Professores e a mediação de suas emoções no exercício da prática docente

TEACHERS AND THE MEDIATION OF THEIR EMOTIONS IN THE EXERCISE OF TEACHING PRACTICE

PROFESORES Y LA MEDIACIÓN DE SUS EMOCIONES EN EL EJERCICIO DE LA PRÁCTICA DOCENTE

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/BDA3B9

DOI

doi.org/10.63391/BDA3B9

Bem, Morgania Constantino de. Professores e a mediação de suas emoções no exercício da prática docente. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A pesquisa propõe examinar de que forma os educadores sentem e controlam suas emoções no âmbito do trabalho docente, reconhecendo a emoção como parte integrante e fundamental do agir pedagógico. Uma profissão docência é multidimensional, marcada por interações cognitivas, relacionais, ético-morais e socioemocionais que repercutem sob o bem-estar profissional e a qualidade das relações pedagógicas. Para elucidar essa questão, foi realizada esta pesquisa de caráter bibliográfico com abordagem qualitativa exploratória e descritiva. A coleta de dados aconteceu entre março e maio de 2025 em publicações científicas nacionais e internacionais disponíveis em SciELO, CAPES Periódicos, Google Scholar e ERIC. A análise temática de conteúdo serviu para organizar e interpretar os dados coletados. Os resultados mostram que as emoções são um componente dos saberes docentes e são ativadas na rotina durante a gestão da classe, nas relações com os alunos e nas decisões pedagógicas. Foi verificado que não ter uma formação voltada à gestão emocional pode resultar em adoecimento psíquico e perda da motivação do exercício da educação prática educativa. Por outro lado, professores que possuem habilidades em gerir emoções tendem a ser mais equilibrados emocionalmente e constroem ambientes escolares saudáveis, empáticos e colaborativos. A pesquisa coloca em evidência a falta de ações que abarque a educação emocional na formação docente. A partir disso, nota-se que valorizar o aspecto afetivo da profissão é decisivo para dignificar o papel do educador e contribuir para um ensino mais humanizado e transformador.
Palavras-chave
docência; emoções; mediação emocional; saúde docente; formação de professores.

Summary

The research aims to examine how educators feel and manage their emotions within the teaching profession, recognizing emotion as an integral and fundamental part of pedagogical practice. Teaching is a multidimensional profession, marked by cognitive, relational, ethical-moral, and socioemotional interactions that impact professional well-being and the quality of pedagogical relationships. To elucidate this issue, a bibliographic research was conducted using a qualitative, exploratory, and descriptive approach. Data collection took place between March and May 2025 through national and international scientific publications available on SciELO, CAPES Journals, Google Scholar, and ERIC. Thematic content analysis was used to organize and interpret the collected data. The results show that emotions are a component of teaching knowledge and are activated in everyday routines, during classroom management, in interactions with students, and in pedagogical decision-making. It was found that the lack of training in emotional management can lead to psychological distress and a loss of motivation for practical educational work. On the other hand, teachers who possess emotional management skills tend to be more emotionally balanced and help build healthy, empathetic, and collaborative school environments. The research highlights the lack of actions addressing emotional education in teacher training. Thus, it becomes evident that valuing the affective aspect of the profession is crucial to dignifying the educator’s role and contributing to a more humanized and transformative education. Keywords: teaching; emotions; emotional mediation; teacher well-being; teacher training.
Keywords
teaching; emotions; emotional mediation; teacher well-being; teacher training.

Resumen

La investigación se propone examinar cómo los educadores sienten y gestionan sus emociones en el ámbito del trabajo docente, reconociendo la emoción como una parte integral y fundamental de la práctica pedagógica. La docencia es una profesión multidimensional, marcada por interacciones cognitivas, relacionales, ético-morales y socioemocionales que repercuten en el bienestar profesional y en la calidad de las relaciones pedagógicas. Para esclarecer esta cuestión, se realizó una investigación de carácter bibliográfico con un enfoque cualitativo, exploratorio y descriptivo. La recolección de datos se llevó a cabo entre marzo y mayo de 2025 en publicaciones científicas nacionales e internacionales disponibles en SciELO, Periódicos CAPES, Google Scholar y ERIC. Se utilizó el análisis temático de contenido para organizar e interpretar los datos recopilados. Los resultados muestran que las emociones son un componente del conocimiento docente y se activan en la rutina diaria, durante la gestión del aula, en las relaciones con los alumnos y en la toma de decisiones pedagógicas. Se comprobó que la falta de formación en gestión emocional puede provocar desgaste psicológico y pérdida de motivación para ejercer la práctica educativa. Por otro lado, los docentes que poseen habilidades para gestionar emociones tienden a estar más equilibrados emocionalmente y construyen entornos escolares saludables, empáticos y colaborativos. La investigación pone en evidencia la falta de acciones que incluyan la educación emocional en la formación docente. A partir de ello, se observa que valorar el aspecto afectivo de la profesión es decisivo para dignificar el papel del educador y contribuir a una enseñanza más humanizada y transformadora.
Palavras-clave
docencia; emociones; mediación emocional; salud docente; formación del profesorado.

INTRODUÇÃO

O ensino é uma profissão que requer não apenas conhecimento técnico e pedagógico, mas também um investimento emocional significativo. Os professores lidam com muitos desafios do dia a dia além do currículo, exigindo controle do corpo e da emoção, expressão e mediação. Tardif (2014) afirma que ensinar é uma forma complexa de trabalho porque tem múltiplas e entrelaçadas dimensões: intelectual, relacional, afetiva e ética, que estão interligadas na vida escolar. Dentro desse quadro, as emoções não são secundárias ou individualistas; elas são parte integrante da prática educacional.

Um estudo realizado por Zembylas (2021) argumenta que os contextos sociais e institucionais moldam as emoções dos professores dentro de uma relação abrangente com dinâmicas de poder. Portanto, entender como os professores experienciam, expressam e regulam emoções é fundamental para melhorar o bem-estar do professor enquanto aprimora a qualidade do engajamento pedagógico. Além disso, regular as emoções é vital para a saúde mental, sugerem alguns estudiosos.

Estudos mais recentes conduzidos por Nunes et al. (2020) revelam que a dificuldade em gerenciar o estresse, juntamente com altas demandas emocionais, resulta em doenças psicológicas, como a síndrome de burnout, que impacta diretamente o desempenho profissional e o ambiente escolar. 

A reflexão sobre a mediação emocional na prática do ensino revela um docente que sente, sofre, reage e aprende em meio às suas experiências emocionais. Esse tipo de investigação não é um exercício qualquer de empatia, mas sim um esforço que serve para elaborar políticas de formação e valorização profissional que respeitem a totalidade do ser docente.

A DOCÊNCIA COMO PRÁTICA COMPLEXA

A docência, longe de se restringir à simples transmissão de conteúdos, configura-se como uma prática profissional complexa, situada em uma rede de relações sociais, institucionais e afetivas que influenciam diretamente a atuação do professor. Esse exercício profissional exige habilidades técnicas, sensibilidade relacional, tomada de decisões rápidas e constantes, além de um equilíbrio entre razão e emoção. Envolver-se com o ensino é, portanto, lidar com múltiplas dimensões simultâneas, cognitivas, éticas, políticas e, especialmente, emocionais.

Segundo Tardif (2014), os saberes docentes são historicamente construídos no cruzamento entre a formação acadêmica, a experiência pessoal e a prática profissional cotidiana. Essa multiplicidade de fontes revela que o ato de ensinar não é neutro, tampouco objetivo, mas profundamente situado em contextos históricos e humanos. O professor precisa articular saberes diversos e responder a demandas cada vez mais heterogêneas, o que exige constante reflexão, criatividade e adaptabilidade.

A complexidade da docência também se evidencia no fato de que o trabalho pedagógico se realiza em contextos dinâmicos, instáveis e, muitas vezes, adversos. Perrenoud (2000) argumenta que o professor moderno precisa desenvolver competências para agir em situações de incerteza, tomar decisões sob pressão, gerir conflitos e estabelecer relações pedagógicas significativas. Não se trata de um trabalho automatizado, mas de uma prática que envolve discernimento, sensibilidade e inteligência emocional.

Além disso, o cotidiano escolar é atravessado por uma série de pressões externas que afetam diretamente o desempenho e o bem-estar dos docentes. Políticas educacionais fragmentadas, imposições burocráticas, metas padronizadas, falta de infraestrutura, violência escolar e desvalorização profissional constituem fatores que impactam negativamente a motivação e a saúde mental dos professores (Esteve, 2010). Nesse cenário, o docente precisa não apenas ensinar, mas resistir, reconstruir-se e manter-se emocionalmente engajado com sua prática.

Para Nóvoa (2017), é imprescindível reconhecer o professor como um sujeito epistêmico, ético e emocional. A docência exige, além do domínio de conteúdos, uma profunda relação com o humano, com os desejos, medos, expectativas e histórias dos estudantes. Isso significa que ensinar também é um ato afetivo, permeado por emoções que tanto fortalecem quanto fragilizam o vínculo pedagógico. Ignorar esse aspecto seria reduzir a docência a um fazer técnico, desconsiderando sua verdadeira natureza.

Compreender a docência como uma prática complexa é assumir que ela está enraizada em processos subjetivos, relacionais e sociais. Trata-se de reconhecer que o fazer pedagógico é constantemente atravessado por afetos, valores, emoções e subjetividades que influenciam, e são influenciadas por condições de trabalho, a formação docente e a cultura escolar. Essa compreensão mais ampliada da docência permite valorizar o papel das emoções no cotidiano escolar, promovendo uma visão mais humanizada e integral do trabalho do professor.

A DIMENSÃO EMOCIONAL DA DOCÊNCIA

Durante muito tempo, a pedagogia tradicional manteve-se pautada por uma visão racionalista do processo de ensino-aprendizagem, na qual as emoções eram consideradas irrelevantes ou até mesmo prejudiciais à objetividade do trabalho docente. Essa concepção, enraizada no paradigma cartesiano da separação entre razão e emoção, contribuiu para a marginalização da dimensão afetiva nas práticas educacionais. No entanto, abordagens mais recentes da psicologia educacional e das ciências da educação vêm resgatando a centralidade das emoções na docência, compreendendo-as como componentes estruturantes da prática pedagógica.

Hargreaves (2000) foi um dos primeiros autores a destacar o papel das emoções no ensino, argumentando que os sentimentos dos professores afetam diretamente suas atitudes, decisões curriculares, interações com os alunos e até sua motivação para continuar na profissão. Ele define o ensino como uma prática “emocionalmente intensa”, onde o envolvimento afetivo pode tanto sustentar quanto fragilizar o compromisso pedagógico. Assim, as emoções não são apenas reações subjetivas, mas elementos que influenciam diretamente a qualidade do processo educativo.

Zembylas (2021) amplia esse entendimento ao afirmar que as emoções docentes são construídas socialmente e mediadas por discursos institucionais e culturais. Ou seja, os sentimentos não emergem apenas da experiência individual, mas estão entrelaçados com estruturas de poder, normas institucionais e expectativas socioculturais. A emoção, nesse sentido, torna-se um campo político. Professores aprendem, muitas vezes informalmente, quais emoções devem demonstrar ou esconder, o que pode gerar sofrimento e conflitos internos.

Outro aspecto relevante é a função pedagógica da afetividade. Antunes (2015) sustenta que vínculos afetivos positivos entre professores e alunos são fundamentais para a aprendizagem significativa. Em ambientes escolares marcados por empatia, escuta e respeito mútuo, os estudantes sentem-se mais motivados, seguros e engajados. Nesse sentido, o educador não deve suprimir suas emoções, mas compreendê-las e utilizá-las de forma intencional e construtiva para fortalecer o vínculo pedagógico.

A literatura contemporânea tem reforçado, portanto, a necessidade de inserir o desenvolvimento emocional na formação docente. Bisquerra (2012), referência internacional em educação emocional, defende que os educadores precisam ser preparados para reconhecer, nomear, expressar e regular suas emoções, de modo a promover o bem-estar individual e a saúde coletiva na escola. Essa competência não apenas favorece o equilíbrio psíquico do professor, mas contribui para a construção de ambientes educacionais mais humanos, cooperativos e democráticos.

Reconhecer a dimensão emocional da docência implica, portanto, ampliar o entendimento do trabalho pedagógico para além do domínio técnico e cognitivo. Significa compreender o professor como um ser integral, cuja atuação está atravessada por sentimentos, experiências e relações que precisam ser acolhidas, refletidas e valorizadas no cotidiano escolar.

MEDIAÇÃO E REGULAÇÃO EMOCIONAL NA PRÁTICA DOCENTE

A mediação e a regulação emocional constituem aspectos centrais do fazer docente, especialmente em contextos escolares marcados por desafios constantes, pressões institucionais e relações interpessoais intensas. O professor, nesse cenário, atua como mediador não apenas do conhecimento, mas também das emoções, suas e dos outros, sendo necessário desenvolver competências emocionais para lidar com situações complexas e, por vezes, emocionalmente desgastantes.

Mediação emocional, nesse contexto, refere-se à capacidade de reconhecer e interpretar as próprias emoções, compreender como elas afetam o comportamento profissional e adotar estratégias para expressá-las de maneira adequada. Segundo Goleman (2011), a inteligência emocional, que inclui habilidades como autoconsciência, autorregulação, empatia e habilidades sociais, é tão importante quanto a competência técnica para o sucesso profissional, especialmente nas profissões que envolvem relações humanas intensas, como a docência.

O modelo de competência socioemocional proposto pela CASEL (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning, 2020) oferece uma estrutura útil para compreender a mediação emocional no contexto educacional. As competências centrais incluem a autoconsciência, o autocontrole, a tomada de decisões responsáveis, as habilidades de relacionamento e a consciência social. Esses elementos, quando incorporados à prática docente, ajudam o professor a responder de maneira mais equilibrada a situações de conflito, frustração, ansiedade ou sobrecarga.

A regulação emocional, por sua vez, é fundamental em situações de alta demanda, como indisciplina em sala de aula, conflitos com colegas ou pais, avaliações externas e mudanças curriculares constantes. Gross (2015) define regulação emocional como o conjunto de processos conscientes e inconscientes que influenciam a experiência e a expressão emocional. Para o professor, regular suas emoções não significa reprimi-las, mas encontrar formas saudáveis de lidar com elas, transformando, por exemplo, o estresse em ação pedagógica planejada ou a frustração em escuta atenta.

Nunes et al. (2020) alertam para o fato de que a ausência de formação específica para o desenvolvimento emocional docente contribui para o aumento dos índices de adoecimento psíquico na profissão. Síndrome de burnout, ansiedade, depressão e desmotivação são frequentemente associadas à falta de suporte institucional e à invisibilização das emoções na prática profissional. A ausência de espaços de acolhimento e diálogo sobre os sentimentos vivenciados no ambiente escolar gera um ciclo de sofrimento silencioso e naturalizado.

Por outro lado, quando o professor é apoiado e estimulado a desenvolver sua inteligência emocional, os impactos são amplamente positivos. Oliveira e Lopes (2021) demonstram que docentes com maior competência socioemocional tendem a construir ambientes de aprendizagem mais afetivos, seguros e colaborativos, favorecendo não apenas o seu próprio bem-estar, mas também o desempenho e a saúde emocional dos alunos.

Diante disso, é urgente que as políticas de formação docente, tanto inicial quanto continuada, incluam a dimensão emocional como eixo estruturante. Programas de desenvolvimento profissional que incorporem práticas de educação emocional, como oficinas, grupos reflexivos, mentorias, acompanhamento psicológico e espaços de escuta, são fundamentais para a construção de um ambiente escolar mais saudável e humanizado. Reconhecer que o professor também sente, sofre, reage e se emociona é o primeiro passo para transformar a escola em um espaço verdadeiramente educador e empático.

METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como uma investigação de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo. A opção por esse tipo de pesquisa justifica-se pela necessidade de aprofundamento teórico sobre a temática em foco, permitindo a análise crítica de produções acadêmicas previamente publicadas que tratam das emoções no contexto do trabalho docente, bem como das estratégias de mediação e regulação emocional adotadas pelos professores.

A coleta de dados foi realizada entre os meses de março e maio de 2025, por meio de buscas sistemáticas em bases de dados eletrônicas reconhecidas pela comunidade científica, como SciELO, Google Scholar, CAPES Periódicos, e ERIC. Tais bases foram escolhidas por sua credibilidade, abrangência e diversidade de publicações nas áreas da educação, psicologia educacional e formação docente.

Para compor o corpus da pesquisa, foram definidos descritores em português e inglês com o intuito de ampliar o escopo da busca e garantir a inclusão de materiais relevantes e atualizados. Entre os principais termos utilizados destacam-se: docência, emoções na educação, saúde emocional docente, mediação emocional, regulação emocional, formação de professores, bem-estar docente, educação emocional, burnout docente. A combinação entre os termos foi feita com o uso de operadores booleanos, sendo o operador AND utilizado para delimitar resultados com sobreposição de conceitos (por exemplo, “emoções AND docência”), e o operador OR empregado para agregar sinônimos e ampliar o número de registros pertinentes (por exemplo, “professor OR educador”).

Foram estabelecidos critérios de inclusão que orientaram a seleção dos materiais: publicações entre os anos de 2013 e 2024; textos completos e de acesso gratuito; estudos teóricos ou empíricos que abordassem, de forma direta, a dimensão emocional da prática docente; e publicações com revisão por pares. Em contrapartida, foram excluídos trabalhos com foco exclusivo em outras categorias profissionais que não os docentes, artigos que discutiam emoções sem relação direta com a prática educativa, textos opinativos ou sem rigor científico (como blogs, jornais ou revistas populares) e estudos duplicados nas diferentes bases consultadas.

A análise dos dados selecionados foi realizada por meio de uma abordagem qualitativa e interpretativa, utilizando os princípios da análise temática de conteúdo, conforme proposto por Bardin (2016). A leitura criteriosa do material permitiu a identificação de categorias recorrentes, como: afetividade e vínculo pedagógico; emoções como saberes da docência; estratégias de autorregulação emocional; impactos emocionais do trabalho docente; e a formação para competências socioemocionais. Essas categorias nortearam a organização e a interpretação dos achados, permitindo a construção de uma visão ampliada e crítica sobre o tema.

Com base nesse processo, buscou-se compreender o estado da arte sobre as emoções na docência, com ênfase na forma como os professores vivenciam, compreendem e regulam suas emoções no contexto escolar. A sistematização dos resultados também permitiu identificar lacunas, pontos de convergência e possíveis caminhos para investigações futuras, contribuindo para reflexões sobre políticas formativas e práticas pedagógicas que valorizem a dimensão emocional do trabalho docente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos estudos selecionados evidenciou que a dimensão emocional da docência tem ganhado reconhecimento como parte essencial da prática pedagógica. Os dados revelam que os professores enfrentam um cotidiano permeado por exigências emocionais intensas — desde a gestão da sala de aula até o enfrentamento de pressões institucionais e sociais. A forma como essas emoções são percebidas, expressas e reguladas impacta diretamente o bem-estar do docente, a qualidade das relações pedagógicas e o ambiente escolar como um todo.

Autores como Hargreaves (2000) e Zembylas (2021) apontam que o ensino é uma prática afetiva por natureza, e que a ausência de preparo emocional pode levar ao desgaste profissional e ao adoecimento psíquico. Essa perspectiva é reforçada por Antunes (2015), que defende a afetividade como elemento estruturante da aprendizagem.

Tabela 01 – Dimensões emocionais da prática docente.

Fonte: Elaborado pela autora (2025)

Além disso, os estudos mostram que a mediação emocional é uma estratégia essencial para lidar com os desafios da profissão. Professores que desenvolvem competências como empatia, autoconsciência e autorregulação tendem a enfrentar os conflitos escolares com mais equilíbrio. Essa ideia é sustentada por autores como Bisquerra (2012), Goleman (2011) e Gross (2015), que destacam a importância da inteligência emocional na construção de ambientes educacionais saudáveis.

Tabela 02 – Competências socioemocionais no exercício docente

Fonte: Elaborado pela autora (2025)

Apesar da relevância dessas competências, a maioria das formações docentes ainda negligencia a dimensão emocional. Os currículos continuam centrados em conteúdos técnicos, deixando de lado aspectos subjetivos e afetivos da profissão. Oliveira e Lopes (2021) apontam que a ausência de espaços formativos voltados à educação emocional contribui para o adoecimento e a desmotivação dos professores.

Outro ponto recorrente nos estudos é a necessidade de políticas institucionais que reconheçam a saúde emocional do professor como prioridade. A criação de espaços de escuta, acolhimento e formação continuada aparece como uma demanda urgente. Nóvoa (2017) e Perrenoud (2000) defendem que valorizar o aspecto humano da docência é essencial para transformar a escola em um espaço mais colaborativo e respeitoso.

Tabela 03 – Propostas institucionais para o cuidado emocional docente

Fonte: Elaborado pela autora (2025)

Por fim, a análise revelou uma lacuna importante na produção científica: faltam estudos empíricos que investiguem práticas concretas de mediação emocional no cotidiano escolar. Embora o debate teórico esteja em expansão, ainda são escassas as evidências sistematizadas sobre os impactos de programas formativos voltados à inteligência emocional e ao bem-estar docente. Isso indica a necessidade de ampliar as investigações nesse campo, com foco em experiências práticas e resultados mensuráveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa permitiu constatar que a docência é uma prática complexa e intensamente atravessada por dimensões emocionais, que influenciam diretamente a qualidade da experiência educativa. As emoções dos professores não são elementos periféricos ou individuais, mas fenômenos sociais, culturais e institucionais, que precisam ser compreendidos à luz de suas interações com o ambiente escolar e as estruturas de poder que o constituem.

Ao investigar o papel da mediação emocional na prática docente, ficou evidente que o desenvolvimento de competências emocionais é um fator crucial para o bem-estar profissional e para a construção de vínculos pedagógicos mais humanos e significativos. A ausência de formação adequada para lidar com essas questões contribui para o sofrimento emocional, a desvalorização do trabalho docente e o comprometimento do processo educativo como um todo.

Assim, conclui-se que é urgente repensar as políticas de formação inicial e continuada, incorporando a dimensão emocional como parte integrante e indissociável do fazer pedagógico. Programas que promovam o autoconhecimento, o cuidado de si e a construção de ambientes escolares mais empáticos e acolhedores são indispensáveis para fortalecer o papel do professor como sujeito ativo, ético, reflexivo e emocional.

Além disso, recomenda-se que novas pesquisas, especialmente de cunho empírico, sejam realizadas, investigando práticas de mediação emocional no chão da escola, bem como os efeitos dessas práticas sobre a saúde dos docentes e os resultados educacionais. Somente a partir do reconhecimento pleno da complexidade humana que constitui o ato de ensinar será possível construir uma educação verdadeiramente transformadora, sensível e comprometida com o desenvolvimento integral de todos os envolvidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, C. A afetividade na prática pedagógica: uma nova visão sobre o papel das emoções na aprendizagem. São Paulo: Papirus, 2015. Disponível em: https://idonline.emnuvens.com.br/id/article/view/129. Acesso em: 15 jun. 2025.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. Disponível em: https://www.scribd.com/document/696868930/Laurence-Bardin-Analise-de-Conteudo-2016-1  Acesso em: 15 jun. 2025.

BISQUERRA, R. Educação emocional e bem-estar. Porto Alegre: Artmed, 2012. 

CASEL – Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning. SEL competencies and standards, 2020. Disponível em: https://casel.org/sel-framework/ Acesso em: 17 jun. 2025.

ESTEVE, J. M. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. São Paulo: Editora Ática, 2010. Disponível em: https://revistas.cesmac.edu.br/psicologia/article/view/234 Acesso em: 20 jun. 2025.

GOLEMAN, D. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. 

GROSS, J. J. Emotion regulation: current status and future prospects. Psychological Inquiry, v. 26, n. 1, p. 1–26, 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/334804435_Teacher_emotion_emotional_labor_and_teacher_identity  Acesso em: 17 jun. 2025.

HARGREAVES, A. The emotional practice of teaching. Teaching and Teacher Education, v. 16, n. 8, p. 811–826, 2000. Disponível em: https://www.taylorfrancis.com/chapters/edit/10.4324/9780429470950-3/emotions-teacher-identity-poststructural-perspective-michalinos-zembylas  Acesso em: 20 jun. 2025.

NÓVOA, A. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2017. Disponível em: https://rosaurasoligo.files.wordpress.com/2017/04/antc3b3nio-nc3b3voa-professores-imagens-do-futuro-presente.pdf  Acesso em: 18 jun. 2025.

NUNES, M. C.; OLIVEIRA, M. C.; COSTA, A. L. Saúde mental e práticas docentes: uma análise sobre o adoecimento emocional de professores. Revista Práxis Educacional, v. 16, n. 42, p. 139–158, 2020. Disponível em: https://publicacoes.ifc.edu.br/index.php/metapre/article/download/4956/4257/13706  Acesso em: 19 jun. 2025.

OLIVEIRA, A. L.; LOPES, F. R. Competências socioemocionais na formação docente: desafios e possibilidades. Revista Educação & Formação, v. 6, n. 3, e5564, 2021. Disponível em: https://idonline.emnuvens.com.br/id/article/view/129  Acesso em: 19 jun. 2025.

PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. Disponível em: https://www.amazon.com.br/Dez-Novas-Compet%C3%AAncias-para-Ensinar/dp/8573076372  Acesso em: 17 jun. 2025.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2014. Disponível em: https://www.livrariavozes.com.br/saberesdocenteseformacaoprofissional8532626688/p  Acesso em: 15 jun. 2025.

ZEMBYLAS, M. Emotions and teacher identity: a poststructural perspective. Teaching and Teacher Education, v. 98, 103251, 2021. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/240532041_Emotions_and_Teacher_Identity_A_poststructural_perspective  Acesso em: 15 jun. 2025.

Bem, Morgania Constantino de. Professores e a mediação de suas emoções no exercício da prática docente.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 49
Professores e a mediação de suas emoções no exercício da prática docente

Área do Conhecimento

O PLANTIO E O CULTIVO DE HORTALIÇAS NA ESCOLA
Cultivo; nutrição; custo flexível
Educação emocional na primeira infância: O alicerce para a resiliência na vida adulta
educação emocional; primeira infância; resiliência; terapia cognitivo-comportamental; disciplina positiva.
Gestão participativa e cultura democrática: Um estudo sobre os impactos da escuta ativa na tomada de decisões escolares
gestão participativa; cultura democrática; escuta ativa; tomada de decisão escolar; comunicação dialógica
Os caminhos do cérebro na primeira infância: Contribuições da neurociência para o processo de alfabetização
neurociência; aprendizagem infantil; alfabetização; emoção; plasticidade cerebral.
Jogos como ferramenta de alfabetização: A contribuição do programa recupera mais Brasil
jogos educativos; alfabetização; programa recupera mais Brasil.
Amor patológico, dependência afetiva e ciúme patológico: Uma revisão abrangente da literatura científica
amor patológico; dependência afetiva; ciúme patológico; comportamento; psicologia.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025