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Resumo
INTRODUÇÃO
A saúde pública brasileira tem enfrentado uma situação de crescente demanda por consultas especializadas relacionadas a doenças crônicas, como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus tipo 2, doenças cardíacas, entre outras. Essas doenças, que estão relacionadas à fatores comportamentais, como sedentarismo e dieta inadequada (Brasil, 2021), constituem juntas umas das principais causas de morbidade e mortalidade e baixa qualidade de vida da população.
Assim, nessa condição, as políticas de promoção da saúde (e prevenção de doenças) ganham destaque, principalmente dentro da Atenção Primária à Saúde (APS), considerada como a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS).
A APS é encarregada de fornecer cuidados de saúde integrados, abrangendo prevenção, diagnóstico precoce e tratamento de problemas de saúde, apoio ao autocuidado envolvendo os próprios pacientes, lidando com toda a gama de suas demandas de saúde não resolvidas, e reabilitação quando o bom senso médico assim o dita. Starfield (2002) conclui que sistemas de saúde com uma atenção primária sólida proporcionam melhores resultados de saúde, fazem isso a um custo menor e têm maior equidade no acesso aos serviços. Isso ajuda na vigilância a longo prazo dos usuários, coordenação e integração do cuidado, laços mais estreitos entre as profissões de saúde e a comunidade. Sob esse ponto de vista, a implementação de ações interdisciplinares é crucial para melhorar a APS.
A atividade física regular é uma das estratégias de promoção de saúde mais eficazes e baratas disponíveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os adultos devem se engajar em pelo menos 150 a 300 minutos de atividade física moderada por semana para prevenção de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e melhor saúde mental e bem-estar. A OMS sugere que a atividade física e o exercício reduzem o risco de doenças cardiovasculares em 35%, diabetes tipo 2 em 30% e alguns tipos de câncer em 20% (OMS, 2020).
Na realidade brasileira, a Educação Física ganhou espaço na APS, principalmente a partir da criação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB), que possibilitaram a atuação de profissionais de diversas áreas no cuidado à saúde, entre eles educadores físicos (profissionais de educação física). Eles criam atividades para promover a saúde, tais como: caminhadas, ginástica, práticas corporais, exercícios comunitários e outras iniciativas de educação em saúde. Essas ações são planejadas de forma integrada com outros membros da equipe de saúde da família e cooperam para enfrentar o problema do sedentarismo, favorecendo uma melhor qualidade de vida em saúde (Brasil, 2018).
O papel da APS para o profissional de Educação Física deve basear-se no conceito biopsicossocial de saúde, considerando a pessoa em sua totalidade e inserida em um contexto social e cultural. Segundo Ramos et al. e Malta et al. (2020), esse tipo de profissional de saúde nas Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS, popularmente conhecido como posto de saúde) na APS tem o potencial de aumentar o acesso à atividade física regular entre a população e também pode contribuir para o fortalecimento do vínculo entre usuários e serviços de saúde. Na visão dos autores, essa função é fundamental para fomentar o autocuidado, aumentar a autonomia e prevenir morbidades associadas ao sedentarismo e outros agravos.
Além dos óbvios benefícios físicos, praticar exercícios regularmente também tem um grande impacto na saúde mental — diminuindo principalmente os sintomas de ansiedade e depressão. A inclusão de práticas corporais no cuidado à saúde reforça o caráter emancipatório do SUS ao oferecer novos espaços de escuta e cuidado. Para Malta et al. e Machado (2020), os programas de atividade física oferecidos na APS são essenciais para aumentar a promoção da saúde e reduzir a sobrecarga de doenças crônicas no sistema de saúde.
No entanto, a incorporação de profissionais de Educação Física na APS tem enfrentado barreiras: indisponibilidade de infraestrutura física específica, recursos materiais limitados, pouco apoio da gestão e políticas públicas incipientes para essa categoria. Conforme afirmado por Farias Júnior et al. (2014), argumenta-se que as diretrizes precisam ser fortalecidas quanto à inclusão efetiva desses profissionais nas equipes de saúde, o que também deve garantir suas condições de trabalho e reconhecimento institucional. Para modelar a valorização da educação física na saúde pública, é necessário investimento em formação inicial e continuada e apoio frequente, por decisões das autoridades governamentais.
Em suma, a atividade física tem um papel fundamental no reforço da Atenção Primária à Saúde, contribuindo para a prevenção de doenças e promoção do bem-estar, além de ajudar na construção de um sistema de saúde mais saudável e eficaz como um todo. A inclusão de profissionais de Educação Física nas equipes de APS representa um avanço no caminho para a construção de um modelo de cuidado integral onde as pessoas e suas necessidades são colocadas no centro do cuidado.
Este trabalho tem como objetivo revisar a literatura sobre Educação Física dentro da Atenção Primária à Saúde, analisar como as atividades físicas contribuem para a promoção da saúde e adequação das DCNT no SUS. Busca enfatizar a importância dessa prática na saúde pública e novos caminhos para o fortalecimento de políticas públicas intersetoriais ligadas à atividade física no nível de atenção primária, por meio de visitas para avaliar produções científicas.
METODOLOGIA
A revisão da literatura adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, empregando levantamentos bibliográficos de bases de dados eletrônicas entre elas SciELO, LILACS, PubMed e Google Scholar.
Descritores como: ‘atividade física’, ‘atenção primária à saúde’, ‘educação física’, ‘promoção da saúde’ (ou às vezes sem pontuação e com redação ligeiramente diferente) todos foram usados para conceber as seguintes palavras-chave em 300 palavras.
Entre 2010 e 2025, artigos em português, espanhol ou inglês que tratem diretamente do tema da atividade física na Atenção Primária à Saúde foram incluídos para análise ou revisão.
Foram omitidos artigos sobre exercício em outros níveis ou para grupos especiais (como escolares, atletas) e publicações onde o mesmo resultado é apresentado duas vezes de formas diferentes.
A IMPORTÂNCIA DA APS E O ENFRENTAMENTO DAS DCNT
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são a principal causa de mortalidade global e brasileira, e a Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha um papel fundamental no enfrentamento desse problema. A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que as DCNT matam grande parte da população mundial, muitas das quais podem ser prevenidas por meio da mudança de hábitos saudáveis de vida.
A inatividade física é conhecida como um importante fator de risco para essas doenças. Assim, a oferta de programas de atividade física no contexto da saúde nesse nível (não apenas nesse, mas principalmente nesse, o primário) promove reduções nas taxas de morbidade e mortalidade, melhora a qualidade de vida e contribui para a redução dos custos relacionados ao tratamento de doenças.
A APS é considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua atuação se baseia na integralidade do cuidado, na longitudinalidade e na coordenação do cuidado em rede (Starfield, 2002). Através de ações como o controle dos fatores de risco (tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada e uso nocivo de álcool), o acompanhamento regular de pacientes e a educação em saúde, a APS pode reduzir significativamente a incidência e agravamento das DCNT.
De acordo com Malta et al. (2020), estratégias de prevenção e controle das DCNT, quando implementadas de forma contínua na APS, podem reduzir em até 80% os casos de doenças cardiovasculares e em 40% os casos de câncer. Além disso, a presença de equipes multidisciplinares, como ocorre na Estratégia Saúde da Família (ESF), permite intervenções mais eficazes, humanizadas e próximas da realidade dos usuários.
A ampliação do acesso, a qualificação dos profissionais e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à APS são fundamentais para enfrentar a crescente carga das DCNT no Brasil. Assim, reforçar a estrutura da APS é investir não apenas na saúde individual, mas na sustentabilidade do sistema de saúde como um todo.
A INSERÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA NA APS
De acordo com o Programa Nacional de Promoção da Saúde (PNPS), o profissional de Educação Física começou a integrar-se e compartilhar atendimentos mais abertamente aos profissionais de saúde da família. Dada a política de desenvolvimento dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), essa tendência surgiu ainda mais acentuada. Hoje, a equipe NASF não existe mais com essa nomenclatura, passando a ser chamada de equipe Multiprofissional ou E-multi. Porém, o trabalho desenvolvido pelos profissionais é quase o mesmo.
Esses profissionais orientam o público em atividades individuais e em grupo, organizando caminhadas (reais ou virtuais), exercícios de alongamento e ginástica no próprio posto de saúde ou algum espaço próximo a comunidade adequado para as práticas e entretenimentos recreativos. Além das Práticas Integrativas e Complementares (PICS), que são práticas baseadas na reflexologia, medicina tradicional chinesa e biomedicina. Eles também aconselham e promovem consultas sobre como ter um estilo de vida saudável.
Além disso, está estabelecido a partir da documentação de análise que o papel desempenhado por um educador físico na Atenção Primária à Saúde (APS) resulta em um aumento no número de usuários que persistem com exercícios, melhora no relacionamento entre a equipe de saúde e os pacientes, menos pressão sobre os serviços médicos através de consultas e hábitos de prescrição mais racionalizados.
Foi nesse contexto que o profissional de Educação Física passou a integrar as equipes multiprofissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) e dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB), contribuindo diretamente com ações de promoção à saúde, educação corporal, grupos de caminhada, alongamento, reabilitação e orientações para o autocuidado (Brasil, 2018).
Segundo Farias Júnior et al. (2014), a presença desses profissionais contribui para a redução do sedentarismo e melhora da adesão da comunidade às práticas de autocuidado, promovendo não só benefícios físicos, mas também psicológicos e sociais. Além disso, seu trabalho colabora na identificação de limitações funcionais, prevenção de quedas em idosos e melhora do condicionamento físico de pacientes com DCNT.
A atuação do profissional de Educação Física, quando integrada ao modelo biopsicossocial da APS, amplia a efetividade das ações em saúde e promove o empoderamento dos usuários na construção de hábitos mais saudáveis (Ramos et al., 2020). Com isso, sua presença nos serviços públicos de saúde é fundamental para alcançar os objetivos da promoção da saúde de forma integral e resolutiva.
EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS SOBRE OS BENEFÍCIOS
Conforme afirmado pela literatura, alguns condicionamentos físicos oferecem vantagens na Atenção Primária à Saúde, como aumento da aptidão cardiorrespiratória, redução da pressão arterial e controle glicêmico, além de resultar em perda de peso e ganhos psicológicos (diminuindo as taxas de ansiedade, estresse e sintomas depressivos).
Além disso, propõe-se que as intervenções de atividade física comunitária tenham uma alta capacidade de impacto, funcionando também como facilitadoras da integração social e do sentimento de pertencimento ao grupo.
De acordo com a World Health Organization (WHO, 2020), a atividade física regular reduz em até 35% o risco de doenças cardiovasculares, 30% o risco de diabetes tipo 2, e 20% o risco de câncer de mama e cólon. Esses dados reforçam o papel estratégico da prática corporal como ferramenta de promoção da saúde pública.
Estudos nacionais também comprovam tais benefícios. Em uma pesquisa realizada por Farias Júnior et al. (2014), a introdução de programas regulares de atividade física supervisionada na APS resultou em melhora do controle da pressão arterial, aumento da capacidade funcional e redução do índice de massa corporal (IMC) de usuários hipertensos e diabéticos. Além disso, os participantes relataram melhorias no humor, no sono e na autoestima.
Outro estudo, de Ramos et al. (2020), aponta que grupos de caminhada e atividades corporais coletivas promovidas por profissionais de Educação Física nas Unidades Básicas de Saúde (atualmente conhecidas como UAPS) aumentam a adesão ao tratamento e a autonomia dos usuários, além de reduzir a sobrecarga de consultas médicas, a procura por atendimentos de urgência e a internações hospitalares.
Essas evidências reforçam a importância da atuação inter e multiprofissional, com a valorização do profissional de Educação Física como um dos agentes ativos nas práticas de cuidado em saúde. Além disso, demonstram que políticas públicas voltadas à promoção da atividade física devem ser fortalecidas como forma de prevenção e manejo eficaz das DCNT no âmbito do SUS.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inclusão da atividade física como parte dos cuidados primários de saúde tem se mostrado uma estratégia eficaz para a promoção da saúde, prevenção de doenças crônicas e elevação do nível básico de vida das pessoas; a ciência pode trabalhar com a política. A participação de profissionais de Educação Física nas equipes de saúde da família tanto fortalece a abordagem interdisciplinar quanto possibilita práticas e atividades físicas mais orientadas.
Políticas públicas que garantam a inserção e valorização desses profissionais, bem como investimento em infraestrutura, apoio dos gestores e educação continuada, são essenciais para consolidar essa estratégia nos cuidados primários de saúde.
Nesse sentido, a atuação interdisciplinar, com a inclusão do profissional de Educação Física nas equipes da Estratégia Saúde da Família e do NASF, hoje conhecido como Equipe E-Multi, fortalece as ações de promoção da saúde no SUS, aproximando os serviços da realidade social dos usuários. No entanto, para que esses benefícios sejam consolidados, é necessário o investimento em políticas públicas que garantam estrutura, formação profissional continuada e reconhecimento do papel desse profissional nos serviços de saúde.
Portanto, a Educação Física, quando integrada de forma efetiva à APS, não apenas contribui para o enfrentamento das DCNT, mas também para a construção de um modelo de atenção à saúde mais humanizado, resolutivo e voltado à promoção da autonomia e do bem-estar da população. Entretanto, sabe-se dos desafios diários que o SUS enfrenta para garantir a integralidade, equidade e universalidade (princípios fundamentais) de suas ações e serviços à população.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/. Acesso em: 08 ago. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Núcleo de Apoio à Saúde da Família – Volume 1. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/nucleo_apoio_saude_familia_cab28.pdf. Acesso em: 08 ago. 2025.
FARIAS JÚNIOR, J. C. de et al. A inserção do profissional de Educação Física na atenção básica à saúde: desafios e possibilidades. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, Florianópolis, v. 19, n. 3, p. 324–330, 2014. Disponível em: https://rbafs.org.br/RBAFS/article/view/452. Acesso em: 08 ago. 2025.
MALTA, D. C. et al. A vigilância das doenças crônicas não transmissíveis no contexto da saúde coletiva. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 25, n. 4, p. 1417–1426, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/zyFtkHz3bVHQbMCyJvKzsKH/. Acesso em: 08 ago. 2025.
RAMOS, M. L. S. et al. A Educação Física no Sistema Único de Saúde: perspectivas e desafios na Atenção Primária à Saúde. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, Florianópolis, v. 25, p. 1–10, 2020. Disponível em: https://rbafs.org.br/RBAFS/article/view/1505. Acesso em: 08 ago. 2025.
STARFIELD, Barbara. Primary care: balancing health needs, services, and technology. New York: Oxford University Press, 2002.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128. Acesso em: 08 ago. 2025.
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