Treinamento parental aliado à análise do comportamento aplicada (ABA) no transtorno do espectro autista (TEA): Uma revisão de literatura

PARENTAL TRAINING ALLIED WITH APPLIED BEHAVIOR ANALYSIS (ABA) IN AUTISM SPECTRUM DISORDER (ASD): A LITERATURE REVIEW

FORMACIÓN PARENTAL ALIADA CON EL ANÁLISIS DE CONDUCTA APLICADO (ABA) EN EL TRASTORNO DEL ESPECTRO AUTISTA (TEA): UNA REVISIÓN DE LA LITERATURA

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/C6914A

DOI

doi.org/10.63391/C6914A

Mendes, Patrícia . Treinamento parental aliado à análise do comportamento aplicada (ABA) no transtorno do espectro autista (TEA): Uma revisão de literatura. International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

As intervenções em crianças com TEA devem ser conduzidas sob um viés multidisciplinar, com áreas do conhecimento essenciais na promoção de melhorias nas condições manifestadas por esses sujeitos. No âmbito da intervenção psicológica, a Análise do Comportamento Aplicada constitui uma abordagem científica voltada para a compreensão e modificação do comportamento. O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista traz consigo uma série de desafios para a família, impactando diretamente a dinâmica familiar e exigindo adaptações em diversos aspectos da vida cotidiana. Uma das abordagens que têm se mostrado eficaz nesse contexto é o treinamento parental, que oferece ferramentas essenciais para os pais no manejo das dificuldades comportamentais e no estímulo ao desenvolvimento da criança. O objetivo geral da pesquisa foi analisar como o treinamento parental associado à ABA pode contribuir para o desenvolvimento e a qualidade de vida de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Utilizou-se da metodologia de revisão de literatura, fundamentando a pesquisa com resultados extraídos de artigos científicos, com ano de publicação entre 2017 e 2024, no idioma português e inglês, buscados nas bases de dados do Scielo, PubMed, Web Of Sciences, BDENF, Lilac e Google Acadêmico. Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, de natureza básica, com objetivos descritivos e procedimento bibliográfico. Os resultados mostraram que a integração da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) na capacitação parental aprimora o acompanhamento das famílias, permitindo identificar e direcionar suas principais demandas. Essa abordagem alinha as necessidades dos cuidadores às orientações profissionais, promovendo autonomia e evitando a dependência de serviços e instituições de suporte. Nas considerações finais viu-se que o treinamento parental com ABA é altamente eficaz na melhoria da qualidade de vida de crianças autistas e suas famílias. No entanto, são necessários mais estudos para aprofundar sua eficácia, identificar desafios e propor novas abordagens para diferentes contextos.
Palavras-chave
análise do comportamento aplicada; autismo; treinamento parental.

Summary

Interventions for children with ASD should be conducted from a multidisciplinary perspective, integrating essential fields of knowledge to improve their conditions. In the context of psychological intervention, Applied Behavior Analysis (ABA) is a scientific approach focused on understanding and modifying behavior. The diagnosis of Autism Spectrum Disorder (ASD) presents several challenges for families, directly impacting family dynamics and requiring adjustments in various aspects of daily life. One effective approach in this context is parental training, which provides essential tools for parents in managing behavioral difficulties and promoting the child’s development. The general objective of this research was to analyze how parental training combined with ABA can contribute to the development and quality of life of children with Autism Spectrum Disorder (ASD). The study employed a literature review methodology, drawing on results from scientific articles published between 2017 and 2024 in Portuguese and English, sourced from databases such as Scielo, PubMed, Web of Science, BDENF, Lilacs, and Google Scholar. This research follows a qualitative approach, is basic in nature, has descriptive objectives, and uses bibliographic procedures. The findings indicated that integrating Applied Behavior Analysis (ABA) into parental training enhances family support by identifying and addressing key concerns. This approach aligns caregivers’ needs with professional guidance, fostering autonomy and preventing dependency on support services and institutions. In the final considerations, it was observed that ABA-based parental training is highly effective in improving the quality of life of autistic children and their families. However, further studies are needed to deepen the understanding of its effectiveness, identify challenges, and propose new approaches for different contexts.
Keywords
applied behavior analysis; autism; parental training.

Resumen

Las intervenciones dirigidas a niños con Trastorno del Espectro Autista (TEA) deben realizarse desde una perspectiva multidisciplinaria, integrando campos esenciales del conocimiento para mejorar sus condiciones. En el contexto de la intervención psicológica, el Análisis Conductual Aplicado (ABA, por sus siglas en inglés) es un enfoque científico centrado en la comprensión y modificación del comportamiento. El diagnóstico de TEA presenta diversos desafíos para las familias, afectando directamente la dinámica familiar y exigiendo ajustes en distintos aspectos de la vida cotidiana. Un enfoque eficaz en este contexto es el entrenamiento parental, que proporciona herramientas esenciales a los cuidadores para el manejo de dificultades conductuales y la promoción del desarrollo infantil. El objetivo general de esta investigación fue analizar cómo el entrenamiento parental combinado con ABA puede contribuir al desarrollo y a la calidad de vida de niños con TEA. El estudio empleó una metodología de revisión bibliográfica, con base en artículos científicos publicados entre 2017 y 2024 en portugués e inglés, extraídos de bases de datos como Scielo, PubMed, Web of Science, BDENF, Lilacs y Google Scholar. Esta investigación tiene un enfoque cualitativo, es de naturaleza básica, con objetivos descriptivos y procedimiento bibliográfico. Los hallazgos indicaron que la integración del Análisis Conductual Aplicado (ABA) en el entrenamiento parental fortalece el apoyo familiar al identificar y abordar preocupaciones clave. Este enfoque alinea las necesidades de los cuidadores con la orientación profesional, fomentando la autonomía y previniendo la dependencia de servicios e instituciones de apoyo. En las consideraciones finales, se observó que el entrenamiento parental basado en ABA es altamente eficaz para mejorar la calidad de vida de niños con TEA y sus familias. Sin embargo, se requieren más estudios para profundizar en la comprensión de su efectividad, identificar desafíos y proponer nuevos enfoques para diferentes contextos.
Palavras-clave
análisis conductual aplicado; autismo; entrenamiento parental.

INTRODUÇÃO 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento infantil que impacta habilidades sociocomunicativas e comportamentais. Trata-se de um transtorno do comportamento que afeta o desenvolvimento da criança e pode gerar comprometimentos significativos sem uma intervenção precoce e multidisciplinar. As principais dificuldades envolvem linguagem verbal e não verbal, comunicação, fala, escuta, cognição, expressão de sentimentos, relacionamentos interpessoais, entre outros aspectos.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma psicopatologia que afeta o neurodesenvolvimento e perdura por toda a vida (Oliveira, Moraes & Cabral, 2023). Seus sinais aparecem nos primeiros meses, permitindo diagnóstico precoce e intervenções para melhorar a qualidade de vida (Magalhães et al., 2022). O diagnóstico precoce do Autismo é essencial para intervenções que melhoram a qualidade de vida, especialmente na infância e adolescência (Nascimento et al., 2018). Geralmente, ocorre na inserção escolar, mas pode ser tardio em casos menos intensos (Feifer et al., 2020). Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor a qualidade de vida (Pitz, Gallina & Schultz, 2021).

As intervenções em crianças com  TEA devem ser conduzidas sob um viés multidisciplinar, com áreas do conhecimento essenciais na promoção de melhorias nas condições manifestadas por esses sujeitos. Neste contexto, observa-se que há muitas possibilidades que coexistem na prática clínica das intervenções em crianças autismo, dentre elas, a Applied Behavior Analysis (ABA), em português traduzida significa Análise do Comportamento Aplicada  indicada como uma essencial ferramenta de apoio ao desenvolvimento de práticas psicoterapêuticas capazes de obter maiores progressos com esses pacientes (Oliveira, Moraes & Cabral, 2023).

Segundo Santos (2024), crianças com TEA podem apresentar comportamentos disruptivos, como crises de birra, agressividade e autolesão, que prejudicam a aprendizagem, o desenvolvimento e a socialização. Esses comportamentos também impactam os pais, aumentando a sobrecarga, o estresse e o isolamento social, além de comprometer a percepção de sua competência nos cuidados.

Matos (2019), ressalta que a repercussão do diagnóstico impacta todos os  membros da família, pois exige adaptações nas expectativas quanto ao futuro da criança, reestruturação da rotina e dos papéis dos diversos familiares, além de mudanças em aspectos como carreira profissional e situação financeira. Além disso, o processo de diagnóstico também é acompanhado por respostas emocionais, como desilusão, incerteza, remorso, sentimento de perda, receio e desânimo. 

Muitas famílias enfrentam essa situação de maneira favorável, ajustando-se às exigências da criança, enquanto outros podem vivenciar essa etapa de forma extenuante, especialmente para as mães. As mães, em sua maioria, sentem consequências consideráveis após a confirmação do diagnóstico, devido ao papel predominante de cuidadora, ainda fortemente presente na sociedade atual (Bittencourt et al., 2021). Organizar tratamentos, supervisionar a administração de remédios, lidar com a sobrecarga de responsabilidades e dispor de menos tempo para momentos de descanso são desafios frequentes para aquelas que se dedicam totalmente ao cuidado dos filhos (Bochi, Friedrich & Pacheco , 2016).

No Brasil, ainda persistem certos entraves que podem retardar a implementação de um plano de intervenção nos moldes recomendados pela literatura – individualizado, precoce, intenso e prolongado. Tais fatores englobam: 1) a insuficiência de mão de obra especializada, 2) o crescimento contínuo de crianças com autismo e 3) a fragilidade das políticas públicas e a escassez de redes de apoio para essa população (Santos, 2024). 

Como uma alternativa potencial para esses desafios, a inclusão dos responsáveis na intervenção tem sido refinada e debatida para promover e assegurar o acesso a um tratamento apropriado em contextos onde os recursos financeiros e humanos são limitados. Segundo Santos (2024), o treinamento parental possibilita “o aumento na intensidade da intervenção, a melhora na qualidade da interação cuidador-criança a partir da aprendizagem de princípios comportamentais e o aumento na probabilidade de generalização da habilidade ensinada” (p. 18).

O treinamento parental consiste em um conjunto de intervenções psicoeducacionais voltadas para o desenvolvimento de habilidades parentais que promovam um ambiente familiar mais estruturado, funcional e responsivo às necessidades da criança. Assim a  intervenção via cuidadores pode prepará-los para se tornarem agentes ativos no desenvolvimento de seus filhos e proporcionar um contexto para reforçar comportamentos  ensinados no ambiente clínico, contribuindo para a generalização (Gaiato, 2023). Dentro dessa perspectiva,  para condução da investigação foi construído o seguinte questionamento: como o treinamento parental, aliado à Análise do Comportamento Aplicada  pode contribuir para o desenvolvimento e a qualidade de vida de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

O objetivo central da pesquisa foi analisar como o treinamento parental associado à ABA pode contribuir para o desenvolvimento e a qualidade de vida de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para atender a este objetivo central de forma organizada e estratégica, predefiniu-se como objetivos específicos os seguintes: a) identificar os principais fundamentos da Análise do Comportamento Aplicada (ABA)  no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA); b) analisar o impacto do treinamento parental na evolução do desenvolvimento infantil de crianças com TEA;  c) compreender  a relação entre o treinamento parental e a redução de comportamentos desafiadores em crianças verificando como a capacitação dos pais contribui para a comunicação e interação social da criança com TEA e d) explorar o papel da formação profissional na qualificação dos responsáveis para aplicar estratégias baseadas na Análise do Comportamento Aplicada.

Socialmente a pesquisa se justifica   pela necessidade investigar que diante do aumento significativo de crianças identificadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), torna-se essencial assegurar a oferta do atendimento apropriado. Uma abordagem adotada para viabilizar esse suporte e ampliar a aplicabilidade das competências adquiridas é a participação ativa dos responsáveis no processo terapêutico. Dessa forma, é possível instruir os cuidadores em diversas habilidades, como aprimoramento da comunicação e manejo de comportamentos que possam prejudicar o desenvolvimento. Como justificativa científica/profissional é relevante que conteúdos científicos sejam produzidos sobre questões do campo da Psicologia de modo a se expandir o rol de materiais que podem agregar conhecimento aos profissionais atuantes no mercado. 

No desenvolvimento da pesquisa foi empregado o uso das metodologias de revisão bibliográfica fundamentando a pesquisa com resultados extraídos de  artigos científicos, com ano de publicação entre 2017 e 2024, no idioma português e inglês, buscados nas bases de dados do Scielo, PubMed, Web Of Sciences, BDENF,   Lilac e Google Acadêmico.  Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, de natureza básica, com objetivos descritivos e procedimento bibliográfico.

O desenvolvimento da pesquisa está estruturado em  duas seções. Dessa forma, após está conclusão vem o  desenvolvimento ou embasamento teórico ,  onde são demonstrados  relevantes e indicados com caracterização, sendo eles discutidos na seção denominada discussão em  prol da produção dos resultados finais  da pesquisa. Por fim, será apresentado a conclusão da pesquisa, onde os principais resultados são retomados para indicar o atendimento aos objetivos e emitir com clareza a resposta percebida para o problema investigado, sob um posicionamento crítico-científico produzido pela autora.

TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA)

O termo “autismo” foi introduzido por Eugen Bleuler em 1908 para descrever o distanciamento da realidade em pessoas com esquizofrenia. Em 1943, Leo Kanner aprofundou o estudo, analisando onze crianças com isolamento social, preferência por rotinas repetitivas e dificuldade de conexão emocional. Ele cunhou o termo “Autismo Infantil Precoce”, diferenciando-o de outros transtornos psiquiátricos (Guimarães, 2017).

Kanner (1967), descreveu crianças autistas como incapazes de estabelecer relações normais e resistentes a mudanças, características centrais do TEA (Lima, 2014). Em 1944, Hans Asperger identificou crianças com dificuldades sociais, mas inteligência média ou superior e interesses específicos, originando a “Síndrome de Asperger” (Parraga et al., 2019). A noção de espectro ganhou força nas décadas de 1980 e 1990, ao demonstrar a diversidade de sintomas e habilidades entre indivíduos com autismo (Santos, 2024). 

As atualizações dos manuais diagnósticos, como o DSM e a CID, mostram a evolução do conceito de TEA. O DSM-III (1980) introduziu o “Transtorno Autista”, enfatizando déficits graves, mas excluindo casos menos severos (Medeiros et al., 2023). O DSM-IV (1994) ampliou os critérios, subdividindo o autismo em categorias, mas gerando confusão clínica. A mudança mais significativa veio com o DSM-5 (2013), que unificou as categorias sob o termo TEA, adotando dois domínios diagnósticos: déficits na comunicação e interação social, e comportamentos repetitivos e restritos, garantindo maior precisão diagnóstica (Cabral, Falcke & Marin, 2021).

A CID também evoluiu na classificação do TEA. A CID-10 (1990) o definiu como um “transtorno invasivo do desenvolvimento”, enquanto a CID-11 (2022) adotou o termo “Transtorno do Espectro Autista”, alinhando-se ao DSM-5 e enfatizando a gravidade e necessidades de suporte (Medeiros et al., 2023). Essas mudanças padronizaram critérios e facilitaram intervenções.

O TEA, condição neurológica que afeta o neurodesenvolvimento desde os primeiros meses de vida, impacta relações sociais e o desempenho escolar (Oliveira, Moraes & Cabral, 2023; Magalhães et al., 2022). Na fase escolar, crianças autistas enfrentam desafios na comunicação, foco e interação, comprometendo o aprendizado (Flor, 2023; Vitola, 2021; Corrêa et al., 2022). Segundo o DSM-5 (APA, 2014), o TEA se manifesta por déficits na comunicação e interação social, além de comportamentos repetitivos, afetando o desenvolvimento (Cabral, Falcke & Marin, 2021).

O desenvolvimento da comunicação é essencial na infância, mas crianças com TEA enfrentam déficits significativos nessa área (Ney & Hübner, 2022). O aprendizado é mais lento, agravado pelo diagnóstico tardio e falta de intervenções precoces (Souza & Paim, 2021; Oliveira et al., 2018). Dificuldades no foco, interação e expressão emocional podem gerar comportamentos disruptivos e distanciamento social (Silva, 2022).

O TEA varia em gravidade, afetando o desenvolvimento de forma distinta. Algumas crianças possuem cognição preservada, mas enfrentam desafios sociais e linguísticos, exigindo intervenções adequadas ao seu grau de afetação (Matos, 2018; Silva, 2021). A interdisciplinaridade é essencial para abordar as múltiplas repercussões do TEA, com a fonoaudiologia sendo fundamental na melhoria das habilidades comunicacionais (Gaiato et al., 2022; Silva, 2022).

Diante desses desafios, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) tem se mostrado eficaz no ensino de habilidades e na adaptação social, sendo amplamente utilizada em escolas, clínicas e no ambiente familiar. A próxima seção abordará sua importância no desenvolvimento da criança com TEA.

ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA (ABA) NO TEA  

As intervenções no TEA devem ser multidisciplinares, envolvendo Psicologia, Psicopedagogia e Fonoaudiologia. A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma abordagem científica voltada à modificação do comportamento, amplamente reconhecida no atendimento a indivíduos com TEA (Oliveira & Silva, 2021). Utilizando reforçamento e análise funcional, a ABA promove habilidades sociais e comunicativas, favorecendo a autonomia (Medeiros, 2021).

Recomendada pela OMS, a ABA tem eficácia comprovada desde o estudo pioneiro de Lovaas (1987), consolidando-se como uma abordagem baseada em evidências para intervenção precoce. Seu princípio básico é reforçar comportamentos positivos, reduzindo os disruptivos de forma gradual (Gaiato et al., 2022; Mizael & Ridi, 2022). A ABA possui sete dimensões essenciais: aplicada, comportamental, analítica, tecnológica, conceitual, eficaz e generalizável (Silva, 2022). Seus objetivos incluem avaliação de habilidades funcionais, trabalho com famílias para melhorar a interação social e implementação de programas educacionais com acompanhamento contínuo (Benitez, 2020). 

Mizael e Ridi (2022, p. 57) expressam a seguinte contribuição científica epistêmica:

A ABA tem como objetivo maximizar e desenvolver repertórios que estão em déficit, reduzir excessos comportamentais (que podem ser classificados como excesso comportamental, estereotipias, comportamentos disruptivos – Howard et al., 2014), bem como trabalhar com questões de relevância social (Cooper et al., 2007), identificando comportamentos observáveis, estabelecendo comportamentos-alvo de mudança, e elaborando, assim, uma intervenção customizada para cada indivíduo e com avaliação perene a fim de averiguar a eficácia da intervenção aplicada.

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é essencial no desenvolvimento de indivíduos com transtornos invasivos, como o TEA, melhorando comportamentos socialmente relevantes em situações reais (Oliveira & Silva, 2021). A abordagem se baseia na interação entre indivíduo e ambiente, influenciando mutuamente o comportamento (Matos, 2018; Andalécio et al., 2019). Em transtornos como TEA e TDAH, a ABA ajuda no desenvolvimento de habilidades essenciais em diferentes contextos (Silva, 2022).

A eficácia da ABA é respaldada por dados científicos, incluindo o estudo pioneiro de Lovaas (1987), e é amplamente recomendada por organizações como a OMS e o Autism Speaks (Benitez et al., 2020; Matos, 2018). A metodologia é considerada a mais relevante para intervenções em TEA, promovendo melhorias significativas no comportamento e aprendizado (Oliveira & Silva, 2021).

Nesse sentido, um aspecto fundamental dessa abordagem é a coleta contínua e sistemática de dados nas diferentes fases da intervenção, prévia, durante e posterior, com o objetivo de monitorar o progresso individual da criança, subsidiar a tomada de decisões e ajustar as estratégias empregadas para maximizar a aquisição das habilidades-alvo, de acordo com as necessidades específicas de cada indivíduo (Oliveira & Naves, 2023). Considerando TEA e ABA, destaca-se a relevância de uma abordagem multiprofissional integrada, na qual a intervenção deve ser conduzida de maneira interdisciplinar. Dependendo das necessidades específicas de cada criança, pode ser imprescindível o envolvimento de diferentes especialistas, bem como a participação ativa dos pais no processo terapêutico.

TREINAMENTO PARENTAL: CONCEITOS,  IMPORTÂNCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A FAMÍLIA E A CRIANÇA COM TEA 

É inegável que a chegada de uma criança com distúrbio do desenvolvimento causa um efeito intenso e marcante em toda a família. O treinamento parental é uma abordagem fundamental no contexto do cuidado e desenvolvimento de crianças com necessidades específicas, como aquelas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista. Observa-se que esse tipo de treinamento visa capacitar os pais a implementar estratégias e técnicas de intervenção que favoreçam a aquisição de habilidades e a melhoria dos comportamentos da criança.

Antes de adentrarmos no treinamento parental propriamente dito, é importante destacar que ou reforçar que a parentalidade transcende a mera satisfação das necessidades básicas de sobrevivência da criança, configurando-se como um processo complexo que envolve relações interpessoais, comunicação eficaz, desenvolvimento de competências sociais e a ampliação dos níveis de compreensão e aceitação por parte dos cuidadores. Trata-se de uma das funções mais desafiadoras desempenhadas pelo ser humano, uma vez que exige adaptações constantes e um elevado nível de comprometimento (Ferreira, 2023).

Machado, Londres  e Pereira  (2018),  deixam evidente que a  chegada de uma criança ao núcleo familiar representa um marco significativo que demanda reorganizações estruturais, sendo um potencial gerador de estresse parental. Nesse contexto, os pais assumem um conjunto ampliado de responsabilidades, tornando-se a principal referência para o desenvolvimento da criança ao longo de sua trajetória. O suporte oferecido no ambiente familiar tem papel determinante na construção da identidade e na formação dos adultos que essas crianças se tornarão. Assim, as práticas educativas parentais e a qualidade do ambiente familiar configuram-se como variáveis fundamentais para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

Um avanço significativo no tratamento do autismo foi a valorização do conhecimento acerca da condição por parte dos familiares e sua participação ativa no processo terapêutico. A capacitação parental, na qual estratégias interventivas são incorporadas ao cotidiano familiar e escolar, proporcionou um suporte adicional no desenvolvimento de competências fundamentais e favoreceu uma vivência mais adaptativa por parte dos cuidadores (Campos, 2023). 

Assim, expandindo a intervenção para além dos contextos clínicos. Essa abordagem contribui para a redução do estresse parental e potencializa os resultados terapêuticos diante dos desafios emocionais e financeiros decorrentes do diagnóstico. É fundamental constituir equipes multidisciplinares qualificadas para oferecer suporte adequado e atualizado às famílias, uma vez que a orientação aos responsáveis sobre a execução correta dos procedimentos de estimulação influencia de maneira positiva e direta a qualidade do cuidado, especialmente em relação à sua regularidade e intensidade (Santos, Dias & Novo, 2017).

É importante sempre citarmos, o treinamento parental baseado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma estratégia fundamental para capacitar famílias a lidar com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em contextos de vulnerabilidade financeira e emocional. Por meio desse treinamento, os cuidadores aprendem a implementar intervenções eficazes no dia a dia, favorecendo o desenvolvimento da criança e minimizando desafios comportamentais (Oliveira & Silva, 2021). Além disso, ao promover maior compreensão sobre o TEA, o treinamento reduz a sobrecarga emocional dos familiares, proporcionando suporte psicológico e fortalecendo os vínculos parentais. Para famílias com dificuldades financeiras, essa abordagem é ainda mais relevante, pois possibilita intervenções contínuas no ambiente doméstico, otimizando o progresso da criança sem a necessidade de recursos financeiros elevados. Dessa forma, o treinamento parental ABA torna-se uma ferramenta essencial para garantir qualidade de vida tanto para a criança quanto para sua família  (Ferreira, 2023). 

Nesse modelo de intervenção, os pais recebem orientações sobre como promover o desenvolvimento de habilidades nas áreas da comunicação social, diálogo, linguagem espontânea, atenção conjunta e interação dentro do ambiente doméstico (Souza, 2023). Dois aspectos são considerados fundamentais na Intervenção Conduzida pelos Pais. O primeiro refere-se à colaboração entre cuidadores e pesquisadores, sendo recomendada uma abordagem ecológica que contemple não apenas as necessidades da criança, mas também as da família como um todo. O segundo fator é o envolvimento ativo dos pais, que devem participar de maneira intensa no processo, tornando-se agentes protagonistas da intervenção. Dessa forma, além dos benefícios direcionados à criança, a intervenção contribui para o fortalecimento dos recursos familiares, promovendo o empoderamento parental (D’ Orazio, 2020).

A participação ativa dos pais ou cuidadores na intervenção de crianças  com TEA é um fator determinante para o desenvolvimento e bem-estar da criança. O empoderamento parental, entendido como o processo de capacitação e fortalecimento das habilidades dos cuidadores, permite que a família assuma um papel essencial na aplicação de estratégias terapêuticas no ambiente doméstico, tornando as intervenções mais contínuas e eficazes. Além dos benefícios diretos para o desenvolvimento infantil, o empoderamento parental também contribui para a redução do estresse e da sobrecarga emocional da família. O conhecimento sobre o TEA e a forma adequada de manejar os desafios diários proporcionam maior segurança aos cuidadores, promovendo um ambiente mais estruturado e acolhedor (Morganho, 2015).

Outrossim, é que ao investir no treinamento e no envolvimento dos pais na intervenção terapêutica, garante-se um suporte mais acessível e contínuo à criança, principalmente em contextos de vulnerabilidade financeira e emocional. O empoderamento parental, aliado a uma abordagem estruturada, possibilita uma evolução mais significativa no desenvolvimento da criança e uma melhor qualidade de vida para toda a família.

Morganho (2015), conduziu uma pesquisa cujo propósito foi analisar os impactos da intervenção parental baseada na ABA, implementada pelos cuidadores, sobre as competências sociocomunicativas da mãe e da criança com autismo, bem como examinar as influências dessa abordagem no fortalecimento da autonomia dos pais. Os achados indicaram que a intervenção gerou um efeito positivo nas habilidades de interação social e comunicação tanto da mãe quanto do filho, evidenciado pelo aumento da frequência de comportamentos relacionados ao compartilhamento de temas e à atenção conjunta da dupla após o início das orientações. Ademais, constatou-se que o grau de empoderamento parental apresentou um aumento significativo após a implementação da intervenção, em comparação ao período anterior.

Há um consenso na literatura de que as famílias de indivíduos com autismo necessitam de intervenções que, além de favorecerem o desenvolvimento de seus filhos, também considerem a preservação e o fortalecimento da estrutura familiar . A Abordagem Centrada na Família (ACF) fundamenta-se na compreensão de que a família é essencial na promoção do desenvolvimento social e cognitivo da criança, devendo, portanto, ser considerada um elemento central nas estratégias de intervenção (Souza, 2023).

No estudo prático realizado por Souza (2023), por meio da análise das informações coletadas, especialmente no que se refere aos instrumentos de mensuração, foi possível verificar que os cuidadores que participaram do treinamento parental por intervenção da ABA demonstraram um desempenho mais eficaz no exercício da parentalidade. Observou-se uma predominância de fatores favoráveis em comparação aos desfavoráveis. Além disso, os achados apontaram um aumento expressivo no conjunto de habilidades sociais dos participantes após a intervenção.

No que concerne à competência parental, constatou-se que, após a implementação da intervenção, os participantes avaliaram de maneira satisfatória sua aptidão para exercer a função parental de forma eficaz. Essa percepção levou em consideração tanto o tempo disponível quanto os recursos acessíveis para a educação dos filhos. Tais achados evidenciam a relevância das intervenções e do suporte voltado ao aprimoramento das habilidades sociais educativas dos pais, fornecendo indícios de que programas de capacitação parental com ABA podem favorecer um desempenho mais assertivo e qualificado na criação dos filhos. O aprimoramento do repertório de habilidades sociais dos responsáveis é essencial para estabelecer e sustentar uma relação equilibrada e saudável com crianças no espectro autista, contribuindo diretamente para seu desenvolvimento e o bem-estar da família.

Santos (2017), aplicou uma pesquisa em profissionais que utilizam a ABA na treinamento parental , a pesquisa contou com a participação de oito psicólogos que atuam em clínicas ou atendimentos domiciliares voltados a indivíduos com diagnóstico de TEA. Dentre eles, dois são do sexo masculino e seis do sexo feminino, todos com formação em nível de pós-graduação na área. Quanto à abordagem terapêutica, três são especializados em Terapia Cognitivo-Comportamental e cinco são Analistas do Comportamento. Em relação à experiência profissional, seis dos entrevistados iniciaram o trabalho com TEA ainda durante a graduação, enquanto dois começaram a atuar logo após a conclusão do curso.

Esse treinamento parental com intervenção ABA , de acordo com Santos (2017)  é um programa elaborado para auxiliar os responsáveis a aprimorar as competências essenciais para conduzir o comportamento e o desenvolvimento de seus filhos. As estratégias adquiridas nesse processo possibilitam que os pais reconheçam, delimitem e reajam de maneira apropriada a condutas disfuncionais e desafiadoras na infância. Dessa forma, foi possível evidenciar que os profissionais envolvidos na pesquisa empregam o treinamento parental como estratégia interventiva no acompanhamento de crianças com TEA. Além disso, reconhecem essa abordagem como um elemento fundamental para a eficácia do tratamento.

Logo, ao promover uma melhor compreensão sobre o TEA, o treinamento também alivia a carga emocional dos familiares, oferecendo suporte psicológico e fortalecendo os laços afetivos. Em contextos com limitações financeiras, essa abordagem é ainda mais significativa, pois permite que o acompanhamento da criança ocorra no ambiente familiar, sem a necessidade de altos investimentos. Assim, o treinamento parental por meio da  ABA representa uma ferramenta indispensável para melhorar a qualidade de vida tanto da criança quanto de sua família.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A pesquisa evidenciou a eficácia do treinamento parental associado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ao capacitar pais e cuidadores, essa abordagem facilita a compreensão do comportamento da criança e a aplicação de estratégias eficazes no ambiente familiar, promovendo habilidades sociais, comunicativas e adaptativas. O envolvimento da família fortalece vínculos afetivos, reduz comportamentos desafiadores e cria um ambiente mais estável, favorecendo o desenvolvimento global da criança.

O treinamento parental contribui para o desenvolvimento e qualidade de vida da criança, ao promover comportamentos adaptativos, reduzir comportamentos interferentes e fortalecer a comunicação e autonomia. Além disso, a aplicação dos princípios da ABA, como reforço positivo, análise funcional e modelagem de comportamentos, gera melhorias significativas na comunicação e interação social.

O treinamento parental contribui para o desenvolvimento e qualidade de vida da criança, ao promover comportamentos adaptativos, reduzir comportamentos interferentes e fortalecer a comunicação e autonomia. Além disso, a aplicação dos princípios da ABA, como reforço positivo, análise funcional e modelagem de comportamentos, gera melhorias significativas na comunicação e interação social.

Conclui-se que o treinamento parental associado à ABA é eficaz na melhoria da qualidade de vida das crianças autistas e suas famílias, embora mais estudos sejam necessários para aprofundar a eficácia das intervenções e propor novas abordagens para diferentes contextos. Pesquisas futuras podem ampliar o acesso a programas mais acessíveis e adaptáveis, oferecendo suporte qualificado para lidar com as demandas do TEA.

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Edição

v. 5
n. 48
Treinamento parental aliado à análise do comportamento aplicada (ABA) no transtorno do espectro autista (TEA): Uma  revisão de literatura

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Análise do comportamento aplicada – ABA
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