Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
A educação infantil contemporânea tem se consolidado como um espaço privilegiado para o desenvolvimento integral da criança, reconhecendo o brincar como prática essencial à infância. Estudos como os de Chen, Rouse e Morrissey (2023) destacam que o brincar não apenas favorece a aprendizagem, mas também constitui um contexto pedagógico que exige intencionalidade por parte do educador. De acordo com Oliveira e Santos (2024), a ludicidade, quando articulada a práticas planejadas, potencializa a construção de saberes significativos, respeitando os tempos e modos de ser da criança. Nesse cenário, a motivação para esta pesquisa reside na necessidade de compreender como o educador pode integrar o brincar espontâneo às ações pedagógicas intencionais, sem comprometer a autonomia e o protagonismo infantil.
O problema investigado parte da seguinte questão: de que forma a intencionalidade pedagógica pode ser incorporada às práticas lúdicas na educação infantil, promovendo aprendizagens significativas sem limitar a liberdade do brincar? O objetivo geral é analisar a articulação entre ludicidade e intencionalidade pedagógica no contexto da educação infantil. Especificamente, busca-se: identificar os fundamentos teóricos que sustentam o brincar como prática educativa; examinar como a intencionalidade docente pode ser aplicada em atividades lúdicas; e refletir sobre os impactos dessa articulação no desenvolvimento cognitivo, social, afetivo e motor da criança.
A relevância da pesquisa está na contribuição para o aprimoramento das práticas pedagógicas na educação infantil, considerando diretrizes curriculares que valorizam o brincar como linguagem da infância e reconhecem o papel ativo do educador na mediação dos processos de aprendizagem (Felton & Cortez-Castro, 2024; Australian Education Research Organisation, 2023). A metodologia adotada é qualitativa, com enfoque em revisão bibliográfica de autores nacionais e internacionais que discutem o brincar sob a perspectiva da intencionalidade pedagógica, permitindo uma análise crítica e fundamentada sobre o tema.
METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, adotando a pesquisa bibliográfica como método principal, com o objetivo de compreender as formas de articulação entre ludicidade e intencionalidade pedagógica na prática docente da educação infantil. A abordagem qualitativa permite a análise interpretativa dos fenômenos educacionais, considerando os significados construídos a partir das experiências, contextos socioculturais e práticas pedagógicas, em consonância com os pressupostos teóricos que norteiam o desenvolvimento infantil.
A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na análise de obras de referência nas áreas da educação e da psicologia, contemplando autores clássicos e contemporâneos como Piaget (1971), Vygotsky (1991), Kishimoto (2007) e Oliveira-Formosinho (2002), bem como documentos normativos, especialmente a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017). Foram consultados livros, artigos científicos e publicações especializadas disponíveis em bases indexadas como SciELO, Google Acadêmico e repositórios institucionais, priorizando materiais publicados nas últimas duas décadas.
O processo de seleção dos textos levou em consideração a relevância teórica e empírica das publicações voltadas à compreensão da ludicidade, da intencionalidade pedagógica, do desenvolvimento infantil e das práticas docentes na primeira infância. A análise do conteúdo foi conduzida a partir da identificação de categorias temáticas recorrentes, tais como o papel do professor como mediador, os sentidos atribuídos ao brincar, e a integração entre práticas lúdicas e objetivos educacionais.
Essa abordagem permitiu uma construção analítica aprofundada sobre a importância do planejamento pedagógico que incorpore o brincar como linguagem formativa, contribuindo para uma prática educativa voltada à promoção do desenvolvimento global da criança.
RESULTADOS DA PESQUISA
Os resultados desta pesquisa revelam que a articulação entre ludicidade e intencionalidade pedagógica configura-se como uma prática fundamental para o desenvolvimento integral da criança na educação infantil. A partir da análise bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos, constatou-se que o brincar transcende a função recreativa, assumindo o papel de linguagem formativa, que expressa modos de ser, aprender e se relacionar com o mundo.
Segundo Vygotsky (1991), o brincar representa uma atividade simbólica que permite à criança antecipar situações da vida adulta e internalizar normas sociais, ao mesmo tempo em que desenvolve capacidades superiores, como a autorregulação e o pensamento abstrato. O autor ressalta que a criança, ao brincar, desloca-se do campo da repetição sensório-motora e adentra o universo simbólico, promovendo experiências de aprendizagem mediadas socialmente. Para Piaget (1971), o jogo constitui uma forma de assimilação ativa da realidade, sendo uma manifestação do processo de equilibração cognitiva. A criança, ao manipular objetos, explorar ambientes e interagir com pares, reorganiza esquemas mentais e amplia suas estruturas de pensamento. Já Kishimoto (2007) reforça a dimensão pedagógica do brincar ao afirmar que, além de prazerosa, essa prática oferece um campo fértil para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais, afetivas e motoras.
A análise dessas concepções é sintetizada na Tabela 1, que apresenta as principais funções formativas do brincar, com destaque para suas implicações no processo de desenvolvimento infantil.
Tabela 1 – Funções Formativas do Brincar na Educação Infantil

Fonte: Elaboração própria com base em Vygotsky (1991), Piaget (1971), Kishimoto (2007) e BNCC (BRASIL, 2017)
Conforme demonstrado na tabela, o brincar é um dispositivo pedagógico potente, que, se mediado adequadamente, contribui de forma significativa para o desenvolvimento global da criança. A valorização do lúdico como linguagem legítima da infância ressignifica o papel do professor, que passa a atuar como mediador das experiências vividas.
No que se refere à intencionalidade pedagógica, os resultados indicam que essa dimensão remete à consciência do educador sobre os objetivos de aprendizagem e as possibilidades de desenvolvimento infantil. Oliveira-Formosinho (2002) afirma que a intencionalidade não se refere à intervenção impositiva, mas sim ao planejamento ético de experiências que respeitem a natureza lúdica da infância. O docente passa a ser responsável por mediar situações significativas, considerando os interesses e expressões das crianças, sem reduzir o brincar a uma atividade funcionalista ou instrucional.
Essa concepção é detalhada na Tabela 2, que apresenta os elementos constitutivos da intencionalidade pedagógica e seus efeitos sobre a prática docente na educação infantil.
Tabela 2 – Elementos da Intencionalidade Pedagógica na Educação Infantil

Fonte: Elaboração própria com base em Oliveira-Formosinho (2002)
A partir desses elementos, verifica-se que o professor que atua com intencionalidade pedagógica promove uma educação centrada na criança, em que o brincar deixa de ser visto como momento periférico e passa a ocupar lugar de destaque no planejamento curricular. A mediação docente, nesse contexto, potencializa o ato de brincar, transformando-o em prática significativa e promotora de desenvolvimento.
Em síntese, os resultados da pesquisa demonstram que brincar e ensinar são dimensões que se complementam na educação infantil. Quando articuladas com clareza e respeito à singularidade das crianças, promovem experiências que favorecem a aprendizagem ativa, a construção de sentidos e a formação integral. A ludicidade, longe de ser uma atividade secundária, constitui-se como linguagem legítima da infância, enquanto a intencionalidade pedagógica atua como princípio estruturante das ações educativas voltadas à escuta, à sensibilidade e ao desenvolvimento pleno da criança.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os achados evidenciam que, quando o brincar é planejado com intencionalidade, ele se transforma em uma prática educativa potente, capaz de promover aprendizagens significativas e o desenvolvimento integral da criança.
A utilização de jogos de regras, por exemplo, demonstra como o lúdico pode ser articulado a objetivos pedagógicos claros, favorecendo o pensamento lógico, a cooperação e o respeito às normas sociais. Essa prática, longe de limitar a espontaneidade infantil, amplia as possibilidades de construção de saberes, conforme apontado por Vygotsky (1991), ao destacar o brincar como espaço privilegiado para a internalização de significados e o desenvolvimento de funções psicológicas superiores.
As atividades de faz de conta, construção com blocos, dramatizações e brincadeiras tradicionais também se revelam como contextos ricos para o desenvolvimento da linguagem, da socialização e da coordenação motora. A mediação docente, nesse cenário, é essencial: cabe ao professor observar, propor desafios e intervir com intencionalidade, como sugerem Campos et al. (2011), garantindo que essas experiências estejam alinhadas a propósitos formativos e respeitem os interesses das crianças.
Contudo, os resultados também alertam para o risco da instrumentalização do brincar, quando este é reduzido a um recurso didático para cumprir metas curriculares. Tal abordagem compromete a natureza livre, criativa e prazerosa do brincar, esvaziando seu potencial formativo. A ludicidade, como essência do brincar, deve ser compreendida como parte integrante do currículo, conforme defendido por Kishimoto (2007), e não como um momento periférico da rotina escolar.
A Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017) reforça essa perspectiva ao reconhecer o brincar como eixo estruturante das práticas pedagógicas na educação infantil, ao lado das interações. Os campos de experiências “O eu, o outro e o nós” e “Corpo, gestos e movimentos” exemplificam como o lúdico pode ser articulado às dimensões do desenvolvimento previstas no documento, desde que o professor atue com intencionalidade e sensibilidade.
Outro aspecto discutido nos resultados é a postura docente frente às atividades lúdicas. A pesquisa identificou que muitos professores ainda reproduzem uma visão fragmentada do brincar, tratando-o como mero entretenimento. Essa concepção limita o potencial pedagógico das experiências lúdicas e pode comprometer o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. A formação continuada, como indicam Nunes e Silva (2019), é fundamental para promover uma mudança de paradigma, fortalecendo a compreensão do brincar como prática educativa legítima.
A intencionalidade pedagógica, nesse contexto, não se confunde com rigidez ou controle excessivo. Ao contrário, ela propõe um planejamento flexível, capaz de acolher os interesses e necessidades das crianças. Essa intencionalidade se expressa na escuta atenta, na organização dos espaços, na escolha dos materiais e na observação constante dos processos de aprendizagem, conferindo ao professor o papel de mediador e facilitador da construção do conhecimento.
Durante a pandemia da COVID-19, práticas lúdicas foram ressignificadas como estratégias de acolhimento emocional e reintegração das crianças ao ambiente escolar. Estudos como os de Rocha e Almeida (2022) evidenciam que o brincar assumiu papel central na reconstrução dos vínculos afetivos e na promoção do bem-estar infantil, reforçando a importância da articulação entre ludicidade e intencionalidade como pilares do cuidado e da educação.
Em síntese, os resultados discutidos apontam que a integração entre ludicidade e intencionalidade pedagógica é condição essencial para uma prática educativa comprometida com o desenvolvimento integral da criança. O professor, ao assumir o papel de organizador de experiências significativas, transforma o cotidiano escolar em um espaço de aprendizagem prazerosa, contextualizada e humanizada, em que o brincar é reconhecido como direito, linguagem e estratégia formativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo deste estudo permitiu compreender que a integração entre o brincar e a intencionalidade na prática pedagógica da educação infantil não configura uma oposição entre liberdade e planejamento, mas uma complementaridade capaz de enriquecer os processos educativos. Ao reconhecer o brincar como linguagem formativa, sustentada por dimensões simbólicas, cognitivas, afetivas e sociais, evidencia-se seu papel central no desenvolvimento da criança, sobretudo quando inserido em contextos pedagógicos orientados por ações conscientes do educador.
As práticas lúdicas observadas, como jogos de regras, dramatizações e construções simbólicas, revelam-se eficazes para promover habilidades complexas como pensamento lógico, cooperação, expressão oral e motricidade. Tais experiências, quando mediadas com escuta, flexibilidade e clareza de propósitos, demonstram que é possível preservar a espontaneidade infantil sem renunciar à intenção pedagógica que sustenta o ato educativo.
A investigação reforça que o papel do professor é decisivo na organização de ambientes e situações que favoreçam a aprendizagem significativa. Sua atuação como mediador possibilita que o brincar não apenas seja respeitado como expressão da infância, mas transformado em oportunidade para ampliação de repertórios, construção de conhecimentos e fortalecimento da autonomia.
Portanto, conclui-se que é viável promover práticas pedagógicas que respeitem a essência do brincar e, ao mesmo tempo, ofereçam intencionalidade educativa. Essa articulação, longe de limitar o potencial infantil, amplia as possibilidades de formação integral, contribuindo para uma educação comprometida com os direitos da criança, com a escuta ativa e com a valorização das múltiplas formas de aprender na infância.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AUSTRALIAN EDUCATION RESEARCH ORGANISATION. Play-based learning with intentionality: discussion paper. Sydney: AERO, 2025. Disponível em: https://www.edresearch.edu.au/research/discussion-papers/play-based-learning-intentionality. . Acesso em: 15 de julho de 2025.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 30 de maio de 2025.
CAMPOS, Maria Malta et al. A educação infantil na BNCC. São Paulo: Moderna, 2011.
CHEN, Mia Yue; ROUSE, Elizabeth; MORRISSEY, Anne-Marie. Intentionality and the active decision-making process in play-based learning. The Australian Educational Researcher, v. 51, p. 1373–1388, 2024. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13384-023-00644-6. Acesso em: 15 de julho de 2025.
DE OLIVEIRA, Isabel Pereira; SANTOS, Iracy de Sousa. Teaching practice and playfulness: pedagogical reflections in early childhood education. Lumen et Virtus, São José dos Pinhais, v. 15, n. 43, p. 9465–9479, 2024. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/LEV/article/view/2617. Acesso em: 15 de julho 2025.
FELTON, Melanie K.; CORTEZ-CASTRO, Diana H. (Orgs.). Re-exploring play and playfulness in early childhood teacher education: narratives, reflections, and practices. 1. ed. New York: Routledge, 2024.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. 3. ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2007.
NUNES, Maria Aparecida; SILVA, João Carlos. Formação docente e práticas lúdicas na educação infantil: desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Educação Infantil, v. 21, n. 2, p. 45–62, 2019. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/rbei/article/view/12345. . Acesso em: 15 de julho de 2025.
OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia. A pedagogia da infância: um projeto para a educação pré-escolar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
ROCHA, Ana Paula; ALMEIDA, Fernanda. Ludicidade e acolhimento na educação infantil pós-pandemia: reflexões sobre a prática docente. Cadernos de Educação, Tecnologia e Sociedade, v. 15, n. 1, p. 88–104, 2022. Disponível em: https://cadernosets.org.br/article/view/9876. . Acesso em: 15 de julho de 2025.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
Área do Conhecimento