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Resumo
INTRODUÇÃO
A Análise de Discurso Crítica (ADC) surge em meio à necessidade de fazer ouvir vozes que se encontram há muito tempo sob o véu do silêncio obscurantista. São vozes de pessoas antes oprimidas e agora, após um processo de transformação, com base em uma pedagogia para a libertação provocam tensões.
Nesse sentido, a Pedagogia da Alternância (PA) com seu princípio libertador, trabalha no processo de conscientização e libertação da pessoa do campo, do trabalhador há muito silenciado e encontra força nos movimentos sociais para promoção da resistência dos trabalhadores e trabalhadoras do campo que merecem o reconhecimento e respeito de direito de todas as pessoas.
PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA
A Pedagogia da Alternância tem sua origem entrelaçada às Escolas Famílias, portanto ao se discorrer sobre o histórico das EFAs desvela-se também a História e princípios da PA, embasadas nas ideias do educador Paulo Freire.
ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA: UM POUCO SOBRE SUA HISTÓRIA
A Escola Família Agrícola (EFA) consiste na pedagogia da alternância, voltada para educação da pessoa do campo, com base nos preceitos de Paulo Freire (1987), por uma pedagogia que liberta os oprimidos de uma condição de dominação social que lhes foi imposta e naturalizada através da ideologia das classes dominantes.
Trabalhar na Escola Família Agrícola (EFA) favorece a convivência de personalidades muito diferentes, devido a existência de uma clientela heterogênea advinda de várias localidades, idades, com várias profissões (muitos já trabalham para ajudar no orçamento familiar) e várias experiências de vida.
A instituição pode interferir diretamente no funcionamento da rotina da família dos alunos, da escola e da comunidade na qual a escola se situa e na comunidade do educando, visto que o funcionamento que vigora é em formato da Pedagogia da Alternância (PA), ou seja, o educando fica na escola durante quinze dias ininterruptos, em alojamento apropriado, no qual contém um feminino e outro masculino, e recebe todas as refeições necessárias no dia, com base em um cardápio elaborado por nutricionistas da rede estadual.
A rotina da instituição, baseada na PA, consiste em aulas regulares do currículo do ensino médio, acrescidas das disciplinas do curso técnico em zootecnia, portanto os educandos assistem às aulas nos turnos da manhã e da tarde, tendo durante o turno da noite o que chamam de “serão”, no qual um tema social é abordado de maneira lúdica. Esses quinze dias constituem uma “sessão escolar”, o que seria equivalente a um mês de aula em uma escola regular.
Os outros quinze dias do mês constituem a sessão familiar, na qual os alunos levam para casa atividades de pesquisa sobre a história, o funcionamento, os movimentos ou os programas governamentais que ajudam a gerar renda na comunidade na qual os discentes moram. Essas atividades recebem o nome de Plano de Estudo (PE), que vigora no primeiro e segundo anos do ensino médio.
No terceiro ano é realizado o Projeto Profissional do Jovem (PPJ), que consiste na prática do PE, isto é: a realização de um projeto relacionado ao curso, como cultivo de horta, criação de animais de pequeno porte, manutenção de aviários, dentre outras possíveis atividades, com o objetivo de ajudar na subsistência da família, depois pode ampliar com o auxílio de algum programa governamental para ajudar, também, a melhorar a comunidade.
Nessa série os meninos são obrigados a realizarem um estágio que pode ser dentro da escola ou em alguma instituição parceira, como a Universidade Federal do Piauí, a Embrapa, as Cooperativas de aves, dentre outras instituições.
Na instituição encontram-se os profissionais da educação designados por monitores, tanto os gestores, quanto vigilantes e professores, são chamados dessa forma, visto que é uma maneira de deixar os funcionários responsáveis de forma igualitária pelo funcionamento da instituição e para equiparar todos os profissionais diante dos discentes. Eles são chamados assim, também, pelo fato de monitorarem os estudantes, visto que os monitores, além de ministrarem as aulas, trabalham em tempo integral desenvolvendo atividades para além da sala de aula, que são as chamadas aulas práticas, as quais consistem em conciliar o conteúdo teórico dos livros com a realização propriamente dita.
De acordo com Costa e Santos (2010), o modelo de escola família é baseado nas escolas Maisons Familiales Rurales (MAISONS) fundadas em 1935 na França, com o objetivo de suprir a necessidade educacional de famílias rurais que encontravam dificuldades com o acesso às escolas e na permanência dos alunos no ambiente escolar. O italiano Padre Humberto Pietrogrande (1935- 2015), em uma viagem missionária ao Brasil, fundou o Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES) iniciando no país os trabalhos com a Pedagogia da Alternância.
As Escolas Famílias do Piauí são administradas pela Fundação Padre Antônio Dante Civieiro (FUNACI). Essa fundação foi criada com o objetivo de promover caridade, prestação de serviços de assistência à saúde e à promoção da educação para pessoas carentes. A Primeira EFA do Estado está localizada no município de Aroazes e vigora desde 1986, com o intuito de diminuir o êxodo rural e de subsidiar o sustento das famílias em suas próprias terras.
As EFAs seguem o modelo da Pedagogia da Alternância, que consiste na aplicação de forma prática das teorias, sendo que essas teorias devem ter como base palavras que Freire chamou de “geradoras”. Seriam geradoras do tema/problema, pois evidenciariam um tema da convivência da realidade do próprio aluno, algo com que o sujeito tenha contato cotidianamente e que, por ser algo habitual, já seja considerada naturalizada. Como nos mostra no livro Pedagogia da Alternância (Freire, 1996), essa naturalidade das coisas se deve, na verdade, à falta de consciência crítica.
Um fato bastante enfatizado pelo fundador das EFAs era o de buscar a valorização dos camponeses. Para isso era necessário a práxis de harmonizar teoria e prática. Essa práxis é definida por Freire como: “reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (Freire, 1996, p. 21), portanto, essa teoria deveria tratar de fatos da realidade desse alunado.
Para isso, o discurso dos profissionais deve ir ao encontro dessa busca, da libertação dos sujeitos, da valorização de seu trabalho. Essa valorização pode acontecer no sentido de os alunos sentirem-se bem na busca por meios de trabalharem para e junto com a família, dentro de sua comunidade.
O discurso, então, tem o papel de fazer com que os discentes comecem a se reconhecer como sujeitos capazes de promover a transformação em seu meio, em sua comunidade escolar, ou na comunidade na qual moram e/ou trabalham. O conhecimento e o saber agem como ferramentas que favorecem a promoção dessa libertação de si mesmo das ideologias historicamente aceitas e, assim, esses estudantes terão condições de pensar e buscar melhorias para si e para o ambiente onde vivem.
Porém, ao promoverem um discurso diferente, os educadores vão de encontro a uma ideologia que aprisiona sujeitos em papéis sociais definidos historicamente, isto é, ideologia como ideias prontas, passadas de geração a geração como se fossem imutáveis, inquestionáveis, quando na verdade, são efêmeras, pois não possuem base ética para existir.
Dentro desse modelo de sociedade, no qual os sujeitos da zona rural e de periferia, público das EFAs, sofrem um tipo de alienação, têm sua voz silenciada ou distorcida, quando o dizer se torna “querer dizer” e outras vozes de lugares notórios na sociedade surgem dando outros significados para as palavras desses atores sociais do campo, e esses outros significados abrem margem para a exclusão, e são impedidos através das “proibições” para que as massas populares não promovam desordem e continuem em seu estado de inércia (Freire, 1987).
Nesses termos, a Análise de Discurso Crítica (ADC) como aliada nos estudos desses discursos fornece subsídios para desvelar alienação ideológica, e no que concerne à proposta da Pedagogia da Alternância, pode auxiliar no processo de formulação da consciência crítica do oprimido, para então perceber-se como sujeito e descobrir-se livre na busca por meios de agir no mundo e saber que pode trabalhar para transformar o meio social em prol de promover o bem a si mesmo e a uma comunidade.
TRAJETO HISTÓRICO DA ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA
No início do século XX, as tendências teóricas surgem da necessidade de mudança social, em resposta a ações e decisões políticas que tiravam a liberdade dos cidadãos. Porfírio (2020), informa que entre 1914 e 1918 sofremos com a 1ª guerra mundial e em 1929 a crise econômica de 29, nesses termos surge a escola de Frankfurt, uma das escolas mais atuantes e influenciadoras do século XX para a formação de teorias científicas.
Neste ponto começa-se a perceber a importância histórica de Marx para a humanidade e principalmente nas ciências linguísticas. Segundo Porfírio (2020), essa escola foi idealizada inicialmente com a primeira semana de trabalho marxista, um encontro entre filósofos que visava discussões sobre o marxismo adaptado a questões do século XX. Em 1922 recebe o nome de Instituto de Pesquisa Social, mas já em 1933 foi fechado pelo governo nazista, e passou a funcionar em Genebra. Somente na década de 1950 recebe o nome de escola de Frankfurt.
O autor supracitado relata que a escola surgiu em 1922, sob o nome de Instituto de Pesquisa Social, tem sua origem embasada na crítica à sociedade que ainda tenta levar os ideais iluministas e na análise social sob o foco do marxismo adaptado ao século XX, nesses termos estabelece a teoria crítica, com o objetivo de superar as falhas do iluminismo e do positivismo, que acreditavam no desenvolvimento moral da sociedade através da divulgação em massa do conhecimento científico e tecnológico. Essa teoria se legitimou com a publicação de “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”, escrito por Max Horkheimer entre 1932 e 1942 na Revista de Pesquisa Social.
Ferdinand de Saussure (1857-1913), também revolucionou nessa época, sua importância hoje notória pelo fato de ter quebrado o tradicionalismo dos estudos comparativos das línguas naturais. De acordo com Santos e Santos (2016), o genebrino supera os estudos que vigoravam no século XIX, introduzindo a descrição sincrônica como prioritária nos estudos em detrimento da Diacrônica que era utilizada na linguística comparativa, inaugurando, assim, a Linguística Moderna.
A língua ganha espaço com o estudioso suíço para se concretizar enquanto objeto de estudo apenas no início do século XX, com a publicação do livro póstumo de Ferdinand de Saussure: Curso de linguística Geral, publicado em 1916. O livro abre caminho para a oficialização da “Linguística” enquanto ciência e aborda a língua sob a perspectiva estruturalista, como objeto em si e por si.
Ingedore Koch (2013), a esse respeito, apresenta ao leitor a informação de que, ainda no início do século XX, após o surgimento da linguística estrutural, recebeu do pesquisador suíço essa terminologia porque a língua era analisada como forma e estrutura. Tem o surgimento da linguística gerativista de Chomsky, essa corrente aborda o inatismo para explicar a língua natural no homem e, apesar de apresentarem diferenças, ambas descrevem a língua como sistema, fora de qualquer contexto de uso. Tem-se, então, de acordo com Santos e Santos (2016), o grande pólo formado por essas duas grandes tendências teóricas que é chamado de linguística formal.
Santos e Santos (2016), fazem referência também às concepções de três grupos de estudos que vigoraram entre as décadas 40 e 50 e adotam também o Estruturalismo Europeu, são: Escola de Genebra, Escola de Praga e Escola de Copenhague. O último grupo aproxima-se do estruturalismo de Saussure, porém excede seus limites porque acrescenta que a cultura é inerente à língua. Seus principais representantes são: Edward Sapir e Leonard Bloomfield.
Conforme as autoras supracitadas, o primeiro e o segundo grupos citados, embora apresentem uma abordagem da língua como sistema, diferenciam-se do Estruturalismo, por serem funcionais e por priorizarem os estudos Pragmáticos e Discursivos. Como grande contribuição, nos apresentam a diferença entre Fonética e Fonologia. Seus principais representantes são: Nikolai Trubetekoy e Roman Jakobson. Este mais tarde destacaria-se pela teoria da comunicação, na qual descreve as seis funções da linguagem.
Ainda no século XX, os estudos evoluem para o surgimento de uma linguística preocupada com a língua em uso, isto é, que considera a situação real de comunicação e as relações entre forma e função, em decorrência desses fatores é chamada de linguística do discurso (ou funcional). Santos e Santos (2016), afirmam que esse polo da ciência considera os aspectos sociointeracionais na análise linguística, isso provocou a culminância no surgimento de novas vertentes nos estudos da linguagem.
A partir dos termos supracitados, conforme Santos e Santos (2016), surgem novas perspectivas com teorias e métodos diferentes das vertentes formalistas (Estruturalismo e Gerativismo), pois trabalham a língua em uso, dentre as quais podemos citar a sociolinguística variacionista, que ganhou força com a liderança de Labov nos Estados Unidos, na década de 60. Durante os anos 70 com Lakoffe e Fillmore na Califórnia surge a Cognitiva, mais tarde chamada de sociocognição, na qual aparecem os teóricos Lakoff, Langacker, Fauconnier, Turner, Sweetser, Salomão.
Brandão (2003), aborda que em 1951, já sob a influência dos princípios da linguística do discurso, Bally formula o problema da enunciação, seguido por Harris, que em 1952 publica Análise do Discurso, trabalho que aborda a análise dos enunciados e também foca na presença do sujeito.
Ainda conforme Brandão nos lembra que Jean Dubois (1920 – 2015) e Michel Pêcheux (1938 – 1983), sentindo a necessidade de uma tendência teórica para além dos limites estruturalistas nas ciências humanas, resolvem focar na enunciação e abordar o âmbito político, esse é o diferencial entre o ponto determinante para formação da Análise de Discurso (AD). É importante lembrarmos que no final da década de 60 e início da década de 70, o mundo passa por um período de transição política, econômica e social, as grandes potências econômicas sofrem transformações decorrentes dos movimentos de manifestações culturais, porque a população exige mais participação política. Há uma sensação de liberdade na sociedade envolvente, conforme informa Gonçalves (2016). Essas transformações também tomam conta das ciências sociais.
É nesse contexto que Michel Pêcheux encontra um cenário propício para introduzir uma nova tendência teórica acerca da evolução dos estudos sobre discurso, ocorre o que Orlandi (2020, p. 17) chamou de “ruptura com o século XIX”.
Em 1969 Pechêux publica o livro Análise Automática do Discurso e a partir de então nasce uma vertente chamada Análise de Discurso francesa, que está relacionada a três “domínios disciplinares” (Pechêux, 1969, p.17), a saber: a Linguística, o Marxismo e a Psicanálise.
A Psicanálise baseada nos preceitos de Jacques Lacan (1901 – 1981), cientista que fez uma releitura de Sigmund Freud (1856 – 1939) e adaptou a ciência ao século XX. De acordo com Eni Orlandi (2020, p. 17), a contribuição da Psicanálise à AD é o deslocamento da noção de homem para a de sujeito. Este, por sua vez, se constitui na relação com o simbólico, na história”.
Pêcheux, segundo Brandão (2003), consolida a primeira fase da Análise de Discurso francesa, diante do materialismo histórico atribuído aos estudos do discurso. Em 1975 inicia a segunda fase na qual Pêcheux sente a necessidade de nova mudança, essa necessidade emerge das transformações que estão ocorrendo no contexto político e teórico na França. A autora acrescenta que há uma crise nas linguísticas formais e uma pragmática da filosofia da linguagem se consagra apesar de sua chegada tardia. A partir disso, o pesquisador francês resolve, então, reformular sua teoria sobre as Formações Discursivas.
De acordo com a autora acima citada, em 1979, com base nas ideias de Bakhtin (no ocidente), a linguagem assume na AD uma dimensão sócio interacionista, assentada na concepção de que toda palavra é dialógica por natureza. Posteriormente, ainda com influência Bakhtiniana acrescenta-se a noção de polifonia.
Conforme Brandão (2003), já em 1982, J. Authier dá continuidade na evolução dos estudos da AD, colocando a linguagem como constitutivamente heterogênea. Com esse deslocamento teórico e metodológico acerca do objeto de estudo (discurso), o sujeito agora é estudado também através de sua memória discursiva. Pêcheux configura sua teoria da Análise de Discurso francesa, até hoje muito estudada, na qual podemos perceber sua difusão com diferentes tendências de abordagem.
Pode-se perceber, através dos fatos supracitados, que a AD influenciou o surgimento de novas perspectivas acerca do discurso, uma delas foi a Análise de Discurso Crítica, vertente a ser utilizada nesta pesquisa, e que, embora tenha seu objeto de estudo definido, é comumente confundida com a Linguística crítica (LC).
Em decorrência dessa confusão, se faz algumas considerações acerca dos fatos históricos nos quais se concretizaram essas correntes a fim de diferenciá-las.
Silva e Silva (2017), relatam que a linguística crítica surge na década de 70, como sistêmico-funcional, a partir da proposta de semiótica social de Michael Halliday, na Grâ-Bretanha, com a tentativa de promover a conjugação entre a análise linguística textual e uma teoria social, com atenção ao uso da língua em situações políticas e ideológicas.
Silva e Silva (2017), esclarecem que no final dos anos 70, Gunther Kress dá continuidade à semiótica social de Halliday e extrapola seus limites para chegar até a ACD, aprofundando seus estudos e posteriormente, ao lado de van Leeuwen fundando a Gramática do Design Visual (GDV), fundamentada no uso da Gramática sistêmico-funcional na análise de imagens.
As autoras supracitadas ressaltam a pesquisa desenvolvida em Language and control publicado em 1979, junto com os trabalhos desenvolvidos no Journal of Pragmatics por Fairclough em 1985, (este denominou de Análise de Discurso Crítica-ADC- em detrimento a ACD) e adicionadas às divulgações da LC, abrem caminho para o surgimento de uma vertente preocupada com as relações de poder disseminadas ou mantidas através do discurso, assim se tem um dos pressupostos para uma futura vertente denominada Análise Crítica de Discurso (ACD), considerada nesse primeiro momento como continuação da Linguística Crítica (LC) e como campo transdisciplinar derivado da Linguística.
As autoras revelam que esse estudioso reforça a afirmação da nova vertente com a formulação do método conhecido como “Análise de Discurso Textualmente Orientada” (ADTO), que é o postulado mais utilizado nessa vertente, e que é baseado na Teoria Social do Discurso e na análise das relações entre discurso e as outras práticas sociais. Neste postulado, a perspectiva tridimensional do discurso – texto, prática discursiva e prática social – é apresentada com mais veemência e detalhes.
Conforme Silva e Silva (2017), só algum tempo depois, em 1991, um grupo de linguistas se encontrou em Amsterdã na Holanda, pois compartilhava do mesmo sentimento de necessidade em criar um método dinâmico para analisar a linguagem de forma crítica, relacionando-o às teorias linguísticas e às ciências sociais, abordando os pontos de intersecção e os possíveis desdobramentos entre elas.
Esse encontro foi possível graças às discussões ocorridas entre grandes estudiosos da língua. Segundo as autoras, em 1990 aconteceu o lançamento da revista Discourse and society, idealizada pelo estudioso da língua van Dijk. Esse lançamento contou com a publicação de compilações das discussões ocorridas no grupo sobre crítica do discurso, promovendo a divulgação da ACD. Esse evento histórico marca o início do grupo, que se consolidou em Amsterdã um ano após o evento, pois obteve alcance internacional.
Van Dijk, como afirmam as autoras acima, junto com Fairclough e Kress, foi um dos maiores divulgadores da ACD, desenvolveu trabalhos nos quais interligou essa área com a Linguística Textual, e “estudos da cognição social”. Buscou também em suas pesquisas ouvir a voz dos excluídos socialmente.
Conforme as autoras supracitadas, apesar de os estudiosos desse grupo divergirem nas preferências investigativas, os pontos convergentes, dentre eles a noção tridimensional do Discurso, a saber, texto, prática discursiva e prática social, proporcionaram o surgimento do grupo de intercâmbio denominado ERASMUS, que perdurou por três anos a partir do encontro ocorrido em 1991 e ajudou na divulgação dos ideais dessa vertente. Além disso, ajudou na promoção de simpósios anuais para debates acerca da nova corrente teórica.
No Brasil, essa vertente possui duas nomenclaturas: Análise Crítica de Discurso (ACD) e Análise de Discurso Crítica (ADC), ambas têm os mesmos princípios, porém a nomenclatura diferencia-se na ordem das palavras por questões regionais. Barros (2018), traz a informação de que Fairclough publicou um livro com o título Language and Power, obra na qual se convencionou chamar a essa proposta de ADC. No Nordeste, a preferência é pela ADC, nomenclatura que se adota nesta pesquisa.
Desse modo, pode-se verificar a formação da ADC, cuja terminologia no Brasil está em conformidade com os avanços obtidos nas pesquisas dos estudos acerca do discurso no Brasil, que constitui a Análise de Discurso (AD), como explica a pesquisadora Magalhães (2005) da Universidade de Brasília, responsável pela introdução dessa vertente no Brasil desde 1985.
A pesquisadora encontra-se em um cenário político muito delicado, a necessidade de mudança na perspectiva das análises de discurso encontra uma base na sociedade, visto que o momento social exige mudanças e a ADC busca isso: meios de transformações sociais. Nesse momento, mais uma vez, é importante lembrar alguns fatos históricos ocorridos no Brasil: o ano de 1985 é constituído de muitas mudanças sociais, políticas e econômicas que impulsionaram a introdução de uma nova abordagem como maneira de discutir as relações sociais através do discurso.
A respeito do cenário no país, O Agência Brasil (2015) relata que Tancredo Neves derrota o candidato dos militares (Paulo Maluf). Ainda que de forma indireta, essa eleição representou para o país o fim de quase 21 anos de ditadura militar, porém com a doença que o acometia, o então presidente eleito foi internado um dia antes de tomar posse, 14 de março, vindo a óbito no dia 21 de abril. Seu vice, José Sarney assumiu a presidência e para acalmar os ânimos da população honra com os compromissos firmados pela Aliança Democrática, e institui o Estado democrático de direito, através da Assembleia Constituinte, dando início a Nova República.
Foi nesse meio que a pesquisadora Magalhães passou a desenvolver suas pesquisas em ADC e até hoje faz publicações embasadas nessa abordagem a fim de firmá-la como teoria. Para esse fim, a corrente crítica conta com bases filosóficas fundamentadas em teorias historicamente consolidadas.
O embasamento filosófico para formação da Análise de Discurso Crítica, de acordo com Barros (2018), se deve ao marxismo ocidental ligado à Escola de Frankfurt, já comentada acima, na filosofia da linguagem (gêneros discursivos e dialogismo), Bakhtin (1895 – 1975), e na teoria social do discurso idealizado por Michel Foucault (1926 – 1984).
Barros (2018, p. 42), também nos informa que o realismo crítico, movimento filosófico fundado por Bhaskar (1944 – 2014), tem sua contribuição para os ideais da ADC, “por considerar o mundo social como um sistema aberto, em constante transformação”.
De acordo com Resende e Ramalho (2006), te-se, ainda, a influência do conceito de hegemonia (universalização do particular) elaborado por Gramsci (1891- 1937), no qual é defendido que o poder de dominação não estaria restrito somente aos aparelhos ideológicos, iria além deles, os dominantes através de um sistema perpetuariam uma educação submissa às classes dominantes.
As autoras acima estão em conformidade com o conceito de identidade de Thompson (1951), atualmente professor da Universidade de Cambridge, que complementa a definição de ideologia de Foucault. Também a proposta metodológica Hermenêutica da profundidade formulada por ele e publicada no livro: Ideologia e cultura moderna, publicado em 1990, tendo sua primeira tradução para o português em 1995.
As autoras também retratam a participação de Chouliaraki, que juntamente com Fairclough entendem que há várias dimensões da vida social, cada uma com efeitos gerativos nos eventos, são as dimensões: físicas, químicas, biológicas, econômicas, sociais, psicológicas e linguísticas.
Como expresso anteriormente, esse termo foi utilizado pela primeira vez em 1985, por Norman Fairclough, professor emérito na Universidade de Lancaster, que analisa a linguagem com o intuito de compreender as causas das desigualdades sociais e de posicionar-se contra elas e, ainda, de procurar maneiras dos sujeitos que se encontram em situação de opressão ou de submissão conscientizarem-se de sua situação e buscarem condições de transformar essa realidade, segundo informações de Batista, Sato e Melo (2018).
Contudo, algumas ideias da ADC já existiam e eram comentadas com a crítica à sociedade. Segundo Melo (2018), o termo criticidade, palavra de ordem da ADC, ganhou mais notoriedade na Alemanha, no início do século XX, com a Escola de Frankfurt de orientação marxista, como explicitado acima, orientação essa responsável por sistematizar as primeiras teorias críticas sobre a sociedade de consumo.
Melo (2018), confirma que houve em 1991 a reunião de alguns intelectuais em um simpósio que reuniu nomes como: Teun Van Dijk, Gunther Kress, Ruth Wodak, Theo Van Leeuwen e Norman Fairclough, em Amsterdam para discutir a linguagem como ferramenta de conscientização e de transformação social. Cada pesquisador enveredou por uma abordagem peculiar, sem obscurecer a principal intenção do encontro, as opiniões diferentes proporcionaram a formação de três abordagens principais, a começar pela sociocognitiva, representada principalmente por Teun Van Dijk, utiliza os estudos da psicologia social e a teoria das representações sociais.
Outra vertente é a gramática do design visual (GDV) de Gunther Kress e Theo Van Leeuwen, cujo enfoque é na semiótica social em textos da sociedade contemporânea. Essa perspectiva estuda “a manipulação ideológica nos sistemas de imagem existentes na sociedade atual…” (Melo, 2018, p.30).
A terceira abordagem, em conformidade com Melo (2018) é a histórico-discursiva (AHD), também chamada de escola de Viena, e tem como maiores nomes Ruth Wodak e Martin Reisigl. Essa abordagem pesquisa no campo argumentação e da retórica dos discursos institucionais tratando-os em uma perspectiva sociolinguística e histórico-discursiva.
Uma quarta abordagem, é a Dialético-relacional, fundada por Norman Fairclough, na qual o foco está no uso da linguagem na vida social, tendo em vista que as estruturas e instituições limitam esse uso através de ideologias, representantes de símbolos de poder. Essa abordagem visa ao desvelamento de práticas hegemônicas a partir dos discursos. De acordo com Araújo e Turolo-Silva (2014, p. 176)
Orientado pelo estudo do texto, Fairclough (op.cit.) propõe estudá-lo como a instância real de uso da língua por meio de uma análise com base na Linguística Sistêmico-Funcional (doravante LSF) hallidiana que, por sua vez, preocupa-se com a relação entre a língua e os outros elementos e aspectos da vida social, considerando sua forma, seus significados e seus efeitos.
Com este artigo, além de compreender as bases históricas dessa vertente, é possível perceber, também, a relevância de uma abordagem crítica a partir da linguagem, para se detectar a origem de alguns problemas existentes na sociedade e, ainda, possibilitar o desenvolvimento de ferramentas, propiciando a autorreflexão dos sujeitos envolvidos no processo de submissão nos papéis sociais já quase naturalizados através de discursos que antevêem e pré-determinam a posição social de cada sujeito, levando-o aceitar essa realidade como inquestionável, acreditando que essa realidade é culturalmente naturalizada, portanto, sem necessidade de refletir sobre ela ou mesmo de transformá-la.
INTERSEÇÕES ENTRE ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA (ADC) E PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA (PA)
A PA visa a autonomia das pessoas, esse objetivo encontra respaldo e ganha força com a Análise de Discurso Crítica, visto que ambas corroboram para uma conscientização reflexiva e crítica para a promoção da libertação das pessoas oprimidas por essa sociedade hegemônica. Para esclarecer melhor esse diálogo entre PA e ADC, relata-se um pouco sobre suas histórias de origem. Com isso pode-se perceber como seus objetivos estão em pleno acordo e harmonia.
Escolhe-se a EFA por constituir-se como instituição de ensino-aprendizagem que garante acesso a conteúdos associados às práticas do campo (Práxis), com a implementação da Pedagogia da Alternância (PA), ao passo em que busca também propiciar instrumentos para a formação de opiniões dos(as) discentes, a partir do fomento à autorreflexão, proporcionando a autonomia.
Essa relação entre teoria e prática promovida através da PA vai ao encontro do pensamento de Freire no que se refere a promover nos(as) alunos(as) uma reflexão crítica, contudo, sem promover opiniões radicalistas, pois, segundo o autor: “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo” (Freire, 1996, p. 13). Essa reflexão crítica é fruto de uma mente autônoma, capaz de ver a si mesmo enquanto sujeito histórico em formação, com capacidade transformacional. Essa reflexão é instigada através de temas geradores, com base em Freire (1987), isto é, temas relacionados à realidade do campo, que seriam o início das discussões em todas as disciplinas durante uma sessão escolar.
A autonomia está nos moldes descritos por Freire (1996), no que se refere ao processo de amadurecer, com a humildade do ato de “vir a ser”, aprendendo todos os dias com a autorreflexão embasada na História, momento no qual a pessoa passa a perceber o meio onde vive e passa a criticar, no sentido de questionar, passa a ter curiosidade em saber mais e por quê. Passa a identificar-se como parte ativa de uma história em construção que pode ser transformada a partir de suas ações, percebe-se em situações enraizadas e naturalizadas de opressão, porém percebe-se também capaz de uma agenda transformadora.
No entanto, as ações de transformações sociais, e/ou culturais devem sempre ser atravessadas pela ética, pois a ética o impedirá de sair da situação de opressão e colocar-se como opressor, dando continuidade a um comportamento colonial, ou seja, preso à ideia de obedecer aos interesses do lucro exigido pela modernidade tardia, entendida aqui como institucional, porém que entrelaça a existência individual com seus traços radicalizados e emancipados através da globalização, conforme Giddens (1938).
As ações críticas, para alcançarem seus objetivos de forma pacífica e salutar, devem sempre ser permeadas pela ética “universal do ser humano” (Freire, 2002, p. 13), de modo que a criticidade de uma pessoa não a deixará cega para os direitos das outras. Assim, de acordo com nosso patrono da educação:
Mas, é preciso deixar claro que a ética de que falo não é a ética menor, restrita, do mercado, que se curva obediente aos interesses do lucro. Em nível internacional começa a aparecer uma tendência em acertar os reflexos cruciais da “nova ordem mundial”, como naturais e inevitáveis (Freire, 2002, p.13).
A EFA também busca, através de cursos de formação e realização de projetos junto a outras instituições educacionais e profissionais, propiciar autonomia intelectual dos(as) discentes em relação a uma possível visão hegemônica difundida através da ideologia, que legitima um lugar social predeterminado ao indivíduo do campo, submetendo-o a uma dominação oriunda da relação de poder legitimada. Tendo em vista isso, busca-se concretizar uma discussão salutar para o provimento de novas pesquisas acerca do assunto.
Portanto, a ADC e as ideias freirianas ligadas à PA, compartilham objetivos, apesar de serem oriundas de fundamentações teóricas diferentes, no entanto apresentam os mesmos anseios e buscam meios para a libertação dos oprimidos, pessoas que sofrem com injustiças sociais e atravessadas por ideologias que as escravizam para um sistema hegemônico. Seguem alguns exemplos de termos equivalentes entre as duas vertentes:
PA: Alienação; autocrítica; Autonomia; desvelar opressão; Ética universal; ideologias; libertação; oprimido; opressão; opressor; pedagogia crítica; práxis; poder e transformação social.
ADC: Alienação; crítica; posicionamento e agência (ação); desvelar o discurso da opressão; ética e justiça; ideologia e discurso; libertação; dominado; hegemonia; dominante; análise crítica; práxis; poder e mudança social.
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