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Resumo
INTRODUÇÃO
A leucemia é uma doença onco-hematológica que se caracteriza pela produção desordenada de leucócitos imaturos na medula óssea, acometendo a imunidade e outras funções hematopoiéticas (INCA, 2025). O tratamento pode sugerir a quimioterapia, radioterapia e transplante de medula óssea, exigindo atenção multiprofissional. Nesse cenário, a enfermagem atua diretamente na administração de medicamentos, prevenção de complicações, monitoramento e suporte emocional (Ferreira; Santos, 2022).
Demandando uma abordagem de caráter mais humanizado e individualizado, mostrando-se indispensável para a qualidade da assistência. Nesse contexto, a enfermagem desempenha um papel de extrema importância a nível terapêutico. O tratamento da leucemia envolve protocolos complexos que incluem quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e, em alguns casos, o transplante de medula óssea. Esses procedimentos, embora necessários, acarretam efeitos colaterais significativos, como mucosite, náuseas, alopecia, fadiga intensa, além de quadros de neutropenia e trombocitopenia, exigindo um cuidado altamente especializado e contínuo (Brunner; Suddarth, 2020). É nesse cenário que a equipe de enfermagem assume um papel essencial no planejamento, execução e avaliação da assistência. A enfermagem atua diretamente na prevenção de infecções, no manejo dos efeitos adversos do tratamento, no controle de sintomas e na educação em saúde, promovendo qualidade de vida e segurança ao paciente durante todas as fases da doença. Além dos aspectos clínicos, o cuidado humanizado, o suporte emocional e a comunicação com o paciente e sua família são componentes fundamentais dessa prática (Lopes; Silva; Nascimento, 2022).
Este estudo propõe descrever a atuação da equipe de enfermagem no cuidado ao paciente com leucemia de acordo com práticas baseadas em evidências. Destaca-se a necessidade de discutir a importância da interdisciplinaridade na assistência oncológica.
A questão central que orienta esta análise é: como a atuação da enfermagem pode contribuir efetivamente para a qualidade da assistência prestada ao paciente com leucemia, considerando a necessidade de cuidados humanizados e a interdisciplinaridade?
Portanto, identificar os desafios da Sistematização da Assistência de Enfermagem ao Paciente com Leucemia, frisando a atuação conjunta do profissional na qualidade da assistência perante o enfrentamento da doença.
METODOLOGIA
O estudo trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica com abordagem qualitativa sobre leucemia, embasando a atuação da equipe de enfermagem nos cuidados ao paciente com leucemia. (há repetição de “leucemia” na mesma frase.
A busca de artigos foi realizada entre janeiro e agosto de 2025 em diversas bases de dados, incluindo o Medical Literature and. Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed, Scopus (Elsevier), Web of Science (Clarivate), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Base de Dados de Enfermagem (BDENF), acessadas por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), entre os anos de 2015 e 2025. Os descritores utilizados foram: “cuidados de enfermagem”, “leucemia”, “interdisciplinaridade” e “oncologia”. Foram selecionados 25 artigos que atendiam aos critérios de inclusão: publicações em português, inglês ou espanhol, com acesso gratuito e que abordassem a temática proposta.
REFERENCIAL TEÓRICO
ATUAÇÃO DA EQUIPE DE ENFERMAGEM NO CUIDADO INTEGRAL AO PACIENTE COM LEUCEMIA: PERSPECTIVAS CLÍNICAS, HUMANIZADAS E SISTEMATIZADAS
A leucemia é uma patologia onco-hematológica caracterizada pela proliferação anormal de leucócitos imaturos, que invadem a medula óssea e comprometem a hematopoiese normal. Essa disfunção causa alterações significativas nos sistemas imune, hematológico e metabólico do paciente, exigindo cuidados especializados, contínuos e multiprofissionais (Brunner; Suddarth, 2020).
De acordo com Smeltzer et al. (2021), o tratamento da leucemia envolve regimes complexos de quimioterapia e, em casos selecionados, transplante de células-tronco hematopoiéticas. Esses procedimentos resultam em intensas repercussões clínicas, como mucosite, náuseas, alopecia, anemia, neutropenia e trombocitopenia, exigindo vigilância contínua da equipe de enfermagem.
A atuação da enfermagem é central na assistência ao paciente com leucemia, envolvendo o cuidado direto, a educação em saúde, o apoio psicológico e o gerenciamento dos efeitos adversos do tratamento. Segundo Lopes, Silva e Nascimento (2022), a enfermagem deve estar capacitada para reconhecer sinais precoces de infecção, sangramentos, alterações hemodinâmicas e desequilíbrios hidroeletrolíticos, implementando intervenções seguras e eficazes.
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), prevista pela Resolução COFEN nº 358/2009, organiza e qualifica o cuidado de enfermagem por meio da aplicação do Processo de Enfermagem, promovendo maior individualização, cientificidade e humanização das práticas (COFEN, 2009). Para isso, o enfermeiro precisa realizar o levantamento de dados, definir diagnósticos de enfermagem, planejar e executar intervenções, além de avaliar continuamente os resultados.
Segundo Barros et al. (2021), o cuidado ao paciente hematológico demanda ações preventivas e educativas que minimizem riscos e promovam a autonomia. Isso inclui a orientação sobre higiene pessoal, uso adequado de medicamentos, sinais de alerta e a importância da adesão ao tratamento.
Além dos aspectos técnicos, o componente emocional é indispensável. O diagnóstico de leucemia costuma provocar medo, ansiedade e insegurança, tanto no paciente quanto nos familiares. A escuta ativa, o acolhimento e a empatia são recursos fundamentais no cuidado humanizado. Como afirma Waldow (2009, p. 89), “o cuidar humano ultrapassa a técnica e se estabelece na presença, na relação e no compromisso com o outro”.
Por fim, estudos recentes apontam que a aplicação de modelos integrados de cuidado — como o “comprehensive nursing care” — tem demonstrado eficácia na redução de complicações clínicas, melhora da qualidade de vida e aumento da satisfação dos pacientes oncológicos (Jiang et al., 2022).
DESAFIOS DA SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE COM LEUCEMIA
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é uma ferramenta fundamental que organiza e qualifica o cuidado prestado, garantindo segurança, continuidade e individualização das ações de enfermagem. Regulamentada pela Resolução COFEN nº 358/2009, a SAE estrutura-se em cinco etapas: coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação (COFEN, 2009). No entanto, apesar de sua importância teórica e legal, sua aplicação efetiva no contexto da oncologia hematológica, especialmente em pacientes com leucemia, ainda enfrenta inúmeros desafios.
A leucemia, por sua complexidade clínica e terapêutica, exige uma assistência altamente especializada e dinâmica. Segundo Smeltzer et al. (2021), os pacientes submetidos ao tratamento quimioterápico ou ao transplante de medula óssea apresentam um quadro clínico volátil, marcado por episódios frequentes de infecção, sangramentos, fadiga extrema e comprometimento imunológico. Isso demanda intervenções imediatas, o que, muitas vezes, dificulta o registro sistemático das etapas da SAE em tempo real.
Além disso, o enfermeiro pode encontrar dificuldades estruturais, como falta de tempo, sobrecarga de trabalho, ausência de protocolos específicos e lacunas na formação acadêmica. Barros et al. (2021) destacam que a ausência de uma cultura institucional voltada para a prática baseada na SAE contribui para que a sistematização seja muitas vezes vista como burocrática, e não como parte integrante do cuidado clínico.
Outro ponto crítico envolve a elaboração adequada dos diagnósticos de enfermagem. A aplicação da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE) ou da NANDA-I no contexto da leucemia requer conhecimento aprofundado da patologia e experiência clínica. O enfermeiro precisa ser capaz de identificar diagnósticos como “Risco de infecção”, “Fadiga relacionada ao tratamento oncológico” ou “Integridade da mucosa oral prejudicada”, além de associar intervenções e resultados esperados. Quando isso não é feito de forma precisa, há risco de planejamento inadequado do cuidado (Lopes; Silva; Nascimento, 2022).
Adicionalmente, o componente emocional do paciente oncológico representa outro desafio à SAE. O enfermeiro, além das demandas técnicas, precisa acolher o sofrimento emocional do paciente e da família, oferecendo suporte psicológico e fortalecendo o vínculo terapêutico. Como afirma Waldow (2009), o cuidar humano não se limita à técnica, mas envolve presença, escuta e compromisso ético com o outro. Inserir essa dimensão subjetiva dentro de um modelo sistematizado de cuidado exige sensibilidade, empatia e equilíbrio profissional.
Por outro lado, estudos demonstram que a aplicação da SAE no cuidado ao paciente com leucemia pode contribuir significativamente para a melhoria dos resultados clínicos, como redução de complicações infecciosas, maior adesão ao tratamento e aumento da satisfação do paciente. Jiang et al. (2022) mostraram que a implantação de protocolos estruturados de enfermagem, baseados em planos de cuidado individualizados, resultou em menores taxas de eventos adversos e melhora na qualidade de vida.
Assim, os desafios da sistematização da assistência de enfermagem ao paciente com leucemia estão interligados a fatores organizacionais, formativos, técnicos e humanos. Superá-los requer investimento em educação permanente, valorização da prática clínica, incentivo à pesquisa aplicada e fortalecimento da autonomia do enfermeiro no contexto hospitalar.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos estudos selecionados revelou que, embora a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) seja reconhecida como uma ferramenta fundamental para a qualidade do cuidado, sua aplicação no contexto de pacientes com leucemia ainda apresenta lacunas significativas. Os principais desafios encontrados envolvem questões organizacionais, limitações técnicas, falta de recursos humanos e despreparo profissional.
Dentre os resultados mais recorrentes está a dificuldade na implementação completa das etapas da SAE. Muitos enfermeiros relataram não conseguir realizar todas as fases (coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação) devido à sobrecarga de trabalho, alta rotatividade de pacientes e ausência de tempo para registros detalhados (Lima et al., 2021). Em ambientes oncológicos, onde os pacientes com leucemia frequentemente apresentam quadros instáveis, a priorização das ações imediatas muitas vezes impede a aplicação sistemática do processo de enfermagem.
Outro achado relevante diz respeito à falta de preparo teórico e prático para elaborar diagnósticos de enfermagem específicos para pacientes onco-hematológicos. Muitos profissionais demonstram insegurança na escolha de intervenções apropriadas, especialmente diante de quadros clínicos complexos como neutropenia grave, mucosite oral ou risco de hemorragias (Barros et al., 2021). Isso reforça a necessidade de capacitações contínuas e específicas em oncologia.
Além disso, os estudos apontam que, mesmo quando a SAE é aplicada, ela frequentemente se limita à dimensão técnica, desconsiderando os aspectos psicossociais e emocionais do paciente. No contexto da leucemia, onde há sofrimento psicológico intenso causado pelo diagnóstico e pelo tratamento prolongado, a ausência de cuidado humanizado representa uma falha importante. Segundo Waldow (2009), o cuidado integral exige mais do que competência técnica: é necessário empatia, escuta ativa e sensibilidade diante da dor do outro.
Por outro lado, algumas instituições que investiram em protocolos padronizados, educação permanente e tecnologia para facilitar os registros demonstraram avanços significativos na implementação da SAE. Em estudo realizado por Jiang et al. (2022), a aplicação de um modelo de cuidado integrado (comprehensive nursing care) resultou em melhor adesão ao tratamento, menor incidência de infecções hospitalares e maior satisfação dos pacientes com leucemia aguda.
Ademais, a articulação da enfermagem com equipes multidisciplinares foi apontada como um fator facilitador para a sistematização da assistência. Ambientes em que o enfermeiro é valorizado como sujeito ativo no planejamento terapêutico apresentaram melhores desfechos clínicos e maior organização do cuidado (Lopes; Nascimento; Silva, 2022).
Esses achados reforçam que a aplicação efetiva da SAE no cuidado ao paciente com leucemia exige mais do que normativas: ela depende de estrutura institucional, valorização profissional, qualificação contínua e um olhar ampliado sobre o ser humano em sofrimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A equipe de enfermagem tem papel decisivo na gestão holística do paciente com leucemia. A aplicação de intervenções fundamentadas em evidência (como preconizado por protocolos de “comprehensive nursing”), melhora os indicadores clínicos, psicológicos e de satisfação. Além disso, a sistematização da assistência, aliada à educação contínua, ao suporte emocional e ao trabalho multiprofissional ético, fortalece a segurança do paciente e a qualidade de vida. A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) representa um instrumento essencial para a organização, segurança e qualidade do cuidado prestado ao paciente com leucemia. No entanto, sua efetiva implementação ainda enfrenta diversos desafios na prática clínica, principalmente em ambientes hospitalares oncológicos de alta complexidade.
O paciente com leucemia é um indivíduo em condição clínica e emocional extremamente delicada, exigindo atenção contínua, intervenções precisas, acolhimento humanizado e atuação multiprofissional. A equipe de enfermagem está na linha de frente desse cuidado e precisa estar tecnicamente preparada e emocionalmente disponível para responder às necessidades que surgem ao longo de todo o processo terapêutico.
Os principais entraves observados para a aplicação completa da SAE incluem a sobrecarga de trabalho, a falta de tempo para registros, a insuficiência de formação teórica sobre a sistematização, a ausência de protocolos clínicos específicos e a desvalorização do trabalho da enfermagem em alguns serviços de saúde. Além disso, foi evidenciado que, muitas vezes, o foco no cuidado técnico impede a inclusão de ações humanizadas e de suporte emocional dentro da assistência planejada.
Apesar dessas dificuldades, os estudos analisados demonstram que é possível superar essas barreiras por meio de estratégias institucionais, como investimento em capacitação contínua, criação de protocolos de assistência padronizados, uso de tecnologias facilitadoras e valorização da autonomia do enfermeiro na tomada de decisão. Ambientes que promovem a aplicação sistemática da SAE apresentaram melhores resultados clínicos, maior segurança do paciente e maior satisfação com o cuidado recebido.
Diante disso, conclui-se que o fortalecimento da SAE no cuidado ao paciente com leucemia é um caminho necessário e urgente para garantir uma assistência qualificada, integral e humanizada. Encoraja-se que gestores, profissionais e educadores da enfermagem promovam ações de suporte à prática sistematizada, reconhecendo seu papel central na transformação positiva da assistência oncológica.
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