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Resumo
INTRODUÇÃO
A música, enquanto linguagem universal e expressão cultural, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento integral da criança, atuando como um poderoso mediador pedagógico na Educação Infantil. Desde a promulgação da Lei nº 12.796/2013, que tornou obrigatória a matrícula escolar a partir dos quatro anos de idade, as instituições de ensino têm sido desafiadas a repensar suas práticas, incorporando metodologias que aliem efetividade pedagógica ao engajamento lúdico. Nesse contexto, a música emerge não apenas como recurso didático complementar, mas como eixo estruturante do processo de aprendizagem, capaz de potencializar dimensões cognitivas, sócio afetivas e motoras.
A relevância da musicalização na primeira infância é respaldada por marcos legais como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), que integra a música como direito de aprendizagem em todos os campos de experiência, e pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI, 2009), que a destacam como ferramenta de interação e expressão. Além disso, estudos contemporâneos nas áreas de neurociência (Kraus, 2018) e psicologia do desenvolvimento (Ilari, 2021), comprovam seus impactos no fortalecimento de conexões neurais, no desenvolvimento linguístico e na regulação emocional.
Este artigo tem como objetivo analisar a música como instrumento pedagógico essencial na Educação Infantil, explorando suas múltiplas funções como a Mediação cognitiva que é o estímulo à criatividade, linguagem e raciocínio lógico; a Dimensão socioafetiva que é a promoção de cooperação, empatia e autoconhecimento; e a Inserção cultural que é o acesso a repertórios diversificados e formação de identidade.
Partindo de uma abordagem teórica fundamentada em Vygotsky (2012), Gardner (2011) e autores contemporâneos, o trabalho discute ainda os desafios para sua efetiva implementação curricular, muitas vezes limitada a atividades fragmentadas. Por fim, defende-se a necessidade de formar educadores capacitados para transformar a música em uma prática pedagógica intencional, alinhada às necessidades da infância no século XXI. A pesquisa justifica-se pela urgência em consolidar propostas que transcendam o caráter recreativo da música, posicionando-a como estratégia central para uma educação infantil plural, inclusiva e significativa.
A INCLUSÃO DA LINGUAGEM MUSICAL NO CURRÍCULO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
A partir de 2013, com a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 12.796), estabeleceu-se a obrigatoriedade de matrícula escolar para crianças a partir dos quatro anos de idade: “Art. 6º É dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade (Brasil, 2013, p. 3).”
Essa determinação exigiu que as instituições de ensino adaptassem suas práticas pedagógicas, buscando estratégias mais atrativas e eficazes para o desenvolvimento infantil. Nesse cenário, a música surge como um recurso fundamental, não apenas por tornar o ambiente escolar mais dinâmico, mas também por contribuir significativamente para o desenvolvimento cognitivo, socioafetivo e emocional das crianças. Conforme destacado no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI, 1998, p. 48), a aprendizagem musical envolve vivências, percepções e reflexões que se ampliam progressivamente, favorecendo processos cognitivos mais complexos.
Estudos na área da neurociência e psicologia do desenvolvimento indicam que a relação com a música inicia-se ainda no período gestacional. Pesquisas demonstram que bebês expostos a determinadas melodias no útero materno apresentam reações ao ouvir essas mesmas composições após o nascimento (Mallocchi, 2018; Lima & Fernandes, 2020). Esses achados reforçam a importância da estimulação sonora desde os primeiros anos de vida, ampliando seu potencial como ferramenta educativa.
No contexto brasileiro, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), estabelece as diretrizes para a Educação Infantil, integrando a música em todos os campos de experiência:
[…] assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se, a organização curricular da Educação Infantil na BNCC está estruturada em cinco campos de experiências, nos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Esses campos incorporam as vivências cotidianas das crianças, articulando-as com os saberes culturais e sociais (Brasil, 2017, p. 40).
Os campos de experiência propostos pela BNCC incluem: “O eu, o outro e o nós”; “Corpo, gestos e movimentos”; “Traços, sons, cores e formas”; “Escuta, fala, pensamento e imaginação”; e “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”. A música está presente de forma transversal, com ênfase no eixo “Traços, sons, cores e formas”, que abrange todas as faixas etárias — bebês (0 a 1 ano e 6 meses), crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses). As habilidades desenvolvidas incluem explorar, criar, reconhecer e interagir com diferentes manifestações sonoras.
Essa estrutura alinha-se às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI, 2009), que destacam a importância das interações e brincadeiras como eixos norteadores: “Art. 9º As práticas pedagógicas devem promover experiências que […] IX – incentivem o contato das crianças com diversas expressões artísticas, como música, artes visuais, dança, teatro e literatura (Brasil, 2009, p. 99).”
Dessa forma, a proposta vai além da reprodução passiva de canções, envolvendo a experimentação ativa de ritmos, instrumentos e movimentos corporais. Complementarmente, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 2006) ressaltam que a música não deve ser tratada como conteúdo isolado, mas como linguagem integradora, capaz de enriquecer outras áreas do conhecimento e fomentar a criatividade. Antes mesmo de dominarem a linguagem verbal, as crianças comunicam-se por meio de expressões corporais, sonoras e lúdicas, especialmente quando mediadas por adultos ou pares mais experientes (Brasil, 2006).
Em síntese, os documentos normativos brasileiros convergem ao afirmar que a música deve ocupar um espaço intencional no cotidiano escolar, transcendendo seu uso meramente recreativo ou disciplinar. Seu emprego pedagógico favorece a construção de repertórios culturais, o desenvolvimento integral das crianças e a criação de ambientes de aprendizagem mais significativos e prazerosos.
A MÚSICA COMO INSTRUMENTO MEDIADOR NO PROCESSO EDUCATIVO
A música exerce influência significativa no desenvolvimento humano, atuando nas dimensões cognitiva, afetiva e social. Essa perspectiva é reforçada por Howard Gardner (2011), em sua teoria das inteligências múltiplas, ao identificar a inteligência musical como uma capacidade inata que potencializa a aprendizagem e a expressão criativa. Para o autor, a linguagem sonora funciona como um amplificador do conhecimento, estimulando conexões neurais e facilitando a assimilação de novos saberes.
Nessa mesma linha, Vygotsky (2012), argumenta que o desenvolvimento humano não se restringe a aspectos biológicos, mas é profundamente marcado por fatores históricos e culturais. O autor destaca que a música vai além do entretenimento, assumindo um papel pedagógico essencial ao servir como uma “técnica social do sentir”. Essa abordagem ressalta a dualidade da experiência musical: enquanto conecta-se às vivências individuais, também atua como ponte entre o sujeito e seu contexto sociocultural, facilitando a internalização de conceitos e o exercício da imaginação.
Em suas investigações, Vygotsky (2012), diferencia duas modalidades de atividade humana: a reprodutiva, vinculada à memorização, e a criativa, desencadeada pela necessidade de superar desafios. Conforme suas palavras: “A imaginação, alicerce de toda criação, manifesta-se em todas as esferas da vida cultural, possibilitando tanto a produção artística quanto às inovações científicas e tecnológicas” (Vygotsky, 2012, p. 18).
Sob essa ótica histórico-cultural, a criatividade — alimentada pela imaginação — torna-se fundamental para uma educação voltada à formação integral, capacitando os indivíduos a reinterpretarem suas experiências e enfrentar obstáculos. A música, enquanto expressão estética, mobiliza emoções que se processam no córtex cerebral (Vygotsky, 2012), evidenciando as inter-relações entre desenvolvimento cognitivo, linguagem, interação social e aprendizagem musical.
Pesquisas contemporâneas corroboram essa visão. O estudo de Kraus & Chandrasekaran (2017), demonstra que a exposição à música na primeira infância fortalece as redes neurais associadas ao processamento linguístico, melhorando habilidades como leitura, escrita e comunicação. No entanto, como observa Pereira (2019, p. 34), “a inserção da música no currículo escolar ainda enfrenta desafios, muitas vezes sendo relegada a um papel secundário ou reduzida a atividades pontuais”.
Além dos benefícios cognitivos, a prática musical coletiva promove competências socioemocionais. Conforme Ilari & Keller (2021), ao participar de atividades musicais em grupo, as crianças desenvolvem cooperação, disciplina e empatia, transformando a sala de aula em um espaço mais inclusivo e colaborativo.
A PRÁTICA MUSICAL NO CONTEXTO EDUCACIONAL
A incorporação da música no ambiente escolar redefine as dinâmicas de ensino, conferindo maior liberdade aos alunos e estimulando a criatividade docente. Educar musicalmente implica familiarizar as crianças com a linguagem sonora por meio de vivências orientadas e experimentações práticas.
Gainza (2018), enfatiza que a espontaneidade despertada pela música tem um valor social indiscutível, potencializando a expressividade e a inventividade. Em sua análise: “Cada elemento musical ativa uma dimensão humana específica: o ritmo induz ao movimento corporal, a melodia desperta a afetividade, e a estrutura harmônica contribui para a organização mental” (Gainza, 2018, p. 42).
Essa visão é complementada por Almeida (2020), que ressalta o papel da escola na democratização do acesso à cultura, afirmando que “a instituição escolar deve ser um espaço de ampliação de repertórios, valorizando a diversidade e promovendo experiências significativas” (Almeida, 2020, p. 91). Jeandot (2016), por sua vez, adverte contra abordagens excessivamente técnicas, defendendo que “a educação musical deve priorizar a sensibilidade, formando indivíduos capazes de vivenciar a música de maneira profunda, ainda que não dominem a teoria” (Jeandot, 2016, p. 25).
Pesquisas recentes destacam ainda os impactos da música na autorregulação emocional. Conforme estudos de Hallam (2018), crianças que vivenciam práticas musicais demonstram maior capacidade de expressar sentimentos e compreender a si mesmas. Bréscia (2020), acrescenta que, além dos benefícios afetivos, a música estimula a plasticidade cerebral, melhora o rendimento acadêmico e favorece a integração social.
Martins (2019), explora a relação entre música e desenvolvimento linguístico, demonstrando que a exposição a ritmos e melodias diversificadas aprimora a fala, a audição e a percepção cultural. Ao apresentar manifestações musicais de diferentes origens, a escola possibilita o contato com novas formas de comunicação, enriquecendo o vocabulário e a sensibilidade intercultural dos alunos. Em síntese, a música na educação infantil transcende a mera recreação, consolidando-se como uma ferramenta pedagógica capaz de estimular o desenvolvimento integral (cognitivo, emocional e social); fortalecer vínculos afetivos e memórias positivas associadas à aprendizagem e promover a inclusão e o respeito à diversidade cultural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo evidenciou o papel fundamental da música como ferramenta pedagógica multidisciplinar na Educação Infantil, transcendendo sua função meramente recreativa para assumir um lugar central no desenvolvimento integral da criança. A análise demonstrou que a musicalização, quando incorporada de forma intencional e sistemática no currículo, atua simultaneamente em três dimensões essenciais: cognitiva, socioafetiva e cultural.
Os achados corroboram as teorias de Vygotsky (2012) e Gardner (2011), confirmando que a experiência musical potencializa a criatividade, o desenvolvimento linguístico e a capacidade de resolução de problemas. Simultaneamente, como destacam Ilari e Keller (2021), a prática musical coletiva fortalece habilidades sociais cruciais para o século XXI, como cooperação, empatia e trabalho em equipe.
A revisão dos documentos normativos brasileiros – BNCC (2017), DCNEI (2009) e RCNEI (1998) – revela um avanço significativo no reconhecimento legal da música como direito de aprendizagem. Contudo, persistem desafios práticos para sua implementação efetiva, incluindo a necessidade de formação continuada de professores, a superação de abordagens fragmentadas e a garantia de recursos materiais e espaços adequados.
Recomenda-se, portanto, a integração da música como eixo transversal no projeto político-pedagógico, a criação de espaços permanentes de formação docente que unam teoria e prática e o desenvolvimento de pesquisas que mensuram os impactos da musicalização a longo prazo. A música configura-se não como atividade complementar, mas como linguagem essencial para uma educação infantil verdadeiramente inclusiva e transformadora. Seu potencial vai além do desenvolvimento de habilidades específicas, ela cultiva a sensibilidade, a curiosidade e o pensamento crítico, formando indivíduos mais criativos, sociáveis e conscientes de seu papel no mundo.
Este estudo reforça a urgência de políticas públicas que garantam sua presença qualificada no cotidiano escolar, assegurando a todas as crianças o direito de se desenvolverem por meio dessa poderosa forma de expressão humana.
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