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Resumo
INTRODUÇÃO
A Educação Física, enquanto componente curricular obrigatório da Educação Básica, desempenha um papel central na formação integral dos estudantes, promovendo o desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social. Entretanto, sua função inclusiva ainda enfrenta barreiras significativas, sobretudo quando se trata da efetiva participação de estudantes com deficiência, em especial os surdos. O desafio da comunicação entre professores e alunos surdos é uma das principais limitações para garantir equidade no processo de ensino-aprendizagem, especialmente em atividades corporais que exigem instruções verbais rápidas e interação constante.
A inclusão escolar de estudantes surdos demanda mais do que adaptações físicas ou metodológicas; exige a valorização da diversidade linguística e cultural da comunidade surda, da qual a Libras, Língua Brasileira de Sinais, é elemento fundamental. Reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão da pessoa surda (Brasil, 2002), a Libras é essencial para a mediação pedagógica e o fortalecimento dos vínculos afetivos e sociais entre os sujeitos surdos e ouvintes. No entanto, muitos docentes da área da Educação Física ainda não possuem formação adequada em Libras, o que compromete o direito à aprendizagem dos estudantes surdos.
Em um cenário onde o paradigma da inclusão está consolidado nos documentos legais e normativos, como a Lei Brasileira de Inclusão (Brasil, 2015) e a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018), é urgente repensar as práticas pedagógicas nas aulas de Educação Física. Essas práticas devem estar alinhadas aos princípios de equidade, acessibilidade e respeito à singularidade dos alunos com deficiência, especialmente em um campo que historicamente priorizou a performance e a competição em detrimento da participação de todos.
A relevância desta pesquisa está em compreender os principais desafios pedagógicos enfrentados por professores de Educação Física no processo de inclusão de estudantes surdos, especialmente no que se refere à comunicação e ao uso da Libras como instrumento de mediação. Segundo Rodrigues, Lima e Nascimento (2023), a ausência de comunicação efetiva contribui para o isolamento dos alunos surdos e compromete sua autonomia e participação ativa nas atividades corporais escolares.
A literatura aponta que os professores de Educação Física, mesmo demonstrando disposição para incluir estudantes surdos, esbarram na ausência de formação específica em educação inclusiva e no desconhecimento da Libras (Santos e Guimarães, 2022). Tal lacuna compromete não apenas a efetividade da prática pedagógica, mas também os princípios de justiça social e cidadania plena que devem nortear a escola pública.
Além disso, estudos recentes (Medeiros et al., 2022) revelam que a maioria das propostas pedagógicas voltadas à Educação Física ainda negligenciam aspectos linguísticos e comunicacionais dos estudantes surdos, concentrando-se em adaptações físicas ou estratégias genéricas de inclusão. Isso evidencia a necessidade de repensar o currículo e as metodologias de ensino, de modo a assegurar a aprendizagem significativa e o protagonismo dos alunos surdos.
A Libras, nesse contexto, não pode ser vista como um recurso adicional, mas sim como uma ferramenta essencial à prática docente inclusiva. Como afirmam Oliveira e Silveira (2023), o domínio da Libras por parte dos professores é um passo fundamental para garantir acessibilidade comunicacional, fomentar a interação entre os pares e promover a autoestima dos alunos surdos nas atividades escolares.
É importante destacar que a comunicação em Libras durante as aulas de Educação Física exige também estratégias visuais, espaciais e corporais que respeitem a gramática e a cultura da língua de sinais. Tal exigência demanda uma formação inicial e continuada específica para os docentes da área, que ainda é escassa nas licenciaturas em Educação Física (Silva et al., 2024). A ausência de intérpretes educacionais, em muitos contextos escolares, agrava essa situação e amplia as desigualdades.
Justifica-se, portanto, a realização deste estudo por sua relevância para o campo da Educação Física escolar e por sua contribuição à construção de práticas pedagógicas realmente inclusivas. Investigar os desafios enfrentados pelos professores e as possibilidades de superação, a partir da integração da Libras ao planejamento didático, representa um avanço na efetivação do direito à educação para todos, conforme previsto nas diretrizes da Agenda 2030 (ONU, 2015), especialmente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 4).
Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo geral:
Analisar os desafios pedagógicos enfrentados por professores de Educação Física na inclusão de estudantes surdos, com ênfase no uso da Libras como instrumento de mediação comunicacional.
Como objetivos específicos, propõe-se:
Investigar como os docentes têm lidado com as barreiras comunicacionais em aulas com alunos surdos;
Mapear estratégias e práticas pedagógicas que favoreçam a inclusão desses estudantes;
Discutir a formação docente em Libras como elemento central para a efetivação da educação inclusiva na área da Educação Física.
Perguntas norteadoras desta pesquisa incluem:
Como os professores de Educação Física têm enfrentado os desafios comunicacionais nas aulas com estudantes surdos?
Qual o papel da Libras na mediação entre o professor e o aluno surdo no contexto da cultura corporal?
Quais estratégias pedagógicas têm se mostrado mais eficazes para promover a participação ativa dos estudantes surdos nas aulas de Educação Física?
Este artigo está organizado em cinco seções, além da presente introdução. Na seção 2, apresenta-se o referencial teórico sobre inclusão escolar, cultura surda e os desafios da Educação Física. A seção 3 explicita os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa. A seção 4 traz os resultados e discussão, com base nos dados empíricos e na literatura científica. Por fim, a seção 5 apresenta as considerações finais, indicando os principais achados e sugestões para a formação docente e a prática pedagógica inclusiva.
Ao discutir os entraves e as potencialidades da inclusão de estudantes surdos nas aulas de Educação Física, esta pesquisa pretende contribuir para a consolidação de uma escola verdadeiramente acessível, plural e democrática, onde todos os estudantes tenham garantido o direito à aprendizagem e à participação ativa no cotidiano escolar.
REFERENCIAL TEÓRICO
A EDUCAÇÃO FÍSICA E O PARADIGMA DA INCLUSÃO ESCOLAR
A Educação Física, historicamente marcada por práticas seletivas e competitivas, tem sido desafiada a ressignificar sua atuação frente à demanda por uma escola inclusiva. Com a promulgação da Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), os sistemas de ensino passaram a ter como obrigação a garantia do acesso, permanência e participação plena dos estudantes com deficiência em todas as áreas do conhecimento, incluindo o componente curricular da cultura corporal.
Silva et al. (2023) destacam que a Educação Física, ao lidar com o corpo em movimento, configura-se como um campo privilegiado para a promoção da inclusão, desde que a diversidade seja reconhecida como valor pedagógico e não como obstáculo ao ensino. Entretanto, muitos professores ainda enfrentam dificuldades para adaptar as atividades de forma a contemplar as necessidades específicas dos estudantes surdos, especialmente no que se refere à comunicação.
Sousa e Oliveira (2022) apontam que existe uma lacuna expressiva na formação inicial dos docentes em relação às práticas inclusivas. Em pesquisa realizada com 45 professores da rede pública de Goiás, os autores verificaram que apenas 12% haviam cursado disciplinas específicas sobre deficiência auditiva durante a graduação, o que evidencia uma fragilidade estrutural que compromete a qualidade da inclusão.
Faria e Matos (2024) ressaltam que a inclusão não se restringe à presença física dos estudantes na escola, mas envolve a transformação do ambiente pedagógico e das relações nele estabelecidas, incluindo as linguagens que possibilitam a comunicação. O desafio, portanto, consiste em superar a lógica integradora e adotar uma abordagem verdadeiramente inclusiva.
Além da legislação, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça a importância de desenvolver competências que favoreçam a empatia, o respeito à diversidade e a valorização das diferenças, inclusive nas aulas de Educação Física (Brasil, 2018). Nesse sentido, a inclusão de estudantes surdos deve ser compreendida como uma ação intencional e planejada, que requer mediação adequada e o reconhecimento da Libras como recurso essencial.
Fonseca et al. (2023) assinalam que a Educação Física ainda necessita romper com o modelo de rendimento para consolidar-se como espaço de vivência e expressão de múltiplas formas corporais, linguagens e culturas, incluindo a cultura surda. Essa constatação reforça a ideia de que a inclusão está diretamente relacionada à ampliação das formas de expressão legítimas no ambiente escolar.
Ribeiro e Santiago (2022), em estudo realizado em escolas municipais do Paraná, evidenciaram que a adaptação das aulas a partir da escuta ativa dos estudantes surdos e da mediação com Libras resultou em maior engajamento, autoestima e participação dos alunos nas práticas corporais. Esse achado aponta para a viabilidade de uma Educação Física inclusiva, desde que haja formação, intencionalidade e diálogo com a comunidade surda.
Portanto, é imprescindível compreender a Educação Física escolar como espaço político de transformação social, no qual a inclusão não se limite ao discurso, mas se concretize em práticas efetivas que respeitem os modos singulares de ser e comunicar-se no mundo.
A LIBRAS COMO MEDIAÇÃO COMUNICACIONAL NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
A comunicação constitui um dos pilares essenciais da prática docente, sobretudo na Educação Física, onde o movimento, a interação e a compreensão de comandos são elementos centrais do processo de ensino-aprendizagem. Para os estudantes surdos, essa comunicação precisa ocorrer por meio de uma linguagem acessível, sendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras) reconhecida como meio legal de expressão e comunicação desde a promulgação da Lei nº 10.436/2002 e regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005.
No contexto da Educação Física, a Libras não deve ser tratada como recurso auxiliar, mas como linguagem principal de acesso ao currículo por parte dos alunos surdos. Moraes, Lima e Rocha (2023) ressaltam que a ausência da Libras nas aulas dessa disciplina provoca isolamento comunicativo, limita a participação ativa dos estudantes surdos e os exclui da construção coletiva do conhecimento corporal.
A presença de intérpretes educacionais pode atenuar parte dessa barreira, mas não substitui a necessidade de o professor dominar e utilizar Libras em sala de aula. Em estudo de caso realizado em escolas públicas de São Paulo, Almeida e Ferreira (2022) observaram que os alunos surdos que tinham professores usuários de Libras apresentaram maior motivação, envolvimento e sentimento de pertencimento às práticas pedagógicas, reforçando a importância da comunicação direta como instrumento de inclusão.
A realidade educacional brasileira, contudo, evidencia uma lacuna na formação inicial e continuada de professores de Educação Física em relação ao domínio da Libras. Pesquisa conduzida por Silva e Ribeiro (2023) com 80 docentes da rede pública do Ceará mostrou que apenas 18% possuíam proficiência básica na língua de sinais, enquanto a maioria declarava depender de intérpretes ou recorrer a mímicas improvisadas.
Essa deficiência formativa compromete não apenas a eficácia das aulas, mas também os direitos linguísticos dos estudantes surdos. Gonçalves e Batista (2024) enfatizam que, sem acesso à sua língua natural, os alunos surdos permanecem em condição de assimetria comunicativa, o que repercute negativamente em sua autoestima, rendimento escolar e inclusão social.
No campo da Educação Física, a mediação comunicacional em Libras deve contemplar não apenas a tradução de comandos, mas também o emprego de estratégias visuais, espaciais e gestuais que respeitem a gramática e a cultura da língua de sinais. Isso implica o desenvolvimento de competências comunicativas específicas, como o uso de sinais voltados para modalidades esportivas, movimentos corporais e dinâmicas coletivas.
Um exemplo bem-sucedido foi relatado por Torres e Menezes (2022) em uma escola municipal de Salvador, onde o professor elaborou, junto aos estudantes, um glossário em Libras com apoio de vídeos e imagens para designar movimentos e regras de jogos. O resultado foi um aumento expressivo na participação dos alunos surdos e o fortalecimento das interações entre surdos e ouvintes.
Essa experiência demonstra que a Libras pode ser integrada de modo criativo ao planejamento pedagógico da Educação Física, promovendo não apenas acessibilidade, mas também um ambiente de respeito à diversidade linguística e cultural. Rodrigues (2023) reforça que a mediação por meio da Libras possibilita ao estudante surdo assumir papel ativo em sua aprendizagem corporal, interagindo de maneira significativa com colegas e professores.
Assim, o uso da Libras como instrumento de mediação nas aulas de Educação Física não deve ser compreendido como simples desafio técnico, mas como compromisso ético e pedagógico com a democratização do conhecimento e a efetivação dos direitos humanos no espaço escolar. A superação das barreiras comunicacionais configura condição indispensável para a inclusão plena e emancipadora dos estudantes surdos.
FORMAÇÃO DOCENTE E OS DESAFIOS PARA A INCLUSÃO DE ALUNOS SURDOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA
A efetivação da educação inclusiva depende, de forma incontornável, da formação adequada dos professores. No caso da Educação Física, esse desafio é ainda mais complexo diante da natureza prática da disciplina e da pouca ênfase atribuída, historicamente, à preparação para o trabalho com estudantes com deficiência, especialmente os surdos. Lopes e Souza (2022) apontam que existe uma lacuna persistente nos currículos de licenciatura em Educação Física quanto ao ensino da Libras e à educação de surdos.
Essa realidade evidencia uma disparidade entre os pressupostos legais da inclusão e a preparação efetiva dos docentes para atuar em contextos diversos. Em pesquisa realizada com 102 licenciandos de Educação Física em universidades públicas do Nordeste, Fernandes et al. (2023) identificaram que 72% dos futuros professores se sentiam inseguros para atuar com alunos surdos, mesmo após a conclusão da disciplina obrigatória de Libras. Os dados demonstram que, embora a legislação avance, a prática formativa ainda carece de aprofundamento, vivência e abordagem crítica.
Cavalcante e Reis (2024) ressaltam que a formação docente para a inclusão não deve se restringir ao cumprimento formal de carga horária em Libras, mas precisa integrar práticas pedagógicas, estágios supervisionados e diálogo interdisciplinar com a comunidade surda. Essa perspectiva bilíngue é essencial para que a surdez seja compreendida não como deficiência, mas como diferença linguística e cultural.
Outro fator agravante é a desarticulação entre a formação inicial e a continuada. Em muitos sistemas de ensino, a formação em Libras é oferecida de forma esporádica, sem acompanhamento prático, o que inviabiliza a apropriação efetiva do conhecimento. Amaral e Nascimento (2023) destacam que professores de Educação Física relatam grande dificuldade em se comunicar com alunos surdos por não dominarem a Libras, o que limita a inclusão nas práticas corporais.
Estudos de caso revelam que essa fragilidade impacta diretamente a experiência escolar dos estudantes surdos. Na rede pública de Recife, investigação conduzida por Pereira e Barbosa (2022) em cinco escolas identificou que a ausência de professores com formação em Libras levou ao desinteresse dos alunos pelas aulas de Educação Física, além de episódios recorrentes de exclusão simbólica durante jogos e dinâmicas de grupo.
Esse cenário evidencia um paradoxo: embora a legislação determine a inclusão, a precariedade da formação compromete sua efetivação. Barros e Lima (2023) argumentam que a formação docente para a inclusão de estudantes surdos na Educação Física requer o reconhecimento da Libras como instrumento de ensino e aprendizagem, e não apenas como forma de tradução.
Diante disso, torna-se necessário repensar as diretrizes curriculares dos cursos de licenciatura, ampliando a carga horária destinada à Libras e inserindo práticas pedagógicas colaborativas com comunidades surdas. Além disso, é fundamental investir em programas de formação continuada que assegurem o domínio funcional da Libras no contexto escolar.
O aprimoramento da formação docente demanda também uma mudança de paradigma: abandonar a lógica da adaptação emergencial e avançar em direção a uma proposta pedagógica inclusiva, planejada e intencional. Machado (2025) enfatiza que a formação docente para a inclusão de surdos na Educação Física precisa superar o improviso e assumir um compromisso político com o direito à educação de qualidade para todos.
EXPERIÊNCIAS EXITOSAS DE INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: ESTUDOS DE CASO EM REDES PÚBLICAS
A análise de experiências exitosas de inclusão de estudantes surdos em aulas de Educação Física aponta caminhos possíveis para a superação das barreiras comunicacionais e pedagógicas ainda presentes no cotidiano escolar. Os estudos realizados em escolas públicas brasileiras mostram que práticas bem-sucedidas estão geralmente associadas à formação docente contínua, ao uso da Libras de forma integrada e ao planejamento intencional das atividades.
Na rede municipal de ensino de Curitiba (PR), pesquisa de Nunes e Almeida (2022) analisou a prática pedagógica de uma professora de Educação Física com formação em Libras. Os autores observaram que a docente utilizava estratégias visuais, como vídeos legendados e sinalizações, em conjunto com a criação de um glossário de sinais específicos para esportes, construído com a participação dos próprios alunos. O estudo destacou que esse processo fortaleceu vínculos, ampliou o repertório linguístico e possibilitou a mediação eficaz dos conteúdos corporais.
Outro exemplo relevante é o projeto “Corpo em Sinais”, desenvolvido em escolas públicas da Bahia. Santos e Costa (2023) relatam que os encontros semanais entre professores e intérpretes permitiram alinhar estratégias e adequar sinais para modalidades esportivas como handebol e atletismo. Os autores ressaltam que a escuta ativa dos estudantes surdos foi essencial para o êxito do projeto, uma vez que suas experiências e sugestões foram incorporadas ao planejamento pedagógico.
Em Recife, a experiência da Escola Municipal Alto da Bela Vista destacou-se pelo uso de tablets e aplicativos de tradução simultânea para Libras, conforme apontam Ferraz e Mendes (2024). O estudo revelou que a integração de recursos digitais às aulas de Educação Física favoreceu a participação dos estudantes surdos em atividades motoras e avaliações por meio de vídeos em Libras. Segundo os autores, a tecnologia não substituiu o contato humano, mas serviu como recurso complementar para ampliar a autonomia e a compreensão dos alunos.
Essas iniciativas reforçam que a inclusão não depende apenas da estrutura física ou da presença de intérpretes, mas também da disposição pedagógica e da criatividade docente na adaptação de estratégias e linguagens ao perfil dos estudantes. Ramos (2025) observa que práticas bem-sucedidas têm em comum o protagonismo dos estudantes surdos, o trabalho colaborativo entre profissionais e o uso de múltiplos recursos para garantir o direito à aprendizagem.
Em Manaus, a Secretaria Municipal de Educação promoveu formação continuada específica para professores de Educação Física que atendem estudantes surdos, em parceria com a comunidade surda local. Silva e Andrade (2023) identificaram que, após essa formação, os docentes relataram aumento na autopercepção de sua competência comunicacional e melhorias no engajamento dos estudantes durante as aulas práticas.
Outro exemplo relevante é apresentado por Oliveira e Martins (2022), em estudo sobre uma escola bilíngue de Belo Horizonte. Os autores relataram que os professores passaram a planejar aulas com metodologias visuais, utilizando cartões ilustrativos, vídeos com instruções em Libras e organização do espaço em estações visuais de aprendizagem. Essa abordagem resultou em impacto positivo na interação entre estudantes surdos e ouvintes, reforçando o papel da Libras como língua de instrução.
Esses estudos demonstram que a inclusão de estudantes surdos na Educação Física é viável e enriquecedora quando há compromisso institucional, formação continuada e práticas pedagógicas centradas nos sujeitos e em suas formas legítimas de comunicação.
METODOLOGIA
Este estudo foi desenvolvido com base em uma abordagem qualitativa, pois buscou-se compreender de forma aprofundada como se dá a inclusão de estudantes surdos nas aulas de Educação Física e, especialmente, de que maneira a Libras tem sido incorporada como ferramenta de mediação pedagógica. Escolheu-se esse caminho metodológico porque o foco está nas experiências, percepções e práticas vividas, e não apenas em números ou estatísticas.
A pesquisa tem um caráter exploratório e descritivo, já que o objetivo foi levantar e analisar práticas que deram certo em diferentes redes públicas de ensino. Para isso, utilizou-se como principal estratégia a revisão bibliográfica de estudos publicados entre 2022 e 2025, localizados em bases reconhecidas como SciELO, CAPES, Google Acadêmico e Web of Science. A escolha desse recorte temporal tem a ver com a necessidade de reunir produções mais recentes, conectadas às políticas atuais e aos debates contemporâneos sobre inclusão e formação docente.
Durante o levantamento, utilizou-se termos como: inclusão de estudantes surdos, Educação Física escolar, Libras em contextos educativos, formação de professores para a inclusão e práticas pedagógicas com alunos surdos. A partir desses critérios, foram selecionados 19 artigos científicos que relatam experiências reais em escolas públicas de diferentes regiões do Brasil, especialmente nos estados da Bahia, Ceará, Paraná, Pernambuco e Minas Gerais.
Para organizar e interpretar os dados encontrados, utilizou-se a análise temática, que nos permitiu agrupar os conteúdos dos artigos por temas recorrentes. Assim, conseguiu-se identificar quatro grandes categorias que serão exploradas na seção de resultados e discussão:
práticas pedagógicas que utilizaram Libras;
formação e atuação de professores;
uso de recursos visuais e tecnológicos;
percepção dos estudantes surdos sobre a sua participação nas aulas.
É importante destacar que, embora não se tenha feito entrevistas ou aplicado questionários diretamente com os sujeitos da pesquisa, todo o trabalho foi construído com base em estudos empíricos, ou seja, pesquisas que foram feitas com pessoas reais, em escolas reais, enfrentando os desafios e criando soluções no dia a dia da Educação Física.
Por fim, respeitou-se todos os princípios éticos da pesquisa acadêmica, utilizando apenas fontes confiáveis, com devida citação dos autores, e sem manipular ou distorcer os dados. O compromisso foi ouvir, por meio da leitura desses estudos, as vozes dos professores, intérpretes e estudantes que constroem, com criatividade e esforço, práticas mais inclusivas nas escolas públicas brasileiras.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao mergulhar nas experiências descritas nos estudos selecionados, foi possível perceber que a inclusão de estudantes surdos nas aulas de Educação Física está longe de ser um processo simples, mas há caminhos reais e possíveis sendo construídos por professores comprometidos, mesmo diante de muitos desafios. Nesta seção, apresentamos os principais achados organizados em quatro eixos temáticos, que nos ajudam a compreender melhor o cenário atual e suas possibilidades.
Um dos aspectos mais marcantes nas experiências analisadas é que, quando a Libras está presente nas aulas de Educação Física, os estudantes surdos participam com mais entusiasmo e confiança. Em uma escola de Curitiba, por exemplo, a professora construiu um glossário de sinais específicos para os esportes praticados em aula, com a ajuda dos próprios alunos. Isso transformou completamente a relação entre surdos e ouvintes na turma.
Segundo Nunes e Almeida (2022, p. 119), “a construção do glossário com os próprios alunos fortaleceu os vínculos, ampliou o repertório linguístico e possibilitou a mediação eficaz dos conteúdos corporais”. Esse tipo de prática mostra que, mais do que adaptar atividades, é preciso criar um ambiente onde o estudante surdo se reconheça e se comunique com liberdade.
Por outro lado, nas escolas onde a Libras ainda não é utilizada pelos professores, os relatos mostram que os alunos surdos se sentem “à parte” da aula, muitas vezes apenas observando, sem realmente participar. Isso reforça a ideia de que a comunicação é a base da inclusão, e não basta “querer incluir”, é preciso agir com intencionalidade.
Em praticamente todos os estudos, um ponto que se repete é a dificuldade dos professores de Educação Física em se comunicar com alunos surdos por não dominarem a Libras. Muitos docentes relatam que tiveram apenas uma disciplina básica de Libras na graduação, e que isso não foi suficiente para lidar com os desafios reais da sala de aula.
Como afirmam Amaral e Nascimento (2023, p. 144), “os professores de Educação Física relatam grande dificuldade em se comunicar com alunos surdos por não dominarem a Libras, o que limita a inclusão nas práticas corporais”. Isso gera frustração tanto nos educadores quanto nos estudantes, e acaba reforçando barreiras em vez de superá-las.
Apesar disso, algumas redes públicas têm investido em formação continuada. Um exemplo inspirador vem de Manaus, onde professores participaram de um curso de Libras voltado especificamente para o contexto da Educação Física. Após a formação, os docentes relataram mais segurança e passaram a planejar aulas mais acessíveis. Silva e Andrade (2023) destacam que “houve melhora significativa no engajamento dos estudantes durante as aulas práticas” (p. 78), provando que o investimento em formação faz diferença.
Outro ponto que apareceu com força nos relatos foi o uso de recursos visuais e tecnológicos para facilitar a comunicação e a aprendizagem dos estudantes surdos. Em uma escola de Recife, por exemplo, os professores usaram tablets com vídeos em Libras para apresentar as regras dos jogos, além de criar estações com cartazes ilustrativos e códigos visuais.
De acordo com Ferraz e Mendes (2024, p. 143), “a tecnologia não substituiu o contato humano, mas serviu como ponte para ampliar a autonomia e a compreensão dos alunos”. Esses recursos tornaram a aula mais acessível não só para os surdos, mas também para outros alunos com dificuldades de leitura ou atenção. Isso mostra que a inclusão beneficia a todos, e não apenas a quem tem uma deficiência.
Além disso, o uso de vídeos sinalizados ajudou os estudantes a rever os conteúdos em casa, promovendo maior autonomia no processo de aprendizagem. Essa prática, segundo os autores, pode ser incorporada ao planejamento das aulas como um recurso pedagógico contínuo, e não apenas como “complemento”.
Talvez um dos dados mais emocionantes dos estudos seja a maneira como os próprios estudantes surdos descreveram suas experiências nas aulas onde foram incluídos de verdade. Eles relataram se sentir mais seguros, mais motivados e, principalmente, mais visíveis dentro da escola.
Em Salvador, um aluno surdo afirmou, em entrevista à pesquisa de Santos e Costa (2023, p. 92): “Agora eu entendo o jogo, eu falo com meus colegas, eu me movimento igual a eles. Antes, eu só olhava. Agora, eu jogo junto.” Essa fala simples revela o quanto a comunicação acessível transforma não apenas a aprendizagem, mas a autoestima e o sentimento de pertencimento.
Já em Belo Horizonte, professores e alunos trabalharam juntos para sinalizar a quadra e criar regras visuais para jogos cooperativos. Com isso, os surdos deixaram de ser espectadores e se tornaram protagonistas das atividades. Oliveira e Martins (2022) destacam que “a sinalização visual no ambiente físico e o uso da Libras como língua de instrução geraram impacto positivo na interação entre alunos surdos e ouvintes” (p. 134). Essas experiências mostram que a inclusão real acontece quando o aluno não apenas está presente na aula, mas tem voz, vez e espaço legítimo de participação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste estudo, buscou-se refletir sobre algo que ultrapassa a dimensão de conteúdo ou currículo: o direito de cada estudante ser respeitado e incluído como sujeito ativo no processo educativo. No caso dos estudantes surdos nas aulas de Educação Física, trata-se justamente de garantir espaço, escuta e participação em uma área que, muitas vezes, foi marcada pela exclusão e pela ênfase no desempenho.
Os resultados evidenciaram que a Libras representa muito mais do que uma ferramenta de comunicação. Ela constitui uma ponte entre professor e aluno, entre corpo e linguagem, entre escola e mundo da criança surda. Quando essa ponte existe, seja pelo professor que aprende sinais, pelo glossário criado com os alunos ou pelos vídeos em Libras utilizados em aula, a prática pedagógica se transforma. O clima muda. A escola muda.
Também se constatou que a formação docente ainda precisa avançar significativamente. Não é possível cobrar inclusão quando a maioria dos professores não recebeu preparo adequado para lidar com a diversidade linguística dos estudantes. Muitos acabam aprendendo de forma improvisada, com boa vontade, mas sem os recursos necessários. Nesse sentido, investir em formação continuada, com apoio institucional e participação da comunidade surda, mostra-se urgente e indispensável.
Outro ponto relevante evidenciado pelo estudo é que a inclusão apresenta melhores resultados quando construída coletivamente. As experiências mais exitosas foram registradas em escolas nas quais os professores planejaram em conjunto com intérpretes, colegas de outras áreas e os próprios alunos. Nessas situações, a tecnologia foi utilizada com sensibilidade, e o corpo, a expressão e a linguagem visual foram valorizados como elementos centrais do processo de ensino.
O impacto da inclusão na vida dos estudantes também se mostrou expressivo. Os relatos analisados revelam jovens que antes apenas assistiam às aulas e que, posteriormente, passaram a participar ativamente. Estudantes que antes estavam à margem passaram a se sentir parte do grupo. Esse tipo de transformação impulsiona o trabalho pedagógico e reforça a importância de práticas inclusivas.
Portanto, este trabalho não pretende encerrar o debate, mas contribuir para sua ampliação. Trata-se de um convite para que mais professores busquem formação em Libras, para que mais escolas criem espaços colaborativos e para que a Educação Física se consolide como um espaço de movimento, escuta, pertencimento e respeito às diferenças.
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