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Resumo
INTRODUÇÃO
A Educação Infantil é a primeira etapa da educação básica que, por abranger uma fase com intensas mudanças neurobiológicas e socioemocionais, mantém características únicas. Nessa fase, o cérebro das crianças está se desenvolvendo rapidamente e consolidando conexões sinápticas básicas para cognição, linguagem, afetividade, percepção e controle inibitório (Shonkoff et al., 2012). O uso de práticas baseadas em mindfulness desde esse período tem um grande potencial para melhorar a autorregulação emocional, foco de atenção e relações pessoais mais empáticas; todos, aspectos-chave do desenvolvimento infantil (Zelazo; Lyons, 2012T).
Mindfulness, introduzido pela primeira vez por Kabat-Zinn (2003), é o ato de prestar atenção intencionalmente ao momento presente e fazê-lo sem julgamento. Reinterpretada em pedagogias laicas e científicas para crianças e professores, essa tradição encontra sua transposição para o campo educacional.
As práticas contemplativas na Educação Infantil estão ganhando popularidade como uma nova dimensão, mesmo levando em consideração as pequenas doses diárias de exercícios de mindfulness e ludicidade — apresentam grandes efeitos positivos no comportamento, aspectos do sono e atenção, e até mesmo no funcionamento executivo — a literatura internacional indica como influência as crianças pequenas como podemos notar estudo conduzido por Li et al. (2019). Assim, este artigo visa reunir e sistematizar práticas de mindfulness cientificamente baseadas que podem ser adaptadas para o ambiente educacional brasileiro, considerando os aspectos muito importantes de laicidade, adequação etária e consistência com a intencionalidade pedagógica.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E CIENTÍFICA
O desenvolvimento da função executiva — incluindo habilidades precursoras como atenção sustentada, controle inibitório e flexibilidade cognitiva que começam a ser observadas na primeira infância — é extremamente sensível ao ambiente (Diamond, 2013). Intervenções de mindfulness realizadas regularmente e mediadas didaticamente mostraram uma forte melhoria nessas funções, especialmente aquelas realizadas com crianças entre 4–6 anos (Napoli et al., 2005; Zelazo; Lyons, 2012). Os efeitos parecem estar relacionados a mudanças nos sistemas neurais centrados no córtex pré-frontal dorsolateral, que servem ao planejamento, tomada de decisão e inibição de impulsos. Além disso, práticas contemplativas estimulam a ativação do sistema parassimpático, promovendo estados de bem-estar e serenidade (Goldin et al., 2013).
Um programa de cinco dias com sessões diárias de mindfulness (30 minutos cada) também aumentou as habilidades motoras finas e comportamentos pró-sociais quando comparado à programação regular, conforme observado por professores e cuidadores de crianças de 4 a 5 anos, embora não tenha mostrado impacto significativo na resiliência a curto prazo (Razza, R. A., Bergen‑Cico, D., & Raymond, K. 2015)
Foi possível identificar um maior número de revisões sistemáticas em inglês sobre a prática de mindfulness e yoga em pré-escolas; essas revisões sugerem que há uma melhoria na atenção, comportamento social, autorregulação emocional e flexibilidade cognitiva quando os programas têm duração igual ou superior a seis semanas (Embong et al., 2021). Além disso, práticas como movimentos meditativos e consciência da respiração mostraram-se benéficas para a qualidade do sono. Um estudo longitudinal com crianças em risco mostrou um aumento no tempo de sono em média de 74 minutos por noite ao longo de oito semanas a partir da prática padrão em sala de aula (Stanford et al., 2022).
A implementação de práticas de mindfulness nas escolas impacta adicionalmente o clima escolar, incentivando dinâmicas mais empáticas e autorreguladas entre educadores e alunos. No artigo, os resultados de um estudo realizado com professores de educação infantil confirmam esses aspectos positivos. Jennings ilustrou que manter essa prática ativa de fato reduziu os níveis de estresse, tornando o professor mais emocionalmente disponível para a criança, garantindo maior bem-estar na interação.
A introdução de práticas de mindfulness também afeta o clima escolar, promovendo interações mais empáticas e reguladas entre educadores e alunos. Jennings (2015), em estudo com professores da educação infantil, demonstrou que a prática regular de mindfulness por docentes reduziu níveis de estresse e aumentou a responsividade emocional com as crianças, contribuindo para um ambiente mais seguro e afetivo.
EDUCAÇÃO INFANTIL NA ATENÇÃO PLENA SECULAR
RESPIRAÇÃO CONSCIENTE
Uma linguagem adaptada para crianças a diferentes práticas de respiração tem se mostrado útil para a autorregulação emocional. Entre elas:
Respiração de balão: a criança coloca as mãos no abdômen e sente como o ar sobe ao inspirar e desce ao expirar. Perfeito para relaxar após eventos particularmente emocionantes.
Respiração de Dragão: inspire profundamente pelo nariz e expire lentamente pela boca com um som “ahhh”. Promove a liberação de tensão. Apesar de simples, são comprovadas neurofisiologicamente com suporte na ativação do nervo vago, diminuindo a frequência cardíaca e induzindo estados de calma (Porges, 2011).
ESCUTA ATENTA E CONDUÇÃO AO SILÊNCIO
Quanto mais cedo se começa a desenvolver habilidades de escuta ativa, mais provável é que essa pessoa construa:
Caça ao som: brincar com um objeto ou encontrar algo que faça barulho e conduzir o som para longe das crianças, pedir às crianças que adivinhem o que ouviram sem olhar para ele.
Sino em silêncio: tocar um sino e convidar as crianças a levantarem as mãos quando não puderem mais ouvir nenhum som. Ele ajuda a ouvir ativamente, a aumentar a concentração e a apreciar o silêncio como um componente da comunicação — Não apenas esperando a horanos de falar.
ATENÇÃO PLENA EM MOVIMENTO/IOGA SUAVE
Posturas de ioga adicionadas são integradas para promover equilíbrio entre corpo e mente, concentração também:
Posturas de Árvore, Borboleta e Estrela: feitas enquanto equilibrando; com respiração.
Caminhada consciente: caminhar mais devagar, com consciência de cada um de seus passos na terra; perceber quaisquer sons ou cheiros ao seu redor. Com base em revisões analíticas de estudos de Embong et al. (2021), apenas a mediação lúdica de tais práticas é boa o suficiente para ser eficaz, mesmo com crianças de três anos.
ATIVIDADES SENSORIAIS
Ferramentas de mindfulness, que oferecem à criança experiências táteis e visuais para trazer seu foco de volta ao momento presente;
Pote de relaxamento (pote de glitter): líquido de uma cor, de acordo com os sentimentos que são associados a essa cor e glitter dentro de um pote transparente, que é simplesmente agitado, respiração de balanço de cama.
Desenho Zen: Isso pode ser feito desenhando ou pintando com os olhos fechados, de preferência com música tranquila que seja experimental e muitas vezes envolve esfregar texturas fantasiosas nas cores.
NARRATIVAS E CÍRCULO DE GRATIDÃO
Contação de histórias com pausas deliberadas: Enquanto lê uma história, você para por algum tempo para respirar e pensar sobre como os personagens estão se sentindo.
Círculo de gratidão: Cada criança diz algo bom ou positivo sobre seu dia, construindo empatia e linguagem para emoções.
DIRETRIZES PARA IMPLEMENTAÇÃO PEDAGÓGICA
DURAÇÃO E FREQUÊNCIA
As práticas devem ser curtas e frequentes — começando com sessões de 3–5 minutos, e talvez progredindo para 10–15 minutos diários. Os resultados mostram que as intervenções para ter impacto precisam de 6 semanas de dose completa (Culotta et al., 2024; Embong et al., 2021).
TREINAMENTO DE PROFESSORES
A capacitação dos educadores é essencial para garantir a intencionalidade e a laicidade da prática. Programas como o “Zero to Three Toolkit” fornecem modelos de formação baseados em ciência, sem conotação religiosa (Zero to three, 2021).
ADAPTAÇÃO AO CONTEXTO
O repertório e o tempo das crianças devem ser respeitados em cada prática. O educador deve se certificar de mantê-lo descontraído e acolhedor podendo, por exemplo, Construir um espaço físico dentro da sua sala — como o “canto do relax” com almofadas e táteis, e diminuindo a luz.
Os registros devem ser observacionais e avaliações validadas como o SDQ (Strengths and Difficulties Questionnaire), para medir mudanças em atenção, regulação emocional e comportamento (Goodman, 1997).
A DISCUSSÃO: MINDFULNESS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
A implementação de ações de mindfulness na rotina da Educação Infantil não se reduz necessariamente a exercícios isolados, mas sim a uma forma de viver o tempo, o corpo e os outros. Elas aparecem como um caminho ético e compassivo que inclui escuta, atenção e querer o melhor para as crianças em sua totalidade. Este sistema é realmente importante hoje, quando a sociedade e certamente as infâncias também são muito rápidas. A superestimulação dessas crianças começou muito antes da escola, quando muitos recorriam a telas ou horários rigorosos, o que leva à agitação, ansiedade e baixos níveis de concentração. O mindfulness é uma forma de equilibrar isso e dar à criança espaço para pausar, reequilibrar no corpo e na emoção. Além disso, a inserção dessas práticas induz uma mudança postural nos professores, que passam a olhar para outras realidades com mais intencionalidade, paciência e presença nos dias acadêmicos. O mindfulness pode sustentar laços, agregar valor às trocas e ajudar a cultivar um ambiente escolar mais gentil e convidativo. Deve ficar claro, no entanto, que isso não deve ser interpretado como um método para controlar o comportamento ou impor disciplina. Deve enfatizar o cuidado, a escuta e o reconhecimento da subjetividade das crianças, respeitando seus tempos e modos de ser.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As práticas laicas de mindfulness na Educação Infantil não devem ser vistas como qualquer dispositivo de estratégia pedagógica, mas sim baseadas em evidências no desenvolvimento abrangente de uma criança. Evidências de múltiplos estudos em diferentes culturas sugerem que elas provavelmente serão úteis no contexto brasileiro, mediando autorregulação, atenção, comportamento e bem-estar. Para isso, é muito importante que o treinamento de professores seja realizado e que espaços seguros sejam construídos, onde as crianças ouçam. Quando considerado como uma pedagogia em vez de uma mera técnica, o mindfulness tem grande potencial de transformação na vida de professores e alunos. O mindfulness ensina a sentir, ser e viver juntos com presença e empatia. No entanto, é uma maneira de as crianças conduzirem adultos cansados e relutantes a uma compreensão mais consciente, moral e em relação à educação ligada às necessidades da infância.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIAMOND, A. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135–168, 2013.
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GOLDIN, P. R. et al. Mindfulness-based stress reduction (MBSR) and emotion regulation in social anxiety disorder. Emotion, v. 13, n. 1, p. 88–97, 2013.
GOODMAN, R. The Strengths and Difficulties Questionnaire: a research note. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 38, n. 5, p. 581–586, 1997.
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ZERO TO THREE. Mindfulness Toolkit for Early Childhood Educators. Washington, DC: Zero to Three, 2021.
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