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Resumo
INTRODUÇÃO
Em meio às discussões contemporâneas sobre a transformação do ambiente escolar, a comunicação não violenta (CNV) emerge como um possível caminho, transcendendo a mera transmissão de conhecimento para focar na construção de relações interpessoais mais profundas e significativas entre professores e alunos.
A CNV se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições adversas. Ela não tem nada de novo: tudo que foi integrado à CNV já era conhecido havia séculos. O objetivo é nos lembrar do que já sabemos – de como nós, humanos, deveríamos nos relacionar uns com os outros – e nos ajudar a viver de modo que se manifeste concretamente esse conhecimento. A CNV nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros. […] Somos levados a nos expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa e empática. […] A fórmula é simples, mas profundamente transformadora” (Rosemberg, 2006, p. 21).
Diante dessa relevância, a presente pesquisa, através de uma revisão bibliográfica, tem como objetivo principal refletir sobre a importância da comunicação não violenta no processo de ensino-aprendizagem. Especificamente, busca-se investigar o impacto da adoção de uma postura não violenta e identificar os benefícios dessa abordagem para as dinâmicas interpessoais no contexto escolar. Diante da crescente ênfase na transformação das interações nas escolas e do reconhecimento do impacto da comunicação nas relações entre professores e alunos, pensando em qual o papel da Comunicação Não Violenta (CNV) no processo de ensino-aprendizagem, e de que maneira a adoção de uma postura não violenta por parte dos educadores pode influenciar as dinâmicas interpessoais e o bem-estar no contexto escolar?
Ao refletirmos sobre indisciplina, podemos inferir que essas atitudes podem ter raízes significativas dentro do próprio espaço escolar. Quando pensamos em indisciplina, a tendência é focar no aluno individualmente ou em fatores externos à escola, como a família ou o contexto social. No entanto, o ambiente escolar em si desempenha um papel crucial no comportamento dos estudantes, daí a necessidade de procurar caminhos no enfrentamento da mesma. Araújo (1996), ressalta a necessidade urgente de uma transformação na maneira como os educadores lidam com a indisciplina na afirmativa,
Enfrentar as indisciplina da vida, portanto exige dos profissionais da educação uma nova postura, democrática e dialógica, que entenda os alunos não mais como sujeitos subservientes ou como adversários que devem ser vencidos e dominados. O caminho é reconhecer os alunos como possíveis parceiros de uma caminhada política e humana que almejam a construção de uma sociedade mais justa, solidária e feliz. As relações na escola devem ser de respeito mútuo, a diversidade dos interesses pessoais e coletivos devem ser valorizados, e a escola deve buscar construir uma realidade que atenda aos interesses da sociedade e de cada um de seus membros (Araújo, 1996, p.232).
Dessa forma, a presente investigação bibliográfica se propõe a lançar luz sobre o potencial transformador da Comunicação Não Violenta no contexto educacional. Acredita-se que a reflexão sobre os princípios e a aplicação da CNV possa contribuir significativamente para a construção de um futuro da educação mais humano e conectado, combatendo assim a indisciplina escolar.
COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA E O AMBIENTE ESCOLAR: IMPACTOS NAS RELAÇÕES E NA INDISCIPLINA
A Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg, é uma abordagem de comunicação que busca promover a empatia e a conexão entre as pessoas, visando à resolução pacífica de conflitos e a construção de relacionamentos mais autênticos e colaborativos reforçando o objetivo de “estabelecer um relacionamento baseado na sinceridade e na empatia.” (Rosenberg, 2006, p. 122). Em essência, a CNV nos convida a nos expressarmos e a ouvirmos os outros de uma maneira que fortaleça a compreensão mútua e nos ajude a atender às necessidades de todos os envolvidos. Ela se baseia na ideia de que por trás de todo comportamento, mesmo aqueles que nos parecem agressivos ou negativos, existem necessidades humanas universais não atendidas.
A forma como nos comunicamos tem um impacto direto e significativo em nossos relacionamentos, de acordo com (Rosenberg , 2006, p. 21 e 22): “Nossa comunicação em vez de serem reações repetitivas e automáticas, tornam-se conscientes e baseadas na consciência do que estamos percebendo, sentindo e necessitando. Somos levados a nos expressar com clareza, respeito e empatia”. Em um mundo onde muitas vezes as conversas são superficiais ou carregadas de julgamentos, essa abordagem nos lembra do potencial da comunicação consciente para transformar nossos relacionamentos, tornando-os mais nutritivos e harmoniosos.
Acredita-se que a CNV, ao promover a escuta empática e a expressão autêntica, seja capaz de construir pontes de confiança, reduzir a ansiedade e aumentar a abertura para o aprendizado, contribuindo para um ambiente escolar mais acolhedor e colaborativo.
À medida que a CNV substitui nossos velhos padrões de defesa, recuo ou ataque diante de julgamentos e críticas, vamos percebendo a nós e aos outros, assim como nossas intenções e relacionamentos, por um enfoque novo. A resistência, a postura defensiva e as reações violentas são minimizadas (Rosemberg, 2006, p.14).
Ao invés de relações hierárquicas baseadas em autoridade e obediência, essa comunicação incentiva um diálogo mais horizontal e respeitoso. Professores que praticam a comunicação não violenta tendem a compreender as motivações por trás dos comportamentos dos alunos, construindo um vínculo mais forte.
O bem-estar psicológico só é possível quando uma pessoa se sente pertencente, com autoestima elevada, com uma identidade fortalecida e saudável e com suas capacidades intelectuais, físicas, emocionais e sociais resolvidas, somente então, nós, seres humanos, somos cidadãos interdependentes. Quer queiramos ou não, nosso destino está interligado (Holanda, 2020, p. 195).
A visão de Holanda (2020), nos convida a pensar no bem-estar psicológico não apenas como uma meta individual, mas também como um elemento essencial para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e funcional. Investir na saúde mental dos professores e alunos é, em última análise, investir no bem-estar de todo ambiente escolar.
Uma comunicação que nutre o vocabulário emocional dos alunos, munindo-os com as ferramentas para identificar, expressar e navegar por suas próprias emoções e as dos outros, tem o potencial de cultivar a inteligência emocional, fortalecendo o psicológico tanto dos alunos, como dos professores que se encontram no centro dos conflitos escolares. Essa habilidade, fundamental tanto na esfera pessoal, também pode ser um farol na resolução de conflitos e na diminuição da indisciplina. Afinal, ao abordar os conflitos com a lente das necessidades de todos, abrimos caminho para soluções mais colaborativas e perenes, considerando que a indisciplina, em muitos casos, é o grito silencioso de necessidades não satisfeitas.
Podemos notar que tradicionalmente a indisciplina era interpretada simplesmente como uma questão comportamental do aluno, diante da situação de aprendizagem e outros aspectos importantes eram negligenciados (Barbosa, 2009, p. 8).
Barbosa (2009), busca uma compreensão mais holística da indisciplina, considerando a complexidade dos fatores envolvidos e a importância de desenvolver a inteligência emocional como uma ferramenta para lidar com os desafios comportamentais de forma mais construtiva. Para Garcia (1999), diversos aspectos do cotidiano escolar podem contribuir para o surgimento ou a intensificação de comportamentos indisciplinados, comentando que as
causas encontradas no interior da escola, por sua vez, incluem o ambiente escolar e as condições de ensino-aprendizagem, os modos de relacionamento humano, o perfil dos alunos e sua capacidade de se adaptar aos esquemas da escola. Assim, na própria relação entre professores e alunos habitam motivos para a indisciplina, e as formas de intervenção disciplinar que os professores praticam podem reforçar ou mesmo gerar modos de indisciplina (Garcia,1999, p.104).
É inegável que a comunicação é o processo primordial de toda construção interativa. Marchiori (2008, p. 83), destaca essa importância ao dizer que “[…] uma organização é uma mini sociedade formada por construções sociais” , aplicando essa perspectiva ao espaço escolar, podemos observar que a escola, assim como uma organização, funciona como uma mini sociedade formada por construções sociais. Essa lente nos ajuda a entender dinâmicas que muitas vezes não percebemos, entre elas, a comunicação, já que, é através dela que essas construções sociais são estabelecidas, negociadas e transformadas. Um diálogo aberto e respeitoso entre alunos e professores pode influenciar positivamente a cultura escolar.
Pensando na aplicação da Comunicação Não Violenta no contexto escolar, podemos apontar outras áreas cruciais onde essa abordagem pode fazer uma diferença significativa, como na interação entre alunos para resolução de conflitos, construção de empatia, prevenção do bullying, na comunicação entre a escola e os pais/responsáveis, entre outras. A CNV atua como um modo de direcionar o conflito para uma possível transformação, segundo Rosenberg (2006), que também afirma:
Podemos então reconhecer o elemento de escolha em todas as nossas ações. Ao mostrar como nos concentrarmos naquilo que realmente desejamos, em vez de naquilo que há de errado com os outros ou com nós mesmos, a CNV nos dá as ferramentas e a compreensão de que precisamos para criar um estado mental mais pacífico (Rosemberg, 2006, p. 246).
Wallon (1954), nos convida a pensar no desenvolvimento afetivo como um processo complexo e multifacetado, onde a natureza e a cultura se entrelaçam de forma constante, e onde o próprio indivíduo tem um papel ativo na construção da sua trajetória e relata que:
A afetividade é um domínio funcional, cujo desenvolvimento depende da ação de dois fatores: o orgânico e o social. Entre esses dois fatores existe uma relação recíproca que impede qualquer tipo de determinação no desenvolvimento humano, tanto que a constituição biológica da criança ao nascer não será a lei única do seu futuro destino. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias sociais da sua existência onde a escolha individual não está ausente (Wallon,1954, p. 288).
Essa ideia de relação recíproca que impede qualquer tipo de determinação é crucial. Ela nos lembra que o ser humano não é um mero produto da sua biologia, nem uma folha em branco à mercê do social. A constituição orgânica da criança oferece um ponto de partida, mas as experiências sociais têm um poder transformador sobre como essa afetividade se desenvolve.
Vislumbra-se a escola como um microcosmo social onde as crianças e adolescentes vivenciam uma ampla gama de interações que moldam seu desenvolvimento afetivo. A forma como essas interações são mediadas pela comunicação tem um impacto profundo. Em um ambiente onde a CNV é praticada, as interações tendem a ser caracterizadas pela afetividade.
A adoção da CNV no ambiente escolar pode gerar uma série de benefícios transformadores como o fortalecimento da confiança e do vínculo já que, a escuta empática e a expressão autêntica, criam um ambiente de segurança emocional onde alunos e professores se sentem mais à vontade para serem vulneráveis e para construir relações genuínas, o que melhora o clima escolar, dessa forma, uma comunicação baseada no respeito e na compreensão mútua contribui para um ambiente mais acolhedor, colaborativo e menos propenso a conflitos destrutivos, reduzindo assim a indisciplina, através da compreensão das necessidades por trás dos comportamentos desafiadores e torna possível abordar as causas, de forma mais eficaz, buscando soluções que atendam às necessidades de todos, em vez de apenas punir o sintoma.
Apesar dos inúmeros benefícios, inserir essa comunicação no ambiente escolar pode enfrentar desafios, como a necessidade de formação adequada para professores e funcionários, a resistência a novas abordagens, a falta de tempo e a própria cultura comunicativa já estabelecida na instituição, todavia a CNV nos oferece quatro pilares que a sustenta que podem ser adaptados e aplicados de maneira poderosa no contexto educacional, são eles: Observação, Sentimentos, Necessidades, Pedido.
Na observação sem Julgamento, ao invés de rotular ou interpretar o comportamento de um aluno com comentários do tipo (“Ele é preguiçoso”, “Ela é desrespeitosa”), a CNV nos convida a observar os fatos concretos, com outra forma de falar, (“Ele não entregou o trabalho na data combinada”, “Ela interrompeu a fala do professor”). Essa distinção entre observação e avaliação abre espaço para uma compreensão mais objetiva da situação. Na identificação e expressão dos sentimentos, reconhecer e nomear os próprios sentimentos e os dos outros em relação à observação é crucial em vez de expressar julgamentos disfarçados de sentimentos, para que a identificação das necessidades escondidas por trás de todo sentimento como: (segurança, pertencimento, autonomia, respeito, aprendizado, etc.).
A CNV nos convida a identificar quais necessidades estão sendo atendidas ou não atendidas, tanto em nós quanto nos outros, a indisciplina, por exemplo, pode ser uma tentativa de atender a necessidades de atenção, de autonomia ou de reconhecimento, uma vez identificadas, a CNV nos orienta a fazer pedidos claros, específicos e realizáveis, expressando o que gostaríamos que acontecesse. É importante distinguir um pedido de uma exigência, pois tal pedido deixa espaço para a negociação e para a consideração das necessidades do outro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, a Comunicação Não Violenta, conforme delineado por Marshall Rosenberg e enriquecido pelas perspectivas de outros autores, emerge como uma abordagem promissora e transformadora para o ambiente escolar. Ao priorizar a empatia, a escuta ativa e a expressão autêntica das necessidades, a CNV oferece um caminho para construir relacionamentos mais genuínos e colaborativos entre alunos, professores e toda a comunidade educativa.
A aplicação dos seus quatro pilares: observação sem julgamento, identificação e expressão de sentimentos, reconhecimento das necessidades e formulação de pedidos claros, tem o potencial de desconstruir padrões de comunicação baseados em julgamentos e críticas, abrindo espaço para a compreensão mútua e a resolução pacífica de conflitos. Ao reconhecer que por trás de todo comportamento, inclusive a indisciplina, existem necessidades humanas universais não atendidas.
Embora a implementação da CNV possa apresentar desafios, como a necessidade de formação e a resistência a mudanças, os benefícios potenciais, incluindo o fortalecimento da confiança, a melhoria do clima escolar, a redução da indisciplina e o desenvolvimento da inteligência emocional justificam o esforço. A CNV não é apenas uma técnica de comunicação; é uma filosofia que alinha a interação humana com os princípios da empatia e do respeito, contribuindo para a construção de um ambiente escolar mais acolhedor, justo e propício ao desenvolvimento integral de todos os seus membros. Em última análise, investir na CNV no contexto escolar é investir no bem-estar psicológico e social das futuras gerações e na construção de uma sociedade mais compassiva e colaborativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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