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Resumo
INTRODUÇÃO
A análise da relação do fracasso escolar com os transtornos do neurodesenvolvimento se faz necessário pela invisibilidade destes pela comunidade escolar, em especial no município de Baraúna/RN. Compreende-se que as causas do fracasso escolar são inúmeras, porém muitas vezes o aluno é visto como preguiçoso, desinteressado, não consegue aprender, desligado, indisciplinado, sem uma análise mais apurada das reais causas da não aprendizagem, ocasionando deste modo no fracasso escolar, sem que suas limitações sejam respeitadas e suas potencialidades valorizadas.
A presente pesquisa realizada no ano de 2019, e revisitada neste ano de 2025, que investiga qual a concepção dos profissionais da educação, saúde e assistência social sobre os transtornos do neurodesenvolvimento, como se dá a identificação e intervenção desses transtornos no município, como também na visão dos mesmos sobre o que deveria ser feito para que haja sucesso escolar dos alunos que apresentam transtornos de aprendizagem. Nesta perspectiva Rotta et al. (2016), afirma que é:
[…] é importante estabelecer diferenças entre dificuldade e transtorno da aprendizagem. Muitas crianças em fase escolar apresentam certas dificuldades em realizar uma tarefa, que podem surgir por diversos motivos, como problemas na proposta pedagógica, na capacitação do professor, problemas familiares ou déficits cognitivos, entre outros. A presença de uma dificuldade de aprendizagem não implica necessariamente um transtorno, que se traduz por um conjunto de sinais sintomatológicos que provocam uma série de perturbações no processo de aprendizado da criança, interferindo no processo de aquisição e manutenção de informações de uma forma acentuada (p.107).
Os transtornos do neurodesenvolvimento, abordados aqui, têm foco principal no TDAH, dislexia, discalculia e disgrafia, pela invisibilidade desses transtornos no cotidiano escolar, em especial no município de Baraúna/RN. O presente trabalho faz um breve relato acerca da definição do fracasso escolar. Em seguida traz uma breve descrição dos transtornos de aprendizagem (TDAH, dislexia, discalculia e disgrafia). Posteriormente aborda-se os materiais e métodos utilizados na pesquisa, como também os resultados obtidos nos questionários aplicados junto às secretarias de educação, saúde e assistência social, adentrando na discussão dos dados obtidos. E por fim encerra-se a presente pesquisa com a conclusão a respeito de todo o processo investigado.
REFERENCIAL TEÓRICO
FRACASSO ESCOLAR
No Brasil, o índice de crianças com problemas de aprendizagem é de 1 em cada 10 crianças em idade escolar (Moreno e Rodrigues, 2015). Afirmam ainda que a maioria dos estudantes do 3º ano do ensino fundamental – a idade em que termina o ciclo de alfabetização nas escolas – só consegue localizar informações “explícitas” em textos curtos. Mas uma em cada cinco crianças (22,21%) tem um déficit ainda maior: elas só desenvolveram a capacidade de ler palavras isoladas, segundo dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2014, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC).
Segundo Weiss (2002, p.16) “considera-se como fracasso escolar uma resposta insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola”. Podendo-se analisar a partir de três perspectivas: Sociedade, Escola e Aluno.
Na perspectiva Social que é a mais ampla, Weiss (2002), nos leva a refletir sobre a interferência do meio social ao qual os alunos de escolas públicas estão inseridas e o quanto este meio interfere no processo de aprendizagem dos mesmos:
[…] alunos de escolas públicas brasileiras provenientes das camadas de mais baixa renda da população são frequentemente incluídos em ‘classes escolares especiais’, considerados […] com limites e problemas graves de aprendizagem. Na realidade, lhes faltam oportunidades de crescimento cultural […] e desenvolvimento da linguagem que lhes permita maior imersão num meio letrado, o que, por sua vez, facilitará o desenvolvimento da leitura e da escrita (p.16).
Na perspectiva do aluno enquanto aprendente “O fracasso escolar é causado por uma conjugação de fatores interligados que impedem o bom desempenho do paciente (aluno-aprendente), embora se tente identificar, em alguns casos, um ponto inicial no nível interno ou externo.” (Weiss, 2002, p.21). Weiss (2002), apresenta, ainda, 5 aspectos relacionados à aprendizagem:
Orgânicos – relacionados à construção biofisiológica do sujeito que aprende. Alterações nos órgãos sensoriais impedirão ou dificultarão o acesso aos sinais do conhecimento.
Cognitivos – ligados basicamente ao desenvolvimento e funcionamento das estruturas cognoscitivas em seus diferentes domínios, ligados à memória, atenção, antecipação, etc.
Emocionais – ligados ao desenvolvimento afetivo e sua relação com a construção do conhecimento e a expressão deste através da produção escolar, como por exemplo a dificuldade da relação da criança com a sua família.
Sociais – ligados à perspectiva da sociedade em que estão inseridas a família e a escola. Incluem, além da questão das oportunidades […], o da formação da ideologia em diferentes classes sociais.
Pedagógicos – ligados à metodologia do ensino, à avaliação, à dosagem de informações, à estruturação de turmas, à organização geral, etc., algumas vezes confunde-se com dificuldades de aprendizagem originadas na história pessoal e familiar do aluno.
Neste sentido Paín (1985, p.21), cita que para que a aprendizagem aconteça existem condições internas e externas. “O sujeito e o objeto não são dados como instâncias originalmente separadas […] podemos falar de condições externas e internas da aprendizagem apenas no sentido descritivo.” As condições externas referem-se ao campo do estímulo, podendo-se incluir as questões sociais. E as internas são as que definem o sujeito, ligadas à questões biológicas. Cujos aspectos abordaremos no tópico a seguir, com foco nos transtornos de aprendizagem.
TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO
Os transtornos do Neurodesenvolvimento estão presentes no cotidiano escolar, porém ainda aparentam ser “invisíveis” na escola. E segundo o DSM V:
Os transtornos do neurodesenvolvimento são um grupo de condições com início no período do desenvolvimento. Os transtornos tipicamente se manifestam cedo no desenvolvimento, em geral antes de a criança ingressar na escola, sendo caracterizados por déficits no desenvolvimento que acarretam prejuízos no funcionamento pessoal, social, acadêmico ou profissional. Os déficits de desenvolvimento variam desde limitações muito específicas na aprendizagem ou no controle de funções executivas até prejuízos globais em habilidades sociais ou inteligência. É frequente a ocorrência de mais de um transtorno do neurodesenvolvimento; por exemplo, indivíduos com transtorno do espectro autista frequentemente apresentam deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual), e muitas crianças com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) apresentam também um transtorno específico da aprendizagem. No caso de alguns transtornos, a apresentação clínica inclui sintomas tanto de excesso quanto de déficits e atrasos em atingir os marcos esperados. Por exemplo, o transtorno do espectro autista somente é diagnosticado quando os déficits característicos de comunicação social são acompanhados por comportamentos excessivamente repetitivos, interesses restritos e insistência nas mesmas coisas (pág. 31).
O transtorno de aprendizagem pode ser explicado como dificuldade importante e permanente para o aprendizado da leitura, da escrita, da aritmética e outros conteúdos específicos. Não acontece por falta de inteligência ou por falta de vontade. A pessoa nasce com um cérebro que recebe e organiza informações de uma forma diferente. Muitas vezes, outras pessoas da família também são assim. O ambiente familiar e a qualidade da educação recebida podem piorar a situação, mas não são a causa do transtorno de aprendizagem. Neste sentido Rotta et al. (2016, p.108-109), afirma que os transtornos da aprendizagem compreendem uma inabilidade específica, como de leitura, escrita ou matemática, em indivíduos que apresentam resultados significativamente abaixo do esperado para seu nível de desenvolvimento, escolaridade e capacidade intelectual.
A prevalência dos transtornos da aprendizagem varia de 5 a 15%, dependendo do tipo de testagem utilizada. De uma maneira geral, deve-se considerar que: O grau de comprometimento deve estar substancialmente abaixo do esperado para uma criança com a mesma idade, nível mental e de escolarização; O transtorno deve se fazer presente desde os primeiros anos de escolaridade; O transtorno persiste, apesar de atendimento especializado adequado; A avaliação cognitiva afastou a deficiência mental; Foram afastadas causas como dificuldades de percurso e/ou secundárias; e a existência de histórico de antecedentes familiares com dificuldade de aprendizagem.
É imprescindível investigarmos as causas da não aprendizagem, para então traçar as estratégias de intervenção. Indiscutivelmente há possibilidades de aprendizagem, mas à luz de uma educação inclusiva, cujo foco deve ser o aluno e sua aprendizagem. Neste sentido:
A Inclusão rompe com os paradigmas que sustentam o conservadorismo das escolas, contestando os sistemas educacionais em seus fundamentos. Ela questiona a fixação de modelos ideais, a normalização de modelos específicos de alunos e a seleção dos eleitos para frequentar as escolas, produzindo, com isso, identidades e diferenças, inserção e/ou exclusão (Ropoli, 2010, p. 7).
A educação inclusiva é questionadora da artificialidade das identidades normais, entendendo as diferenças como resultado da multiplicidade e não da diversidade. Nesta perspectiva Silva apud Ropoli (2010, p.8), compreende que “[…] o múltiplo é sempre um processo, uma operação, uma ação. A diversidade é estática, é um estado, é estéril. A multiplicidade é ativa, é fluxo, é produtiva […]”.
A escola das diferenças é a escola na perspectiva inclusiva, com o olhar para todos e não apenas para alguns. Uma escola pública de qualidade passa pela percepção do outro como capaz, neste sentido
A escola comum se torna inclusiva quando reconhece as diferenças dos alunos diante do processo educativo e busca a participação e o progresso de todos, adotando novas práticas pedagógicas. Não é fácil e imediata a adoção dessas novas práticas, pois ela depende de mudanças que vão além da escola e da sala de aula (Ropoli, 2010, p.9)
Portanto a escola da atualidade brasileira precisa e deve se modificar, e esta não é uma tarefa simples, pois envolve várias vertentes, desde concepções ideológicas à vontade política. Os transtornos do neurodesenvolvimento abordados aqui têm foco principal o TDAH, dislexia, discalculia e disgrafia, pela invisibilidade desses transtornos no cotidiano escolar. A seguir serão apresentadas apenas algumas caraterísticas de cada transtorno:
TDAH – TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE
De acordo com o DSM V, o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento definido por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade.
É um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Às vezes é chamado de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Ocorre em 3 a 5% das crianças, em várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado. Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude se tornem mais brandos.
Apresenta como principais características: frequentemente não presta atenção e comete erros por descuido em tarefas escolares, no trabalho, acadêmicas e profissionais; têm dificuldade de manter atenção nas tarefas, não tem foco durante as aulas ou no que está fazendo, interrompe os colegas da classe; parece estar com a cabeça nas nuvens, ou finge não escutar o que o outro diz; frequentemente não gosta de tarefas que exijam esforço, foco e atenção; vive perdendo coisas necessárias, no caso da escola, perde material escolar.
Quando apresenta hiperatividade/impulsividade o indivíduo pode apresentar comportamentos como: remexe-se toda hora na cadeira; não fica sentado por muito tempo na sala de aula; é incapaz de envolver em atividades de relaxamento; fala demais na sala, ou em qualquer lugar, além de apresentar dificuldade de esperar sua vez.
DISLEXIA
O DSM V traz a Dislexia como um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades de aprendizagem caracterizado por problemas no reconhecimento preciso ou fluente de palavras, problemas de decodificação e dificuldades de ortografia. Neste sentido Rotta et al. (2016, p. 109) o “Transtorno da leitura” é caracterizado por uma dificuldade específica em compreender palavras escritas. Dessa forma, pode-se afirmar que se trata de um transtorno específico das habilidades de leitura, em que foram eliminadas todas as outras causas.
Portanto é um desvio de reconhecimento de palavras. Os indivíduos com esse transtorno geralmente têm dificuldade de leitura e escrita, confunde as letras, principalmente com som semelhantes, como D e P, B e P. Portanto, alguns dos sinais da dislexia se revelam através da leitura e escrita incompreensíveis, confusões com letras muito semelhantes (p/q, b/d); confusões entre letras com sons ou articulação dos sons semelhantes (d/t; g/j; v/f); inversões de sílabas ou palavras (como trocar as palavras “alta” e “lata”); substituição entre palavras com estruturas semelhantes, ou adição de sílabas nas palavras; repetição de sílabas ou palavras (ex: “eu jogo jogo bola”); e dificuldade para entender o texto lido (dificuldade na compreensão de palavra, frase ou texto).
A pessoa com dislexia pode ter outras dificuldades associadas, como desatenção e desorganização. Assim como nos outros tipos de transtorno de aprendizagem, a dislexia não acontece por falta de inteligência ou por falta de vontade. Para indivíduos que apresentam o quadro de dislexia é difícil combinar sons e letras e colocar tudo na ordem certa. O processo de leitura é lento, volta diversas vezes, pula as letras, entende errado, troca letras. Às vezes esquece tarefas repassadas pelo professor, isso sem falar na desatenção e na desorganização. Geralmente tem facilidade para aprender algumas coisas e tem ideias muito boas e por esta razão algumas pessoas pensam que é desleixo, preguiça ou falta de interesse.
DISCALCULIA
A Discalculia, segundo o DSM V, é um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades caracterizado por problemas no processamento de informações numéricas, aprendizagem de fatos aritméticos e realização de cálculos precisos ou fluentes. Neste sentido de acordo com Rotta et al. (2016, p.109), afirma que o:
Transtorno da matemática: também conhecido como discalculia, não é relacionado à ausência de habilidades matemáticas básicas, como contagem, e sim à forma com que a criança associa essas habilidades com o mundo que a cerca. A aquisição de conceitos matemáticos, bem como de outras atividades que exigem raciocínio, é afetada nesse transtorno, cuja baixa capacidade para manejar números e conceitos matemáticos não é originada por lesão ou outra causa orgânica.
Etimologicamente, discalculia deriva dos conceitos “dis” (desvio) + “calculare” (calcular, contar), ou seja, é “um distúrbio de aprendizagem que interfere negativamente com as competências de matemática de alunos que, noutros aspetos, são normais.” (Rebelo, 1998a, p. 230). Assim, trata-se de “uma desordem neurológica específica que afeta a habilidade de uma pessoa compreender e manipular números.” (Filho, 2007).
Indivíduos com discalculia apresentam dificuldades em: compreensão e memorização de conceitos matemáticos, regras e/ou fórmulas; sequência de números (antecessor e sucessor) ou em dizer qual de dois é o maior; diferenciação de esquerda/direita e de direções (norte, sul, este, oeste); compreensão de unidades de medida; tarefas que impliquem a passagem de tempo (ver as horas em relógios analógicos); e tarefas que implicam lidar com dinheiro.
Portanto, a discalculia é uma falta de habilidade que atrapalha o entendimento dos números e do que eles representam. Por isso, fica muito difícil entender as operações de aritmética, a tabuada e o cálculo. Com frequência, também estão prejudicados o entendimento do sentido do tempo, da sequência e da ordem. Ir às compras sozinho e ter que conferir o troco, chegar no horário, memorizar o número da casa e o número do telefone também é um desafio. Assim como nos outros tipos de transtorno de aprendizagem, a discalculia não acontece por falta de inteligência ou por falta de vontade.
DISGRAFIA
Segundo o DSM V a Disgrafia é um transtorno específico da aprendizagem, que apresenta prejuízo na expressão escrita. Neste sentido Rotta et al. (2016, p.109), afirma que:
Transtorno da expressão escrita: refere-se apenas à ortografia ou caligrafia, na ausência de outras dificuldades da expressão escrita. Nesse transtorno, geralmente há uma combinação de dificuldades na capacidade de compor textos escritos, evidenciada por erros de gramática e pontuação dentro das frases, má organização dos parágrafos, múltiplos erros ortográficos, na ausência de outros prejuízos na expressão escrita.
Etimologicamente, a disgrafia deriva dos conceitos “dis” (desvio) + “grafia” (escrita), ou seja, é “uma perturbação de tipo funcional que afeta a qualidade da escrita do sujeito, no que se refere ao seu traçado ou à grafia.” (Torres & Fernández, 2001, p. 127).
A criança com disgrafia apresenta uma escrita fora do padrão, ilegível, a chamada “letra feia”. Vários autores têm sugerido características comuns às crianças com disgrafia. Contudo, é importante saber que a apresentação de apenas um ou dois dos comportamentos que se seguem não é suficiente para confirmar esta problemática.
Dentre vários aspectos o indivíduo deverá revelar o conjunto (ou a quase totalidade) das seguintes condições: letra excessivamente grande (macrografia) ou pequena (micrografia); forma das letras irreconhecível (por vezes distorcem, inclinam ou simplificam tanto as letras que a escrita é praticamente indecifrável); traçado exagerado e grosso (que vinca o papel) ou demasiado suave e imperceptível; grafismo trêmulo ou com uma marcada irregularidade, originando variações nos tamanhos dos grafemas; escrita demasiado rápida ou lenta; espaçamento irregular das letras ou das palavras, que podem aparecer desligadas, sobrepostas ou ilegíveis ou, pelo contrário, demasiado juntas; erros e borrões que quase não deixam possibilidade para a leitura da escrita (embora as crianças sejam capazes de ler o que escrevem); desorganização geral na folha/texto; e utilização incorreta do instrumento com que escrevem.
Em síntese, a disgrafia é uma dificuldade para o traçado da escrita, tornando-a, às vezes, ininteligível. Assim como nos outros tipos de transtorno de aprendizagem, a disgrafia não acontece por falta de inteligência ou por falta de vontade. Com frequência, também estão presentes alterações da lateralidade (noções de direita e esquerda) e de funções perceptivo-motoras. Apresentando palavras tortas, umas muito grandes e outras muito pequenas, algumas vezes a preensão do lápis é forte e em outras ele cai da mão constantemente. Para o indivíduo que apresenta o quadro de disgrafia as letras e as palavras parecem ter vida própria.
MATERIAIS E MÉTODOS
A abordagem metodológica da presente pesquisa se volta para a área das ciências humanas, por este motivo a pesquisa a ser realizada possui um enfoque teórico, com pesquisa bibliográfica, e também de cunho empírico, com pesquisa de campo, através da coleta de dados.
As fases da presente pesquisa consistem basicamente em: Pesquisa bibliográfica; Aplicação de questionários junto à Secretaria de Saúde (CAPS I), à Secretaria de Assistência Social e Cidadania (CRAS), e à Secretaria Municipal de Educação (Escolas Municipais de 1º e 2º Graus); observação e registros; e sistematização e análise dos dados obtidos.
A pesquisa junto ao CAPS I, se realizou pela ausência de política de educação inclusiva no município, e no caso de algum indivíduo apresentar alguma deficiência ou transtorno de aprendizagem é lá que é tratado, tornando-se o mais “próximo” que se tem no atendimento à crianças e adolescentes com deficiência, que não obrigatoriamente trabalham com crianças e adolescentes com transtornos de aprendizagem. O CRAS assim como o CAPS I não obrigatoriamente trabalham com crianças e adolescentes com transtornos de aprendizagem, mas realiza o atendimento psicossocial à crianças e adolescentes beneficiárias do BPC.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No âmbito da secretaria de educação buscou-se aplicar 03 (três) questionários por escola junto à direção e equipe pedagógica das escolas públicas da zona urbana, do ensino fundamental I e II (E.M. de 1º Grau Amauri Ribeiro da Silva, E.M. de 1º Grau Maria Barros Feitosa e E.M. de 1º e 2º Grau Manoel de Barros); e 01 (um) junto ao secretário de educação. No entanto, a E.M. de 1º Grau Amauri Ribeiro da Silva respondeu apenas 01 questionário e o secretário de educação não respondeu, totalizando 07 questionários.
No que se refere à secretaria de saúde foram aplicados 04 (quatro) questionários junto aos profissionais do CAPS (Psicólogo, Assistente Social, Enfermeira e Terapeuta Ocupacional); e 01 (um) junto à secretária de saúde, totalizando 05 (cinco) questionários.
No âmbito da secretaria de assistência social foram aplicados 03 (três) questionários junto aos profissionais do CRAS (01 pedagoga e 02 assistentes sociais).
Ao final foram aplicados 15 (quinze) questionários junto às secretarias de educação, saúde e assistência do município de Baraúna/RN. O questionário aplicado contém 14 perguntas semiabertas, que em síntese tratam da concepção de fracasso escolar e dos transtornos de aprendizagem, como também de como é feito e como deveria ser o tratamento dos transtornos de aprendizagem, de acordo com a visão dos profissionais que atuam no município.
Os dados obtidos revelaram uma confusão entre a conceituação com as possíveis causas do fracasso escolar, que estão dispostos no gráfico a seguir:
Figura 1 – Concepção de Fracasso Escolar

Fonte: Elaboração própria
Acerca da concepção do que é fracasso escolar, os dados obtidos foram os seguintes: 03 pessoas assinalaram que é um reflexo de famílias desestruturadas, que não acompanham a vida escolar dos seus filhos; 06 assinalaram que é um reflexo da sociedade e da falta de políticas públicas voltadas à educação; 02 responderam que é resposta insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola; e 04 assinalaram outros (junção das alternativas anteriores).
Sobre a possibilidade de haver relação do sucesso escolar com as políticas públicas de saúde de qualidade, e se já havia ouvido falar em transtornos de aprendizagem, todos afirmaram que sim em suas respostas.
A respeito do que considera ser o TDA/TDAH, 13 pessoas assinalaram que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento definido por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade; e 02 pessoas assinalaram outros, apresentando resposta similar. O que revela conhecimento acerca do tema.
Sobre o entendimento da dislexia, as respostas foram as seguintes: 03 pessoas assinalaram que é um transtorno do neurodesenvolvimento, que afeta especialmente a habilidade da leitura; 10 pessoas assinalaram que a dislexia é um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades de aprendizagem caracterizado por problemas no reconhecimento preciso e fluente de palavras, problemas de decodificação e dificuldades de ortografia; e 02 assinalaram outros, apresentando resposta similar. Revelando conhecimento acerca do tema.
A discalculia é entendida como um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades caracterizado por problemas no processamento de informações numéricas, aprendizagem de fatos aritméticos e realização de cálculos precisos ou fluentes, pois 09 pessoas assinalaram essa alternativa; 03 pessoas assinalaram que é um transtorno do neurodesenvolvimento, que afeta apenas a habilidade de realizar cálculos matemáticos. Revelando conhecimento acerca do tema.
A disgrafia é entendida como um transtorno específico da aprendizagem, que apresenta prejuízo na expressão escrita, por 08 pessoas; 01 pessoa afirmou que é uma deficiência que impossibilita a aprendizagem do processo de escrita corretamente; 04 pessoas entendem que é um termo alternativo usado em referência à problemas na aprendizagem da grafia de desenhos, como também na escrita correta das palavras; e outros por 02 pessoas. Apesar de haver considerável confusão com a grafia de desenhos e escrita correta das palavras, revelou-se conhecimento acerca do tema.
Diante o questionamento de como identificar esses transtornos de aprendizagem foi praticamente unânime o posicionamento de que é necessário uma equipe multidisciplinar para a identificação dos transtornos de aprendizagem, por 13 pessoas; e 02 pessoas assinalaram que o professor é suficiente para a identificação dos transtornos de aprendizagem, já que tem contato com a criança diariamente.
Diante o questionamento do que é feito atualmente na área da educação na identificação e tratamento nos casos de transtornos de aprendizagem foi informado que os atendimentos acontecem de forma multidisciplinar, por 06 pessoas; 02 pessoas assinalaram que não existem atendimentos voltados para os transtornos de aprendizagem; 04 pessoas afirmaram não saber responder; e 03 Outros.
Diante o questionamento do que é feito atualmente na área da saúde na identificação e tratamento nos casos de transtornos de aprendizagem foi informado que os atendimentos acontecem de forma multidisciplinar, por 07 pessoas; 04 pessoas assinalaram que não existem atendimentos voltados para os transtornos de aprendizagem; 02 pessoas não sabem responder; e 02 pessoas assinalaram outros.
Sobre o como trabalhar esses transtornos de aprendizagem afirmou-se que é através de uma equipe multidisciplinar é possível trabalhar os transtornos de aprendizagem, por 10 pessoas; 01 pessoa assinalou que o professor é o profissional indicado para o tratamento dos transtornos de aprendizagem, já que tem contato com a criança diariamente; 02 pessoas apontaram que o médico especialista é o profissional indicado para o tratamento dos transtornos de aprendizagem; e outros 02 pessoas.
Diante o questionamento de múltipla escolha de quais profissionais para trabalhar os transtornos de aprendizagem presentes no cotidiano escolar da rede pública do município de Baraúna/RN dispõe: Psiquiatra ou Neurologista Infantil (05 pessoas); Psicólogo (07 pessoas); Psicopedagogo (04 pessoas); Fonoaudiólogo (01 pessoa); Outros (07 pessoas), dentre os quais Terapeuta Ocupacional, Nutricionista e Enfermeira.
Ao ser solicitado que expusesse sua opinião sobre o que poderia ser feito para que haja sucesso escolar no caso de indivíduos com transtornos de aprendizagem: os atendimentos acontecem de forma multidisciplinar (06 pessoas); formação para os profissionais da rede municipal de ensino (06 pessoas); e outros (02 pessoas). Conforme gráfico a seguir:
Figura 2 – O que poderia ser feito para que haja sucesso escolar

Fonte: Elaboração da autora (2025)
Um diagnóstico cuidadoso dos transtornos específicos de aprendizagem é o ponto de partida para garantir que a criança e sua família tenham acesso aos acompanhamentos mais adequados e eficientes. Este processo também tem um papel essencial de discriminar quadros que parecem, mas não necessariamente caracterizam um transtorno específico de aprendizagem, afinal o não aprender pode decorrer de inúmeros fatores.
O diagnóstico multidisciplinar dos transtornos de aprendizagem permite uma melhor definição do perfil cognitivo do indivíduo, bem como a identificação precisa do seu estilo de aprendizagem, tipo e gravidade das dificuldades que o impactam. Como consequência, torna mais eficaz o acompanhamento escolar e o tratamento realizado por especialistas.
No caso da afirmação do atendimento interdisciplinar acredita-se que pode ser devido a alguns encaminhamentos entre as intuições do município e essa ação ser entendida como interdisciplinar, o que de uma forma muito simplista pode-se considerar que sim. Porém nossa compreensão é que para que esse acompanhamento multidisciplinar aconteça é de extrema importância o diálogo constante entre os diferentes profissionais. Sobre a afirmação da existência de Psicopedagogo pode ter ocorrido um equívoco em relação ao fato de existirem profissionais na área da educação com essa formação, porém esses mesmos profissionais não exercem a função de Psicopedagogos, mas funções dentro do cotidiano escolar. Sobre a afirmação da atuação de Fonoaudiólogo no município, acredita-se que é o desconhecimento a respeito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante o desenrolar dessa pesquisa foi possível fazer uma análise da relação do fracasso escolar com os transtornos do neurodesenvolvimento, onde se percebeu a invisibilidade destes transtornos no cotidiano escolar, embora haja relativa compreensão de sua conceituação. E sobre a concepção de fracasso escolar as respostas revelaram uma confusão entre o conceito e suas possíveis causas.
A presente pesquisa buscou envolver as três maiores secretarias do município, que de certa forma trabalham com a inclusão escolar no intuito de coletar informações mais próximas da realidade possível. Para tanto buscou-se investigar as concepções dos profissionais da educação, saúde e assistência acerca dos transtornos do neurodesenvolvimento, sua identificação e intervenção, como também na visão dos mesmos o que deveria ser feito para que haja sucesso escolar dos alunos que apresentam transtornos de aprendizagem.
Encerra-se o presente trabalho com ensaios de propostas que possam contribuir com a inclusão escolar. Sempre que necessário, sugere-se que a escola adapte as estratégias metodológicas, conteúdos e avaliações de forma a permitir que a criança/adolescente que apresenta o quadro de transtorno de aprendizagem possa ser incluído no contexto escolar. Ao município é importante a implementação de políticas de inclusão como: formação continuada para os profissionais que atuam nas de Salas de Recurso Multifuncional, dos profissionais de apoio e professores da sala de aula regente, “Núcleo de apoio pedagógico, com equipe multidisciplinar (Terapeuta Ocupacional, Fonoaudiólogo, Psicólogo e Psicopedagogo)” proposta de um dos entrevistados, para trabalhar as dificuldades específicas de cada indivíduo, de forma verdadeiramente interdisciplinar; e formação continuada para os profissionais da rede municipal.
É interessante lembrar que uma escola inclusiva não se refere apenas aos estudantes com deficiência, mas é necessário considerar as diferenças, melhorando deste modo o processo de ensino e aprendizagem.
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