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Resumo
INTRODUÇÃO
Em uma sociedade cada vez mais mediada por tecnologias digitais, presentes em praticamente todos os espaços da vida cotidiana do ambiente doméstico às instituições escolares. O acesso facilitado às mídias e ferramentas digitais amplia significativamente as possibilidades de comunicação, aprendizagem e criação, impactando diretamente os processos educacionais. Segundo Cernev (2015), a proliferação das redes digitais e das tecnologias da informação gerou um fluxo intenso e diverso de dados, transformando a forma como produzimos, acessamos e compartilhamos o conhecimento.
Historicamente, a tecnologia sempre esteve presente nas práticas humanas, mesmo antes da era digital, como no uso dos arreios para tração animal na agricultura medieval, a tecnologia na construção dos próprios instrumentos musicais no início da história da música. O que muda, na contemporaneidade, é a velocidade e a complexidade com que as inovações tecnológicas se integram aos espaços formativos, exigindo da educação não apenas adaptação, mas uma reestruturação pedagógica.
No contexto brasileiro, o uso de tecnologias em sala de aula ainda enfrenta desafios estruturais, conforme aponta a pesquisa TIC Educação (Cetic.br, 2023–2024): embora a maioria das escolas tenha acesso à internet, muitas carecem de computadores conectados, rede estável e formação docente adequada. Além disso, leis recentes, como a Lei nº 15.100/2025, regulamentam o uso de celulares e dispositivos eletrônicos em ambientes escolares, permitindo seu uso apenas quando houver intencionalidade pedagógica.
Diante desse cenário, é importante refletir sobre o papel das tecnologias emergentes na educação, especialmente em áreas como a Educação Musical, que vêm se transformando por meio de metodologias ativas, simulação instrumental, realidade virtual/aumentada e inteligência artificial. O presente artigo discute como essas ferramentas podem ser aplicadas de maneira criativa e pedagógica em aulas de música no Ensino Médio, promovendo um aprendizado mais inclusivo, dinâmico e conectado com a realidade dos estudantes.
JUSTIFICATIVA
O uso de tecnologias emergentes no contexto educacional tem promovido mudanças significativas nos processos de ensino-aprendizagem, especialmente no que se refere à personalização e à ampliação do acesso ao conhecimento. Na Educação Musical, essas transformações têm possibilitado novas formas de prática, composição e apreciação sonora, mesmo para estudantes que não possuem instrumentos musicais em casa. Diante das desigualdades tecnológicas ainda presentes na realidade das escolas públicas brasileiras, é fundamental explorar ferramentas acessíveis como aplicativos, jogos, realidade virtual e inteligência artificial, de modo a garantir o direito à aprendizagem significativa e criativa para todos os alunos. Justifica-se, portanto, a investigação e aplicação dessas tecnologias como meio de tornar o ensino da música mais interativo, inclusivo e alinhado às demandas da contemporaneidade.
TECNOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE E A EDUCAÇÃO MUSICAL
A tecnologia tem sido bastante presente na atualidade, seja no espaço acadêmico. Tal acontecimento é devido a grande facilidade de ter contato com as mídias digitais que nos atribui a uma gama de possibilidades de capacidades humanas, interagindo diretamente ou indiretamente. Segundo Cernev (2015), a proliferação das redes de comunicação digitais assim como a existência das tecnologias de informações proporcionam um fluxo de informações de todos os tipos. Em todas as áreas existentes do saber e da formação humana existe uma tecnologia por trás, desde a idade média até hoje. Apesar de não ser uma tecnologia eletrônica, naquela época tínhamos o arreio ou arnês, que era uma estrutura vestida no cavalo, que permitia montar nesse cavalo e atrelar carroças, e apetrechos que dependessem da tração deste animal, e também o charrua de ferro, que servia para arar a terra, ou seja, deixá-la pronta para cultivo.
Em algumas realidades existe a necessidade do ser humano de se adaptar às mídias tecnológicas. O uso da tecnologia na sala de aula no Brasil, segundo a pesquisa TIC Educação 2023 do Cetic.br (coleta: agosto/2023–abril/2024, 3.001 escolas), apresenta um cenário de avanços, desafios e desigualdades. Os principais indicadores na utilização são: 62% das escolas usam plataformas como Zoom, Google Sala de Aula ou Microsoft Teams em atividades com estudantes chegando a 86% no Ensino Médio, 81% em escolas estaduais e 73% no setor privado. 81% adotam diário eletrônico e 68% usam nuvem para gestão, embora apenas 59% das escolas municipais o façam. 40% das escolas utilizam esses ambientes, com destaque para 58% das privadas e 54% das estaduais. 94% das escolas têm acesso — mas apenas 55% das públicas têm computadores conectados, e 62% oferecem conexão em sala de aula. Diante destes dados, existem algumas barreiras a enfrentar, como: falta de acesso à internet local (63%), infraestrutura escolar deficiente (66%) e energia instável (31%).
As disparidades regionais: no Norte, apenas 31% das escolas públicas têm conexão em sala de aula, comparado a 87% no Sul. Capacitação insuficiente: 75% dos professores apontam a falta de cursos específicos como obstáculo ao uso de tecnologias. 64% dizem que os professores não usam internet em atividades; 61% afirmam que a proibição de celulares impacta seu uso. Segundo Cetic, a Internet é encarada mais como um recurso administrativo do que pedagógico: ainda é pouco usada para inovar o aprendizado.
É certo que existe um caminho pela frente, de busca e aprendizagem, de entender as diversas variedades de campo de conhecimento que pode-se extrair da tecnologia. Segundo Cetic, mais de 80% dos professores acreditam que a tecnologia torna as aulas mais atraentes . O uso dos celulares são os dispositivos mais comuns em sala, mas seu uso também gera distração e há escolas que optam por restrições rígidas. Segundo a lei 15.100/2025 estabelece a proibição total do uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos portáteis (como tablets e smartwatches) por alunos da educação básica (creche, ensino infantil, fundamental e médio), durante aulas, recreios e intervalos, Os dispositivos devem permanecer desligados e guardados, por exemplo na mochila, em armários ou caixas coletivas. O professor tem autonomia para solicitar e autorizar o uso de celulares ou dispositivos eletrônicos pelos alunos em sala de aula quando o uso tiver finalidade pedagógica.
METODOLOGIAS EMERGENTES
Na área da Educação Musical, esse movimento se concretiza com a adoção de recursos tecnológicos, como plataformas digitais e aplicativos voltados à simulação instrumental, permitindo que os alunos pratiquem em casa mesmo na ausência de instrumentos físicos, treinos de realidade virtual e aumentada e inteligência artificial. Tais recursos visam promover uma aprendizagem mais interativa, personalizada e conectada com os interesses e realidades dos estudantes contemporâneos. Segundo Merchán Sánchez-Jara et al. (2024), a IA permite o acompanhamento automatizado e inteligente da aprendizagem musical, com análise contínua da execução do aluno. Já Arici (2023) destaca que a realidade aumentada aplicada ao ensino musical amplia a imersão e o engajamento, especialmente em fases iniciais da aprendizagem instrumental. Wang (2024) enfatiza que plataformas digitais com simulação de instrumentos são eficazes para democratizar o acesso à prática musical, oferecendo feedback automático e aprendizado escalonado. Para Crogman et al. (2025), a integração entre realidade virtual, plataformas digitais e IA representa uma transição para um modelo educacional centrado no aluno e baseado em dados.
No contexto contemporâneo da Educação Musical, tecnologias emergentes têm desempenhado um papel crucial na ampliação do acesso à aprendizagem prática e personalizada, especialmente para estudantes que não dispõem de instrumentos musicais em casa. Plataformas digitais e aplicativos de simulação instrumental surgem como alternativas eficazes para a prática remota, oferecendo interfaces interativas que imitam sons, técnicas e respostas táteis de diversos instrumentos. O aluno da rede pública no Brasil tendo acesso à informação e formação. Aplicativos como Yousician, Simply Piano e Flowkey, por exemplo, permitem que alunos iniciantes desenvolvam habilidades auditivas, motoras e rítmicas por meio de exercícios gamificados e feedback em tempo real.
Contamos também com recursos de Realidade Virtual (VR) e Realidade Aumentada (AR) que têm sido integrados ao ensino musical para criar experiências imersivas e multissensoriais. Com o uso de óculos VR ou câmeras AR, os estudantes podem “entrar” em ambientes de orquestras, assistir a performances em 360 graus ou manipular partituras e instrumentos em ambientes simulados. Essas tecnologias contribuem para o engajamento emocional e cognitivo, além de favorecer a visualização espacial da música, beneficiando especialmente alunos com estilos de aprendizagem visuais e cinestésicos. Vale salientar que as escolas ainda não têm essas tecnologias disponíveis para professor e aluno desfrutarem, mas que muitas delas são realizadas utilizando apenas o celulares e computadores já existentes nas escolas. Tais mecanismos aos poucos serão adquiridos e estarão disponíveis para o uso coletivo escolar.
Recentemente, a Inteligência Artificial (IA) tem ampliado as possibilidades de personalização no ensino musical. Sistemas de IA são capazes de analisar a performance do aluno em tempo real, identificar erros de afinação, ritmo ou articulação, e oferecer sugestões personalizadas de estudo. Algumas plataformas utilizam aprendizado de máquina para adaptar os exercícios conforme o progresso individual, tornando o processo de aprendizagem mais responsivo e eficaz. Dentro desse parâmetro, até que ponto a IA será benéfica nesse no conhecimento musical para o aluno? Deixo esta pergunta para refletirmos. Essas tecnologias, quando utilizadas de forma integrada e intencional, promovem não apenas a democratização do acesso ao ensino de música, mas também uma abordagem mais centrada no aluno, oferecendo autonomia, flexibilidade e feedback contínuo. Elas representam uma importante evolução rumo a uma Educação Musical compatível com as demandas pedagógicas e tecnológicas do século XXI.
Portanto, observa-se que as tecnologias emergentes não apenas ampliam o repertório de recursos pedagógicos disponíveis, como também ressignificam o papel do professor e do estudante no processo de ensino-aprendizagem. Segundo Moran, 2015, p.12.
A incorporação das tecnologias digitais no ambiente escolar transforma significativamente os papéis tradicionais do professor e do aluno, promovendo uma aprendizagem mais ativa, colaborativa e personalizada. Para que essas tecnologias resultem em práticas pedagógicas eficazes, é fundamental o investimento em formação docente contínua e no planejamento pedagógico alinhado aos objetivos educacionais. (Moran, 2015, p. 12)
Constata-se que o uso de recursos multimídia nas aulas de Música pode potencializar a participação ativa dos estudantes, promover práticas mais inclusivas e contribuir para o seu desenvolvimento integral. No entanto, esses benefícios só se concretizam quando há preparo adequado dos professores e quando as tecnologias são aplicadas com intencionalidade pedagógica, alinhadas aos objetivos educacionais.
PRÁTICAS MUSICAIS NO ENSINO MÉDIO: ATIVIDADES DESENVOLVIDAS EM SALA DE AULA
SIMULAÇÃO INSTRUMENTAL COM APLICATIVOS
Objetivo: Desenvolver habilidades musicais básicas (ritmo, melodia e coordenação motora) por meio de tecnologia acessível.
Atividade: Os alunos utilizam aplicativos como Yousician, Simply Piano ou Walk Band para simular a execução de instrumentos (teclado, violão, bateria) em tablets ou smartphones. A tarefa envolve tocar uma música simples e, posteriormente, compartilhar o progresso com a turma e gravar áudios de 2 à 3 minutos.
Recurso necessário: celular/tablet com app instalado.
Habilidade trabalhada: autonomia, coordenação motora, escuta crítica.
GAMIFICAÇÃO COM MÚSICA
Objetivo: Estimular o interesse e o engajamento por meio de desafios musicais gamificados.
Atividade: Utilize jogos como Rhythm Trainer, Blob Chorus ou Groove Pizza para praticar percepção rítmica e melódica. Os alunos competem em pequenos grupos para completar desafios musicais com pontuação.
Recurso necessário: computador com acesso à internet.
Habilidade trabalhada: percepção auditiva, cooperação, ritmo.
COMPOSIÇÃO CRIATIVA COM IA
Objetivo: Explorar a criatividade e a composição musical com auxílio de inteligência artificial.
Atividade: Os alunos usam ferramentas como AIVA, Soundraw ou Google Magenta para criar composições automáticas com base em suas preferências. Depois, apresentam suas músicas e explicam as escolhas feitas.
Recurso necessário: computador/notebook com acesso à internet.
Habilidade trabalhada: criação musical, apreciação estética, pensamento computacional.
EXPLORAÇÃO DE AMBIENTES MUSICAIS COM REALIDADE VIRTUAL
Objetivo: Proporcionar vivência imersiva em contextos musicais diversos.
Atividade: Poderíamos realizar também com óculos VR, mas não se tem acesso, então realizamos esta atividade com os vídeos 360° no YouTube. Os alunos “visitam” uma orquestra sinfônica, sala de estúdio ou show interativo e relatam o que observaram: instrumentos, dinâmica, organização espacial do som etc.
Recurso necessário: óculos VR ou celular com giroscópio.
Habilidade trabalhada: percepção espacial do som, apreciação crítica.
CRIAÇÃO DE PODCAST MUSICAL OU VÍDEO DIDÁTICO
Objetivo: Trabalhar linguagem multimodal, expressão oral e musicalidade.
Atividade: Em grupos, os alunos criam um pequeno podcast ou vídeo sobre um tema musical (ritmos regionais, instrumentos, artistas). Eles usam ferramentas de edição de áudio e vídeo simples, como CapCut ou Anchor.
Recurso necessário: celular/computador com app de gravação.
Habilidade trabalhada: expressão oral, pesquisa, criatividade.
Para a realização das atividades mencionadas, foi necessário um conhecimento prévio tanto teórico quanto prático sobre teoria musical e seus elementos fundamentais, como ritmo, melodia, harmonia, tonalidade, notação e estrutura musical. Esse embasamento possibilitou o planejamento e a execução de propostas pedagógicas coerentes e significativas para os estudantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do cenário atual revela que a tecnologia, mais do que um recurso adicional, tornou-se um elemento estruturante na vida social, cultural e educacional. Sua presença nas escolas, especialmente no campo da Educação Musical, abre novas possibilidades de ensino-aprendizagem, ao mesmo tempo que impõe desafios relacionados à formação docente, ao acesso equitativo e ao uso pedagógico consciente.
As atividades desenvolvidas com alunos do Ensino Médio mostraram que mesmo com recursos limitados, como celulares e computadores simples, é possível aplicar metodologias inovadoras baseadas em simulação instrumental, gamificação, realidade virtual e inteligência artificial. Essas práticas potencializam a criatividade, o engajamento e o protagonismo dos estudantes, promovendo uma educação mais interativa, inclusiva e alinhada com as competências do século XXI.
Contudo, para que a tecnologia cumpra seu papel transformador, é essencial que haja investimentos contínuos em infraestrutura escolar e capacitação docente. Além disso, políticas públicas como a Lei nº 15.100/2025 devem ser interpretadas de forma pedagógica e contextualizada, permitindo o uso responsável dos dispositivos em benefício do processo educacional. A inserção das tecnologias emergentes na escola, especialmente nas aulas de música, representa um caminho promissor para integrar conhecimento, criatividade e cultura digital, contribuindo para uma educação mais significativa, acessível e humanizada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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