Uma análise do bullying no ambiente escolar a partir da psicanálise

AN ANALYSIS OF BULLYING IN THE SCHOOL ENVIRONMENT FROM THE PERSPECTIVE OF PSYCHOANALYSIS

UN ANÁLISIS DEL BULLYING EN EL ÁMBITO ESCOLAR DESDE LA PERSPECTIVA DEL PSICOANÁLISIS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/50C68D

DOI

doi.org/10.63391/50C68D

Muniz, Antonio Sergio . Uma análise do bullying no ambiente escolar a partir da psicanálise. International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo explora o fenômeno do bullying no ambiente escolar, suas causas e consequências, buscando na teoria psicanalítica uma compreensão mais profunda de sua dinâmica. O estudo analisa como mecanismos de defesa, a formação da personalidade e as relações objetais influenciam tanto agressores quanto vítimas. Destaca-se a importância do contexto social e cultural, incluindo a influência familiar e a normalização da violência, na gênese do bullying. A psicanálise é apresentada como ferramenta para entender as raízes inconscientes desses comportamentos e para auxiliar na prevenção e tratamento, considerando o impacto traumático e as marcas psíquicas duradouras nas vítimas. O artigo também aborda as diferentes formas de bullying, incluindo o cyberbullying, e a corresponsabilidade da escola e da família na prevenção e intervenção. Por fim, ressalta a relevância de mobilizar o “infantil” presente no psiquismo adulto para transformar as marcas traumáticas do bullying.
Palavras-chave
bullying; psicanálise; educação; mecanismos de defesa; prevenção.

Summary

This article explores the phenomenon of bullying in schools, its causes and consequences, seeking a deeper understanding of its dynamics through psychoanalytic theory. The study analyzes how defense mechanisms, personality formation and object relations influence both aggressors and victims. The study highlights the importance of the social and cultural context, including family influence and the normalization of violence, in the genesis of bullying. Psychoanalysis is presented as a tool to understand the unconscious roots of these behaviors and to assist in prevention and treatment, considering the traumatic impact and lasting psychological scars on victims. The article also addresses the different forms of bullying, including cyberbullying, and the co-responsibility of schools and families in prevention and intervention. Finally, it highlights the importance of mobilizing the “childish” part of the adult psyche to transform the traumatic scars of bullying.
Keywords
bullying; psychoanalysis; education; defense mechanisms; prevention.

Resumen

Este artículo explora el fenómeno del bullying en las escuelas, sus causas y consecuencias, buscando en la teoría psicoanalítica una comprensión más profunda de su dinámica. El estudio analiza cómo los mecanismos de defensa, la formación de la personalidad y las relaciones objétales influyen tanto en los agresores como en las víctimas. Se destaca la importancia del contexto social y cultural, incluida la influencia familiar y la normalización de la violencia, en la génesis del bullying. El psicoanálisis se presenta como una herramienta para comprender las raíces inconscientes de estas conductas y ayudar en la prevención y el tratamiento, considerando el impacto traumático y las marcas psíquicas duraderas en las víctimas. El artículo también aborda las diferentes formas de acoso escolar, incluido el ciberacoso, y la responsabilidad compartida de las escuelas y las familias en la prevención y la intervención. Finalmente, se destaca la importancia de movilizar el aspecto “infantil” presente en el psiquismo adulto para transformar las marcas traumáticas del bullying.
Palavras-clave
acoso escolar; psicoanálisis; educación; mecanismos de defensa; prevención.

INTRODUÇÃO

O presente artigo objetiva entender melhor o que é o bullying, como esse fenômeno ocorre, suas causa e consequências, além de explorar como a teoria psicanalítica pode ajudar a compreender melhor o bullying, analisando como os mecanismos de defesa, a formação da personalidade e as relações objetais influenciam o comportamento do agressor e da vítima. Além disso, discutiremos como a abordagem psicanalítica pode contribuir para a prevenção e tratamento do bullying. 

De acordo com Nanni (2014), a globalização da economia, a criação de um mercado único no mundo, o aumento das migrações, os encontros e desencontros entre diferentes culturas e religiões, o avanço das tecnologias digitais e da robótica, a valorização dos direitos humanos e o desejo por uma democracia mais adequada aos tempos atuais revelam uma clara necessidade urgente de atenção à educação.

A educação tradicional enfrenta muitos desafios. No entanto, conseguir se renovar, pode se tornar uma importante ferramenta para resolver os problemas do nosso tempo, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento humano digno e sustentável. A dificuldade de educar é sentida por famílias, adultos e escolas, especialmente devido ao grande impacto da televisão, rádio e, principalmente, do uso crescente das novas mídias digitais, como celulares, internet, Facebook, YouTube, TikTok, entre outros (Nanni 2014).

Apesar de ser um fenômeno antigo, especialmente nas últimas décadas, o bullying tem se tornado um tema recente de estudo, e tem chamado a atenção da sociedade para os danos que causa. Talvez uma das consequências mais graves sejam os traumas gerados, que apresentam grandes desafios para serem superados.

DEFINIÇÃO DE BULLYING

Conforme explica Silva (2010), a palavra bullying vem do inglês. “Bull” significa touro, um animal forte e bravo, e “bully” quer dizer brigão, valentão ou tirano. Assim, o termo passou a ser usado para descrever atitudes agressivas que acontecem dentro ou fora do ambiente escolar, cometidas tanto por meninos como por meninas.

Os atos de violência (física ou não) ocorrem de forma intencional e repetitiva contra um ou mais alunos que se encontram impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas. Tais comportamentos não apresentam motivações específicas ou justificáveis. Em última instância, significa dizer que, de forma “natural”, os mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas (Silva, 2010, pág. 8).

De maneira geral, observa-se um leve predomínio do bullying praticado pelos meninos em relação às meninas. No entanto, devido ao comportamento mais agressivo e ao uso da força física, as ações dos meninos são mais evidentes. Por outro lado, as meninas tendem a praticar bullying por meio de intrigas, fofocas e isolamento das colegas, o que pode fazer com que suas atitudes passem despercebidas, tanto no ambiente escolar quanto no familiar.

Uma das formas mais agressivas de bullying, que vem crescendo cada vez mais, é o cyberbullying, também chamado de bullying virtual. Nesse caso, as agressões acontecem por meio de celulares, câmeras, internet e ferramentas como e-mails, redes sociais e vídeos. As ofensas se espalham rapidamente e causam um sofrimento ainda maior nas vítimas. O cyberbullying vai além do ambiente escolar e expõe a pessoa atacada à humilhação pública.

Quem pratica esse tipo de agressão costuma se esconder no anonimato e, sem mostrar qualquer arrependimento, ataca a vítima da pior maneira. Os traumas e as consequências causados pelo bullying virtual podem ser muito graves (Silva, 2010).

As consequências do bullying são diversas e variam de acordo com o indivíduo, sua personalidade, experiências de vida, predisposição genética, além da forma e intensidade das agressões. No entanto, todas as vítimas, sem exceção, experimentam sofrimento devido aos ataques de bullying, em maior ou menor grau. Muitas carregarão cicatrizes profundas dessas agressões por toda a vida adulta, necessitando de apoio psiquiátrico e/ou psicológico para superar o problema. Os contratempos mais comuns incluem: desinteresse escolar, distúrbios psicossomáticos, questões comportamentais e psicológicas como transtornos de pânico, depressão, anorexia, bulimia, fobia escolar, fobia social, ansiedade generalizada, entre outros.

O bullying também pode piorar problemas de saúde que a pessoa já tenha, por causa do estresse constante que ela enfrenta. Nos casos mais sérios, podem acontecer situações como esquizofrenia, homicídio ou até suicídio (Silva, 2010).

PSICANÁLISE E BULLYING

Sigmund Freud nasceu em Viena no ano de 1856, aos 17 anos, iniciou a sua formação médica em Viena, onde destacou-se como um aluno e estagiário brilhante, sendo que muito cedo ele demonstrou a centelha do gênio que viria a ser no futuro. Freud não é apenas o pai da psicanálise, mas o fundador de uma forma muito particular e inédita de produzir ciência e conhecimento. Ele reinventou o que se sabia sobre a alma humana (a psique), instaurando uma ruptura com toda a tradição do pensamento ocidental, a partir de uma obra em que o pensamento racional, consciente e cartesiano perde seu lugar exclusivo e egrégio. Seus estudos sobre a vida inconsciente, realizados ao longo de toda a sua vasta obra, são hoje referência obrigatória para a ciência e para a filosofia contemporâneas (Freud 2014).

De acordo com Souza (2019), Freud entende o trauma como algo que acontece quando há um desequilíbrio entre a força dos estímulos que uma pessoa recebe e o quanto sua mente consegue aguentar. Em outras palavras, ele vê o trauma como uma questão ligada à quantidade de energia que circula na mente. Essa ideia se baseia no pensamento de que os processos mentais funcionam com um tipo de energia (chamada energia pulsional), que pode aumentar ou diminuir. Quando acontece algo muito intenso, essa energia aumenta demais e acaba sobrecarregando a mente da pessoa, bagunçando seu funcionamento e fazendo com que ela não consiga reagir bem ao que está acontecendo. Por isso, crianças e adolescentes que sofrem bullying podem ficar paralisados ou sem saber o que fazer, o que mostra como a mente deles fica confusa e sem defesa diante da agressão. A sensação vivida é parecida com um trauma, pois a vítima se sente incapaz de enfrentar a situação.

 Freud compara o trauma a um sentimento de desamparo, parecido com o que o bebê sente nos seus primeiros momentos de vida, ou com o que uma criança sente quando é deixada sozinha pelos pais — seja de verdade ou porque se sente assim emocionalmente. Para ele, o trauma é causado por experiências que atingem diretamente o ego, pois acabam enfraquecendo aquilo que ele chama de “escudo protetor” da mente. Esse escudo é formado pelos mecanismos de defesa, que servem para ajudar a pessoa a enfrentar situações difíceis. Quando esse escudo falha, o impacto do trauma é ainda mais forte, causando uma ferida emocional mais profunda (Souza, 2019).

Freud (1980), defende a tese da existência de processos psíquicos inconscientes, demonstrando que a equivalência convencional entre psíquico e consciente é completamente inadequada e calcada numa superestima outorgada à consciência. Com a descoberta do inconsciente, ele opera uma verdadeira revolução, denominada por Lacan (1985) de “copernicana”. De fato, ao afirmar que o inconsciente pensa, Freud desaloja a consciência de seu lugar de centro, alterando assim o privilégio conferido aos pensamentos. O cerne de sua descoberta vem demonstrar que os processos de pensamentos inconscientes se produzem à margem da consciência e dela independem.

A elaboração de que o inconsciente é um sistema constituído por representações associadas umas às outras de acordo com as leis do deslocamento e da condensação, de que ele se constitui na verdadeira instância onde os pensamentos se produzem, e de que esses pensamentos inconscientes podem encontrar um meio de expressão simbólica na palavra, formam, em síntese, o ápice das elaborações freudianas presentes na primeira tópica (Baratto, 2008, pág. 14).

Melanie Klein foi uma psicanalista austríaca-britânica, nascida em 1882 e falecida em 1960. Ela é conhecida por suas contribuições significativas para a teoria psicanalítica e por sua abordagem inovadora no campo da psicanálise infantil.

A teoria de Melanie Klein oferece uma compreensão profunda dos processos que envolvem a infância, segundo Klein, a criança precisa de um ambiente seguro e acolhedor para desenvolver uma base sólida de desenvolvimento, portanto, a experiência vivida durante os primeiros anos de vida tem um impacto significativo na saúde mental e emocional ao longo da vida (Klein 1981). A presença de cuidadores amorosos e responsivos permite que a criança se sinta protegida e confiante para explorar o mundo ao seu redor e se tornar um adulto confiante e equilibrado.

A formação de vínculos na infância desempenha um papel crucial na estruturação da personalidade da criança. Esses vínculos são essenciais para o desenvolvimento emocional e comportamental saudável, pois estabelecem as bases para futuros relacionamentos e interações sociais (Bowlby 1969). 

De acordo com Freud (1980), todas as pessoas possuem mecanismos de defesa e os usam sem nem perceber. Afinal, trata-se de pretextos ou escudos criados pelo ego, que são usados em determinadas situações e visam proteger o indivíduo.

Segundo Segal (1975), os mecanismos de defesa na infância são estratégias psicológicas que as crianças utilizam para lidar com emoções intensas e conflitos emocionais. Esses mecanismos de defesa surgem como uma forma de proteção psíquica, ajudando as crianças a enfrentarem situações que possam ser ameaçadoras ou desencadear ansiedade.

As experiências de depressão recorrente e o desespero que o bebê vivencia são insuportáveis, especialmente quando ele sente que causou danos irreparáveis à sua mãe e ao vínculo com ela. O ego recorre a todas as defesas disponíveis para lidar com esse estado (Segal 1975).

Klein (1996), identificou alguns mecanismos de defesa específicos que são comuns na infância.  São eles:

Introjeção: A introjeção é um mecanismo pelo qual a criança internaliza características ou aspectos de outras pessoas significativas em sua vida, como pais ou cuidadores. Ela absorve, de certa forma, as qualidades e comportamentos dessas figuras e os incorpora em seu mundo interno. A introjeção pode ser uma forma de buscar segurança e fortalecimento emocional.

Projeção: A projeção ocorre quando a criança atribui a outras pessoas sentimentos, desejos ou características que ela própria possui, mas não está pronta para reconhecer ou aceitar em si mesma. A criança projeta partes de si e suas emoções internas em outras pessoas ou objetos externos, criando uma separação entre o eu e o outro.

Clivagem: A clivagem é um mecanismo de defesa em que a criança divide suas experiências e emoções em opostos extremos, como bom/mal ou amor/ódio. Ela separa seus sentimentos contraditórios, não sendo capaz de integrá-los. Essa divisão permite que a criança lide com a ansiedade gerada pelos sentimentos conflitantes, mas também pode levar a uma visão extremista do mundo.

Idealização: A idealização envolve atribuir qualidades positivas exageradas a uma pessoa ou objeto externo. A criança pode idealizar figuras significativas, como seus pais, irmãos ou heróis, vendo-os como perfeitos e imunes a falhas. Esse mecanismo de defesa ajuda a lidar com a ansiedade de se confrontar com a realidade das imperfeições humanas.

Negação: A negação é um mecanismo em que a criança se recusa a aceitar ou reconhecer uma realidade dolorosa ou perturbadora. Ela bloqueia a consciência dos fatos ou das emoções associadas a uma situação, evitando assim o desconforto emocional. A negação pode ser uma forma de preservar a integridade psicológica diante de experiências traumáticas.

Formação reativa: A formação reativa ocorre quando a criança expressa um comportamento oposto ao que realmente sente. Ela adota uma atitude ou crença que é contrária aos seus sentimentos reais, como uma forma de negar ou mascarar emoções consideradas inaceitáveis. Por exemplo, uma criança que se sente insegura pode expressar uma atitude de superioridade.

Deslocamento: O deslocamento é um mecanismo de defesa em que a criança redireciona seus sentimentos ou impulsos de uma fonte original para outra menos ameaçadora. Ela direciona suas emoções intensas para um alvo substituto que seja mais seguro ou socialmente aceitável. Por exemplo, uma criança que está com raiva dos pais pode direcionar essa raiva para um brinquedo ou animal de estimação. 

Repressão: A repressão é um mecanismo de defesa no qual a criança empurra para o inconsciente pensamentos, memórias ou desejos que são considerados perturbadores ou ameaçadores.

Esses mecanismos de defesa podem ser úteis na infância, ajudando as crianças a lidarem com dificuldades emocionais. Porém, se continuarem na vida adulta, podem causar problemas psicológicos e prejudicar o desenvolvimento da personalidade. Por isso, é importante que pais e cuidadores fiquem atentos a esses comportamentos e ajudem as crianças a lidarem com suas emoções (Klein, 1996).

Esses subterfúgios são ativados de forma inconsciente, basta a pessoa ser exposta a um gatilho, ou seja, a um acontecimento que faça com que o cérebro entenda que aquilo pode ser um problema, para que os mecanismos de defesa sejam ativados. Assim, são reações automáticas que a pessoa tem e que para o cérebro dela têm a função de protegê-la. Para isso, procuram minimizar e estabilizar a reação perante um sofrimento emocional. 

Os mecanismos de defesa trazem alívio e, por isso, são importantes no dia a dia, porém por vezes, podem ser desencadeados em momentos inoportunos. Quando isso acontece, acabam prejudicando o dia a dia tanto do indivíduo, como das pessoas ao seu redor, nesses casos, a reação dos mecanismos de defesa com o gatilho precisa ser revista e tratada.

DINÂMICA ENTRE A VÌTIMA E O AGRESSOR

Na visão de Silva (2010), é importante observar o comportamento das vítimas de bullying em todos os lugares que elas costumam frequentar. Pais e profissionais da escola devem ficar atentos, principalmente, aos seguintes sinais:

Na escola: No intervalo das aulas, costumam ficar sozinhas ou perto de adultos que possam protegê-las. Na sala de aula, são quietas, faltam bastante às aulas e geralmente parecem tristes, preocupadas ou desanimadas. Em jogos ou atividades em grupo, quase sempre são as últimas a serem escolhidas ou nem são chamadas para participar. Aos poucos, vão perdendo o interesse pelas atividades e tarefas da escola. Em casos mais graves, podem aparecer machucados, como roxos, arranhões, cortes ou com as roupas rasgadas (Silva, 2010, p.10).

Em casa: Muitas vezes reclamam de dor de cabeça, enjoo, dor de barriga, tontura, vômito, falta de apetite e dificuldade para dormir. Esses sintomas costumam piorar pouco antes do horário de ir para a escola. Também é comum mudanças de humor, com explosões de raiva ou irritação. Normalmente, têm poucos ou nenhum amigo. Recebem poucas ligações, mensagens, e-mails ou convites para festas, passeios ou viagens com colegas da escola. Começam a gastar mais dinheiro que o normal na cantina ou comprando coisas para dar aos outros. Costumam inventar desculpas, até doenças, para não ir à escola (Silva, 2010, p.10).

Segundo Souza (2019), todos os espaços da escola onde não há a presença constante de adultos, como banheiros, corredores e áreas pouco movimentadas, acabam facilitando situações de bullying. Por isso, é importante que a equipe pedagógica esteja presente e preparada, tanto fisicamente quanto emocionalmente, sabendo dos riscos e das consequências que esse tipo de situação pode trazer. Entender o bullying no ambiente escolar exige olhar para vários fatores, o que mostra o quanto esse problema é complexo.

Na escola os agressores fazem piadas de mau gosto, zombam, colocam apelidos ofensivos, espalham boatos, ameaçam, humilham e desrespeitam alguns colegas. Roubam ou pegam dinheiro, lanche e coisas dos outros alunos. Geralmente são populares e andam sempre em grupos. Acham graça ao ver o sofrimento dos outros. Em casa, costumam ser desobedientes e agressivos com a família. Agem com arrogância, tanto no jeito de falar quanto no modo de se vestir, querendo parecer melhores que os outros. Manipulam as pessoas para escapar dos problemas que causam. Muitas vezes voltam da escola com objetos ou dinheiro que não tinham antes. Costumam mentir bem e negar tudo o que a escola, os irmãos ou os empregados dizem (Souza, 2019).

Vítimas de bullying acabam presas ao controle dos agressores. Quase nunca pedem ajuda para professores ou pais. Elas fazem isso porque acreditam, de forma equivocada, que ficar quietas vai evitar que os agressores se vinguem. Elas também acham que, se sofrerem sozinhas e em silêncio, vão poupar os pais da tristeza de saber que têm um filho frágil, com medo e que não é popular na escola.

PAPEL DA SOCIEDADE

A escola também tem responsabilidade nos casos de bullying, porque é nela que os atos agressivos aparecem ou pioram na maior parte das vezes. A direção da escola, que é a principal responsável, deve avisar os pais, os Conselhos Tutelares e os órgãos de proteção às crianças e adolescentes. Se não fizer isso, pode ser responsabilizada por não agir. Quando acontecerem atos ilegais ou quebras de regra, a escola deve também registrar um boletim de ocorrência na polícia. Assim, as autoridades podem investigar o que aconteceu e punir quem fez errado. Esses passos ajudam a evitar que os agressores fiquem sem castigo e impedem o aumento da violência e dos crimes entre crianças e jovens (Silva, 2010).

A intrincada relação entre sociedade, cultura e a gênese do bullying revela um panorama onde as dinâmicas interpessoais são profundamente moldadas por valores, normas e expectativas coletivas. A família, como microcosmo da sociedade, exerce uma influência primordial. Ambientes familiares marcados por negligência, violência doméstica ou comunicação agressiva podem inadvertidamente fornecer modelos de interação que os jovens internalizam e replicam em seus relacionamentos, incluindo o comportamento de bullying. A ausência de limites claros, a falta de supervisão parental e a dificuldade em expressar emoções de maneira saudável também contribuem para um cenário onde a agressão pode florescer como forma de resolução de conflitos ou de afirmação de poder.

Ademais, o ambiente escolar, como extensão do lar e espaço de socialização crucial, reflete e amplifica as dinâmicas sociais mais amplas. Uma cultura escolar que tolera ou minimiza comportamentos agressivos, seja entre alunos ou até mesmo entre adultos, contribui para a perpetuação do bullying. A falta de intervenções eficazes, a negligência de relatos de vitimização e a ausência de um clima de respeito mútuo criam um terreno fértil para que o bullying se estabeleça e se torne uma prática comum, afetando profundamente o bem-estar emocional e o desenvolvimento dos estudantes (Bowlby 1989).

Um dos aspectos mais insidiosos da influência sociocultural no bullying reside na normalização da violência. Em sociedades onde a agressividade é, por vezes, valorizada ou vista como um meio eficaz para alcançar objetivos, ou ainda onde certos grupos são sistematicamente marginalizados e desumanizados, o bullying pode ser percebido como um comportamento aceitável ou até mesmo esperado. A exposição constante a representações de violência na mídia, a perpetuação de estereótipos e preconceitos, e a falta de um discurso público consistente que condene o bullying contribuem para essa normalização, obscurecendo o impacto destrutivo que ele causa nas vítimas.

CONSEQUÊNCIAS DO BULLYING

Através de sua investigação do inconsciente e das relações objetais internalizadas, a teoria psicanalítica oferece uma perspectiva valiosa para compreendermos como essas influências socioculturais se inscrevem na subjetividade dos indivíduos envolvidos no bullying. Tanto o agressor quanto a vítima podem estar reproduzindo dinâmicas relacionais disfuncionais aprendidas em seus ambientes primários e reforçadas pelo contexto social mais amplo. A necessidade de dominação e controle por parte do agressor, assim como a internalização de sentimentos de desvalorização e impotência pela vítima, podem ser compreendidas à luz dessas experiências e das mensagens transmitidas pela cultura (René, 1972).

Em suma, o bullying não é um fenômeno isolado, restrito às interações individuais. Ele se enraíza em um complexo tecido social e cultural que molda as percepções, os valores e os comportamentos dos indivíduos. Compreender o papel da família e do ambiente na internalização de padrões agressivos, assim como o impacto da normalização da violência em nível societal, é fundamental para desenvolver estratégias de prevenção e intervenção mais eficazes, que não apenas abordem os comportamentos individuais, mas também promovam uma transformação nas normas e valores culturais que sustentam o bullying (Norbert, 1994).

Souza (2010), destaca que a psicanálise dá importância às experiências da infância e como elas continuam influenciando a vida mental dos adultos. Esse foco é central no processo de escuta e tratamento psicanalítico. O que se busca, por meio da fala do paciente, não são apenas os acontecimentos em si, mas principalmente como essas experiências ficaram registradas em sua mente. Essas lembranças, muitas vezes guardadas no inconsciente, podem aparecer por meio de sintomas, sonhos, do jeito como a pessoa conta sua história ou da relação que ela estabelece com o analista.

O trabalho da psicanálise é ajudar a pessoa a lidar com essas marcas do passado, entendendo como elas ainda afetam sua forma de pensar, sentir e agir. A ideia é fazer com que o sujeito possa dar um novo sentido a essas experiências e encontrar maneiras de conviver melhor com elas. Isso acontece por meio da fala, ao trazer à tona o “infantil” que ainda existe dentro de cada adulto — partes da infância onde o tempo parece não ter passado. Ao trazer essas vivências à consciência durante a análise, a pessoa pode se reconectar com o presente e vivê-lo de forma mais plena (Souza, 2010).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O bullying, longe de ser uma mera “brincadeira” ou um rito de passagem, configura-se como uma experiência traumática com profundas e duradouras implicações para a saúde mental das vítimas. A exposição repetida a humilhações, ameaças e agressões mina a sensação de segurança e previsibilidade do ambiente, elementos cruciais para o desenvolvimento de uma psique resiliente. Nesse contexto, a ansiedade emerge como uma resposta natural ao estado de alerta constante, manifestando-se em preocupações excessivas, medos irracionais e sintomas físicos como palpitações e insônia. A antecipação de novos episódios de violência gera um ciclo de apreensão que pode se tornar crônico, impactando significativamente a qualidade de vida e a capacidade de engajamento social da vítima (Bessel, 2014).

A depressão, outra consequência comum do bullying, instala-se gradualmente à medida que a vítima internaliza as mensagens negativas e desenvolve sentimentos de desesperança, isolamento e desvalorização. A perda da alegria em atividades antes prazerosas, a fadiga persistente, as alterações no apetite e no sono, e até mesmo ideações suicidas podem surgir como manifestações dessa profunda tristeza. A psicanálise nos ajuda a compreender como a agressão repetida pode reativar feridas narcísicas precoces, fragilizando o senso de self e contribuindo para a instalação de um quadro depressivo. A vítima pode passar a se identificar com o papel de “alvo”, introjetando a imagem negativa projetada pelo agressor (Daniel J., 2012).

Em casos de bullying severo e prolongado, o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) pode se desenvolver, caracterizado pela reincidência intrusiva dos eventos traumáticos através de flashbacks, pesadelos e pensamentos angustiantes. A fuga de situações ou pessoas que remetem ao bullying, a vigilância constante e as alterações negativas no humor e na cognição são outros sintomas marcantes do TEPT. A perspectiva psicanalítica enfatiza como o trauma psíquico desorganiza a experiência subjetiva, fragmentando a narrativa do self e dificultando a integração das memórias dolorosas. O corpo, muitas vezes, torna-se o palco de somatizações que expressam o sofrimento psíquico não elaborado (Perry, Winfrey, 2021).

Segundo Perry e Winfrey (2021), o impacto do bullying na autoestima é particularmente devastador. A constante exposição a críticas e humilhações abala a confiança da vítima em suas próprias capacidades e valor como ser humano. A internalização das mensagens depreciativas do agressor pode levar ao desenvolvimento de um senso de inadequação persistente, dificultando a formação de relacionamentos saudáveis e o enfrentamento de novos desafios. A psicanálise nos ensina que a autoestima se constrói nas primeiras relações objetais, e experiências de rejeição e agressão podem gerar profundas feridas narcísicas, comprometendo a capacidade do indivíduo de se amar e se valorizar.

Finalmente, o bullying pode deixar cicatrizes profundas na personalidade em formação, especialmente durante a infância e a adolescência. A necessidade de desenvolver mecanismos de defesa para lidar com a violência, como o retraimento social, a agressividade reativa ou a busca incessante por aprovação, pode moldar padrões de comportamento disfuncionais a longo prazo. A dificuldade em confiar nos outros, o medo de novas relações e a tendência a repetir padrões de vitimização ou agressão são algumas das possíveis consequências. A psicanálise nos alerta para a importância de um ambiente seguro e acolhedor para o desenvolvimento de um self coeso e resiliente, e como experiências traumáticas como o bullying podem desviar esse processo, gerando sofrimento psíquico duradouro (Klein, 1996).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Disponível em https://doi.org/10.1590/S1414-98932009000100007. Acesso em: 11 de novembro de 2024.

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Muniz, Antonio Sergio . Uma análise do bullying no ambiente escolar a partir da psicanálise.International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
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Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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n. 48
Uma análise do bullying no ambiente escolar a partir da psicanálise

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Agosto

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