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Resumo
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os avanços no tratamento do HIV proporcionaram significativas melhorias na qualidade de vida e na expectativa de vida das pessoas vivendo com o vírus. Apesar disso, os números ainda preocupam: em 2022, 1,3 milhão de novas infecções foram registradas e cerca de 630 mil pessoas morreram por causas relacionadas à AIDS no mundo. Estima-se que 39 milhões de pessoas vivem atualmente com o HIV, segundo o relatório global mais recente do UNAIDS (2023).
No Brasil, embora a taxa geral de detecção de novos casos esteja relativamente estabilizada, dados recentes apontam um aumento proporcional entre adolescentes e jovens, especialmente do sexo masculino. Entre 2007 e junho de 2023, foram registrados mais de 541 mil casos de HIV, com destaque para a faixa etária de 15 a 19 anos, onde a taxa de detecção atinge 6,1 casos por 100 mil habitantes entre meninos e 2,7 entre meninas, com variações regionais significativas (Brasil, 2023).
Entre os jovens, os fatores de risco mais associados à infecção incluem início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, uso inconsistente de preservativos, baixa escolaridade e contextos de vulnerabilidade social. Além disso, o estigma e o preconceito dificultam o acesso aos serviços e contribuem para o abandono do tratamento, especialmente entre adolescentes em processo de descoberta e aceitação da própria condição de saúde (Melo; Santos; Ferreira, 2022).
A adolescência, por si só, é marcada por intensas transformações biopsicossociais, exigindo adaptações emocionais e sociais. Quando atravessada por uma condição crônica como o HIV, essa etapa se torna ainda mais complexa, pois envolve medos, inseguranças e dificuldades para lidar com o diagnóstico, principalmente quando este é descoberto precocemente ou na transição para a vida adulta (Sousa et al., 2021).
As diretrizes clínicas atualizadas do Ministério da Saúde reforçam a importância da testagem precoce, da revelação do diagnóstico com apoio profissional e da imediata introdução da terapia antirretroviral (TARV), independentemente da contagem de CD4. Ainda assim, obstáculos estruturais e subjetivos dificultam a adesão ao tratamento, como a descontinuidade do cuidado, o despreparo dos profissionais para lidar com adolescentes e a falta de suporte psicossocial contínuo (Brasil, 2021).
Frente a esse cenário, torna-se essencial compreender como os adolescentes vivenciam a condição de viver com HIV, suas percepções sobre saúde e os fatores que favorecem ou dificultam a adesão à TARV. O presente estudo tem como objetivo identificar evidências científicas recentes acerca das percepções dos adolescentes vivendo com HIV sobre sua condição de saúde e os mecanismos de enfrentamento utilizados para adesão ao tratamento, com base em uma revisão integrativa da literatura publicada entre os anos de 2020 e 2025.
METODOLOGIA
Este estudo é de abordagem descritiva, pautado no método de revisão integrativa da literatura. Essa modalidade tem como principal objetivo a análise crítica e sistemática das evidências disponíveis sobre determinado tema, permitindo identificar o estado atual do conhecimento, bem como lacunas que justifiquem pesquisas futuras (Souza; Silva; Carvalho, 2021).
Foram estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: a) estudos publicados entre os anos de 2020 e 2025, em periódicos indexados em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; b) que abordem a percepção, os sentimentos e o enfrentamento de adolescentes vivendo com HIV; c) que apresentem dados relacionados à adesão à terapia antirretroviral; d) que estejam disponíveis gratuitamente em texto completo; e) estudos de natureza primária.
Os critérios de exclusão adotados foram: a) artigos duplicados (mesmo conteúdo identificado em mais de uma base de dados), que foram contabilizados uma única vez; b) estudos que não apresentavam relação direta com o tema central da pesquisa; c) publicações anteriores a 2020.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de abril e maio de 2025, por meio das bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e Banco de Dados de Enfermagem (BDENF), por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). As estratégias de busca utilizaram os descritores controlados: “Adolescentes”, “Terapia Antirretroviral”, “HIV”, “Condições de Saúde” e “Estratégias de Enfrentamento”, combinados com operadores booleanos AND e OR.
Para seleção dos estudos que compuseram a amostra, foi realizada leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura integral dos textos completos. Ao final do processo, foram selecionados 8 artigos que atendiam aos critérios previamente definidos, os quais compuseram a amostra final analisada neste estudo.
Quadro 1 – Fluxograma de seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa (2025)

Fonte: Dados da Pesquisa (2025).
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A seguir apresenta-se os resultados e as discussões sobre a temática em questão considerando o estudo integral dos 8 artigos selecionados. Nesta seção a discussão foi atrelada às evidências encontradas, fazendo uma síntese crítica do que os autores apresentaram, bem como a visão crítica e acadêmica dos pesquisadores para perspectivas de pesquisas futuras.
CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDOS
Após a leitura na íntegra dos textos selecionados, 8 estudos compuseram a amostra final desta revisão integrativa. Os critérios de seleção permitiram a inclusão de pesquisas desenvolvidas majoritariamente no Brasil, publicadas entre 2020 e 2025, com delineamento qualitativo, quantitativo ou misto. A maioria dos estudos explorou dimensões psicossociais da vivência com HIV na adolescência, considerando a influência do suporte familiar, estigmas sociais, revelação do diagnóstico e desafios à adesão ao tratamento antirretroviral.
O quadro 2, a seguir apresenta os estudos identificados com título, primeiro autor, ano de publicação, periódico e base de dados:
Quadro 2 – Estudos primários identificados nesta revisão integrativa

Fonte: Dados da pesquisa (2025)
SÍNTESE DA REVISÃO INTEGRATIVA
A análise dos estudos revelou contribuições relevantes sobre as percepções dos adolescentes vivendo com HIV, com destaque para os fatores que influenciam a adesão ao tratamento, o papel do suporte social, o impacto do estigma e os desafios enfrentados nos serviços de saúde. A maioria dos trabalhos é de natureza qualitativa e destaca vivências subjetivas complexas, associadas à aceitação do diagnóstico, à relação com os profissionais de saúde e ao enfrentamento cotidiano da doença.
No quadro a seguir, apresenta-se os objetivos e principais resultados evidenciados nos trabalhos, assim, em relação ao desenho de estudo, são qualitativos, e quantitativos, A avaliação do desenho de estudo, como objetivos e resultados principais são importantes para identificar em qual direção o estudo foi considerado.
Quadro 3 – Síntese dos principais resultados dos estudos relacionados ao tema


Fonte: Dados da pesquisa (2025)
DISCUSSÃO
Os estudos analisados revelam que adolescentes vivendo com HIV enfrentam múltiplos desafios que interferem diretamente na adesão à terapia antirretroviral (TARV), sendo o estigma um dos fatores mais citados, tanto de forma externa quanto internalizada. A investigação de Ferreira et al. (2022), mostrou que o estigma internalizado compromete a autoestima dos adolescentes, gerando sentimentos de vergonha e isolamento social, o que afeta diretamente a continuidade do tratamento.
Esse achado dialoga com Oliveira et al. (2021), que demonstraram que a revelação tardia do diagnóstico contribui para dificuldades no engajamento e compreensão da necessidade do tratamento, atrasando o desenvolvimento do autocuidado e da autonomia. Complementando essa perspectiva, Lima et al. (2021), identificaram que o momento da revelação do diagnóstico é frequentemente marcado por reações negativas como medo e revolta, mas também pode representar um ponto de inflexão no fortalecimento da responsabilidade pessoal com a saúde.
A influência do suporte social é recorrente nos estudos. Ribeiro et al. (2020), reforçaram que vínculos familiares e escolares fortalecem o autocuidado, enquanto Mendes et al. (2022), apontaram que o apoio emocional, religioso e psicológico é essencial no enfrentamento inicial do diagnóstico, especialmente para adolescentes em maior vulnerabilidade social.
No âmbito dos serviços de saúde, a descontinuidade no acompanhamento e a baixa qualidade do vínculo com os profissionais são barreiras centrais. Silva et al. (2024), destacaram que a rotatividade das equipes e a ausência de escuta empática fragilizam a confiança do adolescente no cuidado. Essa crítica é também evidenciada por Martins et al. (2023), que apontaram a importância da presença de profissionais de referência e da atuação articulada da Atenção Primária à Saúde na promoção da adesão à TARV.
Além disso, as dificuldades práticas com o uso contínuo da medicação — como os efeitos colaterais, os horários e o desânimo — foram amplamente relatadas pelos participantes do estudo de Santos et al. (2023), que apontaram o quanto essas questões podem ser minimizadas quando há suporte institucional e familiar estruturado.
Ao articular os achados dos oito estudos, observa-se que a vivência do adolescente com HIV está entrelaçada a múltiplas dimensões: individual, familiar, institucional e social. Os fatores que favorecem a adesão à TARV são complexos e envolvem a aceitação do diagnóstico, o acesso a informações claras, a qualidade da relação com os profissionais de saúde e o suporte emocional. A ausência de qualquer um desses elementos pode comprometer o tratamento, acentuando as vulnerabilidades já presentes.
Dessa forma, os estudos apontam para a necessidade urgente de políticas públicas que promovam a formação continuada das equipes de saúde para lidar com a especificidade da adolescência, além de estratégias que garantam confidencialidade, vínculo e acompanhamento psicossocial contínuo nos serviços.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa permitiu identificar e analisar evidências recentes sobre as percepções de adolescentes vivendo com HIV e os principais desafios relacionados ao enfrentamento da condição de saúde e à adesão à terapia antirretroviral. Os estudos analisados evidenciam que a adolescência, por si só uma fase de intensas transformações, torna-se ainda mais complexa quando atravessada por uma condição crônica como o HIV.
Entre os elementos centrais encontrados, destacam-se o impacto do estigma — tanto social quanto internalizado —, a importância do suporte familiar e social, e o papel estratégico dos serviços de saúde, especialmente da Atenção Primária, na garantia do cuidado longitudinal e acolhedor. A revelação do diagnóstico, quando conduzida de forma sensível e com apoio, pode favorecer o fortalecimento do autocuidado e a responsabilização do adolescente sobre sua saúde. Por outro lado, a ausência de preparo das equipes de saúde, aliada à descontinuidade do vínculo e à fragilidade do apoio psicossocial, configura-se como um obstáculo relevante à adesão ao tratamento.
A análise dos oito estudos permitiu ainda identificar que a TARV, embora amplamente disponível no Brasil, continua sendo um desafio cotidiano para muitos adolescentes, exigindo mais do que prescrição: requer acompanhamento próximo, empatia, diálogo e ações integradas entre saúde, educação e comunidade.
Dessa forma, destaca-se a necessidade de investimentos contínuos em estratégias de cuidado centradas na singularidade do adolescente, considerando suas vivências, contextos sociais e emocionais, bem como a capacitação permanente das equipes multiprofissionais. A construção de uma abordagem integral e intersetorial pode representar um avanço significativo na superação das barreiras que ainda dificultam a adesão plena ao tratamento e a promoção da saúde dos adolescentes que vivem com HIV.
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