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Resumo
INTRODUÇÃO
O brincar exerce papel essencial no desenvolvimento infantil, contribuindo para a formação cognitiva, afetiva, motora e social das crianças (Barros et al., 2023). A American Academy of Pediatrics (2007) afirma que “o brincar é essencial para o desenvolvimento porque contribui para o bem-estar cognitivo, físico, social e emocional”. Essa prática favorece a expressão emocional, a resolução de problemas e o fortalecimento de vínculos, oferecendo uma base sólida para aprendizagens significativas e bem-estar infantil (Queiroz, Fernandez e Barroz, 2025).
Estudos apontam que o brincar estimula a plasticidade neural, a criatividade e a construção de esquemas cognitivos próprios da infância (Almeida e de Paula, 2024). Conforme a proposta de learning through play, “as crianças exploram ativamente seu ambiente e o mundo ao seu redor” (ZOSH et al., 2018), desenvolvendo habilidades de linguagem, empatia, cooperação e pensamento crítico.
Neste contexto, surge a seguinte questão norteadora “Como a mediação intencional, formalizada e orientada por adultos, tal como pais ou educadores potencializa os benefícios do brincar para o desenvolvimento integral da criança na educação infantil?”. A relevância dessa questão está na compreensão não apenas dos benefícios do brincar, mas também dos impactos de práticas pedagógicas planejadas com base na ludicidade.
O objetivo geral deste estudo foi analisar a contribuição da mediação intencional do brincar para o desenvolvimento integral da criança na educação infantil. Os objetivos específicos foram identificar os domínios de desenvolvimento mais impactados pelo brincar mediado, caracterizar práticas pedagógicas lúdicas mediadas por adultos e discutir a importância da mediação qualificada no contexto escolar.
MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de uma revisão bibliográfica sistemática baseada no modelo Prisma (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) de Moher et al. (2015), conduzida em quatro etapas:
Na fase de identificação foi realizada uma busca nas bases SciELO, PubMed, ERIC e Google Scholar, utilizando os descritores: “brincar”, “ludicidade”, “educação infantil” e “guided play”. Em seguida, foi feita a seleção, onde ocorreu a inclusão de artigos publicados entre 2007 e 2025, em português ou inglês, com texto completo e pertinência ao tema. Foram elegidos os textos que permitiram a leitura integral dos estudos para confirmar alinhamento aos objetivos da pesquisa. Por fim, na fase de inclusão, foi feita a seleção final de 20 artigos que tratam da importância do brincar mediado por adultos na educação infantil.
REVISÃO DE LITERATURA
O brincar exerce o papel de aproximar a fantasia infantil com a realidade social da criança (Cardozzo e Vieira, 2007), assim, aprimorando experiências ao seu mundo e preparando melhores resultados na aprendizagem. As brincadeiras são excelentes oportunidades para nutrir a linguagem verbal se torne mais fluente e haja maior interesse pelo conhecimento de palavras novas (Costa e Silva, 2025). A variedade de situações que o brinquedo possibilita pode favorecer ao desenvolvimento integral da criança.
É pelo brincar que ela desenvolve a imaginação, a confiança, o controle, a criatividade, a cidadania, suas frustrações, a cooperação e o relacionamento interpessoal (Portela e Barros, 2025). O principal objetivo, é deixar que a criança use do imaginário para representar o real, para que possa assimilá-los. A criança expressa no brincar o mundo real (Cotonhoto, Rossetti e Missaw, 2025), com seus valores, modos de pensar e agir e o imaginário do criador do objeto.
O brincar é a atividade principal da criança porque é aquela em conexão com a qual ocorrem as mais significativas mudanças no desenvolvimento psíquico do sujeito e na qual se desenvolvem os processos psicológicos que preparam o caminho da transição da criança em direção a um novo e mais elevado nível de desenvolvimento (de Souza, 2025). O brincar executa o papel de aproximar a fantasia infantil com a realidade social de onde a criança está inserida (Cardozzo e Vieira, 2007).
Percebe-se que a criança, nos primeiros tempos, não se diferencia dos objetos que a circundam e compreende a natureza antropomórfica do pensamento infantil, pois, para ela, o brincar constitui elemento em que esta se expressa e libera o imaginário, já que, neste estágio dá a cada coisa as formas da vida adulta, sentimento e fala (Cardoso e Batista, 2021).
A criança imagina que as coisas podem ouvir e começa a representar seu ser interno externamente reproduzindo a mesma atividade a tudo, para a pedra e pedaço de madeira, para a planta, a flor e um animal (Silva, 2022).
A primeira infância caracteriza-se por ser um período em que se deva auxiliar o desenvolvimento natural da criança, pois seu crescimento físico ocorre de maneira rápida e paralela com a formação das atividades psíquicas e sensoriais (Medeiros, 2024).
Nas brincadeiras são empreendidas ações coordenadas e organizadas, dirigidas a um fim e, favorecendo um funcionamento intelectual que leva à consolidação do pensamento abstrato (Silva e Pines Júnior, 2020). A força motriz da ludicidade, o que a faz ser tão importante no complexo processo de apropriação de conhecimentos, é a combinação paradoxal de liberdade e controle (Pimentel, 2008). Ao mesmo tempo em que os horizontes se ampliam segundo os rumos da imaginação, o cenário lúdico emoldura-se segundo limites que os próprios jogadores se impõem, subordinando-se mutuamente às regras que conduzem a atividade lúdica (Pinheiro e Farias, 2023).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Quadro 1 – Autor e data de publicação, título da obra e principais achados clássicos em educação abordados neste trabalho:

Fonte: Autores (2025).
A análise integrada dos estudos selecionados confirma que o brincar é um recurso pedagógico e de desenvolvimento humano de grande relevância, possuindo impactos que transcendem o entretenimento e se inserem diretamente na promoção do desenvolvimento cognitivo, social, emocional e físico. Weisberg, Hirsh-Pasek, Golinkoff, (2013) enfatizam que a ludicidade não deve ser vista como uma atividade secundária na vida escolar e familiar, mas sim como um direito e uma necessidade para o crescimento saudável, recomendando a criação de ambientes e rotinas que possibilitem à criança vivenciar experiências lúdicas variadas e significativas.
A abordagem de learning through play, documentada por Zosh et al. (2018), sustenta que as crianças aprendem de forma mais eficaz quando estão ativamente engajadas em atividades lúdicas que promovem autonomia, exploração e resolução de problemas. Esse conceito dialoga com a teoria sociointeracionista de Vygotsky (1978), segundo a qual a brincadeira constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento da linguagem e do pensamento abstrato, permitindo à criança operar na sua zona de desenvolvimento proximal. Ao proporcionar interações mediadas, os adultos ampliam o alcance do que a criança poderia realizar sozinha, sem descaracterizar a liberdade intrínseca ao ato de brincar.
A revisão sistemática de Weisberg, Hirsh-Pasek e Golinkoff (2013) sobre guided play demonstra empiricamente que a mediação qualificada, na qual o adulto cria um ambiente rico em estímulos, propõe desafios adequados e encoraja a resolução autônoma de problemas, ajuda-a a superar tanto o brincar totalmente livre quanto a instrução direta tradicional na promoção de aprendizagens conceituais e procedimentais. Essa constatação é especialmente relevante no contexto da educação infantil, onde a formação de conceitos básicos pode ser integrada a atividades lúdicas contextualizadas.
Outro aspecto importante é a influência do contexto cultural na forma e no significado do brincar (Souza et al, 2022). Segundo esses autores, enquanto o brincar livre oferece à criança a possibilidade de expressar sua criatividade e cultura, a mediação intencional permite alinhar essas expressões aos objetivos educacionais e às necessidades de desenvolvimento. Isso reforça a importância de práticas educativas adaptadas às realidades socioculturais das crianças, garantindo maior engajamento e aprendizagens mais significativas.
Em síntese, os dados analisados apontam para uma convergência teórica e empírica em que o brincar é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento, mas sua eficácia máxima ocorre quando há equilíbrio entre liberdade exploratória e intencionalidade pedagógica. Essa combinação potencializa a construção de competências cognitivas e socioemocionais, prepara a criança para interações sociais mais complexas e fortalece vínculos afetivos com adultos mediadores, sejam eles familiares ou educadores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que o brincar, quando mediado intencionalmente por adultos, potencializa seus benefícios no desenvolvimento integral da criança. Essa mediação promove maior engajamento, aprendizado mais significativo e fortalecimento emocional e social.
Recomenda-se que educadores e famílias adotem práticas lúdicas orientadas, que considerem tempo, contexto e facilitação qualificada como partes integrantes do processo educativo. Políticas públicas e formação docente devem refletir essa abordagem equilibrada entre direção e liberdade lúdica.
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