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Resumo
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os avanços da neurociência têm proporcionado uma compreensão mais profunda sobre os processos cerebrais envolvidos na aprendizagem da leitura e da escrita. Ao investigar como o cérebro reconhece letras, sons e palavras, a neurociência oferece importantes contribuições para práticas pedagógicas mais eficazes no processo de alfabetização. Esse diálogo entre ciência e educação permite desenvolver estratégias mais adequadas ao funcionamento neurológico das crianças em fase de alfabetização. Este artigo explora as interfaces entre neurociência e alfabetização, destacando como esse campo interdisciplinar pode transformar o modo como ensinamos e aprendemos a ler e escrever. Através de respostas para as perguntas: Qual o papel da plasticidade cerebral na aprendizagem? Quais os benefícios de intervenções pedagógicas baseadas em evidências? Como o desenvolvimento cerebral influencia a alfabetização das crianças?
Os avanços tecnológicos e ferramentas para estudar a estrutura cerebral e o seu funcionamento possibilitaram um mapeamento do cérebro humano e trouxeram subsídios para um maior conhecimento dos mecanismos cognitivos. Evidenciando desta forma que, no que se refere ao processo de alfabetização, o aprendizado não é algo natural, mas sim o resultado de um processo complexo onde diversas áreas cerebrais trabalham juntas para conectar sons, letras e significados.
No campo da educação, a neurociência analisa as abordagens e práticas pedagógicas evidenciando com comprovações qual delas torna a alfabetização mais eficiente para a aprendizagem das crianças e como o ambiente influencia e realiza seu papel.
PROCESSOS NEURONAIS E ALFABETIZAÇÃO
A neurociência vem trazendo, nos últimos anos, importantes avanços na compreensão da reorganização das redes neuronais que ocorrem na alfabetização, uma vez que não se trata de uma habilidade natural. Sendo desta forma, um marco fundamental no desenvolvimento cognitivo.
Conhecer as descobertas e contribuições da neurociência para a alfabetização, possibilita a utilização de ferramentas mais eficazes para as práticas de ensino na alfabetização e às necessidades individuais dos educandos.
Stanislas Dehaene (2009), propôs o conceito de “reciclagem neural” envolvido pela leitura e escrita, explicando como as áreas fonológica e a visual do cérebro humano, até então com outras funções, e que passam a processar as letras, sons e palavras. No lobo temporal, encontra-se a via fonológica que ajuda o cérebro a converter letras em sons, uma habilidade essencial para o início da alfabetização (Shaywitz & Shaywitz, 2004). Já no giro fusiforme está a via visual que permite o reconhecimento rápido e automático de palavras familiares, conferindo fluidez à leitura (Dehaene, 2009).
Nos estágios iniciais da alfabetização a via fonológica é primordial para a leitura e escrita, pois é responsável pela capacidade de transformar grafemas em sons, ou seja, decodificação fonêmica. No aprendizado da leitura essa via é amplamente ativada, se tornando mais facilitado com práticas que incentivam a associação direta entre letras e sons, como o método fônico que é o mais recomendado pelos neurocientistas por fortalecer a via fonológica e facilitar a decodificação, além de permitir que os alunos compreendam a relação entre letras e sons, favorecendo a leitura fluente e precisa.
O cérebro desenvolve a via visual que permite o reconhecimento rápido de palavras, através da prática e familiaridade com as palavras o que torna a leitura mais automática e fluente e possibilita a compreensão de textos complexos. Com o desenvolvimento dessas habilidades, cria-se as memórias visuais das palavras, eliminando a necessidade da decodificação letra por letra.
Nos primeiros anos de vida, o cérebro possui uma grande capacidade que permite a formação e o fortalecimento de conexões neuronais, e esse fator é crítico no desenvolvimento da leitura e escrita. Entre 5 e 7 anos a plasticidade é maior o que facilita o processo de alfabetização, tornando importante o uso de métodos que estimulem a fonologia e a memorização visual, pois estimula regiões cerebrais cruciais nesta etapa da criança.
Segundo Shaywitz e Shaywitz (2004), atividades que incentivam a segmentação fonêmica e a manipulação de sons ativam o lobo temporal esquerdo, uma área-chave para o processamento linguístico.
O método multissensorial ativa múltiplas áreas cerebrais e fortalece as redes neurais responsáveis pela leitura e escrita pois envolve simultaneamente estímulos visuais, auditivos e táteis.
MEMÓRIA E ALFABETIZAÇÃO
Falar de memória no processo de ensino-aprendizagem provoca, muitas vezes, confusões e equívocos quanto à sua utilização. Memorizar foi considerado por muito tempo sinônimo de decorar datas, textos, nomes e fórmulas. Segundo Gentile, em 2003, em seus estudos sobre o processo de aprendizagem da criança, concluiu-se que a decoreba era inimiga da educação, pois esse processo complexo e fascinante do cérebro que registra, armazena e evoca cada pensamento que elaboramos, cada lembrança, cada palavra que falamos e compreendemos, cada ação que executamos, o sentido que temos de nós mesmos e a nossa relação com os outros foi confundido com repetição e deixado de lado.
A memória é considerada, por muitos estudiosos, base do conhecimento e o caminho para a eficácia do ensino quando estimulada e utilizada adequadamente, pois segundo Squire e Kandel (2003, p. 14), é “o processo pelo qual aquilo que é aprendido persiste ao longo do tempo”.
Para designar os diversos tipos de memórias que existem, é levado em consideração a duração e o conteúdo a ser armazenado de acordo com a natureza dos elementos e os processos neuropsicológicos envolvidos.
No âmbito educacional, a que mais interessa é a memória de curto prazo, que de acordo como a própria designação é a capacidade de reter uma informação por até uma hora ; outra memória importante é a de longo prazo que tem a capacidade e duração ampla, envolvendo mudanças na estrutura dos neurônios. A primeira deve ser conhecida e utilizada como ponto de partida para o caminho da verdadeira aprendizagem, que só se consolida com a memorização de longo prazo e com uma aprendizagem significativa.
Os estudos da neurociência na área educacional comprovam que estratégias de ensino articulam as estratégias de ensino com os esquemas mentais que compõem os processos de memorização ampliada, auxiliando na passagem da memória de curto prazo para a de longo prazo e otimizando o processo de ensino aprendizagem através do manejo apropriado.
Com o conhecimento sobre os tipos de memórias e a formação de redes neuronais, o profissional está apto a promover atividades que ative as áreas do cérebro responsáveis pelos processos neurocerebrais complexos como a imaginação, motivação, emoção e a atenção que implicam na evocação da memória e dão suporte ao raciocínio lógico.
PLASTICIDADE NEURAL E APRENDIZAGEM
A capacidade do cérebro de se adaptar e reorganizar em resposta a experiências, conhecida como plasticidade cerebral, é um dos principais mecanismos de aprendizagem na primeira infância. Pois, segundo a neurociência, facilita a aquisição de habilidades de leitura e escrita nesse período crucial.
As sinapses são formadas, reforçadas ou enfraquecidas de acordo com as experiências vivenciadas pela criança e nessa primeira infância essas sinapses são essenciais para o aprendizado de linguagem escrita. Já a aprendizagem da leitura envolve a criação de conexões sinápticas específicas entre áreas cerebrais envolvidas no processamento visual, fonológico e semântico.
A plasticidade neural também é evidenciada pelo impacto do treinamento específico na estrutura cerebral. As janelas críticas de desenvolvimento, períodos sensíveis durante os quais o cérebro é particularmente sensível à aprendizagem, são de grande importância na primeira infância. Intervenções educacionais durante esses períodos podem ter um impacto duradouro, principalmente com a repetição e a prática sistemática moldam a organização das redes neurais relacionadas à linguagem.
ALFABETIZAÇÃO E AS ÁREAS CEREBRAIS
Manipular os sons da fala é fundamental para o processamento fonológico e consequentemente para a alfabetização que requer a coordenação entre várias áreas cerebrais que se dedicam ao processamento de informações visuais e fonológicas para o desenvolvimento da alfabetização.
Price (2012), afirma que a área de Broca, localizada no hemisfério esquerdo do cérebro, está associada à produção da linguagem; enquanto a área de Wernicke está envolvida na compreensão da linguagem; e a região do córtex visual responsável pelo processamento das palavras escritas, demonstrando sua importância para a leitura; sendo estas três regiões fundamentais para o processamento da linguagem.
A região do córtex visual posterior é responsável pela identificação visual das letras e a formação de representações neurais das palavras, sendo essencial para o reconhecimento rápido da escrita que é uma habilidade necessária para o desenvolvimento da leitura.
DESENVOLVIMENTO DA LEITURA NAS ÁREAS CEREBRAIS
Identificar as letras, transformar em sons e atribuir significados é um processo complexo da leitura que envolve áreas colaborativas do cérebro, principalmente a de Wernicke e o córtex frontal, mas também ativa as áreas visuais.
O processo de leitura se inicia com o reconhecimento das letras através das áreas visuais primárias e são direcionadas para a decodificação que ocorre na região occipito-temporal do hemisfério esquerdo. As estruturas cerebrais que processam a linguagem realizam a transformação das letras em sons. A atribuição de significados às palavras e frases é realizada pela área de Wernicke que é responsável pela compreensão da fala e pelo córtex frontal. A integração destas áreas é que possibilita o processo de leitura.
AS INFLUÊNCIAS DO MEIO AMBIENTE
Segundo a neurociência, quando a criança interage com ambiente rico em estímulos alfabetizados e letrados, contribui com a formação de circuitos neurais complexos que impactam positivamente no seu processo de aprendizagem da leitura e escrita. Essa exposição e interação desencadeia a plasticidade sináptica que amplia as possibilidades de desenvolvimento cerebral.
A formação ativa e o refinamento de conexões sinápticas são altas durante os primeiros anos de vida, o que favorece a plasticidade cerebral. O cérebro das crianças se adapta às propriedades linguísticas do ambiente, e as experiências sensoriais são essenciais para que as sinapses ocorram de forma apropriada e otimizada.
O diálogo interativo e direto entre adultos e crianças, assim como a leitura compartilhada, influencia positivamente o desenvolvimento da linguagem e consequentemente no processo de alfabetização.
METODOLOGIAS NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO.
Através de estudos da neurociência é constatado que a abordagem fônica (que enfatiza a correspondência entre som, fonema, e letra, grafema) favorece o aprendizado da leitura e escrita, pois a habilidade de decodificação é fundamental para a leitura uma vez que ativa as áreas cerebrais específicas como o córtex parietal. A abordagem fônica, apoiada em evidências neurocientíficas, aproveita a alta na plasticidade neural da infância para criar as conexões visuais das letras com os sons correspondentes.
Na abordagem global (que se concentra na leitura de palavras como um todo) a neurociência evidencia que o reconhecimento visual rápido e preciso envolve o córtex corticais. Nesta abordagem, a prática de leitura compartilhada com exposição de palavras familiares contribui para o desenvolvimento de redes neurais especializadas na identificação de palavras.
Alinhada com a plasticidade cerebral, evidenciada pela neurociência, a abordagem construtivista (que enfatiza a construção ativa do conhecimento) é essencial para o desenvolvimento cognitivo, pois permite a construção de conexões através da exploração e a experimentação com o ambiente.
De acordo com a neurociência, uma abordagem integrada utiliza-se das áreas especializadas na leitura e da capacidade do cérebro de construir conexões e a relação entre as áreas cerebrais apoia a variedade de estratégias pedagógicas que podem ser adotadas para aprimorar a alfabetização. Os princípios das diferentes abordagens podem ser integrados em práticas eficazes de alfabetização, uma vez que o treinamento fônico pode ser complementado por práticas de leitura contextual e na construção do conhecimento que englobam aspectos globais da linguagem.
Os estudos de Rowe (1973), Fogarty (1997) e Sprenger (2008) destacam que perguntas reflexivas onde se faz necessário a busca por conhecimentos prévios presentes na estrutura cognitiva, começando com as expressões “por que”, “como”, “deve”, “pode” ou “que”; começar a aula sempre com uma histórias e relacioná-las às propostas e/ou assuntos abordados; utilizar músicas sobre o tema; relacionar a aprendizagem aos problemas cotidianos do mundo real; utilização recursos instigadores; desenvolver aos educandos a observação de semelhanças e diferenças entre histórias; observar o tempo de concentração; utilizar-se da pausa necessária para que o aluno possa refletir e responder; incentivar verbalmente sobre manter o pensamento a cerca de uma ideia e/ou pensamento para que elabore conceitos mais elaborados; são estratégias que favorecem as conexões sinápticas e ativam redes neurais já existentes, envolvendo e mantendo o cérebro ocupados em operações relacionadas com conhecimentos prévios, aumentando o processo de aprendizagem mais rápido, satisfatório e dinâmico.
Ouvir histórias é uma maneira natural de organizar as informações e quando envolve conexões emocionais contribui para o processo de memorização de longo prazo. A reflexão percorre e associa o novo conhecimento com a memória de longo prazo, possibilitando a memorização e a aprendizagem além de produzir uma sobrecarga da memória de curto prazo que através da reorganização de redes cerebrais são transferidos para a de longo prazo sendo capaz de serem evocadas para novas conexões.
A alfabetização está relacionada com as experiências de vida e de linguagem dos educandos, desta forma saber os conhecimentos prévios se torna fundamental para envolver o gostar e o querer, de modo que, com a predominância da dopamina como neurotransmissor coordenam a aprendizagem em áreas do cérebro que formam memórias através da amígdala e assim aumenta as oportunidades dessas informações entrarem no processo de memória.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através da perspectiva da neurociência, a leitura e a escrita envolvem processos complexos de adaptação cerebral e a alfabetização exige uma reestruturação das redes neurais. Compreender as vias fonológicas e visual, o papel da plasticidade cerebral e as práticas baseadas em evidências permite que educadores promovam métodos de ensino mais eficazes, pois o uso de estratégias que ativam diferentes vias facilitam o desenvolvimento da leitura e da escrita.
Além disso, a plasticidade cerebral, torna-se na infância uma janela propícia para as intervenções e aprendizados mais natural e significativa, sendo possível desenvolver abordagens que respeitem as diferentes etapas do desenvolvimento. A neurociência aprimora a alfabetização e contribui para uma educação onde todos os educandos têm a oportunidade de atingir o potencial, pois evidencia as estratégias mais eficazes para o sucesso escolar.
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