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Resumo
INTRODUÇÃO
A transformação digital dos sistemas financeiros tem sido acompanhada por uma crescente complexidade regulatória e por uma elevação significativa dos riscos cibernéticos relacionados ao processamento de dados sensíveis. Com o avanço exponencial das fraudes eletrônicas, a conformidade com normas internacionais de segurança da informação tornou-se um imperativo estratégico para organizações que operam com pagamentos eletrônicos. Dentre essas normas, destaca-se o Payment Card Industry Data Security Standard (PCI DSS), um conjunto de requisitos técnicos e operacionais criado em 2004 pelas principais bandeiras de cartões (Visa, Mastercard, American Express, Discover e JCB), cuja aplicação é mandatória para qualquer entidade que armazene, processe ou transmita dados de cartões de pagamento.
O PCI DSS, atualmente em sua versão 4.0, estabelece controles rigorosos voltados à proteção do chamado Cardholder Data Environment (CDE), abrangendo desde a gestão de acessos e criptografia até a segmentação de redes e políticas de atualização de sistemas (PCI SSC, 2022). Contudo, o escopo dessas exigências pode se tornar extremamente amplo, especialmente em empresas de grande porte ou que operam em ambientes distribuídos e multicanais. Essa amplitude gera impactos diretos no custo de conformidade, na complexidade operacional e na superfície exposta a riscos. Nesse cenário, ganha destaque o conceito de redução do escopo PCI, que se refere a estratégias que visam isolar, segmentar ou eliminar partes da infraestrutura que têm contato com dados sensíveis, reduzindo, assim, a quantidade de ativos sujeitos às exigências normativas.
Autores como Rodrigues, Santos e Melo (2023) defendem que a gestão eficaz do escopo é uma das principais práticas de governança em segurança da informação, pois possibilita o uso mais eficiente dos recursos organizacionais e concentra os investimentos nos pontos mais críticos da cadeia transacional. A redução de escopo, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma prática técnica, mas como uma decisão estratégica, capaz de melhorar a performance de compliance, facilitar auditorias, reduzir riscos de sanções legais e, sobretudo, proteger os dados dos clientes de forma proativa e escalável.
O presente artigo tem como objetivo analisar, com base em dados verídicos e literatura especializada, as principais técnicas contemporâneas de redução do escopo PCI, como tokenização, criptografia ponta a ponta (E2EE), segmentação de redes, uso de provedores terceirizados PCI-compliant e ambientes isolados em nuvem. A investigação considera documentos oficiais do PCI Security Standards Council, relatórios de empresas líderes em segurança, além de estudos de caso reais. Espera-se, assim, contribuir para o fortalecimento da segurança da informação em infraestruturas de pagamentos, evidenciando como a racionalização do escopo PCI pode viabilizar modelos mais sustentáveis e resilientes de compliance digital em larga escala.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A crescente demanda por conformidade regulatória no setor de pagamentos digitais tem impulsionado o desenvolvimento de mecanismos normativos voltados à proteção de dados sensíveis, sobretudo em ambientes com alto volume transacional. No centro desse movimento está o padrão PCI DSS, concebido como uma referência internacional para garantir a integridade, a confidencialidade e a disponibilidade das informações do portador do cartão.
Com o avanço da transformação digital e o crescimento exponencial das ameaças cibernéticas, as exigências de conformidade tornaram-se cada vez mais complexas, pressionando as organizações a adotarem medidas eficazes de segurança da informação.
Dentro desse contexto, a redução do escopo PCI emerge como uma estratégia técnica e gerencial capaz de mitigar riscos, otimizar custos e facilitar o atendimento às exigências do PCI DSS. Trata-se de uma prática cada vez mais recomendada por especialistas em segurança cibernética e auditoria regulatória, visto que permite focar os esforços de controle em ambientes realmente críticos, sem comprometer a eficiência operacional.
Este capítulo tem por objetivo apresentar os fundamentos teóricos que sustentam a redução de escopo como estratégia de segurança e compliance. Para isso, discute-se inicialmente o conceito de escopo PCI e sua importância no contexto normativo, avançando-se, em seguida, para uma análise crítica dos impactos da sua redução sobre a governança da segurança da informação nas organizações contemporâneas.
2.1 O conceito de escopo PCI e sua relevância
A definição do escopo no contexto da norma PCI DSS (Payment Card Industry Data Security Standard) é um dos elementos centrais na implementação de um sistema eficaz de segurança da informação em ambientes de pagamento. O escopo compreende todos os componentes tecnológicos e processuais que armazenam, processam ou transmitem dados do portador do cartão, além de sistemas conectados logicamente ou fisicamente ao ambiente de dados sensíveis. Como destaca o PCI Security Standards Council (2022), a delimitação clara do escopo permite aplicar os controles de forma proporcional e racional, evitando a sobreposição de requisitos técnicos desnecessários e otimizando os recursos organizacionais.
Rodrigues, Santos e Melo (2023) observam que muitas organizações subestimam a importância do escopo como variável de risco. Para os autores, negligenciar essa delimitação gera efeitos colaterais relevantes, como aumento de custos com auditorias, exposição desnecessária de ativos, e criação de zonas de sombra na segurança digital. A ampliação excessiva do escopo implica, portanto, não apenas em custos financeiros, mas também em riscos reputacionais e regulatórios.
Em documento técnico, o PCI SSC (2022) reforça:
A delimitação do escopo do PCI DSS deve ser feita com critério técnico e estratégico. Os sistemas que não armazenam, processam ou transmitem dados de cartão devem ser segregados dos sistemas críticos, por meio de segmentações lógicas e físicas eficazes, a fim de evitar a proliferação desnecessária dos controles obrigatórios e garantir a concentração dos esforços de segurança nos ativos mais sensíveis (PCI SSC, 2022, p. 28).
Tal abordagem não visa apenas a redução de custos, mas representa uma reconfiguração dos vetores de exposição. Ao controlar e minimizar o escopo, a organização reduz sua superfície de ataque, racionaliza a gestão de vulnerabilidades e facilita o processo de auditoria.
2.2 O impacto da redução de escopo na governança de segurança
A governança da segurança da informação é diretamente influenciada pela forma como a organização estrutura seu ambiente de conformidade. Reduzir o escopo PCI implica em decisões estruturais, como a terceirização de etapas críticas, o uso de redes isoladas e a adoção de tecnologias como tokenização e criptografia ponta a ponta. Essas medidas não apenas otimizam a conformidade, mas promovem um alinhamento mais estratégico entre os objetivos de segurança e os de negócios.
O relatório do Ponemon Institute (2021), baseado em dados empíricos de grandes corporações multinacionais, demonstrou que empresas que adotam políticas eficazes de redução de escopo têm 38% menos incidentes de violação de dados relacionados a sistemas de pagamento. Essa constatação reforça a tese de que há uma correlação direta entre delimitação de escopo e maturidade da gestão de riscos.
Silva e Corrêa (2021) sustentam que, ao diminuir a quantidade de sistemas sob escrutínio, a organização aumenta sua capacidade de resposta a incidentes e melhora a eficiência operacional. A integração entre tecnologia, processos e governança se torna mais fluida, possibilitando ações preventivas mais consistentes e diminuindo os riscos associados à complexidade excessiva.
A esse respeito, a IBM Security (2023, p. 41) afirma em seu relatório anual:
Soluções como criptografia ponta a ponta, tokenização e segmentação de rede são mais do que ferramentas técnicas: representam uma filosofia de segurança baseada na redução da complexidade e no fortalecimento da governança informacional. A combinação dessas práticas permite que organizações não apenas estejam em conformidade, mas construam ambientes mais resilientes e auditáveis.
A redução do escopo PCI, portanto, deve ser concebida como uma prática que transcende o campo técnico, integrando-se à estratégia corporativa de mitigação de riscos e à busca por vantagem competitiva em mercados regulados.
3 METODOLOGIA
A construção de uma análise crítica sobre as técnicas de redução do escopo PCI exige uma fundamentação metodológica clara, sistemática e validada por fontes especializadas. Em se tratando de um tema técnico-normativo, com múltiplas implicações operacionais e estratégicas, torna-se essencial adotar uma abordagem capaz de captar tanto a estrutura conceitual da segurança da informação quanto sua aplicação prática em ambientes reais de pagamento. Para tal, a presente investigação foi conduzida com base em procedimentos qualitativos, ancorando-se na revisão de literatura especializada e na análise de documentos técnicos e institucionais reconhecidos internacionalmente.
O delineamento metodológico priorizou o rigor na seleção das fontes, a atualidade dos dados e a fidedignidade das informações interpretadas. Considerando-se a diversidade de tecnologias, arquiteturas e modelos regulatórios existentes, optou-se por uma metodologia que permitisse organizar o conteúdo em categorias analíticas, viabilizando uma leitura crítica, comparativa e orientada à aplicação prática. A seguir, apresentam-se os aspectos fundamentais que nortearam a condução da pesquisa, incluindo seu tipo, método, critérios de seleção e limitações.
3.1 Tipo de pesquisa
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa aplicada, de natureza qualitativa, com delineamento exploratório e descritivo. A abordagem adotada visa compreender, descrever e analisar criticamente as principais técnicas de redução do escopo PCI em ambientes de pagamento, destacando suas implicações para a segurança da informação, o compliance regulatório e a eficiência operacional.
Segundo Gil (2019), a pesquisa qualitativa permite uma interpretação mais aprofundada dos fenômenos estudados, sendo particularmente útil em temas que envolvem decisões estratégicas e aspectos técnicos integrados.
3.2 Método e abordagem
A metodologia adotada baseia-se em revisão bibliográfica e análise documental, combinando dados secundários obtidos de fontes especializadas, relatórios técnicos, normativos internacionais e estudos de caso reais publicados por instituições de referência no campo da segurança cibernética. A escolha dessa abordagem está alinhada à proposta de analisar criticamente o tema a partir de evidências já consolidadas, sem a realização de coleta de dados primários.
De acordo com Lakatos e Marconi (2022), a revisão bibliográfica é adequada quando se busca examinar teorias, conceitos e experiências anteriores, especialmente em campos com forte normatividade técnica, como é o caso do PCI DSS. A análise documental, por sua vez, permite interpretar dados oriundos de manuais técnicos, whitepapers, normas regulatórias e relatórios corporativos, garantindo o uso de dados verídicos e verificáveis.
3.3 Fontes e critérios de seleção
Foram utilizados documentos oficiais emitidos pelo PCI Security Standards Council, como o PCI DSS v4.0 Requirements and Testing Procedures (2022), além de publicações de organizações reconhecidas internacionalmente, incluindo:
Ponemon Institute: estudos sobre custos de vazamento de dados e impacto das técnicas de segurança (2021);
IBM Security: relatórios sobre estratégias de mitigação de riscos cibernéticos (2023);
Fortinet: guias de segmentação de rede e segurança perimetral (2022);
Visa Inc. e Mastercard: relatórios técnicos sobre tokenização e criptografia (2023);
Amazon Web Services (AWS): documentação sobre ambientes PCI-compliant na nuvem (2023);
Stripe e Adyen: publicações técnicas sobre terceirização de pagamentos e conformidade.
Os critérios de seleção das fontes incluíram: a) relevância para o tema; b) atualidade (publicações entre 2019 e 2024); c) confiabilidade da instituição ou autoria; e d) aplicabilidade prática em ambientes de pagamento reais.
3.4 Estratégia de análise
A análise foi conduzida por meio de interpretação crítica de conteúdo, com o objetivo de identificar convergências, boas práticas e recomendações entre as fontes analisadas. As técnicas documentadas foram organizadas em categorias temáticas, tokenização, criptografia ponta a ponta, segmentação de redes, terceirização de ambientes e ambientes isolados em nuvem – possibilitando uma leitura comparativa dos seus impactos sobre o escopo PCI e a segurança da informação.
Segundo Bardin (2016), a análise de conteúdo é apropriada quando se pretende categorizar e compreender dados técnicos e institucionais a partir de um olhar interpretativo. Assim, a metodologia adotada assegura a validade acadêmica da pesquisa, mantendo-se o compromisso com a fidedignidade dos dados utilizados.
3.5 Limitações do estudo
Este estudo não contempla experimentação prática em ambientes computacionais nem coleta de dados primários junto a instituições financeiras. Além disso, por se tratar de uma pesquisa qualitativa, os resultados não pretendem ser generalizáveis, mas sim representativos do estado da arte atual e das boas práticas consolidadas no mercado.
4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
A consolidação das técnicas de redução do escopo PCI vem sendo documentada por uma variedade de fontes técnicas, normativas e corporativas, refletindo a importância estratégica dessas práticas na construção de ambientes digitais mais seguros, auditáveis e resilientes. Com base na análise crítica de documentos oficiais, relatórios especializados e experiências de mercado, foi possível identificar um conjunto de abordagens que se destacam pela efetividade e aderência às exigências do padrão PCI DSS.
A racionalização do escopo, além de representar uma resposta às crescentes exigências de compliance, traduz-se em um modelo de gestão de risco que privilegia a contenção da exposição, a automação dos controles e a concentração dos esforços de segurança em ativos realmente sensíveis. Tais práticas têm sido incorporadas por empresas de diferentes portes e setores, revelando-se como componentes estruturantes de políticas de governança informacional robustas.
Nos tópicos a seguir, apresentam-se as principais técnicas utilizadas para a redução do escopo PCI, discutindo-se seus fundamentos técnicos, evidências de eficácia, limitações operacionais e impactos sobre o modelo de conformidade. A exposição segue uma organização temática, baseada nas categorias mais recorrentes nas publicações especializadas e relatórios técnicos consultados.
4.1 Tokenização
A tokenização é uma técnica de substituição de dados sensíveis, como o número do cartão de crédito, por um identificador não sensível, chamado token, que não possui valor fora do ambiente autorizado. Ao eliminar os dados reais dos sistemas internos da organização, a tokenização reduz substancialmente a área sujeita às exigências do PCI DSS. Segundo o relatório publicado pela Visa Inc. (2023), empresas que adotam tokenização de forma ampla conseguem reduzir até 90 por cento do escopo de conformidade, concentrando os controles apenas nos pontos críticos da infraestrutura.
De acordo com o documento técnico do PCI Security Standards Council (2022, p. 46), a tokenização oferece ganhos significativos em termos de proteção e governança:
A tokenização representa uma estratégia de segurança baseada na dissociação completa entre o identificador comercial e os dados reais do cartão, eliminando o risco de interceptação ou uso indevido dos dados, mesmo em caso de violação dos sistemas de produção.
Essa técnica permite à organização manter funcionalidades operacionais internas, como relatórios e reconciliação de transações, sem a necessidade de armazenar os dados originais, o que simplifica a auditoria e reduz os riscos regulatórios e reputacionais.
4.2 Criptografia ponta a ponta (E2EE)
A criptografia ponta a ponta, também conhecida como E2EE, é aplicada no momento da coleta dos dados, como em terminais de pagamento físico ou formulários online, e permanece ativa até o processamento final realizado por um sistema autorizado. Essa prática garante que os dados estejam protegidos em todo o percurso, mesmo que transitem por redes ou servidores internos da organização.
A IBM Security (2023) relata que empresas que utilizam E2EE reduzem em até 72 por cento a exposição a ataques baseados em interceptação de dados em trânsito. O uso de algoritmos robustos como AES-256 garante a integridade e a confidencialidade da informação mesmo em ambientes distribuídos.
Como destaca o relatório técnico da IBM (2023, p. 21):
A criptografia ponta a ponta redefine o modelo de exposição dos dados ao impedir o acesso mesmo de sistemas autorizados que não fazem parte da lógica transacional. Isso transforma o dado sensível em um objeto matematicamente ilegível fora do destino final, mantendo sua integridade e confidencialidade de forma rigorosa.
Essa técnica é particularmente eficaz em estruturas híbridas, com múltiplos canais de entrada, e se alinha à filosofia de segurança zero trust, ao limitar o acesso mesmo entre sistemas internos.
4.3 Segmentação de redes
A segmentação de redes é a separação lógica ou física do ambiente de dados de pagamento em relação aos demais sistemas corporativos. Essa prática é reconhecida como uma das mais efetivas para reduzir o escopo PCI, uma vez que impede a propagação das exigências de conformidade para áreas da organização que não processam dados sensíveis.
Segundo a Fortinet (2022), a segmentação deve ser feita com o uso de firewalls internos, VLANs segregadas e controles de acesso rigorosos, sendo validada por meio de testes formais, como simulações de penetração e inspeções de tráfego. O PCI Security Standards Council (2022) adverte que a ausência de segmentação eficaz resulta na ampliação automática do escopo para todos os sistemas conectados.
A segmentação, além de reduzir custos de auditoria, promove maior controle sobre fluxos de dados e facilita a identificação de comportamentos anômalos, contribuindo para a prevenção de incidentes de segurança.
4.4 Terceirização para provedores PCI-compliant
A terceirização do processamento de dados de cartão para empresas especializadas, como Stripe, Adyen, PagSeguro e Basis Theory, permite que a organização contratante limite drasticamente sua exposição aos requisitos do PCI DSS. Nesse modelo, a empresa não mantém contato direto com dados sensíveis, transferindo a responsabilidade técnica e operacional para o provedor, desde que este possua certificação válida e mecanismos de controle documentados.
A Basis Theory, em particular, é uma fornecedora especializada em redução de escopo PCI, atuando como um programmable payment vault. Sua infraestrutura é certificada nos padrões PCI DSS nível 1, SOC 2 Tipo II e ISO 27001, o que garante conformidade e segurança desde a captura até o armazenamento e tokenização dos dados do cartão (Basis Theory, 2024a). O serviço é projetado para substituir dados reais por tokens seguros, removendo-os completamente do ambiente da organização e permitindo uma redução significativa do escopo auditável.
Segundo a própria plataforma, a utilização de soluções de tokenização pode reduzir em até 93% o escopo PCI e diminuir em aproximadamente 90% o tempo e esforço necessários para alcançar ou manter a conformidade de nível 1 (Basis Theory, 2024b). Além disso, suas soluções ajudam a atender a requisitos complexos do PCI DSS 4.0, como inventário e verificação de integridade de scripts na página de pagamento (Requisito 6.4.3) e monitoramento contra injeção de código (Requisito 11.6.1), por meio da aplicação de hashes criptográficos e políticas de segurança configuradas via Content Security Policy (Basis Theory, 2024c).
Apesar de ser uma empresa relativamente nova, com quatro anos de atuação, a Basis Theory tem demonstrado crescimento e credibilidade no setor, posicionando-se como uma opção estratégica para organizações que buscam inovação, automação e segurança avançada em seus processos de pagamento (Basis Theory, 2024d). Sua adoção é recomendada especialmente para empresas em fase de estruturação de compliance ou que desejam simplificar o atendimento às exigências do PCI DSS sem comprometer a escalabilidade de seus sistemas.
4.5 Ambientes isolados em nuvem
O uso de ambientes virtualizados e isolados em nuvem para processar dados de cartão tem crescido como alternativa viável à infraestrutura física tradicional. Plataformas como Amazon Web Services, Google Cloud e Microsoft Azure oferecem instâncias e serviços específicos certificados para PCI DSS, conhecidos como Cloud PCI Zones.
Esses ambientes permitem o processamento seguro de dados sensíveis com segmentação lógica, monitoramento contínuo e integração com ferramentas de conformidade. A Amazon Web Services (2023) destaca que clientes que utilizam suas instâncias PCI-compliant conseguem reduzir em até 60 por cento o tempo necessário para a validação de conformidade, graças à padronização e automação dos controles.
O uso de ambientes em nuvem oferece escalabilidade, resiliência e flexibilidade, mas requer conhecimentos técnicos avançados para configuração adequada. Além disso, a responsabilidade é compartilhada entre o provedor e o cliente, sendo necessário compreender claramente os limites dessa divisão.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise das técnicas de redução do escopo PCI evidencia que o cumprimento das exigências do padrão PCI DSS não deve ser compreendido apenas como uma obrigação normativa, mas como uma oportunidade estratégica para reconfigurar a arquitetura de segurança, otimizar recursos e fortalecer a governança digital das organizações. As práticas analisadas ao longo deste estudo demonstram que é possível conciliar conformidade e eficiência, desde que as decisões técnicas estejam integradas a uma visão sistêmica da proteção de dados sensíveis.
A adoção de medidas como a tokenização, a criptografia ponta a ponta, a segmentação de redes, a terceirização para provedores certificados e o uso de ambientes isolados em nuvem revela uma tendência de maturidade na gestão de riscos cibernéticos, na qual o foco desloca-se da mera vigilância normativa para a prevenção ativa de incidentes. Tais práticas, quando corretamente implementadas, não apenas reduzem o escopo técnico e financeiro do compliance, mas também aprimoram a capacidade organizacional de detectar, isolar e responder a ameaças.
Cabe destacar que a efetividade das estratégias de redução de escopo depende de sua aderência a princípios como a segregação de funções, a rastreabilidade das ações e a clareza na definição das responsabilidades, sobretudo em ambientes híbridos ou terceirizados. O modelo de responsabilidade compartilhada, frequentemente adotado em soluções baseadas em nuvem, exige das organizações não apenas conhecimento técnico, mas também maturidade processual e documental para garantir a integridade das medidas adotadas.
Com base nas evidências analisadas, conclui-se que a redução do escopo PCI representa uma ferramenta poderosa para aprimorar a segurança de infraestruturas de pagamento em larga escala, especialmente diante do aumento da complexidade tecnológica e da sofisticação dos ataques cibernéticos. Contudo, sua implementação demanda planejamento criterioso, validação contínua e atualização permanente das práticas de segurança, sob pena de gerar falsas percepções de proteção.
A contribuição deste estudo reside, portanto, na sistematização crítica das principais técnicas de redução do escopo PCI disponíveis na atualidade, à luz de dados técnicos verídicos e normativas reconhecidas. Como proposta de continuidade, recomenda-se a realização de estudos de caso empíricos que investiguem os efeitos práticos da adoção dessas estratégias em organizações brasileiras, considerando suas particularidades operacionais, jurídicas e tecnológicas.
RECOMENDAÇÕES
A partir das análises realizadas, é possível estabelecer recomendações que auxiliem organizações a fortalecer sua conformidade com o padrão PCI DSS de forma racional, sustentável e eficaz. A primeira delas diz respeito à necessidade de compreender a redução do escopo PCI como uma estratégia de segurança integrada, e não como uma solução pontual ou exclusivamente técnica. A tomada de decisão sobre quais técnicas adotar deve considerar não apenas a viabilidade tecnológica, mas também o grau de maturidade organizacional, os recursos disponíveis e o nível de exposição ao risco.
Para alcançar uma redução de escopo PCI em larga escala de maneira eficaz, é fundamental que a estratégia seja conduzida com uma abordagem top-down, sob a liderança de cargos como o Chief Technology Officer (CTO) ou o diretor de pagamentos. Essa perspectiva é essencial, pois a redução efetiva do escopo PCI exige uma revisão abrangente e estratégica de todos os sistemas e componentes que interagem com informações de pagamento, mesmo em organizações onde o processamento de pagamentos não represente a atividade principal. O envolvimento da alta gestão garante que as decisões contemplem tanto aspectos técnicos quanto operacionais, promovendo alinhamento entre as áreas de tecnologia, compliance e negócios.
Recomenda-se, ainda, que as organizações priorizem a implementação de soluções validadas por organismos de certificação reconhecidos internacionalmente, evitando adaptações locais que não atendam plenamente aos requisitos formais da norma. A contratação de serviços especializados, como gateways de pagamento PCI-compliant e ambientes certificados em nuvem, deve ser acompanhada de um plano de governança que assegure a rastreabilidade das ações, a delimitação clara das responsabilidades e a documentação completa dos controles aplicados.
É igualmente importante que as práticas de redução de escopo estejam integradas a políticas internas de segurança da informação, de modo que as ações técnicas estejam em conformidade com diretrizes institucionais de compliance, proteção de dados e gestão de riscos. A ausência dessa integração compromete a efetividade das medidas, criando lacunas de controle e inconsistências perante auditorias.
Apesar das contribuições deste estudo, reconhece-se que a pesquisa apresenta limitações. Trata-se de uma investigação qualitativa, baseada em revisão bibliográfica e análise documental, sem a realização de coleta de dados primários. Essa limitação restringe a possibilidade de generalização empírica dos resultados. Além disso, a rápida evolução dos requisitos do PCI DSS e das tecnologias de segurança demanda atualização contínua das práticas e revisões regulares das estratégias adotadas.
Como perspectiva para estudos futuros, recomenda-se a realização de pesquisas empíricas que mensurem o impacto da adoção das técnicas apresentadas sobre indicadores como tempo de auditoria, custo de conformidade, frequência de incidentes e percepção dos stakeholders. Estudos quantitativos, capazes de correlacionar a redução do escopo PCI à eficácia na prevenção de fraudes e violações de dados, também são recomendados para aprofundar a compreensão do tema em diferentes contextos organizacionais.
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