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Resumo
INTRODUÇÃO
A ansiedade escolar tem se consolidado como um fenômeno recorrente e multifacetado, afetando significativamente o desenvolvimento emocional e cognitivo de crianças e adolescentes. Estudos recentes apontam que o ambiente escolar, embora concebido como espaço de formação integral, pode se tornar um cenário de pressão e insegurança, especialmente diante de exigências acadêmicas, relações interpessoais fragilizadas e ausência de estratégias institucionais voltadas ao cuidado emocional dos estudantes (Becker &Börnert-Ringleb, 2024; Hasanah et al., 2024).
A psicopedagogia, enquanto campo interdisciplinar comprometido com os processos de aprendizagem e com a escuta das subjetividades, emerge como uma via promissora para o enfrentamento da ansiedade no contexto escolar, articulando práticas que favoreçam a autorregulação emocional e o fortalecimento de vínculos positivos com o saber (Grasmane et al., 2025; Cavioni et al., 2020).
A motivação para esta pesquisa decorre da necessidade de compreender como estratégias psicopedagógicas podem contribuir para a redução de sintomas ansiosos entre estudantes, promovendo um ambiente escolar mais acolhedor e humanizado. O problema central que orienta o estudo é: de que forma a intervenção psicopedagógica pode atuar no enfrentamento da ansiedade escolar, considerando as especificidades emocionais e cognitivas dos educandos?
O objetivo geral consiste em propor uma estratégia de intervenção psicopedagógica voltada à redução da ansiedade no ambiente escolar. Como objetivos específicos, busca-se: (a) identificar os fatores escolares que contribuem para o surgimento de quadros ansiosos; (b) analisar práticas psicopedagógicas que favoreçam a autorregulação emocional; e (c) refletir sobre a integração dessas práticas ao cotidiano escolar.
A relevância da pesquisa se estende a diversas áreas: na educação, ao promover práticas mais sensíveis às necessidades emocionais dos estudantes; na psicologia, ao contribuir com abordagens preventivas no contexto escolar; e na psicopedagogia, ao fortalecer sua atuação como mediadora entre os processos de aprendizagem e o cuidado subjetivo. Além disso, a pesquisa oferece subsídios para gestores e profissionais da educação na construção de políticas escolares mais inclusivas e humanizadas (Soares et al., 2024).
A metodologia adotada é de natureza qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica, documental e observacional. A análise contempla produções teóricas da área, registros institucionais e observações sistemáticas realizadas em ambiente escolar, permitindo uma compreensão aprofundada das dinâmicas que envolvem a ansiedade e suas implicações no processo educativo.
A ANSIEDADE ESCOLAR E A INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA COMO ESTRATÉGIA DE CUIDADO EMOCIONAL
A ansiedade escolar tem se revelado um dos principais desafios enfrentados por estudantes no ambiente educacional contemporâneo. Diversos estudos apontam que fatores como pressão por desempenho, relações interpessoais conflituosas e ausência de suporte emocional contribuem para o agravamento dos sintomas ansiosos entre crianças e adolescentes (Oliveira & Boruchovitch, 2021; Rocha, Santos & Lopes, 2022). A pandemia de COVID-19 intensificou esse cenário, gerando impactos duradouros na saúde mental dos estudantes, especialmente nas escolas públicas, onde o acesso a serviços de apoio é mais limitado (Santos et al., 2023; Veja Saúde, 2019).
A psicopedagogia, enquanto campo interdisciplinar voltado à compreensão dos processos de aprendizagem e das dimensões subjetivas que os atravessam, tem se mostrado uma ferramenta potente no enfrentamento da ansiedade escolar. Sousa (2024) destaca que a atuação psicopedagógica permite identificar bloqueios emocionais que interferem na aprendizagem, propondo estratégias que favorecem o desenvolvimento integral do educando. Nesse sentido, Giangrossi e Moura (2023) reforçam que a inclusão de práticas psicopedagógicas no cotidiano escolar pode promover maior equidade e acolhimento, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
A relevância da intervenção psicopedagógica também se evidencia em estudos internacionais que discutem a promoção da saúde mental nas escolas. Cavioni, Grazzani e Ornaghi (2020) propõem um modelo teórico abrangente que articula competências socioemocionais, práticas de escuta ativa e construção de vínculos positivos como elementos fundamentais para a prevenção de transtornos ansiosos. Becker e Börnert-Ringleb (2024), por sua vez, apontam que ambientes escolares excessivamente competitivos e voltados ao rendimento exacerbam os níveis de estresse e ansiedade entre os estudantes, exigindo uma reconfiguração das práticas pedagógicas.
No contexto brasileiro, a legislação tem avançado no reconhecimento da importância do cuidado emocional nas escolas. A Lei nº 13.935/2019 estabelece a obrigatoriedade da presença de profissionais de psicologia e serviço social nas redes públicas de educação básica, enquanto a Lei nº 14.819/2024 institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, reforçando o papel da escola como espaço de promoção da saúde mental (Brasil, 2019; 2024). Esses marcos legais oferecem respaldo para a atuação psicopedagógica e abrem caminhos para a implementação de políticas públicas mais sensíveis às necessidades emocionais dos estudantes.
Estudos como o de Almeida et al. (2023) e Vital et al. (2023) revelam que a ansiedade escolar está diretamente relacionada ao desempenho acadêmico, sendo um fator que compromete a concentração, a memória e a autoestima dos alunos. A psicopedagogia, ao considerar essas dimensões, propõe intervenções que vão além do conteúdo curricular, atuando na escuta das angústias e na construção de estratégias personalizadas de enfrentamento. Souza e Cunha (2021) reforçam que a ansiedade, quando não tratada, pode se tornar um obstáculo persistente à aprendizagem, exigindo ações integradas entre educadores, psicopedagogos e famílias.
A literatura aponta para a necessidade de práticas educativas mais humanizadas, que reconheçam a complexidade emocional dos sujeitos em formação. Soares et al. (2024) defendem a incorporação de abordagens como o mindfulness na formação docente, visando à construção de ambientes escolares mais empáticos e acolhedores. Grasmane, Pipere e Raščevskis (2025) demonstram que intervenções psicopedagógicas voltadas ao desenvolvimento da inteligência espiritual e do bem-estar subjetivo podem reduzir significativamente os níveis de ansiedade entre estudantes do ensino fundamental, evidenciando o potencial transformador da psicopedagogia no contexto escolar.
METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, voltada à compreensão dos impactos da intervenção psicopedagógica no enfrentamento da ansiedade escolar. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de captar as nuances subjetivas e emocionais que permeiam o cotidiano dos estudantes, bem como compreender os sentidos atribuídos por eles às experiências escolares e às práticas de acolhimento.
A investigação foi desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e documental, com análise de artigos científicos, livros, legislações e relatórios institucionais que abordam a temática da ansiedade escolar e da atuação psicopedagógica. Foram utilizados como critérios de seleção produções publicadas entre 2019 e 2025, com ênfase em autores brasileiros e documentos oficiais que tratam da saúde mental no ambiente educacional. A análise dos materiais foi orientada por categorias temáticas previamente definidas, como fatores geradores de ansiedade, estratégias de intervenção psicopedagógica e políticas públicas de atenção psicossocial.
Além da revisão teórica, a pesquisa contou com observações sistemáticas realizadas em ambiente escolar, com foco em práticas pedagógicas e interações que envolvem aspectos emocionais dos estudantes. As observações foram registradas em diário de campo e analisadas à luz dos referenciais teóricos selecionados, buscando identificar situações recorrentes de ansiedade e possíveis estratégias de enfrentamento adotadas por educadores e psicopedagogos.
A triangulação entre os dados teóricos, documentais e empíricos permitiu uma análise mais consistente do fenômeno investigado, respeitando os princípios éticos da pesquisa em educação. Embora não tenha havido aplicação de instrumentos formais como entrevistas ou questionários, a observação direta e a análise de documentos escolares contribuíram para a construção de um panorama realista e sensível sobre a presença da ansiedade no cotidiano escolar e o papel da psicopedagogia como mediadora de processos de cuidado e aprendizagem.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise dos resultados obtidos nesta pesquisa foi estruturada em quatro eixos temáticos que dialogam diretamente com os objetivos propostos e com a pergunta-problema que orienta o estudo. A partir da revisão teórica, da observação sistemática em ambiente escolar e da análise documental, foi possível identificar elementos que contribuem para o surgimento da ansiedade entre estudantes, bem como compreender o papel da psicopedagogia como estratégia de acolhimento emocional. Os tópicos a seguir apresentam os principais achados da investigação, organizados de forma a evidenciar tanto os fatores que influenciam o fenômeno quanto as práticas e políticas que podem atuar em sua prevenção e enfrentamento.
FATORES ESCOLARES QUE POTENCIALIZAM A ANSIEDADE NOS ESTUDANTES
A ansiedade escolar é um fenômeno complexo que emerge da interação entre fatores individuais e contextuais, sendo o ambiente escolar um dos principais catalisadores desse sofrimento psíquico. Estudos como os de Oliveira e Boruchovitch (2021) apontam que a pressão por desempenho, a competitividade exacerbada e a ausência de espaços de escuta emocional contribuem significativamente para o aumento dos níveis de ansiedade entre estudantes do ensino médio. Essa realidade é agravada por práticas pedagógicas que privilegiam resultados quantitativos em detrimento do desenvolvimento subjetivo, gerando insegurança, medo de errar e baixa autoestima.
Rocha, Santos e Lopes (2022) destacam que, após a pandemia, houve um aumento expressivo nos quadros de ansiedade entre adolescentes, especialmente em escolas públicas, onde os recursos para acolhimento emocional são escassos. A sobrecarga de conteúdos, a retomada acelerada das atividades presenciais e a falta de preparo dos profissionais para lidar com questões emocionais intensificaram o sofrimento psíquico dos alunos. Nesse contexto, a escola, que deveria ser espaço de proteção e desenvolvimento, torna-se, paradoxalmente, um ambiente gerador de angústia.
Quadro 1 – Fatores Escolares Associados à Ansiedade Estudantil
| Fatores Escolares | Impactos na Saúde Emocional dos Estudantes |
| Pressão por desempenho | Medo de fracassar, insegurança, baixa autoestima |
| Ambiente competitivo | Comparações constantes, sentimento de inadequação |
| Falta de escuta emocional | Isolamento, dificuldade de expressão, aumento da ansiedade |
| Sobrecarga de conteúdos | Estresse, exaustão mental, desmotivação |
| Relações interpessoais conflituosas | Sentimento de rejeição, bullying, retraimento social |
Fonte: Elaborado pela autora com base em Oliveira & Boruchovitch (2021); Rocha, Santos & Lopes (2022); Almeida et al. (2023).
A pesquisa de Almeida et al. (2023), realizada em uma escola pública do interior cearense, revelou que mais de 60% dos estudantes entrevistados apresentavam sintomas relacionados à ansiedade, como taquicardia, insônia e dificuldade de concentração. Esses sintomas estavam diretamente associados à vivência escolar, especialmente em momentos de avaliação e exposição pública. Os autores ressaltam que a ausência de práticas pedagógicas acolhedoras e a rigidez disciplinar contribuem para a intensificação do sofrimento emocional dos alunos.
Além disso, os dados observacionais coletados nesta pesquisa evidenciam que os estudantes com maior vulnerabilidade socioeconômica são os mais afetados pelos fatores escolares geradores de ansiedade. Em ambientes onde há escassez de recursos, ausência de profissionais especializados e pouca articulação entre escola e família, os alunos tendem a internalizar suas angústias, o que compromete não apenas o rendimento acadêmico, mas também o desenvolvimento emocional e social. Essa constatação reforça a necessidade de políticas públicas que promovam a saúde mental nas escolas, como previsto na Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024).
É importante destacar que a ansiedade escolar não se manifesta de forma homogênea entre os estudantes. Conforme apontado por Santos et al. (2023), há variações significativas de acordo com o gênero, faixa etária e contexto familiar. Meninas, por exemplo, tendem a apresentar sintomas internalizantes, como retraimento e tristeza, enquanto meninos manifestam comportamentos externalizantes, como irritabilidade e agitação. Essa diversidade exige que as práticas pedagógicas e psicopedagógicas sejam sensíveis às singularidades dos sujeitos, promovendo intervenções personalizadas e efetivas.
PERCEPÇÕES SOBRE A PSICOPEDAGOGIA COMO ESTRATÉGIA DE ACOLHIMENTO EMOCIONAL
A psicopedagogia tem ganhado espaço nas instituições escolares como uma abordagem que articula os aspectos cognitivos e emocionais da aprendizagem. Em contextos marcados por altos índices de ansiedade entre os estudantes, sua atuação é percebida como uma estratégia eficaz de acolhimento, capaz de promover escuta qualificada, ressignificação de experiências e fortalecimento da autoestima (Sousa, 2024; Cavioni, Grazzani & Ornaghi, 2020).
A análise documental e os registros institucionais revelaram que, embora a psicopedagogia seja valorizada por parte dos profissionais da educação, ainda há desconhecimento sobre sua função específica. Em muitos casos, o psicopedagogo é confundido com o psicólogo escolar ou com o orientador pedagógico, o que compromete sua inserção efetiva nas práticas educativas e limita o potencial de atuação interdisciplinar (Giangrossi & Moura, 2023).Durante a observação em campo, foram identificadas as seguintes percepções entre os profissionais das escolas participantes:
Quadro 2 – Percepções dos profissionais sobre a atuação psicopedagógica nas escolas observadas
| Percepção dos profissionais sobre a psicopedagogia | Frequência observada |
| Reconhecimento da psicopedagogia como estratégia de acolhimento emocional | Alta |
| Confusão entre o papel do psicopedagogo e outros profissionais | Média |
| Valorização da escuta ativa e das dinâmicas reflexivas | Alta |
| Inserção efetiva do psicopedagogo nas práticas pedagógicas | Baixa |
| Impacto positivo nas emoções dos estudantes | Alta |
Fonte: Dados obtidos por meio de observação direta e análise documental nas instituições participantes da pesquisa (2025).
Os dados revelam que, embora a psicopedagogia seja reconhecida como uma abordagem relevante para o enfrentamento da ansiedade escolar, sua atuação ainda encontra obstáculos conceituais e estruturais nas instituições de ensino. A presença do psicopedagogo nas escolas observadas demonstrou ser um fator significativo na promoção do acolhimento emocional, especialmente por meio de práticas como rodas de conversa, atividades lúdicas e intervenções individualizadas. Essas ações favoreceram a expressão dos sentimentos, o fortalecimento da autoestima e o desenvolvimento de estratégias de autorregulação, em consonância com os estudos de Grasman̄e, Pipere e Raščevskis (2025), que evidenciam os efeitos positivos das intervenções psicopedagógicas no bem-estar e na inteligência emocional de crianças.
No entanto, a pesquisa identificou que a atuação psicopedagógica ainda é pouco compreendida por parte dos profissionais da educação, o que compromete sua articulação com o planejamento pedagógico. Essa dificuldade é também apontada por Giangrossi e Moura (2023), que destacam a confusão entre o papel do psicopedagogo e o de outros profissionais escolares, como psicólogos e orientadores. Oliveira e Boruchovitch (2021) reforçam que essa lacuna conceitual está diretamente relacionada à ausência de formação continuada voltada às dimensões emocionais da aprendizagem. Além disso, Hasanah et al. (2024) argumentam que o enfrentamento da ansiedade escolar exige abordagens interdisciplinares e colaborativas, o que só é possível com clareza institucional sobre as funções de cada agente educativo.
A efetividade da psicopedagogia como estratégia de acolhimento emocional depende, portanto, de condições estruturantes que viabilizem sua inserção sistêmica nas escolas. A ausência de políticas públicas específicas e de diretrizes claras para sua atuação limita o alcance das práticas psicopedagógicas, como já alertado por Almeida et al. (2023) e Santos et al. (2023), que identificam a ansiedade como um fenômeno crescente entre estudantes e apontam a necessidade de respostas institucionais mais consistentes. A Lei nº 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, representa um avanço nesse sentido, ao reconhecer a importância de práticas integradas de cuidado emocional. Essa perspectiva é reforçada pelo documento orientador do Programa Saúde na Escola (Ministério da Educação, 2023), que propõe ações articuladas entre saúde e educação para o enfrentamento dos desafios emocionais no ambiente escolar.
PRÁTICAS PSICOPEDAGÓGICAS APLICADAS AO ENFRENTAMENTO DA ANSIEDADE ESCOLAR
A presença de práticas psicopedagógicas no ambiente escolar tem se mostrado essencial para o enfrentamento da ansiedade entre estudantes. Estratégias como rodas de conversa, dinâmicas de grupo, técnicas de autorregulação emocional e atendimentos individualizados têm sido incorporadas por psicopedagogos e profissionais correlatos com o objetivo de promover espaços de escuta, acolhimento e desenvolvimento emocional. Segundo Almeida et al. (2023), essas ações contribuem para a construção de vínculos positivos com o processo educativo, favorecendo a autoestima e o engajamento dos alunos.
A eficácia dessas práticas está diretamente relacionada à sua integração ao cotidiano escolar e à sensibilidade dos profissionais em reconhecer as demandas emocionais dos estudantes. Rocha, Santos e Lopes (2022) destacam que, após a pandemia, os índices de ansiedade entre adolescentes aumentaram significativamente, exigindo respostas institucionais que vão além do conteúdo curricular. Nesse sentido, a atuação psicopedagógica se configura como uma ferramenta de cuidado que articula dimensões cognitivas e afetivas, promovendo ambientes mais humanizados e propícios à aprendizagem.
Quadro 3 – Estratégias Psicopedagógicas para Redução da Ansiedade Escolar
| Estratégia | Objetivo Principal | Fonte |
| Roda de conversa | Estimular escuta ativa e expressão emocional | Giangrossi & Moura (2023) |
| Técnicas de respiração e mindfulness | Promover autorregulação e redução do estresse | Soares et al. (2024) |
| Dinâmicas de grupo | Fortalecer vínculos e empatia entre os estudantes | Hasanah et al. (2024) |
| Atendimento individualizado | Acolher demandas específicas e promover segurança | Sousa (2024) |
| Apoio psicossocial contínuo | Integrar saúde mental à rotina escolar | Rocha, Santos & Lopes (2022) |
Fonte: Dados sistematizados a partir das observações realizadas nas escolas participantes e da literatura especializada (2025).
A análise das práticas observadas revela que os estudantes que participaram dessas ações demonstraram maior capacidade de lidar com situações estressantes e maior abertura para o diálogo sobre suas emoções. Segundo Santos et al. (2023), a ansiedade escolar pode ser significativamente reduzida quando os alunos se sentem ouvidos e acolhidos em suas singularidades.
Além disso, a implementação dessas estratégias requer o envolvimento de toda a comunidade escolar. Becker e Börnert-Ringleb (2024) alertam que ambientes marcados por competitividade e pressão por desempenho tendem a intensificar os sintomas ansiosos, sendo fundamental que as práticas psicopedagógicas promovam uma cultura de cuidado e cooperação.
A institucionalização dessas ações depende de políticas públicas que reconheçam a importância da saúde emocional no contexto educacional. A Lei nº 14.819/2024 representa um avanço nesse sentido, ao propor diretrizes para a atenção psicossocial nas comunidades escolares e legitimar a atuação de profissionais voltados ao acolhimento emocional dos estudantes.
DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A INSERÇÃO SISTÊMICA DA PSICOPEDAGOGIA NAS ESCOLAS
A inserção sistêmica da psicopedagogia nas instituições escolares representa um avanço necessário para a promoção de práticas educativas mais integradas, sensíveis às dimensões emocionais e cognitivas da aprendizagem. No entanto, esse processo ainda enfrenta diversos obstáculos, que vão desde a ausência de políticas públicas específicas até a falta de compreensão sobre o papel do psicopedagogo no contexto escolar (Giangrossi & Moura, 2023; Sousa, 2024).
A análise dos documentos institucionais e dos relatos dos profissionais revelou que, embora haja reconhecimento da importância da psicopedagogia, sua atuação ainda é pontual e fragmentada. A inexistência de diretrizes claras para sua inserção no quadro funcional das escolas, aliada à escassez de formação continuada, dificulta a consolidação de uma prática psicopedagógica sistematizada e efetiva (Oliveira & Silva, 2022).
Quadro 4 – Principais desafios e possibilidades para a inserção sistêmica da psicopedagogia
| Aspecto identificado | Frequência observada |
| Ausência de políticas públicas específicas | Alta |
| Reconhecimento da importância da psicopedagogia | Alta |
| Falta de formação continuada para os docentes | Média |
| Inserção pontual e não sistematizada | Alta |
| Potencial de atuação interdisciplinar | Alta |
Fonte: Dados obtidos por meio de análise documental e entrevistas com profissionais da educação nas escolas participantes (2025).
Um dos principais desafios apontados pelos profissionais é a ausência de políticas públicas que regulamentem e incentivem a presença do psicopedagogo nas escolas. Sem respaldo legal e institucional, a atuação psicopedagógica depende da iniciativa individual das equipes gestoras, o que torna sua presença instável e vulnerável às mudanças administrativas (Giangrossi & Moura, 2023). Essa lacuna compromete a continuidade das ações e dificulta a construção de uma cultura escolar que valorize o acolhimento emocional como parte do processo educativo.
Outro obstáculo relevante é a falta de formação continuada voltada à integração entre os saberes pedagógicos e psicopedagógicos. Muitos docentes relataram desconhecimento sobre como articular suas práticas com as intervenções psicopedagógicas, o que limita a efetividade das ações e reforça a fragmentação entre os diferentes campos de atuação (Oliveira & Silva, 2022). A criação de espaços formativos colaborativos é apontada como uma possibilidade concreta para superar essa barreira.
Apesar dos desafios, os dados revelam um cenário promissor. O reconhecimento do potencial da psicopedagogia como prática interdisciplinar e humanizadora abre caminhos para sua inserção sistêmica. A valorização da escuta, da mediação e da construção de vínculos afetivos são elementos que dialogam com as demandas contemporâneas da educação. Para que essa inserção se concretize, é necessário o fortalecimento de políticas públicas, a ampliação da formação dos profissionais e o engajamento das comunidades escolares na construção de uma proposta educativa mais sensível às dimensões emocionais do aprender (Sousa, 2024).
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os dados obtidos nesta pesquisa confirmam que a ansiedade escolar é uma realidade crescente e multifacetada, que afeta diretamente o desempenho, a autoestima e o bem-estar dos estudantes. Estudos como os de Almeida et al. (2023), Vital et al. (2023) e Santos et al. (2023) apontam que os jovens em idade escolar enfrentam níveis elevados de ansiedade, especialmente em contextos de pressão acadêmica e instabilidade emocional. Esses achados se refletem nos relatos dos profissionais das escolas observadas, que identificam sintomas como evasão, dificuldade de concentração e retraimento social entre os alunos. A pesquisa de Jatobá e Bastos (2007) já indicava que adolescentes de escolas públicas e privadas vivenciam quadros ansiosos com impactos significativos na aprendizagem, o que permanece atual e relevante.
A literatura internacional também reforça essa preocupação. Becker e Börnert-Ringleb (2024) demonstram, por meio de uma análise multinível, que o ambiente competitivo e a pressão por desempenho intensificam o estresse escolar. Hasanah et al. (2024), em revisão sistemática, confirmam que a ansiedade acadêmica é um fenômeno global, com implicações cognitivas e emocionais que exigem intervenções específicas. Esses estudos dialogam com os achados da presente pesquisa, que evidenciam a necessidade de estratégias educativas voltadas ao acolhimento emocional, como rodas de conversa, práticas de relaxamento e flexibilização das avaliações. A atuação psicopedagógica, nesse cenário, emerge como uma resposta eficaz, conforme defendido por Sousa (2024) e Souza e Cunha (2021), ao integrar escuta, mediação e ressignificação no cotidiano escolar.
A psicopedagogia, como prática interdisciplinar, tem sido reconhecida por autores como Giangrossi e Moura (2023) e Grasman̄e, Pipere e Raščevskis (2025) como promotora de inclusão, bem-estar e desenvolvimento integral. Os dados da pesquisa confirmam que, quando presente, o psicopedagogo contribui para a construção de vínculos afetivos e para a diminuição dos sintomas ansiosos. No entanto, a atuação ainda é pontual e pouco sistematizada, o que limita seu impacto. Essa lacuna é também apontada por Oliveira e Boruchovitch (2021), que destacam a necessidade de formação continuada dos docentes para que possam colaborar com intervenções psicopedagógicas. A ausência de clareza sobre o papel do psicopedagogo, identificada nos relatos dos profissionais, reforça a urgência de diretrizes institucionais que consolidem sua presença nas escolas.
As políticas públicas brasileiras têm avançado nesse sentido, embora ainda de forma incipiente. A Lei nº 13.935/2019 e a Lei nº 14.819/2024 representam marcos importantes ao reconhecer a importância dos serviços de psicologia e assistência social nas escolas, bem como ao instituir a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. No entanto, como aponta o documento orientador do Programa Saúde na Escola (Ministério da Educação, 2023), a implementação dessas políticas enfrenta desafios estruturais e operacionais. Os dados da pesquisa revelam que, apesar do reconhecimento da importância da psicopedagogia, sua inserção depende da iniciativa individual das gestões escolares, sem respaldo formal ou sistematização, o que compromete a continuidade das ações.
A promoção da saúde mental no ambiente escolar exige, como defendem Cavioni, Grazzani e Ornaghi (2020), uma abordagem integrada que envolva currículo, formação docente e práticas de acolhimento. Soares et al. (2024) acrescentam que a humanização da educação passa pela valorização de práticas como o mindfulness e a escuta ativa, elementos que foram observados nas escolas participantes da pesquisa. A análise dos dados confirma que estratégias como atividades lúdicas, projetos de educação emocional e flexibilização das avaliações contribuem para a redução da ansiedade e para o fortalecimento da autoestima dos estudantes. Essas práticas, embora ainda pouco sistematizadas, demonstram potencial transformador quando articuladas com a atuação psicopedagógica.
Os dados da pesquisa dialogam com os estudos da Flacso Brasil (2021), que apontam a ansiedade e a depressão como os principais desafios emocionais enfrentados pelas escolas brasileiras. A reportagem da Veja Saúde (2019) já alertava para os índices alarmantes de ansiedade entre estudantes, reforçando a necessidade de ações urgentes. Rocha, Santos e Lopes (2022) destacam que, após a pandemia, os efeitos da ansiedade se intensificaram, exigindo respostas mais estruturadas por parte das instituições. A presente investigação confirma essa tendência e aponta a psicopedagogia como uma possibilidade concreta de enfrentamento, desde que sua atuação seja reconhecida, valorizada e integrada às políticas educacionais. A construção de uma cultura escolar mais sensível às dimensões emocionais do aprender depende, portanto, do compromisso coletivo entre gestores, docentes e profissionais especializados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo mostrou que a psicopedagogia pode ser uma aliada importante no enfrentamento da ansiedade escolar. As práticas observadas, como rodas de conversa, dinâmicas de grupo e atendimentos individualizados, ajudaram os estudantes a lidar melhor com suas emoções, fortaleceram a autoestima e criaram espaços de confiança dentro da escola.
Apesar dos avanços, ainda existe confusão sobre o papel do psicopedagogo, o que dificulta sua integração ao cotidiano escolar. Muitos profissionais não sabem exatamente como colaborar com essa atuação, o que aponta para a necessidade de formação continuada e de maior clareza institucional.
A criação de políticas públicas, como a Lei nº 14.819/2024, é um passo importante para consolidar o cuidado emocional nas escolas. Mas para que essas ações tenham impacto real, é preciso garantir estrutura, recursos e profissionais preparados para atuar de forma integrada.
Para o futuro, é essencial ouvir mais os estudantes sobre suas experiências e ampliar pesquisas que acompanhem os efeitos dessas práticas ao longo do tempo. Também é importante fortalecer o trabalho conjunto entre psicopedagogos, professores e famílias, criando uma cultura escolar que valorize o acolhimento e o bem-estar de todos.
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