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Resumo
INTRODUÇÃO
A cárie dentária continua sendo uma das condições crônicas não transmissíveis mais frequentes na infância, com impactos significativos sobre a qualidade de vida de crianças em idade escolar. Sua presença está associada à dor, infecções, perda de rendimento escolar, comprometimento da autoestima e, em casos mais severos, à exclusão social. Embora o Brasil tenha registrado avanços consideráveis nos indicadores epidemiológicos de saúde bucal nas últimas décadas, como evidenciado pela progressiva redução do índice CPOD médio entre escolares, as disparidades regionais e socioeconômicas seguem expressivas e preocupantes (Nascimento et al., 2022).
É notório que crianças oriundas de contextos sociais vulneráveis apresentam maior risco de desenvolvimento da cárie dentária, o que revela o caráter socialmente determinado dessa condição. Essa constatação impõe a necessidade de estratégias que transcendam a clínica odontológica individual e avancem para abordagens coletivas e interdisciplinares, pautadas nos princípios da equidade e da integralidade do cuidado.
Nesse cenário, a intersetorialidade emerge como uma diretriz estratégica para a efetivação de políticas públicas mais eficientes e abrangentes. Quando aplicada à saúde bucal, ela implica na integração de práticas entre os setores da saúde e da educação, com o objetivo de implementar ações preventivas, educativas e assistenciais no espaço escolar. A escola, por sua vez, é reconhecida como território privilegiado para a promoção de saúde, por permitir o acompanhamento sistemático das crianças e o fortalecimento de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida.
O cirurgião-dentista, especialmente aquele inserido nas Equipes de Saúde Bucal da Atenção Primária à Saúde (APS), desempenha um papel central nesse processo de articulação entre serviços e instituições. Sua atuação extrapola a atenção clínica direta, envolvendo a realização de triagens, atividades educativas, capacitação de profissionais da educação e o estabelecimento de fluxos de cuidado adequados ao contexto local.
Dessa forma, compreender e fortalecer o papel do cirurgião-dentista nas ações intersetoriais voltadas ao combate da cárie dentária em escolares representa não apenas uma necessidade técnica e sanitária, mas também um compromisso ético com a redução das iniquidades em saúde bucal no Brasil.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, escolhida por sua capacidade de integrar conhecimentos teóricos e empíricos sobre temas complexos e multidimensionais, como é o caso da atuação intersetorial do cirurgião-dentista na promoção da saúde bucal em ambientes escolares. Diferente das revisões sistemáticas, a revisão narrativa permite uma abordagem crítica e interpretativa, com foco na construção reflexiva do objeto de estudo à luz de diferentes referenciais.
A pesquisa bibliográfica foi realizada entre fevereiro e abril de 2025, utilizando três bases de dados de amplo reconhecimento na área da saúde: SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed (U.S. National Library of Medicine) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Foram utilizados os descritores controlados, com base nos vocabulários DeCS e MeSH: “Saúde Bucal”, “Cárie Dentária”, “Cirurgião-Dentista”, “Intersetorialidade”, “Promoção da Saúde”, “Educação em Saúde” e “Saúde Escolar”. A combinação dos descritores foi realizada com os operadores booleanos AND e OR, de forma a garantir abrangência e especificidade.
Os critérios de inclusão adotados foram: (1) artigos publicados entre 2010 e 2024; (2) textos disponíveis em português, inglês ou espanhol; (3) acesso ao conteúdo completo; (4) publicações que abordassem a atuação do cirurgião-dentista em ações intersetoriais com escolas públicas, com foco na prevenção da cárie dentária ou na promoção da saúde bucal em escolares; e (5) artigos publicados em periódicos com corpo editorial reconhecido na área da saúde coletiva, odontologia social ou políticas públicas.
Foram excluídas publicações repetidas entre as bases, estudos cujo foco se restringia a tratamentos clínicos sem interface com o setor educacional, editoriais, dissertações e monografias não publicadas em periódicos indexados.
Após a leitura dos títulos e resumos, foram inicialmente selecionados 184 artigos. Após a leitura na íntegra e aplicação dos critérios de elegibilidade, 28 estudos compuseram o corpus final da análise. O conteúdo desses artigos foi sistematizado em uma matriz temática, organizada a partir de três eixos principais: (1) estratégias intersetoriais desenvolvidas entre saúde e educação; (2) resultados alcançados na saúde bucal escolar; e (3) desafios e facilitadores enfrentados pelos profissionais da odontologia na execução das ações.
O processo de análise seguiu uma abordagem qualitativa e crítica, fundamentada nos princípios da promoção da saúde, da equidade e da integralidade do SUS. A metodologia adotada buscou garantir consistência teórica, clareza metodológica e relevância prática para o campo da saúde pública odontológica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da produção científica revisada permitiu identificar padrões recorrentes e tendências relevantes no que tange à atuação do cirurgião-dentista em ações intersetoriais voltadas à prevenção da cárie dentária no ambiente escolar. Ainda que os estudos apresentem diferentes contextos regionais, metodologias e enfoques, observa-se uma convergência significativa em torno de alguns eixos temáticos centrais que permeiam a prática odontológica no território escolar.
Esses eixos, sistematicamente destacados ao longo da literatura, estruturam-se em cinco categorias analíticas principais: (1) o reposicionamento do cirurgião-dentista como agente de promoção da saúde; (2) a escola como território estratégico de cuidado; (3) práticas educativas e clínicas articuladas à redução da cárie; (4) fatores estruturais que condicionam a efetividade das ações intersetoriais; e (5) limites epistemológicos e formativos para a consolidação da intersetorialidade.
Cada uma dessas categorias será discutida a seguir, à luz dos princípios do SUS, das diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde e da literatura técnico-científica acumulada nas últimas décadas, com ênfase na relação entre saúde bucal coletiva, infância e articulação entre políticas públicas.
O REPOSICIONAMENTO DO CIRURGIÃO-DENTISTA COMO AGENTE DE PROMOÇÃO DA SAÚDE
A produção científica contemporânea revela um deslocamento paradigmático na atuação do cirurgião-dentista no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). De um modelo centrado na clínica individual e na prática tecnicista, observa-se uma progressiva valorização do dentista como profissional comprometido com os princípios da promoção da saúde, da equidade e da intersetorialidade, especialmente quando sua atuação se estende aos espaços escolares.
Esse reposicionamento, contudo, não ocorre de forma homogênea ou isenta de tensões. Ele é fruto de disputas simbólicas, políticas e epistemológicas dentro da própria odontologia, que ainda carrega resquícios do modelo biomédico curativista, predominante durante grande parte do século XX. A inserção do cirurgião-dentista nas ações coletivas e educativas em escolas exige não apenas o domínio técnico, mas sobretudo a incorporação de uma compreensão ampliada do processo saúde-doença, que considere os determinantes sociais, culturais e econômicos que moldam a condição bucal das crianças em idade escolar.
Nesse novo arranjo, o dentista deixa de ser apenas um executor de procedimentos restauradores e passa a atuar como agente de transformação social. Sua presença nos territórios escolares o coloca em posição estratégica para identificar vulnerabilidades, estabelecer vínculos com educadores e famílias, construir estratégias de cuidado compartilhado e fomentar a autonomia dos sujeitos em relação à sua saúde bucal.
Além disso, o profissional que assume esse papel ampliado colabora na estruturação de redes de cuidado mais resolutivas e sensíveis às demandas locais. Ele participa da construção coletiva dos projetos político-pedagógicos das escolas, contribui com o planejamento de ações intersetoriais e atua na articulação entre os serviços de saúde e educação, tornando-se uma ponte entre políticas públicas que historicamente operaram de forma fragmentada.
Contudo, para que esse reposicionamento se concretize de forma efetiva, é necessário superar barreiras de ordem institucional, formativa e cultural. A prática intersetorial exige do cirurgião-dentista habilidades de diálogo, mediação e planejamento coletivo, que muitas vezes não são desenvolvidas ao longo da formação universitária. Além disso, a valorização dessa nova função exige respaldo das gestões municipais e políticas de incentivo à atuação territorial integrada, evitando que ações exitosas permaneçam restritas a experiências pontuais ou voluntaristas.
Portanto, o reposicionamento do cirurgião-dentista como agente de promoção da saúde nas escolas não deve ser interpretado como mera ampliação de atribuições, mas sim como uma redefinição do seu papel social, ético e político no contexto da saúde pública. Ele representa a materialização do conceito de cuidado integral e o fortalecimento do princípio da intersetorialidade como eixo estruturante das políticas públicas de saúde bucal infantil.
A ESCOLA COMO TERRITÓRIO ESTRATÉGICO DE CUIDADO
A escola, tradicionalmente concebida como espaço exclusivo de formação cognitiva e disciplinar, vem sendo ressignificada nas últimas décadas como território privilegiado para a promoção da saúde, especialmente no que tange ao cuidado integral de crianças e adolescentes. Essa perspectiva encontra respaldo nas políticas públicas brasileiras a partir da consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da introdução do conceito ampliado de saúde, conforme preconizado pela 8ª Conferência Nacional de Saúde e pela Constituição Federal de 1988.
No contexto da saúde bucal coletiva, a escola emerge como um espaço estratégico não apenas pela sua capilaridade territorial e acesso facilitado, mas também pelo seu potencial de formação crítica e transformação de hábitos. Crianças e adolescentes passam grande parte de suas vidas nas instituições escolares, o que permite o desenvolvimento de ações sistemáticas, contínuas e integradas que transcendem as campanhas pontuais e o atendimento clínico fragmentado. A presença constante de professores, coordenadores pedagógicos e profissionais da saúde propicia a construção de vínculos de confiança, fundamentais para a efetividade das práticas educativas e preventivas.
A literatura revisada aponta que a intersetorialidade entre saúde e educação é mais eficaz quando a escola é reconhecida como espaço produtor de cuidado, e não apenas como receptora de ações exógenas. Isso significa compreender a escola como lugar vivo, carregado de dinâmicas próprias, valores culturais, subjetividades e relações de poder, que devem ser levadas em consideração no planejamento e execução das atividades de promoção da saúde bucal.
Nesse sentido, o Programa Saúde na Escola (PSE), instituído pelo Decreto nº 6.286/2007, representa um marco institucional relevante, pois normatiza a integração entre as redes de saúde e educação, estabelecendo diretrizes para o desenvolvimento de ações intersetoriais em territórios escolares. No entanto, diversos autores apontam que, na prática, o PSE enfrenta dificuldades de implementação, tais como a fragmentação das ações, ausência de pactuações intersetoriais efetivas, baixa adesão dos gestores escolares e insuficiência de planejamento compartilhado (Silva et al., 2020; Oliveira et al., 2019).
A valorização da escola como território de cuidado exige, portanto, o reconhecimento de sua autonomia e complexidade institucional. O planejamento das ações de saúde bucal deve ser construído coletivamente, com participação ativa da comunidade escolar, respeitando seu calendário, seu projeto político-pedagógico e suas prioridades locais. Isso implica deslocar o dentista da posição de executor de tarefas para o papel de coautor de processos educativos comprometidos com a promoção da saúde em sua dimensão integral.
Adicionalmente, a articulação entre saúde e educação no ambiente escolar permite a detecção precoce de agravos bucais, o monitoramento sistemático das condições de saúde das crianças, o encaminhamento qualificado para os serviços da rede e, principalmente, o fortalecimento da consciência crítica sobre o cuidado com o corpo e com a saúde. Ao transformar a escola em território de cuidado, abre-se espaço para a construção de subjetividades saudáveis e cidadãs, alinhadas com os princípios da equidade, da solidariedade e da justiça social.
Por fim, é fundamental compreender que a efetiva apropriação da escola como território intersetorial de promoção da saúde bucal só será possível mediante o engajamento político-institucional dos gestores, o investimento em capacitação permanente dos profissionais e a superação de práticas verticalizadas e eventuais. O desafio reside não apenas na inserção do dentista no espaço escolar, mas na constituição de um modelo de atuação horizontal, colaborativo e democrático, que respeite a complexidade do ambiente educacional e contribua para a superação das iniquidades em saúde.
PRÁTICAS EDUCATIVAS E CLÍNICAS ARTICULADAS À REDUÇÃO DA CÁRIE DENTÁRIA
O enfrentamento da cárie dentária infantil no contexto escolar demanda estratégias que articulem ações educativas permanentes com intervenções clínicas preventivas, ancoradas em princípios da promoção da saúde e da intersetorialidade. A literatura científica revisada demonstra, de maneira consistente, que a integração entre saúde e educação, quando estruturada em práticas continuadas e culturalmente contextualizadas, é capaz de reduzir de forma significativa a prevalência de cárie entre escolares (Lima et al., 2021; Santos et al., 2018).
Dentre as estratégias mais frequentemente descritas nos estudos, destacam-se: escovação dental supervisionada com dentifrício fluoretado, aplicação tópica de flúor em gel ou verniz, uso de selantes de fóssulas e fissuras, triagens clínicas periódicas, orientação alimentar e rodas de conversa com temáticas voltadas à higiene bucal e à saúde geral. Tais ações, especialmente quando inseridas na rotina escolar de forma colaborativa e contínua, produzem efeitos duradouros tanto na saúde bucal das crianças quanto na construção de hábitos saudáveis e na percepção social da saúde como direito (Ferreira et al., 2020).
Em estudo longitudinal realizado por Lima et al. (2021) em escolas públicas do interior de São Paulo, a implementação de um programa intersetorial estruturado resultou em redução de 43,2% no número médio de dentes cariados entre crianças de 6 a 12 anos ao longo de dois anos. O programa incluía escovação supervisionada diária, aplicação bimestral de flúor, capacitação de professores e acompanhamento clínico dos casos de maior risco. De forma semelhante, Pereira et al. (2019) observaram aumento significativo da proporção de escolares com CPOD igual a zero (de 18% para 41%) após a adoção de ações articuladas entre Unidades Básicas de Saúde e escolas municipais, com destaque para a participação ativa de professores nas ações de reforço diário de higiene.
As intervenções educativas, por sua vez, assumem um papel central na transformação das práticas cotidianas e na conscientização crítica de crianças, familiares e comunidade escolar. Diferente do modelo instrucionista tradicional, que reduz a educação em saúde à transmissão de informações técnicas, os estudos mais recentes defendem o uso de metodologias participativas e lúdicas, tais como oficinas, jogos cooperativos, teatro, música e atividades interativas (Souza et al., 2017). Tais abordagens favorecem o engajamento ativo dos estudantes, ampliam a compreensão do cuidado com a boca como parte do autocuidado geral e contribuem para a superação da visão fragmentada da saúde.
Além disso, os efeitos das ações intersetoriais não se limitam à esfera individual. Há evidências de que essas práticas produzem transformações nas relações entre os sujeitos e as instituições, fortalecendo a cultura do cuidado no espaço escolar, estimulando o protagonismo infantojuvenil e promovendo a corresponsabilização das famílias e dos educadores pelo estado de saúde das crianças (Santos et al., 2018). Essa perspectiva é coerente com o paradigma da promoção da saúde, que propõe a construção de ambientes saudáveis e a ampliação da autonomia dos sujeitos na gestão de sua saúde (Czeresnia, 2003).
Cabe destacar, contudo, que os resultados positivos dessas práticas estão condicionados à regularidade, continuidade e contextualização das ações. Intervenções pontuais ou desvinculadas da realidade local tendem a apresentar impactos limitados ou efêmeros. Por isso, a literatura reforça a importância do planejamento intersetorial integrado, da pactuação de metas entre saúde e educação e da institucionalização das ações no interior das políticas públicas municipais (Mendes et al., 2020).
Por fim, é fundamental compreender que a redução dos índices de cárie dentária não é um fim em si mesmo, mas um dos indicadores de sucesso de um processo educativo mais amplo, centrado no desenvolvimento da consciência crítica, da autonomia e da cidadania em saúde. Assim, o papel do cirurgião-dentista nas escolas deve ser concebido não apenas como executor de procedimentos, mas como mediador de saberes e promotor de justiça social.
FATORES ESTRUTURAIS QUE CONDICIONAM A EFETIVIDADE DAS AÇÕES INTERSETORIAIS
A implementação de ações intersetoriais entre saúde e educação no combate à cárie dentária em escolares, embora reconhecida como estratégia eficaz e alinhada às diretrizes da promoção da saúde, enfrenta obstáculos estruturais e institucionais que limitam sua efetividade e sustentabilidade no contexto brasileiro. A literatura científica destaca que a intersetorialidade, longe de ser um processo espontâneo, exige condições organizacionais, políticas e culturais que ainda não estão consolidadas na maioria dos municípios brasileiros (Campos, 2014; Viana et al., 2021).
Um dos principais entraves relatados refere-se à falta de institucionalização das práticas intersetoriais. Em muitas localidades, as ações de saúde bucal em escolas são realizadas de forma esporádica, desarticulada e altamente dependente do engajamento individual de determinados profissionais, sejam eles dentistas ou professores. Essa fragilidade compromete a continuidade das ações e sua incorporação nas rotinas institucionais, dificultando avaliações de impacto e a consolidação de políticas públicas de longo prazo (Silva et al., 2020).
Outro fator crítico é a ausência de fluxos administrativos e logísticos adequados para garantir a presença efetiva das equipes de saúde nas escolas. Diversos estudos apontam problemas recorrentes como: (i) indisponibilidade de transporte para deslocamento das Equipes de Saúde Bucal até os territórios escolares; (ii) sobrecarga das agendas assistenciais nas Unidades Básicas de Saúde (UBS); (iii) falta de espaço físico apropriado nas escolas para realização das atividades odontológicas; e (iv) escassez de insumos básicos para procedimentos preventivos, como escovas, dentifrícios fluoretados e materiais de triagem (Marques et al., 2020; Ribeiro et al., 2019).
Além das limitações operacionais, existem barreiras culturais e institucionais que dificultam a articulação entre os setores. Muitas escolas ainda não reconhecem a saúde como parte de seu projeto pedagógico, o que se reflete na resistência de alguns gestores escolares em integrar o tema nas atividades curriculares. Do mesmo modo, alguns profissionais da saúde, especialmente quando formados sob o modelo biomédico tradicional, demonstram dificuldade em compreender o papel ampliado da odontologia no território educacional (Mattos et al., 2019). Tais impasses revelam a persistência de uma cultura institucional compartimentalizada, que naturaliza a fragmentação entre políticas públicas e enfraquece o potencial transformador da intersetorialidade.
Também se observa uma ausência de mecanismos de planejamento compartilhado entre as Secretarias Municipais de Saúde e Educação. Poucos municípios possuem planos de ação intersetoriais formalizados, com metas, indicadores, responsáveis e prazos definidos. A falta de governança intersetorial limita o alcance e a legitimidade das ações de saúde bucal no espaço escolar, deixando-as vulneráveis a descontinuidades políticas e administrativas (Cotta et al., 2018). A intersetorialidade, nesse cenário, permanece como um ideal normativo mais do que uma prática institucionalizada.
Do ponto de vista do financiamento, os recursos destinados à saúde bucal na Atenção Primária são frequentemente direcionados para atendimentos clínicos individuais, com foco na produtividade de procedimentos restauradores. A lógica de financiamento atrelada a metas quantitativas dificulta a valorização de ações coletivas e educativas, que exigem mais tempo, planejamento e articulação entre diferentes atores institucionais (Lima et al., 2022). Assim, a ausência de critérios específicos de financiamento para ações intersetoriais representa um entrave para sua expansão e qualificação.
Apesar desses desafios, a literatura aponta caminhos viáveis para superação desses entraves. A criação de comissões intersetoriais permanentes nos municípios, compostas por representantes das áreas de saúde, educação, assistência social e comunidade civil, tem se mostrado uma estratégia eficaz para o planejamento integrado e a governança compartilhada das ações em saúde bucal (Santos et al., 2021). Além disso, experiências exitosas relatadas em diferentes regiões do país demonstram que a formalização de pactos locais e a institucionalização dos territórios escolares como espaços de cuidado favorecem a sustentabilidade das práticas intersetoriais.
Assim, é fundamental compreender que os obstáculos à efetividade das ações intersetoriais não são apenas operacionais, mas sobretudo estruturais e políticos. Superá-los exige compromisso institucional, financiamento adequado, planejamento integrado e, sobretudo, uma mudança cultural que valorize o trabalho colaborativo, a transversalidade das políticas públicas e o cuidado ampliado como princípio orientador das práticas em saúde bucal escolar.
LIMITES EPISTEMOLÓGICOS E FORMATIVOS PARA A CONSOLIDAÇÃO DA INTERSETORIALIDADE
A consolidação de práticas intersetoriais no campo da saúde bucal, especialmente em sua interface com o ambiente escolar, esbarra em obstáculos que vão além da estrutura administrativa e da logística operacional. Um dos desafios mais estruturantes reside nos limites epistemológicos e formativos que permeiam a constituição histórica da odontologia enquanto saber e prática profissional, ainda fortemente ancorada em modelos biomédicos, restauradores e individualizantes (Mattos et al., 2019; Czeresnia, 2003).
Historicamente, a formação em Odontologia no Brasil se estruturou a partir de uma lógica centrada no domínio técnico-procedimental, com ênfase no atendimento clínico de base curativa, fragmentado e descontextualizado do território e dos determinantes sociais da saúde. Como resultado, os profissionais egressos dos cursos de graduação frequentemente demonstram baixa familiaridade com conceitos-chave da saúde coletiva, como promoção da saúde, vigilância em saúde, intersetorialidade, educação popular, território e redes de cuidado (Narvai & Frazão, 2021).
Essa limitação formativa é reiteradamente apontada na literatura como um dos fatores que dificultam a inserção qualificada do cirurgião-dentista em espaços intersetoriais, como as escolas. Muitos profissionais sentem-se inseguros diante da necessidade de construir projetos coletivos, articular-se com outras categorias, dialogar com gestores escolares e atuar de forma educativa com crianças e adolescentes (Silva et al., 2020). Tal insegurança, por sua vez, está diretamente relacionada à ausência de uma abordagem crítica e ampliada da saúde nos currículos de graduação.
Além da formação insuficiente, outro limite epistemológico importante é a resistência à interdisciplinaridade e à horizontalidade do cuidado, ainda presente em setores da odontologia que operam sob um ethos hierárquico, técnico e autossuficiente. Essa resistência compromete a capacidade de construção conjunta de saberes e de práticas com outros profissionais, especialmente no contexto escolar, onde a interação com pedagogos, psicólogos, coordenadores e professores é essencial para o êxito das ações intersetoriais (Vieira-da-Silva, 2018).
Adicionalmente, é preciso destacar que a intersetorialidade não se sustenta apenas no plano da intenção política ou da boa vontade profissional. Ela exige uma base epistemológica que reconheça a complexidade dos fenômenos de saúde e seus múltiplos determinantes, superando a visão biomédica reducionista e instrumental da doença. Como observa Ayres (2004), o enfrentamento de problemas complexos como a cárie dentária em escolares requer abordagens integradas, sensíveis às singularidades sociais, culturais e afetivas dos sujeitos.
Nesse contexto, torna-se imprescindível uma reforma pedagógica nos cursos de graduação em Odontologia, com fortalecimento das disciplinas de saúde coletiva, maior inserção dos estudantes nos territórios e serviços públicos durante a formação, e a incorporação de metodologias ativas de ensino-aprendizagem, centradas no diálogo, na problematização e na transdisciplinaridade (Narvai & Frazão, 2021; Ribeiro et al., 2022).
Além disso, a oferta contínua de educação permanente em saúde deve ser considerada um eixo estratégico para requalificar práticas profissionais já consolidadas, promover o pensamento crítico e favorecer a construção coletiva de novas epistemologias do cuidado. A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), instituída pela Portaria nº 1.996/2007, oferece diretrizes importantes para esse processo, mas sua aplicação ainda é tímida no campo da odontologia.
Por fim, é necessário reconhecer que o avanço das práticas intersetoriais na saúde bucal escolar depende da superação de um modelo de formação e atuação centrado na clínica isolada, tecnificada e individual. A construção de um novo paradigma, comprometido com a justiça social, com a promoção da saúde e com a democratização do cuidado, exige uma ruptura epistemológica profunda que reposicione o cirurgião-dentista como um profissional inserido nas redes de proteção e promoção da vida, com capacidade de dialogar, de construir coletivamente e de educar para a emancipação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise crítica da literatura evidencia que o enfrentamento da cárie dentária infantil no Brasil exige um modelo de atuação que ultrapasse os limites da clínica odontológica tradicional e se insira no campo ampliado da promoção da saúde. A escola, enquanto território de cuidado e espaço privilegiado de construção de hábitos, comportamentos e valores, apresenta-se como cenário estratégico para a implementação de ações intersetoriais efetivas entre saúde e educação.
O cirurgião-dentista, ao ser reposicionado como agente de transformação social no contexto escolar, assume funções que vão além da técnica restauradora, incorporando práticas educativas, articuladoras e comunitárias. Essa atuação integrada tem demonstrado resultados expressivos na redução dos índices de cárie dentária e na promoção de hábitos saudáveis entre crianças, desde que estruturada sob os princípios da continuidade, do vínculo e da corresponsabilidade.
No entanto, a efetividade dessas ações encontra-se condicionada a múltiplos fatores estruturais, institucionais e formativos. A ausência de pactuações intersetoriais formalizadas, a desarticulação entre os setores, as lacunas no financiamento específico e a formação profissional ainda centrada em paradigmas biomédicos representam barreiras significativas para a consolidação de práticas sustentáveis. A intersetorialidade, embora prevista nas diretrizes do SUS e em programas como o PSE, ainda não se configura como um dispositivo estruturante das políticas públicas de saúde bucal em muitos municípios.
Torna-se, portanto, imperativo reconfigurar os processos formativos dos profissionais da saúde, em especial dos cirurgiões-dentistas, com vistas ao desenvolvimento de competências que contemplem a complexidade dos territórios, a transversalidade das políticas públicas e a centralidade da promoção da saúde como prática política e pedagógica. A incorporação efetiva de conteúdos de saúde coletiva, educação em saúde, intersetorialidade e trabalho em rede nos currículos de graduação e pós-graduação é fundamental para que se forme um profissional crítico, ético e socialmente comprometido com a transformação das realidades locais.
Do ponto de vista da gestão pública, recomenda-se o fortalecimento das comissões intersetoriais municipais, a institucionalização de planos de ação conjuntos entre saúde e educação, a ampliação dos dispositivos de financiamento específicos para ações escolares e a valorização do trabalho educativo-preventivo no interior das equipes de saúde bucal da APS. Mais do que ações pontuais ou respostas técnicas, o combate à cárie dentária infantil demanda um projeto político de cuidado, ancorado na justiça social, na equidade e na formação de sujeitos autônomos.
Assim, o cirurgião-dentista que atua em parceria com as escolas, de forma territorializada, participativa e educativa, contribui não apenas para a redução das desigualdades em saúde bucal, mas para a construção de um modelo de atenção que reconhece a infância como tempo estratégico para a promoção da saúde e para o exercício pleno da cidadania.
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