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Resumo
INTRODUÇÃO
As doenças periodontais representam um conjunto de condições inflamatórias crônicas que acometem os tecidos de suporte e proteção dentária, principalmente a gengivite e a periodontite. Estas enfermidades, amplamente prevalentes na população mundial, têm ganhado destaque não apenas pelo impacto local sobre a cavidade bucal, mas sobretudo por suas interações com condições sistêmicas. A literatura contemporânea vem consolidando a existência de uma relação bidirecional entre a periodontite e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), uma das principais doenças metabólicas crônicas da atualidade (Sanz et al., 2018; Xavier et al., 2022).
O DM2, caracterizado pela resistência à insulina e disfunção progressiva das células β pancreáticas, afeta atualmente mais de 500 milhões de pessoas no mundo (IDF, 2023). Entre as complicações decorrentes do controle glicêmico inadequado, destacam-se as doenças cardiovasculares, renais, neurológicas e também os agravos periodontais. A periodontite, nesse contexto, emerge não apenas como consequência do DM2, mas como fator que agrava a desregulação metabólica, dada sua capacidade de induzir inflamação sistêmica crônica (Taylor & Borgnakke, 2013).
A liberação de citocinas inflamatórias como IL-1β, TNF-α e IL-6 em resposta à infecção periodontal influencia negativamente a sinalização da insulina, intensificando a resistência periférica. Simultaneamente, a hiperglicemia sustentada favorece a formação de produtos finais da glicação avançada (AGEs), os quais amplificam a destruição tecidual no periodonto por meio da ativação de receptores inflamatórios (RAGEs) (Mealey & Oates, 2006). Esse ciclo patológico bidirecional requer atenção especial por parte dos profissionais de saúde, principalmente na Atenção Primária.
Embora estudos indiquem que a terapia periodontal possa melhorar os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), permanecem lacunas quanto à magnitude, durabilidade e aplicabilidade desses resultados em contextos populacionais diversos (Rodrigues et al., 2020; Silva et al., 2023). Diante desse cenário, o presente trabalho propõe-se a analisar, por meio de revisão de literatura narrativa, as evidências disponíveis sobre a influência das doenças periodontais no controle glicêmico de pacientes com DM2, visando fomentar práticas clínicas integradas e subsidiar políticas públicas de saúde bucal no Sistema Único de Saúde (SUS).
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão de literatura narrativa com abordagem qualitativa, cujo objetivo foi analisar criticamente as evidências disponíveis sobre a relação entre doenças periodontais e o controle glicêmico em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 (DM2). A escolha pela revisão narrativa justifica-se pela necessidade de reunir, interpretar e discutir os principais achados científicos de forma integrada, permitindo uma compreensão ampliada da interação bidirecional entre essas duas condições crônicas.
A busca bibliográfica foi realizada entre os meses de [mês] e [mês], no ano de [ano], nas seguintes bases de dados eletrônicas: PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Scopus e Web of Science. Utilizaram-se os seguintes descritores controlados e não controlados, combinados com operadores booleanos: “doença periodontal” ou “periodontite” e “diabetes mellitus tipo 2” e “controle glicêmico” ou “hemoglobina glicada” ou “HbA1c”, em português, inglês e espanhol.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados e estudos de coorte publicados entre 2013 e 2024, com texto completo disponível e que abordassem, de forma direta, a relação entre condição periodontal e parâmetros de controle glicêmico em indivíduos com DM2. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, relatos de caso, dissertações não publicadas, estudos com animais ou que envolvessem exclusivamente pacientes com diabetes tipo 1.
Após a leitura dos títulos e resumos, os artigos potencialmente elegíveis foram analisados em texto completo. Os dados extraídos incluíram: autoria, ano de publicação, país de origem, delineamento metodológico, características da amostra, intervenções realizadas (quando aplicável), variáveis periodontais mensuradas (como profundidade de sondagem, perda de inserção clínica, índice de sangramento), medidas de controle glicêmico (HbA1c) e principais conclusões.
Os estudos selecionados foram organizados em categorias temáticas, com ênfase na análise crítica dos resultados e na identificação de convergências e divergências entre as evidências científicas. Essa abordagem possibilitou a construção de uma visão ampla e fundamentada acerca da interação entre saúde periodontal e controle metabólico em pacientes com DM2, oferecendo subsídios para práticas clínicas e políticas públicas interdisciplinares em saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As evidências reunidas nesta revisão de literatura reforçam, de maneira clara e consistente, a inter-relação entre doenças periodontais e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Trata-se de uma associação que transcende a coincidência epidemiológica, assumindo contornos fisiopatológicos relevantes e implicações clínicas concretas. A periodontite, enquanto condição inflamatória crônica, tem sido amplamente reconhecida como fator modificador do controle glicêmico, especialmente em pacientes com DM2, cuja homeostase metabólica é, por natureza, fragilizada.
A fisiopatologia que une essas duas doenças crônicas é mediada por processos inflamatórios sistêmicos que, quando mantidos ao longo do tempo, promovem alterações tanto locais quanto sistêmicas. A infecção periodontal estimula a liberação contínua de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β, TNF-α e IL-6, que interferem diretamente na sinalização da insulina, contribuindo para a resistência periférica e dificultando o controle glicêmico. Por sua vez, o estado hiperglicêmico característico do DM2 intensifica a resposta inflamatória nos tecidos periodontais por meio da formação dos produtos finais da glicação avançada (AGEs), os quais, ao interagirem com seus receptores (RAGEs), exacerbam o processo de destruição tecidual no periodonto. Esse mecanismo recíproco sustenta o conceito de relação bidirecional entre periodontite e DM2, proposto por autores como Taylor e Borgnakke (2013) e consolidado por metanálises recentes (Sanz et al., 2018).
Do ponto de vista clínico, os efeitos da terapia periodontal sobre os parâmetros glicêmicos têm sido objeto de crescente interesse. Estudos randomizados têm demonstrado que a abordagem periodontal básica – predominantemente raspagem e alisamento radicular associados à educação em saúde – pode gerar reduções significativas nos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c), com médias que variam entre 0,3% e 0,6%. Embora esses valores possam parecer pequenos, sua magnitude é clinicamente relevante, considerando que efeitos semelhantes são observados com a introdução de certos hipoglicemiantes orais. A esse respeito, a metanálise conduzida por Sanz et al. (2018) é particularmente elucidativa ao apontar que a intervenção periodontal pode ser considerada um recurso terapêutico adjuvante no manejo do DM2.
Entretanto, é importante reconhecer que os efeitos benéficos da terapia periodontal sobre a glicemia tendem a depender da manutenção da saúde periodontal ao longo do tempo. Alguns estudos demonstram que os ganhos iniciais podem se perder em médio prazo se não houver acompanhamento regular e adesão continuada às práticas de higiene bucal. Isso aponta para a necessidade de incluir o cuidado periodontal não apenas como tratamento pontual, mas como parte integrante do plano terapêutico longitudinal do paciente diabético. Fatores como tabagismo, obesidade, controle medicamentoso e estado nutricional também impactam os resultados, tornando essencial uma abordagem multidisciplinar e individualizada.
No cenário brasileiro, esse desafio se torna ainda mais complexo. A despeito dos avanços na cobertura da atenção odontológica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a integração entre os profissionais de saúde ainda é limitada. Muitos dentistas não recebem formação suficiente para atuar em interface com doenças sistêmicas crônicas, e os protocolos clínicos que orientam o manejo do DM2 na atenção primária raramente contemplam a saúde bucal como parte estruturante do cuidado. Essa fragmentação compromete a integralidade da assistência e evidencia a urgência de repensar a formação em saúde, com vistas a promover a educação interprofissional e a valorização das conexões entre a saúde bucal e a saúde geral.
Do ponto de vista das políticas públicas, a ausência de diretrizes nacionais que incluam o rastreamento e tratamento da periodontite em pacientes com DM2 configura uma lacuna relevante. Considerando que a maioria das pessoas com diabetes é atendida na atenção primária, incluir a avaliação periodontal nos protocolos de rotina poderia representar uma ação estratégica, tanto do ponto de vista clínico quanto econômico. O custo relativamente baixo da intervenção periodontal, frente aos altos custos das complicações do DM2 (como nefropatias, amputações e eventos cardiovasculares), reforça a viabilidade e a racionalidade de tal proposta.
Em termos de pesquisa, ainda são escassos os estudos longitudinais com população brasileira que avaliem o impacto da saúde periodontal sobre o controle glicêmico a longo prazo. A maioria dos estudos disponíveis é estrangeira, o que impõe limites à extrapolação dos dados para a realidade nacional, marcada por desigualdades sociais, acesso restrito a cuidados especializados e alta prevalência tanto de DM2 quanto de doenças periodontais. Assim, há espaço e necessidade para investigações multicêntricas que considerem aspectos socioculturais e o contexto dos serviços públicos de saúde.
A análise crítica dos estudos também revela heterogeneidade metodológica significativa. Os critérios diagnósticos utilizados para periodontite variam consideravelmente, assim como os protocolos de intervenção e os métodos de controle de variáveis de confusão. Tais limitações demandam cautela na interpretação dos dados e reforçam a importância de estudos futuros com maior rigor metodológico, desenho padronizado e seguimento prolongado.
Diante de todo o exposto, torna-se evidente que a relação entre periodontite e controle glicêmico no DM2 não é apenas uma questão de interesse acadêmico, mas uma questão de saúde pública. Incorporar o olhar para o periodonto na clínica do diabetes é uma estratégia promissora para qualificar o cuidado, reduzir riscos e promover saúde de forma integral. A superação da visão fragmentada da assistência em saúde exige compromisso institucional, formação interprofissional sólida e políticas públicas que reconheçam a boca como parte do corpo e a saúde bucal como parte indissociável do bem-estar geral.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão de literatura permite afirmar, com base em evidências consistentes, que existe uma relação bidirecional entre as doenças periodontais e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), mediada por mecanismos inflamatórios sistêmicos que influenciam negativamente tanto o controle glicêmico quanto a integridade dos tecidos periodontais. A periodontite, ao gerar um estado inflamatório crônico de baixa intensidade, contribui para o aumento da resistência à insulina e, por conseguinte, para a piora do controle metabólico em indivíduos com DM2. Por outro lado, o descontrole glicêmico acelera a destruição dos tecidos periodontais, intensificando o ciclo de deterioração mútua entre as duas condições.
Estudos clínicos, revisões sistemáticas e metanálises apontam que intervenções periodontais, especialmente a terapia mecânica não cirúrgica, podem resultar em reduções significativas nos níveis de hemoglobina glicada, com impacto clínico comparável a intervenções farmacológicas de primeira linha. Tais achados reforçam a relevância da abordagem interdisciplinar no manejo do paciente diabético, com a inclusão efetiva do cirurgião-dentista nas equipes de cuidado.
Contudo, observa-se que a integração entre os serviços de saúde bucal e as ações voltadas para o controle do diabetes ainda é incipiente, tanto na prática clínica quanto nas políticas públicas brasileiras. A ausência de protocolos nacionais que articulem essas frentes de cuidado constitui um obstáculo à efetividade da assistência integral, especialmente no contexto da atenção primária.
Diante disso, recomenda-se a inclusão sistemática da avaliação e do tratamento periodontal nas rotinas de acompanhamento de pacientes com DM2, bem como o fortalecimento da formação interprofissional e da articulação entre os níveis de atenção à saúde. Além disso, são necessários novos estudos longitudinais e multicêntricos, especialmente em populações brasileiras, que aprofundem a compreensão dessa relação e subsidiem políticas públicas integradas. Reconhecer a saúde bucal como parte essencial do cuidado com doenças crônicas não transmissíveis é, portanto, um passo fundamental para a promoção da saúde integral e da equidade em saúde.
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