estudo pela importância do tema para o desenvolvimento humano integral e para a melhoria da qualidade da educação, considerando que formas mais saudáveis e conscientes de disciplina contribuem diretamente para a formação de sujeitos mais equilibrados, cooperativos e preparados para a vida em sociedade.
A metodologia utilizada foi a revisão bibliográfica, de natureza qualitativa, com análise crítica de artigos científicos, livros teóricos e publicações especializadas que abordam a indisciplina na infância sob diferentes perspectivas.
O PAPEL DO AMBIENTE FAMILIAR NA FORMAÇÃO DA DISCIPLINA
O ambiente familiar constitui a base primordial da formação da disciplina na infância, especialmente nos primeiros anos de vida, em que a criança depende inteiramente dos adultos para estruturar suas experiências emocionais e sociais. Nesse período, a qualidade das interações entre cuidadores e crianças desempenha papel determinante na construção da autorregulação, do respeito às regras e da internalização de limites. Duas abordagens teóricas centrais para compreender esse processo são a Teoria do Apego, formulada por John Bowlby, e a classificação dos estilos parentais, proposta por Diana Baumrind.
TEORIA DO APEGO E A BASE DA SEGURANÇA EMOCIONAL
Segundo Bowlby (1988), o apego é um sistema inato e adaptativo, fundamental para a sobrevivência da espécie humana. A criança pequena busca proximidade e proteção de figuras de cuidado, e a qualidade dessa vinculação influencia diretamente sua capacidade de explorar o ambiente e desenvolver autonomia. Quando a criança é acolhida em suas necessidades emocionais básicas — como consolo diante do medo, presença diante da frustração e resposta consistente aos seus sinais — ela constrói um apego seguro, que funciona como base segura para a exploração, o aprendizado e a internalização de normas sociais.
Ao contrário, vínculos inseguros — caracterizados por negligência, instabilidade ou superproteção — tendem a gerar insegurança emocional, medo da rejeição e dificuldade de lidar com frustrações e limites. Essas crianças podem expressar comportamentos de indisciplina como forma de buscar controle sobre o ambiente ou chamar a atenção de adultos emocionalmente indisponíveis (Aiken, 2015).
Além disso, estudos mais recentes demonstram que o apego seguro está diretamente relacionado à formação de circuitos cerebrais de autorregulação emocional, localizados no córtex pré-frontal e na amígdala, sendo influenciados pelas interações afetivas nos primeiros anos de vida (Siegel, 2016). A disciplina, portanto, não é apenas uma questão de obediência, mas uma construção progressiva da capacidade de regular impulsos e agir com consciência — o que começa, invariavelmente, no colo de cuidadores presentes, consistentes e emocionalmente estáveis.
ESTILOS PARENTAIS E DESENVOLVIMENTO DA AUTORREGULAÇÃO
Diana Baumrind (1991) identificou três principais estilos parentais — autoritário, permissivo e autoritativo (ou democrático) — com base no equilíbrio entre controle e responsividade afetiva. Mais tarde, Maccoby e Martin (1983) ampliaram essa tipologia para quatro estilos, incluindo o negligente. Essa classificação permite compreender como diferentes formas de educar impactam diretamente a disciplina e o desenvolvimento socioemocional das crianças:
Assim, famílias que estabelecem rotinas previsíveis, praticam escuta ativa, validam os sentimentos das crianças e aplicam consequências coerentes — em vez de punições arbitrárias — favorecem o desenvolvimento da disciplina de forma mais profunda e sustentável.
A INFLUÊNCIA DA ESTABILIDADE EMOCIONAL DOS CUIDADORES
Outro fator crucial é o estado emocional dos cuidadores. A estabilidade emocional dos pais, mães ou responsáveis têm relação direta com a forma como reagem às condutas infantis e com a sua capacidade de oferecer suporte emocional. Cuidadores que vivem sob estresse crônico, insegurança financeira, conflitos conjugais ou traumas não elaborados tendem a reagir de forma impulsiva, punitiva ou inconsistente (Perry; Szalavitz, 2017).
Esses comportamentos podem reforçar padrões desregulados na criança, que, em momentos de crise, necessita de adultos capazes de modelar contenção emocional e coerência comportamental. Segundo Siegel (2016), “as crianças aprendem a se acalmar a partir da experiência de serem acalmadas”. Quando os cuidadores conseguem nomear emoções, manter a calma diante dos erros infantis e oferecer acolhimento sem abrir mão dos limites, favorecem um processo de aprendizagem emocional essencial à construção da disciplina.
PRÁTICAS FAMILIARES POSITIVAS: CONCRETIZANDO A TEORIA
Dentre as práticas familiares mais eficazes na promoção da disciplina saudável, destacam-se:
Essas práticas, longe de serem permissivas, são formas estruturadas de ensinar responsabilidade emocional, respeitando o estágio de desenvolvimento infantil e estimulando a autonomia com consciência.
IMPACTOS DA NEGLIGÊNCIA, SUPERPROTEÇÃO E AUTORITARISMO
Por fim, vale destacar que tanto a ausência de limites (negligência ou permissividade) quanto o excesso de controle (autoritarismo) comprometem a formação da disciplina. A negligência emocional e a instabilidade parental estão fortemente associadas ao aumento de comportamentos antissociais e dificuldades de controle inibitório (Silva; Koller, 2007). Por outro lado, o autoritarismo pode produzir obediência superficial e gerar ansiedade, baixa autoestima e dificuldade de iniciativa pessoal.
A superproteção, embora motivada por amor, também é prejudicial. Ao impedir a frustração, os pais roubam da criança a oportunidade de desenvolver resiliência e senso de responsabilidade. O equilíbrio entre afeto e exigência é, portanto, o alicerce de uma educação que promove o crescimento emocional e moral da criança.
NEURODESENVOLVIMENTO E MATURAÇÃO EMOCIONAL
A primeira infância é um período de desenvolvimento cerebral acelerado, marcado pela consolidação de estruturas fundamentais para o controle inibitório, regulação emocional, empatia e tomada de decisões. O córtex pré-frontal — responsável por essas funções executivas — ainda está em formação, e somente atinge maturidade plena entre os 20 e 25 anos de idade (Siegel, 2016). Isso significa que comportamentos considerados “indisciplinados” — como impulsividade, resistência a limites e explosões emocionais — muitas vezes refletem imaturidade neurobiológica, e não má intenção.
Pesquisas em neurociência do desenvolvimento apontam que a autorregulação é uma habilidade aprendida gradualmente, a partir da modelagem de adultos significativos, da repetição de experiências de contenção emocional e da previsibilidade nas rotinas diárias (Center On The Developing Child, 2011). Quando essas experiências são inconsistentes ou inexistentes, a criança pode manifestar comportamentos disruptivos como resposta adaptativa a um ambiente desorganizado.
Além disso, condições do espectro do neurodesenvolvimento — como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), ou Transtorno do Espectro Autista (TEA) — também podem impactar diretamente a forma como a criança se comporta em contextos escolares, especialmente quando não são compreendidas nem acompanhadas adequadamente (DSM-5, APA, 2013).
ESTÍMULOS AMBIENTAIS E ESTILO EDUCATIVO ESCOLAR
A escola, como ambiente de socialização primária, exerce influência significativa na forma como a criança responde a normas e limites. Práticas pedagógicas excessivamente rígidas, punitivas ou descontextualizadas do desenvolvimento infantil — como filas longas, silêncio prolongado, ou ausência de brincadeiras livres — tendem a gerar resistência, agitação e desengajamento (Tonucci, 2009).
Por outro lado, quando o ambiente escolar oferece oportunidades para movimento, expressão criativa, cooperação e construção coletiva de regras, a disciplina emerge como uma consequência natural da participação e da escuta ativa. A criança, quando envolvida no processo e tratada com dignidade, internaliza os limites com mais facilidade, pois sente-se pertencente ao grupo (Lino de Macedo, 2000).
A ausência de formação continuada para professores sobre desenvolvimento socioemocional, bem como a pressão por resultados cognitivos precoces, agrava o problema, pois leva muitos educadores a interpretarem comportamentos naturais da infância como “desvio de conduta” ou “falta de limites”.
ESTILO PARENTAL E INCONSISTÊNCIA NOS REFERENCIAIS
Como abordado no tópico anterior, o estilo parental tem impacto direto na construção da disciplina. Entretanto, além do modelo parental em si, um fator crucial na gênese da indisciplina é a inconsistência entre os referenciais da casa e da escola.
Crianças que vivem em contextos familiares com ausência de limites, permissividade extrema ou negligência afetiva podem apresentar comportamentos de enfrentamento e oposição ao serem expostas a rotinas e regras escolares. Da mesma forma, crianças submetidas a ambientes autoritários e hostis podem expressar na escola suas emoções reprimidas, através de comportamentos agressivos, opositores ou retraídos — o que também pode ser interpretado erroneamente como indisciplina.
Segundo Del Prette e Del Prette (2005), é necessário um esforço conjunto entre escola e família para estabelecer alianças educativas coerentes, com objetivos comuns e estratégias compatíveis. Quando essa parceria falha, a criança fica em um limbo afetivo e normativo, sendo cobrada de condutas que não foram ensinadas ou modeladas de forma consistente.
PROBLEMAS EMOCIONAIS, TRAUMAS E CONDIÇÕES SOCIAIS
Outro fator relevante está relacionado à realidade emocional e social da criança. Situações como separações traumáticas, luto, violência doméstica, fome, abuso ou negligência são fatores de risco amplamente documentados para o surgimento de comportamentos disruptivos na infância (Perry; Szalavitz, 2017). A criança que vive sob ameaça constante ativa um estado de hipervigilância em seu sistema nervoso central, o que a impede de aprender, prestar atenção ou respeitar regras.
Segundo a Teoria Polivagal, de Stephen Porges (2011), o comportamento social está intimamente ligado à sensação de segurança no corpo. Ou seja, uma criança só pode colaborar e seguir normas quando sente-se segura, acolhida e emocionalmente regulada. Assim, a indisciplina pode ser, muitas vezes, um pedido de ajuda não verbalizado, que exige do adulto uma escuta empática e não punitiva.
Ainda nesse campo, a vulnerabilidade social — associada à precariedade de serviços públicos, insegurança alimentar, moradias insalubres ou falta de acesso a cuidados básicos — também afeta diretamente a estabilidade emocional e o comportamento das crianças. É necessário reconhecer que, muitas vezes, a indisciplina não é causa, mas consequência de desigualdades estruturais que recaem sobre os corpos infantis.
O PERIGO DA MEDICALIZAÇÃO PRECOCE E DO RÓTULO
Por fim, destaca-se a crítica à tendência contemporânea de medicalizar comportamentos infantis considerados “fora da norma”. Em vez de compreender o contexto da criança, suas vivências e sua trajetória de desenvolvimento, é comum vê-la rotulada como “problemática”, “hiperativa” ou “mal-educada”, sendo frequentemente encaminhada para diagnóstico ou uso de medicação psicotrópica sem uma avaliação criteriosa e multidisciplinar.
Segundo a Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme, 2014), o crescimento exponencial de diagnósticos psiquiátricos infantis nas últimas décadas revela não um aumento real de transtornos, mas sim uma baixa tolerância social às manifestações naturais da infância. Essa postura pode estigmatizar precocemente a criança, além de mascarar fatores contextuais que deveriam ser o foco da intervenção.
A indisciplina, portanto, precisa ser analisada em sua complexidade biopsicossocial, e jamais reduzida a uma falha moral, uma doença ou um erro dos pais. Ao invés disso, exige uma abordagem sensível, embasada em evidências e centrada no desenvolvimento integral da criança.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: ADLER, DREIKURS E A PSICOLOGIA INDIVIDUAL
A disciplina positiva tem raízes na Psicologia Individual de Alfred Adler e Rudolf Dreikurs, que argumentam que todo comportamento humano tem uma motivação social: as crianças, especialmente, se comportam mal quando sentem que não pertencem ou não são significativas em seus contextos (Dreikurs & Soltz, 1964). Logo, comportamentos indisciplinados são tentativas equivocadas de conquistar pertencimento, atenção ou controle sobre o próprio ambiente.
Essa perspectiva é corroborada por autores contemporâneos como Jane Nelsen (2015), que destaca que “disciplina eficaz ensina habilidades de vida e fortalece a conexão com o adulto, ao invés de produzir obediência cega”. Trata-se de uma abordagem que busca construir autonomia e responsabilidade, e não submissão ou medo.
Por outro lado, a disciplina punitiva baseia-se em pressupostos behavioristas clássicos (Skinner, 1953), que reduzem o comportamento à resposta a estímulos de reforço ou punição, desconsiderando os fatores emocionais, contextuais e relacionais envolvidos na ação da criança.
CONSEQUÊNCIAS DA DISCIPLINA PUNITIVA: MEDO, RESSENTIMENTO E BAIXA AUTOESTIMA
Estudos longitudinais demonstram que o uso sistemático da punição física ou verbal está associado a uma série de efeitos adversos no desenvolvimento infantil: aumento da agressividade, dificuldade de empatia, baixa autoestima, maior propensão à ansiedade e depressão, e reprodução de comportamentos violentos na adolescência (Gershoff & Grogan-Kaylor, 2016).
Além disso, a punição tende a produzir obediência superficial, baseada no medo de ser pego ou de sofrer retaliação — e não na internalização de valores. Em outras palavras, a criança se comporta “bem” apenas na presença da figura de autoridade, e não por ter compreendido a razão do limite.
A disciplina punitiva também compromete o vínculo afetivo entre educador e criança, uma vez que rompe a confiança mútua e alimenta sentimentos de vergonha, ressentimento e isolamento emocional (Siegel & Bryson, 2016). Esses sentimentos, por sua vez, enfraquecem a capacidade de regulação emocional e aumentam os comportamentos desafiadores ao longo do tempo.
PRINCÍPIOS E PRÁTICAS DA DISCIPLINA POSITIVA
Em contraste, a disciplina positiva propõe práticas que combinam firmeza e gentileza, estabelecendo limites claros, mas com respeito à dignidade da criança. Não se trata de permissividade, mas de ensinar com empatia e consistência. Entre os pilares dessa abordagem estão:
Essas práticas se baseiam em evidências da neurociência afetiva, segundo as quais o cérebro aprende melhor em estados de segurança e conexão emocional (Cozolino, 2013).
Além disso, reforçam a ideia de que a disciplina é uma habilidade a ser desenvolvida — e não um traço inato que se impõe à força.
A FALSA DICOTOMIA: DISCIPLINA PUNITIVA COMO “ÚNICA SAÍDA”
É importante destacar que, culturalmente, a disciplina punitiva ainda é amplamente defendida sob o argumento de que “criança precisa de limites”. De fato, limites são essenciais para o desenvolvimento saudável, mas precisam ser oferecidos com empatia, previsibilidade e coerência.
A firmeza não exige violência. A autoridade não exige autoritarismo. Crianças que são respeitadas tendem a respeitar, porque internalizam modelos relacionais baseados no cuidado — e não no medo.
Infelizmente, muitos educadores e cuidadores ainda recorrem à punição por falta de formação, esgotamento emocional ou por repetirem modelos recebidos na infância. Por isso, defender a disciplina positiva não é culpabilizar o adulto, mas empoderá-lo com ferramentas baseadas em ciência e humanidade, para que possa agir de forma mais eficaz e coerente com os valores que deseja ensinar.
A TRÍADE DA DISCIPLINA SAUDÁVEL: VÍNCULO, ESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES
A literatura especializada aponta que as estratégias mais eficazes de disciplina se apoiam em três eixos principais, que se retroalimentam continuamente:
a) Vínculo seguro: a base de todo aprendizado emocional
Segundo a Teoria do Apego (Bowlby, 1988), a qualidade da relação afetiva entre a criança e seus cuidadores influencia diretamente sua capacidade de confiar, explorar e regular emoções. Crianças com apego seguro tendem a desenvolver mais empatia, tolerância à frustração e flexibilidade comportamental (Sroufe, 2005).
O adulto disciplinador deve, portanto, ser uma figura de referência segura, não apenas um regulador externo. Isso implica escuta ativa, validação emocional (“Você está frustrado, e isso é normal”), presença consistente e demonstração de respeito. É nessa base segura que as intervenções corretivas ganham sentido e são integradas pela criança sem gerar humilhação ou desconexão relacional.
b) Estrutura previsível: rotina, limites e coerência
A previsibilidade ambiental é um dos fatores mais relevantes para a organização do comportamento infantil. Rotinas claras, regras consistentes e consequências previamente conhecidas ajudam a reduzir a ansiedade, promovem segurança e facilitam a internalização de normas sociais.
Isso inclui práticas como:
É importante que a estrutura seja firme e flexível ao mesmo tempo — firme nos limites essenciais (respeito, segurança, bem-estar) e flexível para ajustar-se às necessidades emocionais e contextuais da criança.
c) Ensino explícito de habilidades socioemocionais
A criança aprende a se comportar por meio da modelagem comportamental, da repetição em contexto significativo e da verbalização mediada pelo adulto (Vygotsky, 1978).
Isso significa que, diante de comportamentos inadequados, o papel do educador ou cuidador é identificar a habilidade ausente e ensiná-la de forma explícita — e não apenas repreender a ação indesejada.
Por exemplo:
Esse ensino requer repetição paciente, ambientes seguros para errar, e valorização do esforço — não apenas do resultado.
ESTRATÉGIAS INTEGRADAS: DA TEORIA À PRÁTICA
A seguir, elencam-se práticas baseadas em evidências que contribuem para a promoção da disciplina saudável:
CONSIDERAÇÕES ÉTICAS E CULTURAIS
A promoção da disciplina não é neutra: está carregada de valores sociais, culturais e morais. Em contextos marcados por desigualdade, violência estrutural e precarização das famílias, a indisciplina pode emergir como forma de resistência, expressão de dor ou desorganização emocional crônica (Tiba, 2002). Ignorar isso seria culpabilizar crianças por falhas sistêmicas.
Assim, qualquer proposta disciplinar deve considerar as condições reais de vida das crianças, respeitar sua singularidade e reconhecer os adultos como aprendizes também em construção. Mais do que um manual de técnicas, precisamos de uma mudança de paradigma, em que a disciplina seja vista como processo relacional, ético e formativo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A indisciplina na educação infantil, quando analisada de forma superficial, é frequentemente reduzida a um problema comportamental que exige contenção imediata. No entanto, ao longo deste artigo, argumentou-se que se trata de um fenômeno multifacetado e estrutural, diretamente relacionado ao estágio de neurodesenvolvimento da criança, às práticas parentais, ao ambiente escolar e, sobretudo, à qualidade dos vínculos afetivos estabelecidos nos primeiros anos de vida.
À luz das teorias do apego (Bowlby), dos estilos parentais (Baumrind) e das contribuições da psicologia do desenvolvimento e das neurociências contemporâneas, compreende-se que a disciplina saudável não se impõe, mas se cultiva. Esse cultivo exige uma atuação coordenada entre os principais agentes de socialização infantil: família, escola e sociedade. É no entrelaçamento dessas esferas que se formam — ou se comprometem — as competências socioemocionais necessárias para a vida em comunidade, como a empatia, a autorregulação e o senso de responsabilidade.
As abordagens punitivas, ainda muito presentes em práticas educativas, demonstraram-se ineficazes a longo prazo e prejudiciais ao desenvolvimento psicológico da criança. Em contrapartida, estratégias baseadas em disciplina positiva, que combinam afeto, limites consistentes e ensino explícito de habilidades, revelam-se mais promissoras para a formação de indivíduos emocionalmente saudáveis, autônomos e cooperativos.
Destaca-se ainda que a indisciplina não deve ser compreendida apenas como falha individual ou parental, mas também como reflexo de um ambiente desregulado ou negligente, seja em casa, na escola ou no contexto social mais amplo. Em realidades de vulnerabilidade, por exemplo, o comportamento desafiador pode ser expressão de sofrimento psíquico, ausência de estrutura ou violência simbólica — fatores que demandam escuta, sensibilidade e políticas públicas de apoio à infância e às famílias.
Assim, a disciplina infantil deve ser tratada como um projeto formativo de longo prazo, ancorado em princípios éticos, evidências científicas e práticas culturalmente contextualizadas. É necessário deslocar o foco da mera obediência para a construção de competência emocional e responsabilidade social, o que exige não apenas técnicas, mas uma mudança de mentalidade nos adultos envolvidos.
Por fim, este artigo, fundamentado em revisão bibliográfica e abordagem qualitativa, contribui para o aprofundamento do debate sobre práticas educativas na infância, propondo um olhar mais humano, científico e coerente com as necessidades reais das crianças. Convida educadores, cuidadores e pesquisadores a revisarem seus paradigmas e a reconhecerem que disciplinar é, em sua essência, um ato de cuidado, construção e compromisso com o desenvolvimento integral do ser humano.
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