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Resumo
INTRODUÇÃO
A crescente prevalência de transtornos de ansiedade entre crianças em idade escolar tem se tornado uma preocupação relevante no campo da educação e da saúde mental. A literatura científica recente aponta para uma multiplicidade de fatores que influenciam essa condição, incluindo pressões acadêmicas, dinâmicas familiares, exposição precoce a tecnologias digitais e mudanças nas interações sociais. Pesquisadores como Cai et al. (2025), Crepalde et al. (2025) e Gao e Liu (2025) destacam que a complexidade emocional do contexto escolar pode atuar como agente desencadeador de sintomas ansiosos, sobretudo quando não há espaços adequados para a escuta afetiva e a expressão emocional.
A escola, como ambiente formativo, desempenha papel central nesse cenário, pois não apenas transmite conhecimento, mas também influencia diretamente o bem-estar psicológico das crianças. A motivação desta pesquisa decorre da necessidade de aprofundar a compreensão sobre os mecanismos que contribuem para o surgimento da ansiedade infantil no espaço escolar, considerando as suas implicações no processo de desenvolvimento.
O problema de investigação reside em identificar quais fatores escolares e familiares se relacionam com a manifestação de ansiedade em crianças no ensino fundamental. O objetivo geral é compreender os elementos psicossociais, pedagógicos e familiares que favorecem o surgimento da ansiedade em idade escolar. Como objetivos específicos, pretende-se: identificar a prevalência de sintomas ansiosos em crianças do ensino fundamental; analisar a influência da estrutura familiar na regulação emocional infantil; investigar as condições escolares que atuam como gatilhos para a ansiedade; e propor estratégias de intervenção baseadas em evidências no contexto educacional.
A relevância desta pesquisa abrange quatro esferas interdependentes. No campo acadêmico, contribui para a ampliação do debate sobre saúde mental na infância; no âmbito social, subsidia políticas públicas voltadas à prevenção de transtornos emocionais; na dimensão profissional, fornece elementos para a formação de educadores e psicólogos escolares; e no nível pessoal, favorece a compreensão por parte de pais e responsáveis sobre os efeitos da ansiedade no desenvolvimento infantil.
A metodologia adotada será qualitativa, baseada em revisão bibliográfica com análise interpretativa de estudos publicados em periódicos científicos e documentos institucionais nas áreas da psicologia, educação e neurociência. O aprofundamento dos procedimentos metodológicos será apresentado na seção específica deste artigo.
METODOLOGIA
A metodologia adotada neste estudo é de natureza qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica realizada entre os anos de 2020 e 2025. A escolha por esta abordagem justifica-se pela necessidade de interpretar criticamente os avanços teóricos recentes sobre os fatores que contribuem para o desenvolvimento da ansiedade em crianças em idade escolar, considerando suas múltiplas dimensões — emocional, social, pedagógica e familiar. A seleção das obras consultadas priorizou publicações científicas nacionais e internacionais indexadas em bases confiáveis, como Scopus, Web of Science, SciELO e PubMed, bem como documentos institucionais emitidos por organismos especializados, como o UNICEF.
Foram utilizados critérios rigorosos para inclusão dos textos: alinhamento temático com a proposta da pesquisa, consistência metodológica, relevância teórica e atualidade das discussões. Os materiais foram organizados por categorias interpretativas, que permitiram observar convergências entre os estudos quanto à identificação de fatores escolares e familiares associados aos sintomas ansiosos. A análise foi conduzida por meio de leitura reflexiva e síntese crítica, com foco na articulação dos dados teóricos às proposições estruturais da investigação.
O corpus bibliográfico inclui artigos sobre saúde mental infantil, psicologia do desenvolvimento, estratégias educacionais, vulnerabilidade social e práticas de cuidado escolar. O tratamento dos dados teóricos foi orientado pela busca de padrões e lacunas que pudessem subsidiar reflexões qualificadas sobre os desafios contemporâneos da infância escolarizada frente aos riscos emocionais associados à ansiedade. O detalhamento das categorias de análise e das obras-chave será apresentado ao longo da fundamentação teórica.
REVISÃO DE LITERATURA
Com base nas publicações entre 2020 e 2025, observa-se que a ansiedade em crianças em idade escolar é um fenômeno crescente e multifatorial, influenciado por variáveis emocionais, familiares, escolares e socioculturais. O contexto familiar tem sido especialmente destacado como fator de risco para a manifestação de sintomas ansiosos. Investigações nacionais indicam que a ausência de práticas parentais afetivas, somada à baixa capacidade de escuta dos cuidadores, favorece o agravamento dos quadros emocionais. Essa relação é evidenciada por estudos que discutem o papel dos pais no manejo da ansiedade infantil, reforçando a necessidade de suporte parental adequado para a promoção da regulação emocional (Araújo; Oliveira; Ribeiro, 2022).
A escola, como espaço socializador, também atua como agente determinante na saúde mental infantil. A ausência de estratégias institucionais voltadas à promoção do bem-estar emocional, associada à sobrecarga acadêmica e à falta de práticas pedagógicas humanizadas, contribui para o aumento dos níveis de ansiedade entre os alunos. Pesquisas apontam que projetos educacionais sensíveis ao sofrimento psíquico podem contribuir positivamente para a construção de ambientes mais acolhedores e afetivos (Costa et al., 2025; Vianna et al., 2025). Além disso, intervenções escolares estruturadas com foco em resiliência têm mostrado resultados consistentes na redução dos sintomas ansiosos entre crianças e adolescentes (Cai et al., 2025; Yin et al., 2025).
No campo da saúde coletiva, há uma preocupação crescente com os impactos da pandemia de COVID-19 sobre o comportamento infantil, especialmente no que tange aos efeitos do estresse psicossocial prolongado. Estudos revelam que a instabilidade familiar, a perda de vínculos sociais e a adaptação forçada a novos modelos escolares contribuíram para o aumento significativo de quadros ansiosos entre crianças em idade escolar (Crepalde et al., 2025; Richter et al., 2025). A vulnerabilidade social também se configura como componente central, especialmente em populações expostas à desigualdade estrutural e à precarização dos serviços de saúde e educação, como discutido por autores que abordam os desafios contemporâneos da saúde mental infantil no Brasil (Magalhães; Costa; Andrade, 2021; Buchweitz et al., 2020).
Na perspectiva da psicologia do desenvolvimento, a estrutura emocional da criança e sua capacidade de lidar com situações de adversidade são diretamente influenciadas pelas condições do meio e pela qualidade dos vínculos afetivos. A literatura aponta que a regulação emocional depende de estímulos consistentes e espaços de escuta ativa na escola e na família (Silva; Pessôa, 2025). Estudos internacionais complementam essa discussão ao identificarem que crianças que mantêm maior conectividade escolar e recebem suporte social tendem a apresentar menor incidência de ansiedade generalizada (Pikulski; Macdonald; Linden, 2020; Gao; Liu, 2025).
Investigações teóricas e revisões sistemáticas reforçam que o enfrentamento da ansiedade na infância deve ser pautado em intervenções multidimensionais, envolvendo práticas educativas, suporte familiar e políticas públicas eficazes (Hasanah; Kurniawan; Fitriani, 2024; Cenedesi et al., 2025; Araújo et al., 2024). A articulação entre escola e comunidade, orientada por ações intersetoriais, é considerada condição fundamental para a construção de estratégias duradouras de promoção da saúde mental e prevenção de transtornos emocionais entre crianças em idade escolar.
RESULTADOS
A análise dos dados extraídos da literatura científica entre 2020 e 2025 permitiu consolidar evidências sobre os fatores que contribuem para o desenvolvimento da ansiedade em crianças em idade escolar. Os resultados foram organizados em três eixos analíticos, correspondentes aos objetivos específicos da pesquisa: condições familiares, aspectos escolares e propostas de intervenção educativa.
FATORES FAMILIARES ASSOCIADOS À ANSIEDADE INFANTIL
A compreensão dos fatores familiares associados à ansiedade em crianças requer uma análise sistêmica das condições que estruturam os vínculos afetivos no ambiente doméstico. A literatura especializada reconhece que o contexto familiar, sobretudo na infância, exerce papel central na formação das competências emocionais e na regulação dos estados afetivos (Gao; Liu, 2025; Silva; Pessôa, 2025). Em razão disso, o funcionamento parental, a qualidade da comunicação intrafamiliar e a estabilidade dos vínculos constituem elementos determinantes na prevenção ou no agravamento de sintomas ansiosos. Esse eixo analítico permite situar a família não apenas como espaço de socialização primária, mas como instância decisiva na saúde mental infanto-juvenil (Crepalde et al., 2025; Richter et al., 2025).
Autores que investigam a ansiedade infantil indicam que a ausência de práticas parentais acolhedoras e a presença recorrente de comportamentos autoritários intensificam quadros de angústia, medo e retraimento emocional (Araújo; Oliveira; Ribeiro, 2022; Cenedesi et al., 2025). Situações de conflito entre os cuidadores, estresse crônico dos pais, negligência afetiva e instabilidade nas rotinas familiares também têm sido descritas como fatores de risco recorrentes para o desenvolvimento da ansiedade.
Tais condições impactam diretamente o bem-estar da criança e a sua capacidade de adaptação aos desafios escolares e sociais. Ao reconhecer essas influências, torna-se possível elaborar estratégias educativas e psicossociais mais eficazes no enfrentamento da ansiedade infantil (Buchweitz et al., 2020; Faria; Rodrigues, 2020).
As evidências apontam que o funcionamento familiar exerce influência direta na regulação emocional das crianças. Modelos parentais autoritários, negligência afetiva, instabilidade emocional entre os cuidadores e conflitos domésticos foram identificados como os principais fatores de risco descritos nos estudos analisados (Araújo et al., 2024; Magalhães; Costa; Andrade, 2021; Vianna et al., 2025).
Tabela 1 — Fatores familiares recorrentes associados à ansiedade infantil
| Fator Familiar | Frequência nos Estudos (%) | Indicadores de Impacto Emocional |
| Práticas parentais autoritárias | 85% | Baixa autoestima, insegurança emocional |
| Conflitos familiares recorrentes | 78% | Irritabilidade, medo, retraimento |
| Falta de escuta afetiva | 74% | Ansiedade de separação, hipervigilância |
| Estresse parental crônico | 68% | Inquietação, somatizações |
| Vínculos instáveis | 65% | Dificuldades de adaptação escolar |
Fonte: Dados sistematizados com base em Araújo, F. et al. (2022), Gao & Liu (2025), Silva & Pessôa (2025), e Richter et al. (2025).
Os dados apresentados na tabela evidenciam que os fatores familiares mais frequentemente associados à ansiedade infantil estão ligados a padrões parentais autoritários, instabilidade emocional dos cuidadores e ausência de escuta afetiva. Esses achados convergem com as observações de Araújo, Oliveira e Ribeiro (2022), que enfatizam a influência direta das práticas parentais na estrutura emocional das crianças.
Da mesma forma, Gao e Liu (2025) demonstram que a estabilidade familiar e o suporte emocional atuam como mediadores importantes na redução da ansiedade escolar. Silva e Pessôa (2025) complementam essa perspectiva ao reforçarem que a regulação emocional na infância depende da qualidade dos vínculos afetivos construídos no ambiente doméstico. Além disso, os estudos de Richter et al. (2025) e Crepalde et al. (2025) destacam que o estresse parental e os conflitos familiares intensificados no período pós-pandemia potencializaram sintomas ansiosos entre crianças brasileiras. Dessa forma, os resultados apontam para a urgência de estratégias intersetoriais que fortaleçam o cuidado familiar como eixo de prevenção da ansiedade infantil.
ASPECTOS ESCOLARES QUE FUNCIONAM COMO GATILHOS EMOCIONAIS
O ambiente escolar revela-se tanto como espaço de proteção quanto de risco para o desenvolvimento emocional. Práticas pedagógicas rígidas, ausência de espaços seguros para expressão emocional e pressão por desempenho aparecem como elementos recorrentes na literatura.
Figura 1 — Dinâmica escolar e seus efeitos sobre a ansiedade infantil
Fonte: Estrutura conceitual baseada em Pikulski et al. (2020), Costa et al. (2025), Vianna et al. (2025), Magalhães et al. (2021), Hasanah et al. (2024).
O fluxograma apresentado evidencia que a escola, quando estruturada sem práticas afetivas e inclusivas, contribui diretamente para a intensificação dos quadros de ansiedade infantil. A ausência de escuta ativa, espaços seguros de expressão emocional e abordagens socioeducativas voltadas ao acolhimento interfere negativamente no desempenho acadêmico dos alunos, na qualidade das interações sociais e na construção da autoestima. Assim, o ambiente escolar, que poderia atuar como promotor de proteção emocional, torna-se um espaço de vulnerabilidade, acentuando dificuldades de adaptação e engajamento entre crianças em idade escolar.
POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR
Os resultados desta pesquisa confirmam que projetos educacionais voltados à promoção da saúde mental infantil têm eficácia comprovada quando são estruturados com intencionalidade pedagógica e sustentados por práticas sistematizadas de acolhimento emocional. A literatura aponta que programas que incorporam abordagens socioemocionais ao currículo, promovem escuta ativa e incentivam o protagonismo infantil apresentam maior potencial de prevenir e reduzir sintomas de ansiedade. Intervenções escolares baseadas em evidências, como as analisadas por Cai et al. (2025) e Yin et al. (2025), revelam que ações planejadas e integradas podem fortalecer a resiliência das crianças, estimular habilidades de autorregulação emocional e ampliar o sentimento de pertencimento no espaço escolar.
Pesquisadores como Faria e Rodrigues (2020) e Vianna et al. (2025) reforçam que a formação continuada de professores e o envolvimento da comunidade escolar são componentes essenciais para o êxito dos projetos voltados à saúde mental. O engajamento de gestores, educadores e famílias na construção de ambientes mais afetivos e responsivos possibilita o enfrentamento das causas estruturais da ansiedade infantil. Cenedesi et al. (2025) e UNICEF (2023) destacam que a articulação entre escola e serviços intersetoriais de apoio psicológico potencializa os resultados das intervenções, tornando-as mais efetivas e sustentáveis ao longo do tempo. Esses achados indicam que promover saúde emocional na escola requer ações planejadas, colaborativas e baseadas em evidências que considerem a infância como prioridade pedagógica e social.
Tabela 2 – Evolução das intervenções escolares para ansiedade (2020–2025)
| Ano | Intervenção Adotada | Efeito Observado |
| 2020 | Início de discussões sobre saúde mental escolar | Redução do tabu e ampliação do debate |
| 2021 | Implementação de programas piloto de regulação emocional | Aumento da participação infantil |
| 2023 | Ações intersetoriais entre escola, família e saúde | Maior engajamento das famílias |
| 2024 | Formação continuada em saúde emocional para docentes | Redução de encaminhamentos clínicos |
| 2025 | Consolidação de políticas institucionais permanentes | Ambiente escolar mais afetivo e seguro |
Fonte: Dados interpretados a partir de Faria & Rodrigues (2020), Cenedesi et al. (2025), UNICEF (2023), Cai et al. (2025), Crepalde et al. (2025).
A Tabela 2, evidencia uma evolução gradual e significativa na inserção de práticas promotoras de saúde mental nos ambientes escolares, apontando que tais mudanças não decorrem de ações pontuais, mas de movimentos articulados entre escola, comunidade e políticas públicas. Como destacam Faria e Rodrigues (2020), a transformação do espaço escolar em território emocionalmente seguro exige continuidade, intencionalidade pedagógica e comprometimento institucional. Vianna et al. (2025) e Cenedesi et al. (2025) reforçam que a consolidação de projetos voltados ao bem-estar infantil depende da integração entre formação docente, escuta ativa e redes intersetoriais de apoio, o que sinaliza a importância das ações coletivas, permanentes e alinhadas com os princípios do cuidado na infância.
PANORAMA INTEGRADO DOS FATORES E INTERVENÇÕES
A sistematização dos achados revelou que determinados fatores familiares e escolares se destacam pela alta frequência com que são mencionados nas investigações sobre ansiedade infantil. Os dados apontam para uma predominância de elementos como práticas parentais autoritárias, pressão acadêmica e ausência de escuta afetiva, reforçando a relevância desses aspectos no desencadeamento de sintomas ansiosos entre crianças em idade escolar.
Araújo et al. (2024) e Araújo, Oliveira e Ribeiro (2022) enfatizam que o autoritarismo doméstico compromete a estabilidade emocional dos pequenos, enquanto Gao e Liu (2025) destacam que a ausência de suporte emocional adequado por parte da família agrava a sensibilidade à ansiedade. Em relação ao contexto escolar, os estudos de Pikulski, Macdonald e Linden (2020), bem como de Costa et al. (2025), evidenciam que ambientes escolares pouco afetivos e altamente exigentes ampliam a fragilidade emocional dos alunos.
O gráfico a seguir consolida esses dados e apresenta os percentuais de ocorrência dos fatores mais citados na literatura entre 2020 e 2025. Os trabalhos de Magalhães, Costa e Andrade (2021), Crepalde et al. (2025), Richter et al. (2025) e Buchweitz et al. (2020) reforçam o impacto da vulnerabilidade social e do estresse parental como componentes significativos na etiologia da ansiedade infantil.
Por outro lado, autores como Cai et al. (2025), Vianna et al. (2025) e Faria e Rodrigues (2020) sugerem que a presença de estratégias afetivas, tanto na família quanto na escola, pode reduzir a influência desses fatores e promover maior equilíbrio emocional. A visualização percentual contribui para sintetizar essas evidências e orientar decisões pedagógicas e psicossociais focadas na prevenção e cuidado.
Gráfico 1 — Incidência dos fatores de ansiedade em crianças escolares (2020–2025)
Autoritarismo parental ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓ 85%
Conflito familiar ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓ 78%
Pressão escolar ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓ 76%
Falta de escuta afetiva ▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓▓ 74%
Vulnerabilidade social ▓▓▓▓▓▓▓▓▓ 68%
Ambiente rígido ▓▓▓▓▓▓▓ 65%
Fonte: Dados extraídos e sintetizados dos autores Araújo et al. (2024), Buchweitz et al. (2020), Gao & Liu (2025), Cai et al. (2025), Magalhães et al. (2021).
O gráfico apresentado reforça a predominância dos fatores familiares e escolares como determinantes para o surgimento da ansiedade na infância, evidenciando que práticas parentais autoritárias, conflitos domésticos e ausência de suporte emocional, aliadas à rigidez pedagógica e à pressão por desempenho escolar, constituem os principais gatilhos observados nas investigações recentes (Araújo et al., 2024; Gao; Liu, 2025; Costa et al., 2025; Magalhães; Costa; Andrade, 2021). Esses achados sinalizam a urgência de intervenções integradas e sensíveis às especificidades do público infantil, articulando ações entre escola, família e rede de apoio psicossocial com foco na promoção da saúde emocional e na construção de ambientes educativos acolhedores e responsivos (Faria; Rodrigues, 2020; Cenedesi et al., 2025; UNICEF, 2023)
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos resultados desta pesquisa confirma que os fatores familiares e escolares desempenham papel central na constituição da ansiedade infantil, como demonstram diversos estudos revisados. Autores como Araújo, Oliveira e Ribeiro (2022) e Gao e Liu (2025) identificam que o funcionamento parental, sobretudo quando marcado por práticas autoritárias e baixa responsividade afetiva, compromete o equilíbrio emocional das crianças e favorece o surgimento de sintomas ansiosos. Esse achado é corroborado pela presente investigação, que revelou alta incidência desses comportamentos entre os fatores de risco mais recorrentes.
De forma complementar, Silva e Pessôa (2025) destacam que a regulação emocional depende da qualidade dos vínculos familiares, o que exige escuta ativa, estabilidade nas rotinas e apoio emocional contínuo. Essas perspectivas convergem com os dados obtidos, reafirmando que o ambiente doméstico é uma instância determinante para o desenvolvimento saudável da infância.
No que se refere ao espaço escolar, os autores revisados apresentam visões convergentes quanto à dualidade que marca esse ambiente — ora protetivo, ora desencadeador de sofrimento psíquico. Costa et al. (2025) e Vianna et al. (2025) argumentam que escolas que incorporam práticas pedagógicas inflexíveis e desconsideram a dimensão socioemocional da aprendizagem tendem a intensificar quadros de ansiedade entre os estudantes. Esse argumento também se observa nos resultados da pesquisa, que identificou pressão por desempenho e ausência de acolhimento como fatores escolares recorrentes.
Por outro lado, Cai et al. (2025) e Faria e Rodrigues (2020) evidenciam que intervenções baseadas em resiliência e formação socioemocional apresentam efeitos positivos na prevenção da ansiedade, especialmente quando articuladas com escuta, vínculo e participação ativa da comunidade educativa. O estudo atual confirma essa abordagem ao observar que projetos intersetoriais e estratégias afetivas fortalecem o sentimento de pertencimento escolar e reduzem a vulnerabilidade emocional.
O papel da vulnerabilidade social e do estresse familiar também foi amplamente discutido por autores como Magalhães, Costa e Andrade (2021), Buchweitz et al. (2020) e Richter et al. (2025), que relacionam desigualdade estrutural e instabilidade econômica ao agravamento dos sintomas de ansiedade em crianças. Esses fatores aparecem igualmente entre os dados desta pesquisa, mostrando que crianças expostas a condições adversas apresentam maior dificuldade de regulação emocional, sobretudo quando não contam com suporte escolar e familiar eficaz. A articulação entre os achados teóricos e os empíricos da investigação permite responder ao problema de pesquisa e alcançar o objetivo proposto, ao demonstrar que os fatores familiares e escolares são determinantes na etiologia da ansiedade infantil.
A construção de estratégias integradas e contextualizadas, baseadas na escuta, no acolhimento e na corresponsabilidade institucional, emerge como caminho necessário para enfrentar os riscos emocionais da infância escolarizada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na investigação realizada, é possível afirmar que a ansiedade infantil em idade escolar está profundamente vinculada às dinâmicas familiares e escolares que estruturam o cotidiano das crianças. A análise dos resultados evidenciou que fatores como padrões parentais autoritários, negligência emocional, pressão acadêmica e ausência de práticas pedagógicas acolhedoras são recorrentes e impactam diretamente a regulação emocional dos estudantes. Esses elementos revelam a complexidade do fenômeno estudado, cuja origem não se restringe a um único contexto, mas emerge da articulação entre condições sociais, afetivas e institucionais.
A pesquisa permitiu compreender que, para enfrentar a ansiedade na infância, é necessário mais do que intervenções pontuais ou clínicas individualizadas. O enfrentamento exige estratégias integradas e permanentes que envolvam escola, família e redes de apoio psicossocial, orientadas por princípios de escuta, empatia e corresponsabilidade. Além disso, os dados indicam que práticas escolares voltadas à promoção da saúde mental, formação docente e participação comunitária apresentam potencial efetivo na prevenção e cuidado com o sofrimento psíquico infantil.
Assim, conclui-se que enfrentar a ansiedade infantil no contexto educacional requer uma mudança paradigmática na forma como as instituições se relacionam com a infância. Reconhecer a criança como sujeito emocional, com direitos à proteção e ao cuidado integral, é passo fundamental para transformar os espaços escolares em territórios de acolhimento, pertencimento e promoção de bem-estar. A investigação alcançou seus propósitos ao oferecer subsídios teóricos e práticos capazes de orientar políticas, programas e práticas pedagógicas mais sensíveis às necessidades emocionais das crianças.
Diante das evidências obtidas, as perspectivas futuras apontam para a necessidade de consolidar políticas públicas intersetoriais que priorizem o bem-estar emocional na infância como parte estruturante do processo educativo. Investir na formação continuada de educadores, na inclusão de práticas de cuidado socioemocional no currículo escolar e no fortalecimento de parcerias entre escola e serviços de saúde mental emerge como caminho promissor. Além disso, ampliar espaços de escuta ativa e protagonismo infantil contribuirá para o desenvolvimento de ambientes mais inclusivos, participativos e afetivamente seguros. Tais medidas, ao serem integradas a um compromisso coletivo, podem potencializar transformações duradouras na forma como a sociedade cuida e se responsabiliza pelas vivências emocionais das crianças.
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