Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
O presente artigo traz para discussão o tema a respeito da concepção das mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista – TEA dentre outros transtornos do neurodesenvolvimento presentes no município de Baraúna/RN, cuja temática visa o levantamento da concepção das mesmas acerca da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Esta pesquisa é um excelente ponto de partida para uma análise teórica da ABA, não por apresentar novas teorias, mas por contrastar a fundamentação científica da abordagem com a percepção prática de quem mais a necessita: as famílias. A pesquisa funciona como um diagnóstico da distância entre o conhecimento científico e a realidade social. A análise pode ser estruturada em três eixos principais, todos extraídos do texto: a fundamentação teórica da ABA, a dicotomia entre a teoria e a concepção das mães, e as implicações práticas dessa lacuna de conhecimento. Algumas hipóteses, pois acredita-se que pode haver desconhecimento, tanto por parte das famílias, quanto do poder público acerca da eficiência da ciência ABA como alternativa interventiva junto às crianças com TEA ou outro transtorno.
O objetivo central desta pesquisa é investigar a concepção das mães de crianças com TEA ou outro transtorno a respeito da ABA. Para tanto buscou-se: identificar os atores envolvidos (familiares e tipos de deficiência ou transtorno); os profissionais importantes nessa intervenção; e evidenciar a relevância de implantação da ABA, através do SUS, em decorrência de sua eficácia científica.
A presente pesquisa é de suma importância por trazer à luz a concepção teórica e dos familiares a respeito da ABA, possibilitando, deste modo, um debate acerca da temática, favorecendo portanto maiores esclarecimentos e proposições acerca da temática, mediante divulgação da presente pesquisa, por meio de e-book. Iniciando, portanto, o primeiro passo para a transformação da realidade local.
Em relação à metodologia utilizada, o presente artigo é resultado de revisão bibliográfica, pois analisa e discute informações já publicadas. Ao mesmo tempo traz uma abordagem original, ao analisar dados de uma realidade local, no caso na cidade de Baraúna/RN, por meio de uma pesquisa-ação. O Google forms foi utilizado como instrumento de pesquisa, por contribuir na coleta e sistematização dos dados por meio de gráficos, facilitando deste modo também a análise de dados. O e-book foi utilizado como instrumento de divulgação dos resultados obtidos.
Este estudo está estruturado da seguinte forma: Identificação dos atores envolvidos, tendo em vista a identificação dos cuidadores e os tipos de deficiência ou transtornos; Profissionais considerados Importantes na intervenção ABA, com ênfase no enfoque psicopedagógico, em uma intervenção multidisciplinar; Importância da Família e tempo de intervenção ABA, tendo em vista ser uma intervenção intensiva; Intervenção ABA para crianças com TEA, e outros transtornos, em decorrência de sua eficácia; Concepção da ABA, onde de forma resumida fala-se sobre comportamento, concepção das mães e concepção teórica; e por fim ABA no SUS, abordando-se sobre seus princípios à luz da constituição federal, como também, são apresentadas ensaios de proposições por parte das mães.
IDENTIFICAÇÃO DOS ATORES ENVOLVIDOS
A pesquisa concentrou-se em buscar dados junto à pais e/ou responsável de crianças diagnosticadas com alguma deficiência e/ou transtorno de Aprendizagem no município de Baraúna/RN. Tornando possível perceber que 100% das entrevistadas são mães.
No que se refere ao tipo de deficiência e/ou transtorno de aprendizagem de seus filhos. Nesta pesquisa a mãe poderia listar mais de uma deficiência ou transtorno de aprendizagem, pois à título de exemplo uma mesma criança com TEA pode apresentar comorbidades como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH, Transtorno Opositor Desafiador – TOD, dentre outros ou não apresentar comorbidades.
O gráfico a seguir aponta o tipo de deficiência e/ou transtorno de aprendizagem que os filhos dessas mães entrevistadas apresentam: 75%, Transtorno do Espectro Autista – TEA; Seguido por 62,5%, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH; 18,8%, Transtorno Opositor Desafiador – TOD; 12,5% outra, não especificado pelas mães; 6,3%, dislexia; e 6,3%, deficiência intelectual.
Imagem 1 – Tipos de deficiências ou transtornos de aprendizagem

Fonte: Elaboração própria.
Diante os resultados obtidos no gráfico 1, é perceptível que são as mães as principais responsáveis pelo cuidado e educação das crianças com deficiência e/ou transtorno de aprendizagem. O gráfico 2, aponta que o Transtorno do EspectroAutista – TEA é o que apresenta maior incidência de casos, seguido do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH.
PROFISSIONAIS IMPORTANTES NA INTERVENÇÃO ABA
A intervenção ABA precisa ser multidisciplinar, envolvendo profissionais da saúde e educação. A ciência ABA pode ser utilizada por diversos profissionais, desde que tenham a credencial de certificação, a Behavior Analyst Certification Board – BACB (Nascimento & Souza, 2018).
Nascimento & Souza (2018) alertam para a necessidade de formação continuada dos profissionais da escola, em parceria com profissionais de outras instituições, bem como profissionais que atendam a demandas específicas, como Fonoaudiólogos, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais, Psicopedagogos, entre outros.
Diante desse quadro, um profissional, que pode atuar, tanto dentro, quanto fora da escola, diretamente com os alunos com TEA, ou orientando os profissionais, que fazem parte do processo educativo desses alunos e, também, seus familiares, é o Psicopedagogo. Com formação ampla, que envolve os aspectos que compreendem o aprendente, como um ser cognoscente e desejante, a Psicopedagogia mune o profissional, com habilidades favoráveis à atuação, nos mais variados processos de aprendizagem, suas dificuldades e transtornos (Nascimento & Souza, 2018, p.180)
A ABA pode ser entendida como a “Ciência da Aprendizagem”, pois suas intervenções aplicadas visam ampliar repertórios, promover novas aprendizagens e promover formas mais adequadas para lidar com determinadas demandas sociais, de acordo com a necessidade de cada pessoa. Suas intervenções têm embasamento científico, resultado de décadas de estudos e pesquisas sobre o comportamento, particularmente, o comportamento humano. Ressaltando-se a partir desta perspectiva o papel do Psicopedagogo, por possuir como objeto de estudo a aprendizagem, traz em si um potencializador para contribuir com a aplicação da ABA, desde que devidamente habilitado para tal. Pois está em sua essência profissional, a realização de uma avaliação diagnóstica minuciosa, ao mesmo tempo que traça estratégias interventivas que possam contribuir com a evolução da aprendizagem. Neta perspectiva SCOZ (2007) afirma que a
[…] ampla visão da multiplicidade de fatores envolvidos no processo de aprendizagem permite ainda à Psicopedagogia, reconhecer os limites de sua própria atuação e estabelecer prioridades de atendimento, seja alertando a escola para o papel que lhe compete, seja encaminhando os alunos para outros profissionais quando necessário (p. 160).
Imagem 2 – Profissionais importantes na ABA a partir da percepção das mães

Fonte: Elaboração própria.
Ao questionar as mães de crianças com deficiência ou algum tipo de transtorno, sobre suas concepções acerca de quais seriam os profissionais considerados importantes na intervenção ABA, em uma abordagem multidisciplinar, obtivemos os resultados acima.
Em síntese, todos os profissionais envolvidos no processo de intervenção ABA são extremamente importantes para a evolução no desenvolvimento do aprendente e isso ficou evidenciado com 81,3%. Os menores percentuais foram de 12,5% em Outro profissional não identificado, seguido de 18,8% para o Psicopedagogo e o Professor, que são os profissionais mais voltados à educação.
Estes dados revelam uma maior necessidade de integração da educação com essa ciência que tem muito a contribuir com a inclusão escolar.
IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA E TEMPO DE INTERVENÇÃO ABA
De acordo com Barboza, Costa, & Barros (2019) o sucesso da intervenção da Análise do Comportamento Aplicada depende de várias características principais: intervenção precoce, com início já por volta dos 2 anos de idade da criança; duração da intervenção que deve ser intensiva com duração por cerca de 2 anos; intensidade da intervenção, com uma carga horária envolvendo entre 25 a 40 horas semanais; bem como abrangência da intervenção, pois deve envolver múltiplos ambientes e múltiplos objetivos de ensino.
Por essa ciência apresentar uma carga horária de intervenções elevada, torna imprescindível a participação das famílias nesse processo. E ao questionarmos sobre a importância da família na aplicação da ABA, 100% das mães de crianças com deficiência ou transtornos de aprendizagem consideram importante a participação da família na aplicação da ABA. Até mesmo porque a ciência ABA não se restringe aos consultórios clínicos, mas ao cotidiano em que o indivíduo está inserido, desde o acordar ao adormecer toda a sua rotina diária deve ser interventiva.
No que se refere à duração de horas semanais de intervenção ABA, ao questionar às mães a respeito de suas opiniões sobre a quantidade de horas semanais necessárias para a aplicação da ABA, responderam da seguinte forma: 43,8% responderam 2 horas semanais; 31,3% não soube dizer; e 12,5% 1 hora por semana; e outros 12,5% responderam 20 a 30 horas por semana.
Compreende-se a necessidade de uma carga horária envolvendo entre 25 a 40 horas semanais, para que possa ocorrer sucesso na intervenção. Os dados a respeito da duração semanal da intervenção ABA, acabam por revelar desconhecimento por parte da maioria das mães acerca da durabilidade interventiva dessa ciência, conforme gráfico a seguir:
Imagem 3 – Quantidade de horas semanais para a aplicação da ABA

Fonte: Elaboração própria.
A partir dos dados obtidos acima é possível afirmar que ao mesmo tempo em que as mães consideram a importância da família na aplicação da ABA, apresentam desconhecimento na duração semanal dessa ciência em seu cotidiano. O que torna necessário um processo formativo continuado para as famílias, tendo em vista o sucesso da intervenção ABA
INTERVENÇÃO ABA PARA CRIANÇAS COM TEA
Conforme Nascimento & Souza (2018), a Análise do Comportamento pode ser utilizada não apenas com crianças com TEA, mas no processo educativo em geral, devido à sua eficácia, por se tratar de uma ciência embasada por estudos teóricos e empíricos. Ao transpor o aspecto experimental e tornar-se uma ciência aplicada, a ABA contribui para criar estratégias de intervenção, que propiciem o maior desenvolvimento e, até mesmo, o comportamento adaptativo, através do uso de reforçadores.
Ao questionarmos as mães de crianças com TEA sobre a aplicação da ABA em apenas crianças com TEA, as mesmas responderam da seguinte forma: 62,5% não; 31,3% Não soube dizer; e 6,2% sim. Revelando deste modo que a maioria das mães compreendem a amplitude da aplicabilidade da ciência ABA, embora um número significativo não souberam responder a respeito.
Imagem 4 – Aplicação da ABA em crianças com TEA

Fonte: Elaboração própria.
A ABA é indicada no autismo, devido à sua comprovação de eficácia. O que significa dizer que suas intervenções foram testadas e validadas pela comunidade científica, por apresentarem resultados positivos significativos com o público com espectro autista. No entanto, esta ciência pode ser aplicada em qualquer outra deficiência ou transtorno de aprendizagem, em qualquer fase de sua vida.
CONCEPÇÃO DA ABA
COMPORTAMENTO
Antes de abordarmos a respeito da Análise do Comportamento Aplicada, traremos brevemente uma discussão acerca de comportamento, conforme a percepção de Skinner. Pois para o autor, essas ações devem ser caracterizadas como formas da ação humana no mundo, através das quais seres humanos interferem no seu mundo circundante e também são modificados por ele, ou seja, o comportamento é um fenômeno operante. Neste sentido o autor afirma que:
Alguns processos que o organismo humano compartilha com outras espécies alteram o comportamento para ele obter um intercâmbio mais útil e mais seguro em determinado meio ambiente. Uma vez estabelecido um comportamento apropriado, suas consequências agem através de processos semelhantes para permanecerem ativas. Se, por acaso, o meio se modifica, formas antigas de comportamento desaparecem, enquanto novas consequências produzem novas formas (Skinner, 1957, p. 18)
Com base nessa afirmação podemos afirmar que todo comportamento é aprendido. E ao mesmo tempo que o comportamento modifica o meio, o meio também modifica o comportamento. Sobre o comportamento operante, Skinner considera que as consequências de um comportamento podem influenciar a probabilidade de nova ocorrência.
Quando um comportamento tem o tipo de consequência chamada reforço, há maior probabilidade de ele ocorrer novamente. Um reforçador positivo fortalece qualquer comportamento que o produza: um copo d’água é positivamente reforçador quando temos sede e, se então enchemos e bebemos um copo d’água, é mais provável que voltemos a fazê-lo em ocasiões semelhantes. Um reforçador negativo revigora qualquer comportamento que o reduza ou o faça cessar: quando tiramos um sapato que está apertado, a redução do aperto é negativamente reforçadora e aumenta a probabilidade de que ajamos assim quando um sapato estiver apertado (Skinner, 2006, p. 43).
O estudo de Skinner depende de uma descrição das situações em que outro entra em cena como um mundo a ser atingido ou “conquistado” pela fala de um emissor que ao desdobrar-se enquanto comportamento verbal busca atingir o outro. A partir dessa análise do comportamento o autor definiu seis operantes verbais a partir dos quais é possível analisar e descrever a funcionalidade do comportamento verbal, segundo sua relação indireta com o meio físico. Esses operantes são os seguintes: mando, tato, ecóico, textual, transcrição e intraverbal.
CONCEPÇÃO DAS MÃES SOBRE ABA
As mães ao serem questionadas se já ouviram falar em Análise do Comportamento Aplicada – ABA revelaram desconhecimento. Pois pouco mais da metade ouviu falar a respeito, conforme revela gráfico abaixo:
Imagem 5 – ABA na concepção das mães atípicas

Fonte: Elaboração própria.
A ausência de conhecimento dessa ciência como proposta de intervenção junto a indivíduos com deficiências e transtornos de aprendizagem, se revela ainda mais quando se é solicitado que essas mães descrevessem de forma breve suas opiniões a respeito da ABA. Pois, a maioria das mães entrevistadas revelaram pouco conhecimento a respeito do assunto
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA – ABA
Após falarmos sobre comportamento e concepção das mães a respeito do assunto. É chegado o momento de adentrarmos neste momento, mesmo que de forma resumida, na concepção teórica de Análise do Comportamento Aplicada — ABA (Applied Behaviour Analysis), é uma abordagem de intervenção e investigação psicológica que une a teoria comportamental clássica, oriunda da tradição behaviorista, com os avanços mais atuais no campo das ciências do comportamento, considerando como fundamentais a neurologia e a neurociências.
Camargo & Rispoli (2013) afirmam que as características gerais de uma intervenção baseada na ABA, envolvem identificação de comportamentos e habilidades que precisam ser melhorados, seleção e descrição dos objetivos, e delineamento de uma intervenção que envolve estratégias comprovadamente efetivas para modificação do comportamento. Ao final, a intenção é que as condutas aprendidas e modificadas sejam generalizadas para diversas áreas da vida do indivíduo.
Envolvendo o ensino intensivo e individualizado de habilidades fundamentais para o sujeito ela propõe o trabalho de uma gama variada de percursos que incluem o incentivo a comportamentos sociais tais como contato visual e comunicação adequada funciona,; comportamentos acadêmicos como pré-requisitos para leitura, escrita e matemática, além de atividades da vida diária como higiene pessoal. Busca, ainda, a redução de comportamentos agressivos, estereotipias e autolesões. A ABA também contribui com o paciente estruturalmente, considerando o conjunto orgânico de sua experiência, dando ainda suporte emocional e comportamental aos cuidadores e responsáveis
ABA NO SUS
Antes de falarmos do Sistema Único de Saúde – SUS, Inicialmente de forma simplista traremos a concepção de saúde pública de acordo com Winslow apud SOUZA, que por sua vez define saúde pública como:
[…] a ciência e a arte de prevenir a doença, prolongar a vida, promover a saúde física e a eficiência através dos esforços da comunidade organizada para o saneamento do meio ambiente, o controle das infecções comunitárias, a educação dos indivíduos nos princípios de higiene pessoal, a organização dos serviços médicos e de enfermagem para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo da doença e o desenvolvimento da máquina social que assegurará a cada indivíduo na comunidade um padrão de vida adequado para a manutenção da saúde. (2014, p. 15)
Em síntese, a partir desta perspectiva, entende-se saúde pública como as intervenções e serviços voltados ao combate de doenças ou outras situações que ameacem a saúde da população, buscando, portanto por meio de ações preventivas a promoção de ações voltadas ao desenvolvimento do bem-estar e da saúde de cada indivíduo.
A saúde no Brasil antes da criação do Sistema Único de Saúde – SUS era bastante diferente do contexto atual. De acordo com Ordonez (2017), a maioria da população, sem condições, buscava ajuda na medicina popular, sendo o atendimento realizado nas chamadas Santas Casas de Misericórdia, que abrigavam e tratavam os pobres e doentes mentais. O Sistema Único de Saúde – SUS foi criado pela Constituição Federal de 1988. De acordo com Carvalho (2018) desde sua concepção o SUS tem como objetivo oferecer à toda população brasileira acesso universal, integral e gratuito aos serviços de saúde. Na atualidade o SUS, em razão de sua universalidade e gratuidade é referência mundial em sistema de saúde. Dentre os princípios e diretrizes do SUS previstos na Constituição Federal de 1988, da lei 8.080/90:
Art. 7º. As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde – SUS são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no artigo 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios:
I – Universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência;
II – Integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema;
II – preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;
IV – Igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; […] (Brasil, 1990).
Levou-se o questionamento às mães se gostariam que a ABA fosse disponibilizada através do SUS, no município de Baraúna/RN. As mães responderam: 93,8% sim; e 6,2% não soube dizer, conforme gráfico a seguir:
Imagem 6 – ABA no SUS de Baraúna/RN

Fonte: Elaboração própria.
Esses dados revelam que a grande maioria das mães gostaria de ter acesso à ciência ABA através do SUS, no município de Baraúna/RN. Para ampliarmos o debate também, foi questionado que, caso prefira que a ABA seja disponibilizada pelo SUS no município de Baraúna/RN, se teria alguma sugestão de como poderiam ser esses atendimentos. Diante tal questionamento as mesmas fizeram as seguintes proposições: “No nid, ou em posto de saúde”; “Não tenho”; “Semanal”; “Que podesse ser encaixe no horário vago do nid”; “Sim”; “Não sei”; “De acordo com a necessidade de cada criança,juntamente em conversa com os pais.”; “No momento não tenho ideia”; “Não”; “Poderia ser aqui no nid aonde atende as crianças que tem autismo”; “Não sei dizer”; “Com mais carga horária”; “Nao sei como e esse sistemas ainda”; “Sim dentro dos. Acompanhamentos. Que as crianças com TEA. Faz , ia ajuda muito”; “Q seja os atendimente pra todas as crianças , não so pra tem tea ou autista mas q seja pra todas as crianças especial será muito mas melhor”; “Da melhor forma posivel”.
Em suma, a maioria das proposições das mães entrevistadas fazem referência ao Núcleo de Inclusão e Desenvolvimento – NID do município de Baraúna/RN. Tiveram outras que não souberam o que propor, outra que fosse dialogada com os pais, e outra para todas as crianças com TEA ou quaisquer outros transtornos do neurodesenvolvimento.
Em síntese, a principal contribuição desta pesquisa é a demonstração empírica do abismo entre a teoria da ABA e a percepção das mães em Baraúna. Essa lacuna (“desconhecimento”, como aponta a autora) manifesta-se em áreas críticas:
Imagem 7: ABA: Concepção teórica x concepção das mães


Fonte: Elaboração própria.
Essa dicotomia revela que, para as mães de Baraúna, a “ABA” é um conceito vago, associado à terapia para seus filhos, mas desprovido de suas características essenciais que justificam sua eficácia: a intensidade, a sistematização e a aplicação constante.
METODOLOGIA
A metodologia adotada nesta pesquisa é resultado de Revisão Bibliográfica, pois analisa e discute informações já publicadas. Ao mesmo tempo apresenta uma abordagem original, ao analisar dados de uma realidade local, no caso na cidade de Baraúna/RN, por meio de uma Pesquisa-ação. Como instrumento de pesquisa utilizou-se o Google forms, que foi divulgado em grupos de whatsapp de pessoas com deficiência ou transtornos de aprendizagem do município de Baraúna. Onde podemos contar com a contribuição de 16 mães, ao responderem ao participarem da presente pesquisa. Após a coleta de dados teve início a análise dos mesmos à luz de referenciais teóricos, encerrando-se o presente processo com a divulgação dos resultados, por meio de e-book.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo ao discutir a respeito da concepção das mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista – TEA dentre outros transtornos no município de Baraúna/RN, explicitou qual a concepção das mães a respeito da ABA, bem como suas proposições para a inserção desta ciência no Sistema Único de Saúde – SUS de Baraúna/RN como uma das alternativas interventivas junto à crianças com TEA ou qualquer outro transtorno de aprendizagem.
A partir dos dados obtidos percebe-se que ainda há desconhecimento, tanto por parte das famílias, quanto do poder público acerca da eficiência da ciência ABA como alternativa interventiva junto às crianças com TEA ou qualquer outro transtorno. A presente pesquisa trouxe à luz a concepção teórica, e dos familiares a respeito da ABA, possibilitando esclarecimentos e ensaios de proposições acerca da temática, mediante divulgação da presente pesquisa, por meio de e-book.
No que se refere às implicações teóricas e práticas do estudo de caso em Baraúna tem implicações que transcendem a localidade. Pois o desafio da implementação em políticas públicas (SUS), através do desejo quase unânime (93,8%) de ter a ABA no SUS colide com a falta de compreensão sobre o que isso implicaria. A implementação de um programa de ABA de alta qualidade exige um investimento massivo em formação de profissionais, estrutura e financiamento para cobrir a alta carga horária. As sugestões vagas das mães (“no NID”, “semanal”) mostram que a demanda popular existe, mas é uma demanda desinformada, o que representa um grande risco para a formulação de políticas públicas eficazes. Uma implementação superficial (ex: 2 horas por semana) seria ineficaz e poderia até mesmo desacreditar a ciência por trás da ABA.
A presente pesquisa revela a necessidade de um processo formativo continuado para as famílias, pois a eficácia da ABA depende criticamente do envolvimento familiar e da generalização de habilidades. Sem que os pais compreendam a lógica, a intensidade e seu próprio papel como agentes da intervenção, o sucesso fica severamente comprometido.
Este estudo também faz uma defesa importante do papel do psicopedagogo na equipe multidisciplinar. Ao definir a ABA como a “Ciência da Aprendizagem”, por ser o profissional que tem a aprendizagem como objeto de estudo no centro da intervenção, algo que a percepção das mães ainda não reflete.
Em suma, a análise teórica da ABA, filtrada pelo estudo em Baraúna, mostra que não basta que uma ciência seja eficaz; é crucial que o conhecimento sobre ela seja acessível e compreendido por quem a utiliza. Esta pesquisa demonstra que a ABA é uma abordagem complexa, fundamentada em princípios comportamentais rigorosos que exigem uma aplicação intensiva e sistemática. A realidade encontrada em Baraúna, marcada pelo “desconhecimento”, serve como um alerta: o sucesso da disseminação e implementação da ABA, especialmente via políticas públicas como o SUS, depende fundamentalmente de um passo anterior e essencial: a educação de familiares e da comunidade sobre os verdadeiros princípios, requisitos e potencial da Análise do Comportamento Aplicada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOZA, A. A., COSTA, L. C. B., & BARROS, R. S. (2019). Instructional Videomodeling to Teach Mothers of Children with Autism to Implement Discrete Trials: A Systematic Replication. Trends in Psychology, 27(3), 795-804. doi: 10.9788/tp2019.3-14
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso: 06 de maio de 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015.
CAMARGO, S. P. H., & RISPOLI, M. (2013). Análise do comportamento aplicada como intervenção para o autismo: definição, características e pressupostos filosóficos. Revista Educação Especial, 26(47), 639-650. doi: 10.5902/1984686X9694
DE ROSE, Júlio C.; GIL, Maria Stella C.; BANACO, Alex Marins (Org.). Análise do Comportamento Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista: dos princípios à intervenção. São Carlos: EDUFSCar, 2020.
FARIAS, S. P. M.; ELIAS, N. C. Marcos do comportamento verbal e intervenção comportamental intensiva em trigêmeos com autismo. Perspectivas em Análise do Comportamento, v. 11, n. 2, p. 237-251, dez. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pee/a/HKzTSy5WFvjcnNBJFxqwHLq/?format=pdf. Acesso em: 30 jun. 2025.
MOREIRA, Marcelo Borges; MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.
NASCIMENTO, G. A., & SOUZA, S. F. (2018). A inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA): possibilidade de intervenção psicopedagógica através da Análise do Comportamento Aplicada. Revista do Curso de Pedagogia da Universidade Fumec – Paidéia, XIII (19). Recuperado de ttp://www.fumec.br/revistas/paideia/article/view/6322/3136
ORDONEZ, Ana. Manuela. Políticas públicas de alimentação e nutrição. 2 ed. Porto Alegre: Sagah, 2017.
SOUZA, L. E. P. F. Saúde Pública ou Saúde Coletiva? Revista Espaço para a Saúde. Londrina, 2014.
SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o Behaviorismo. Traduzido por Maria da Penha Villalobos. 10 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e Realidade Escolar: o problema escolar e de aprendizagem. 14 ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2007. 176 p.
Área do Conhecimento