A alfabetização na idade certa: Desafios da prática docente

LITERACY AT THE RIGHT AGE: CHALLENGES IN TEACHING PRACTICE

LA ALFABETIZACIÓN EN LA EDAD ADECUADA: DESAFÍOS DE LA PRÁCTICA DOCENTE

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/2448D7

DOI

doi.org/10.63391/2448D7

Lima, Ana Cláudia Ferreira de. A alfabetização na idade certa: Desafios da prática docente. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo tem como objetivo discutir os desafios enfrentados pela prática docente no processo de alfabetização na idade certa, à luz das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do papel da família como coadjuvante na formação leitora e escritora da criança. Parte-se do pressuposto de que a alfabetização é um direito fundamental e deve ocorrer nos primeiros anos do Ensino Fundamental, preferencialmente até os oito anos de idade — o que implica não só o domínio do sistema alfabético, mas também o desenvolvimento da capacidade de compreender, interpretar e produzir textos com funcionalidade no cotidiano. Entretanto, essa meta é frequentemente comprometida pela ausência de um planejamento pedagógico eficaz, pela carência de formação continuada dos docentes, pelas desigualdades socioeconômicas e pela fragilidade na articulação entre escola e família. Esses fatores dificultam a construção de práticas de alfabetização intencionais, contextualizadas e significativas, conforme defendido no corpo do texto. Para tanto, recorre-se à pesquisa bibliográfica e documental, analisando autores consagrados na área (como Soares, Ferreiro & Teberosky, Franchi, Oliveira, entre outros), para refletir sobre as concepções, as condições de trabalho docente e os elementos que favorecem ou comprometem o aprendizado da leitura e da escrita. O estudo destaca ainda que a alfabetização não se esgota na decodificação, mas na apropriação da escrita como prática social — envolvendo a compreensão de textos que fazem sentido na realidade da criança. Nesse sentido, reforça-se a importância de um planejamento alinhado à BNCC, da valorização da formação docente e do fortalecimento dos vínculos entre escola e família para garantir uma alfabetização plena, equitativa e transformadora.
Palavras-chave
alfabetização; leitura; escrita; docente; família.

Summary

This article aims to discuss the challenges faced by teaching practice in the process of literacy at the right age, in light of the guidelines of the Brazilian National Common Curricular Base (BNCC) and the role of the family as a co-participant in the development of children’s reading and writing skills. It is based on the assumption that literacy is a fundamental right and should occur in the early years of Elementary School, preferably by the age of eight — which implies not only mastering the alphabetic system, but also developing the ability to understand, interpret, and produce texts with functionality in everyday life. However, this goal is often compromised by the absence of effective pedagogical planning, the lack of continuing education for teachers, socio-economic inequalities, and the weak connection between school and family. These factors hinder the construction of intentional, contextualized, and meaningful literacy practices, as discussed in the body of the text. To this end, a bibliographical and documentary research was conducted, analyzing renowned authors in the field (such as Soares, Ferreiro & Teberosky, Franchi, Oliveira, among others), to reflect on concepts, teaching conditions, and the elements that support or hinder the development of reading and writing skills. The study also emphasizes that literacy goes beyond decoding; it involves the appropriation of writing as a social practice — encompassing the understanding of texts that make sense in the child’s reality. In this sense, the importance of planning aligned with the BNCC, valuing teacher training, and strengthening school-family ties is reinforced to ensure full, equitable, and transformative literacy.
Keywords
literacy; reading; writing; teacher; family

Resumen

Este artículo tiene como objetivo discutir los desafíos enfrentados por la práctica docente en el proceso de alfabetización en la edad adecuada, a la luz de las directrices de la Base Nacional Común Curricular (BNCC) y del papel de la familia como coadyuvante en la formación lectora y escritora del niño. Se parte del supuesto de que la alfabetización es un derecho fundamental y debe ocurrir en los primeros años de la Educación Primaria, preferentemente hasta los ocho años de edad —lo que implica no solo el dominio del sistema alfabético, sino también el desarrollo de la capacidad de comprender, interpretar y producir textos con funcionalidad en la vida cotidiana. Sin embargo, esta meta se ve frecuentemente comprometida por la ausencia de una planificación pedagógica eficaz, la falta de formación continua del profesorado, las desigualdades socioeconómicas y la fragilidad en la articulación entre escuela y familia. Estos factores dificultan la construcción de prácticas de alfabetización intencionadas, contextualizadas y significativas, tal como se defiende en el cuerpo del texto. Para ello, se recurre a la investigación bibliográfica y documental, analizando a autores consagrados en el área (como Soares, Ferreiro & Teberosky, Franchi, Oliveira, entre otros), con el fin de reflexionar sobre las concepciones, las condiciones de trabajo docente y los elementos que favorecen o comprometen el aprendizaje de la lectura y la escritura. El estudio destaca además que la alfabetización no se agota en la decodificación, sino en la apropiación de la escritura como práctica social —que implica la comprensión de textos con sentido en la realidad del niño. En este sentido, se refuerza la importancia de una planificación alineada a la BNCC, la valorización de la formación docente y el fortalecimiento de los vínculos entre escuela y familia para garantizar una alfabetización plena, equitativa y transformadora.
Palavras-clave
lfabetización; lectura; escritura; docente; familia.

INTRODUÇÃO

A alfabetização na idade certa constitui uma das metas mais relevantes das políticas públicas educacionais brasileiras, sendo entendida como um direito fundamental de toda criança e um indicador de qualidade do ensino nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Garantir que os alunos estejam alfabetizados até os oito anos de idade significa não apenas assegurar o domínio do sistema alfabético de escrita, mas também promover a compreensão, produção e uso social da linguagem escrita de forma significativa e contextualizada.

No entanto, apesar dos avanços legais e pedagógicos, a prática docente enfrenta inúmeros desafios para alcançar essa meta. Entre os principais obstáculos estão a ausência de planejamento pedagógico eficaz, a carência de formação continuada, a sobrecarga de demandas impostas aos professores, a fragilidade na relação entre escola e família e, sobretudo, as desigualdades sociais que afetam diretamente o desenvolvimento escolar das crianças. A problemática que se impõe, portanto, é: como garantir uma alfabetização efetiva e significativa na idade certa diante de tantos entraves estruturais, pedagógicos e sociais?

A compreensão do que significa estar alfabetizado vai além da simples decodificação de palavras. Envolve o domínio do sistema de escrita e a capacidade de utilizá-lo em contextos reais, compreendendo e produzindo significados. Como bem define Soares (2004):

Alfabetizar é mais do que ensinar a decodificar; é garantir o domínio do sistema de escrita e sua funcionalidade no cotidiano do aluno. Uma criança alfabetizada não é apenas aquela que lê, mas aquela que compreende, interpreta e produz textos que fazem sentido em sua realidade (Soares, 2004, p. 68).

Essa concepção amplia a responsabilidade da escola e do professor, exigindo práticas pedagógicas mais intencionais e conectadas ao cotidiano dos estudantes. Ensinar a ler e escrever, portanto, implica promover experiências significativas com a linguagem, valorizando a leitura e a escrita como práticas sociais que contribuem para a formação de sujeitos críticos e autônomos.

Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar os desafios enfrentados pela prática docente no processo de alfabetização na idade certa, à luz das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), bem como destacar o papel da família como parceira indispensável na formação leitora e escritora da criança. Para isso, recorre-se à pesquisa bibliográfica e documental, com ênfase em autores que discutem os fundamentos teóricos da alfabetização e as políticas públicas voltadas ao ensino nos anos iniciais.

A justificativa para este estudo reside na urgência de refletir sobre a realidade da alfabetização nas escolas públicas brasileiras, considerando que os baixos índices de aprendizagem em leitura e escrita evidenciam a necessidade de rever práticas pedagógicas, fortalecer a formação dos professores e construir ações conjuntas entre escola, família e comunidade. Compreender os desafios da alfabetização e propor caminhos possíveis para superá-los é, portanto, uma tarefa imprescindível para garantir o direito à educação de qualidade e para formar sujeitos críticos, autônomos e participativos.

Além disso, a relevância acadêmica deste trabalho se manifesta na contribuição que oferece para o campo da Educação, ao sistematizar conhecimentos teóricos e práticos sobre um tema central para a formação inicial e continuada de professores alfabetizadores. Ao promover um diálogo entre as concepções contemporâneas de alfabetização, os princípios orientadores da BNCC e a realidade vivida nas escolas, este artigo amplia a compreensão sobre os desafios da prática docente e fortalece a construção de saberes pedagógicos mais sensíveis, intencionais e contextualizados.

Em suma, refletir sobre a alfabetização na idade certa é refletir sobre a qualidade da educação oferecida às crianças brasileiras. É reconhecer a complexidade do processo alfabetizador e a importância de uma atuação docente comprometida, planejada e acolhedora. Nesse sentido, esta pesquisa busca contribuir para o aprimoramento das práticas pedagógicas, reafirmando a alfabetização como um direito que precisa ser garantido com justiça, sensibilidade e equidade.

CONCEITO DE ALFABETIZAÇÃO

A alfabetização é um dos pilares fundamentais da formação educacional e social do indivíduo. Trata-se de muito mais do que ensinar a ler e escrever no sentido técnico; alfabetizar é proporcionar à criança o acesso a um universo de significados e possibilidades, permitindo que ela compreenda e se expresse no mundo em que vive. A apropriação da linguagem escrita é um processo que envolve a construção ativa de conhecimentos e a interação com diferentes práticas sociais.

Nesse sentido, Ferreiro e Teberosky (1986) revolucionaram o entendimento sobre o processo de alfabetização ao destacarem a participação ativa da criança na construção do conhecimento sobre a escrita:

A escrita não é apenas um código a ser memorizado, mas um sistema de representação que exige da criança a construção de hipóteses sobre seu funcionamento. Essa construção não se dá de forma passiva; ao contrário, a criança elabora, testa e reformula ideias sobre a escrita à medida que interage com textos e com adultos mais experientes” (Ferreiro; Teberosky, 1986, p. 20).

Essa visão rompe com o modelo tradicional mecanicista de ensino, valorizando a criança como sujeito ativo e pensante, capaz de formular hipóteses sobre o funcionamento da linguagem escrita. Ao interagir com o meio, com os textos e com os interlocutores, a criança realiza experimentações que a levam à reconstrução constante do conhecimento.

Considerar a alfabetização como um processo de descoberta e construção permite ao professor mediar a aprendizagem de forma mais consciente, respeitando os diferentes ritmos e hipóteses que cada aluno formula. A prática pedagógica deve, portanto, oferecer um ambiente rico em textos e em interações, que estimule a curiosidade e o desejo de compreender e produzir significados por meio da escrita.

A discussão sobre alfabetização também exige diferenciar este conceito do letramento, embora ambos estejam profundamente interligados. A alfabetização está relacionada ao domínio do sistema alfabético, enquanto o letramento envolve o uso desse sistema em práticas sociais reais e significativas.

Como afirma Soares (2003):

Alfabetização diz respeito à aquisição do sistema alfabético de escrita. Já o letramento refere-se à utilização dessa escrita em práticas sociais concretas. Portanto, não basta que a criança saiba decodificar; é necessário que compreenda o que lê e seja capaz de produzir textos com sentido (Soares, 2003, p. 45).

Essa diferenciação é essencial para que o ensino da leitura e da escrita não se limite ao aspecto técnico, mas seja voltado para a formação de leitores e escritores autônomos e críticos. A criança precisa ter oportunidades de ler e escrever com sentido, em contextos variados, que façam parte de sua realidade.

O trabalho pedagógico que visa à alfabetização plena deve, portanto, integrar práticas de letramento desde os primeiros anos escolares. É nessa articulação entre aprender a ler/escrever e compreender o uso social da linguagem que se dá uma alfabetização efetiva e transformadora.

Compreender a alfabetização como um processo implica reconhecer que ela se dá de forma gradual, influenciada por múltiplos fatores, inclusive o contexto sociocultural do aluno. O ato de alfabetizar vai além da sala de aula e envolve o cotidiano e as experiências pessoais de cada estudante.

Morais (2012) aprofunda essa ideia ao afirmar:

A alfabetização precisa ser compreendida como um processo dinâmico e progressivo, em que o aluno constrói, desconstrói e reconstrói seu conhecimento, influenciado pelas interações que estabelece e pelo contexto sociocultural em que está inserido (Morais, 2012, p. 87).

Essa perspectiva reforça a importância de práticas pedagógicas que dialoguem com a realidade dos alunos, permitindo que eles atribuam sentido ao que aprendem. O conhecimento não é transferido de forma direta, mas construído de maneira interativa, com base nas vivências e nas trocas estabelecidas no ambiente escolar.

Assim, a alfabetização torna-se um percurso único para cada criança, marcado por avanços, recuos e redescobertas. Cabe ao professor criar situações didáticas significativas, que favoreçam esse processo, respeitando a diversidade de saberes e ritmos de aprendizagem.

Outro ponto importante é considerar que o letramento amplia o olhar sobre o ato de alfabetizar, ao integrá-lo às finalidades sociais da linguagem escrita. A leitura e a escrita não são neutras; elas fazem parte de práticas culturais, políticas e econômicas que moldam o modo como o indivíduo participa da sociedade.

Kleiman (1995) contribui com essa reflexão ao afirmar:

A perspectiva do letramento amplia nossa compreensão do ato de alfabetizar, pois nos faz refletir sobre as finalidades sociais da leitura e da escrita, e sobre o papel da escola na inserção dos alunos nas práticas letradas (Kleiman, 1995, p. 29).

Essa ampliação de perspectiva leva o educador a considerar não apenas o conteúdo a ser ensinado, mas também as formas como os alunos utilizam a linguagem em seu cotidiano e como podem ser inseridos nas práticas letradas da sociedade. Alfabetizar com letramento é, portanto, ensinar a ler e escrever com sentido, com propósito e com vínculo com a realidade.

A escola, nesse contexto, tem um papel social de extrema relevância: deve formar leitores e escritores capazes de atuar de forma crítica no mundo. O acesso à cultura escrita não pode ser um privilégio, mas um direito de todos, assegurado por meio de práticas pedagógicas inclusivas e significativas.

A ação pedagógica, portanto, precisa ser planejada de forma intencional, levando em consideração as características de cada aluno, suas experiências e necessidades. Não se trata de aplicar um método único, mas de construir estratégias que dialoguem com a diversidade presente em sala de aula.

Franchi (2007) chama atenção para esse aspecto ao dizer:

A alfabetização não pode ser pensada como um evento isolado e estanque. Ela integra um processo educacional mais amplo que envolve práticas sociais, valores culturais e relações pedagógicas que respeitam a singularidade de cada aprendiz (Franchi, 2007, p. 51).

A prática alfabetizadora precisa estar inserida em um projeto pedagógico maior, que considere a criança como um ser em desenvolvimento integral. Os aspectos cognitivos, emocionais, sociais e culturais se entrelaçam no processo de aprender a ler e escrever, exigindo do educador sensibilidade e compromisso.

Valorizar a singularidade de cada aprendiz é reconhecer que todos têm potencial para aprender, mas que cada um seguirá seu caminho conforme suas vivências, motivações e oportunidades. É nesse olhar acolhedor que se constrói uma alfabetização significativa e humanizada.

Por fim, é necessário compreender que os desafios da alfabetização não estão apenas nas metodologias ou nos alunos, mas também nas condições de trabalho e formação dos professores. A política educacional deve considerar a realidade das salas de aula e dar suporte efetivo à prática docente.

Oliveira (2011) reforça essa ideia ao afirmar:

Os desafios para alfabetizar na idade certa estão intimamente ligados às condições de trabalho dos professores, à formação docente e à valorização da prática pedagógica, elementos muitas vezes negligenciados nas políticas públicas (Oliveira, 2011, p. 104).

Esse alerta evidencia que a alfabetização na idade certa só será possível com investimentos reais na valorização do magistério, na formação continuada e nas condições adequadas de ensino. O professor precisa ser reconhecido como peça central no processo educacional, recebendo o apoio necessário para desempenhar sua função com qualidade.

Portanto, refletir sobre o conceito de alfabetização é também refletir sobre o papel do professor, sobre a escola que temos e a que desejamos, e sobre as políticas públicas que sustentam (ou não) as práticas educativas. A alfabetização exige mais que técnica: requer sensibilidade, compromisso e uma ação pedagógica crítica e transformadora.

PLANEJAMENTO ALINHADO À BNCC COMO MEIO PARA ALFABETIZAÇÃO

O planejamento pedagógico é um instrumento essencial para o trabalho do professor, principalmente quando se trata da alfabetização. Ensinar a ler e escrever exige organização, metas claras e ações bem pensadas, que respeitem as necessidades e as possibilidades dos alunos. Sem planejamento, as atividades ficam soltas e o processo de aprendizagem perde força e direção.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vem justamente para orientar esse planejamento, trazendo objetivos de aprendizagem que ajudam o professor a construir uma proposta coerente e significativa para o ensino. Quando o professor se apoia na BNCC, ele tem mais clareza do que precisa desenvolver em cada etapa da alfabetização.

Nesse sentido, a própria BNCC orienta que:

A alfabetização deve ocorrer de forma intencional, contextualizada, sistemática e significativa, considerando as vivências e conhecimentos prévios dos alunos, respeitando suas especificidades e ritmos de aprendizagem (Brasil, 2017, p. 59).

Essa orientação reforça que a alfabetização não pode ser feita de qualquer maneira. É preciso ter intenção pedagógica, isto é, saber o porquê de cada atividade e qual o objetivo que se quer alcançar com ela. Além disso, o ensino deve estar ligado à realidade dos alunos, respeitando o que cada um já sabe e seu ritmo de aprendizagem.

Um planejamento alinhado à BNCC contribui para que o professor não apenas organize o conteúdo, mas também pense em metodologias e avaliações que estejam de acordo com as competências que se espera desenvolver. Dessa forma, a alfabetização deixa de ser um processo mecânico e passa a ser significativa para o aluno, pois está conectada com sua vida e com seus saberes.

Outro ponto importante é compreender que o planejamento não é algo engessado. Ele precisa ser flexível e se adaptar às situações que surgem no dia a dia escolar. Cada turma é única, e os alunos possuem ritmos e dificuldades diferentes, por isso o professor precisa sempre refletir sobre o que está dando certo e o que pode ser melhorado.

Nesse contexto, Libâneo (2013) contribui afirmando que:

O planejamento é uma atividade de previsão e organização do trabalho docente em função dos objetivos educativos. Ele deve considerar não apenas o conteúdo, mas também os métodos, os recursos e a avaliação. Um bom planejamento é aquele que está em constante reelaboração, conforme as necessidades dos alunos (Libâneo, 2013, p. 101).

Essa visão de Libâneo mostra que planejar não é apenas listar conteúdos em uma folha, mas pensar em todo o processo de ensino. Envolve escolher as melhores formas de ensinar, os recursos que serão usados e os instrumentos que ajudarão a verificar se os alunos realmente aprenderam. E mais do que isso, é saber que o planejamento precisa ser revisto com frequência, conforme as respostas dos alunos.

Quando o professor tem esse olhar atento, ele consegue perceber quais alunos precisam de mais apoio, quais atividades precisam ser adaptadas e quais estratégias estão dando resultado. Isso fortalece a prática pedagógica e torna o processo de alfabetização mais eficiente e humano.

Infelizmente, em muitas escolas ainda se vê práticas improvisadas, sem planejamento adequado. Isso compromete não só o aprendizado dos alunos, mas também o trabalho do professor, que acaba sem rumo e sem alcançar bons resultados. A ausência de organização pedagógica impacta diretamente na qualidade do ensino.

Sobre isso, Oliveira e Silva (2010) observam que:

A ausência de um planejamento coerente, que respeite os princípios da progressão e da integração curricular, é um dos maiores entraves à consolidação de uma prática alfabetizadora eficiente. O improviso, ainda comum em muitas escolas, compromete o processo de ensino-aprendizagem (Oliveira; Silva, 2010, p. 123).

Essa citação chama a atenção para o risco de uma prática desorganizada. Quando o professor não segue um planejamento claro, alinhado aos objetivos curriculares, todo o processo de alfabetização fica prejudicado. O conteúdo não avança de forma progressiva e os alunos acabam não se desenvolvendo como deveriam.

Por isso, planejar com seriedade é uma atitude de respeito ao aluno e ao seu direito de aprender. Quando o professor sabe aonde quer chegar e como vai chegar, ele transmite segurança, organização e clareza. E isso influencia diretamente no desempenho dos alunos e no sucesso da alfabetização.

Para que o planejamento seja de fato eficiente, ele precisa ser construído com base nas necessidades reais dos alunos e nos objetivos de aprendizagem propostos. Não basta repetir modelos prontos ou seguir uma rotina fixa. É preciso refletir, adaptar e escolher o que faz mais sentido para aquela turma, naquele momento.

Zabala (1998) reforça esse entendimento ao afirmar:

Planejar é decidir antecipadamente o que se deseja alcançar com o ensino e como se pretende alcançar. É um processo que envolve reflexão, análise das necessidades dos alunos e seleção dos conteúdos mais significativos para seu desenvolvimento (Zabala, 1998, p. 55).

Essa definição mostra que o planejamento é uma ação pensada com base em propósitos e na realidade da sala de aula. O professor deve observar sua turma, identificar os desafios e as potencialidades, e a partir disso, escolher os conteúdos e as metodologias que mais favorecem o avanço dos estudantes.

Portanto, planejar é muito mais do que cumprir uma exigência burocrática. É uma ferramenta fundamental para garantir um ensino de qualidade. Ao planejar com consciência e sensibilidade, o professor consegue criar experiências de aprendizagem significativas, que ajudam os alunos a avançarem na leitura e na escrita.

Em resumo, o planejamento pedagógico é um caminho necessário para a alfabetização na idade certa. Quando bem-feito, ele respeita a BNCC, considera o contexto do aluno e permite ao professor tomar decisões mais assertivas. A prática alfabetizadora se fortalece quando é organizada, consciente e voltada para o desenvolvimento integral da criança. Por isso, planejar é também um ato de cuidado e compromisso com o direito de aprender.

PRINCIPAIS DESAFIOS DA ALFABETIZAÇÃO

A alfabetização é um processo complexo e influenciado por inúmeros fatores. Na prática cotidiana da escola, o professor enfrenta desafios que vão desde a heterogeneidade das turmas até a escassez de recursos materiais e humanos. Muitas vezes, ele precisa lidar com alunos em diferentes níveis de desenvolvimento da leitura e da escrita, o que exige um trabalho diversificado e cuidadoso, nem sempre possível diante da realidade de muitas instituições.

Além disso, a ausência de formação continuada, a cobrança por resultados imediatos e a precariedade na infraestrutura dificultam a consolidação de uma prática alfabetizadora eficaz. A alfabetização exige tempo, paciência, planejamento e apoio, mas o ambiente escolar nem sempre proporciona as condições necessárias para que isso aconteça de forma adequada.

Nesse contexto, Cagliari (2009) destaca:

A alfabetização sofre com a padronização de métodos e com a pressão por resultados rápidos. Isso gera ansiedade nos professores e frustração nos alunos, comprometendo a qualidade do processo. Cada criança tem seu tempo e sua forma de aprender, e o sistema escolar nem sempre respeita essa diversidade (Cagliari, 2009, p. 76).

Essa reflexão é extremamente relevante, pois evidencia o quanto o sistema educacional ainda insiste em aplicar métodos uniformes a realidades muito distintas. Ao buscar padronizar a aprendizagem, desconsidera-se que cada criança possui uma trajetória, um ritmo e uma forma singular de construir o conhecimento. Essa desatenção à diversidade contribui para o aumento da desigualdade de aprendizagem nas salas de aula.

A ansiedade gerada por metas rígidas e resultados quantitativos acaba sufocando tanto o professor quanto os alunos. O foco em números muitas vezes distancia o olhar humano e sensível que a alfabetização exige. A educação precisa respeitar o tempo de cada aluno e criar um ambiente onde o erro seja visto como parte do processo e não como sinal de fracasso.

Outro fator que merece destaque é a vulnerabilidade social em que muitas crianças estão inseridas. A realidade de pobreza, violência e instabilidade familiar interfere diretamente no rendimento escolar, e isso se reflete no processo de alfabetização. Ensinar em contextos assim exige mais do que técnicas; requer empatia, sensibilidade e estratégias pedagógicas contextualizadas.

No entanto, nem sempre os professores recebem apoio ou formação específica para lidar com essas situações. A falta de suporte institucional faz com que muitos docentes atuem com limitações, mesmo quando têm boa vontade e dedicação.

Soares (2016) ressalta essa questão ao afirmar:

Os processos de alfabetização em contextos de vulnerabilidade social exigem uma prática pedagógica diferenciada, que considere a realidade das crianças e promova uma aprendizagem significativa. No entanto, muitas vezes os professores não têm suporte nem condições para isso (Soares, 2016, p. 119).

Essa fala nos leva a refletir sobre a importância de políticas públicas voltadas para a formação e valorização dos profissionais da educação. Não basta cobrar resultados sem oferecer estrutura. Um professor bem-preparado, amparado por uma rede de apoio e com recursos adequados, tem muito mais chances de alcançar seus objetivos com os alunos.

Por isso, é fundamental que o sistema educacional compreenda que ensinar a ler e escrever vai além do conteúdo programático. Envolve compreender o contexto em que a criança vive, adaptar estratégias e reconhecer que as desigualdades sociais interferem diretamente nos processos de aprendizagem. Alfabetizar em realidades de vulnerabilidade exige um olhar mais amplo e solidário.

Além das dificuldades já mencionadas, há ainda um problema recorrente na educação: a responsabilização individual do professor pelos insucessos da alfabetização. Quando os alunos não aprendem no tempo esperado, rapidamente o olhar se volta para o docente, ignorando os muitos fatores externos que interferem nesse processo.

Esse tipo de cobrança injusta gera um peso emocional e profissional que desmotiva e, por vezes, adoece o professor. É preciso compreender que a alfabetização envolve um conjunto de elementos interligados, e nenhum educador consegue superar sozinho as deficiências estruturais do sistema.

Mortatti (2000) discute esse ponto com clareza:

É comum a responsabilização exclusiva do professor pelos insucessos da alfabetização, desconsiderando os múltiplos fatores que envolvem esse processo, como a política educacional, a formação docente e as condições socioculturais dos alunos (Mortatti, 2000, p. 71).

Essa afirmação evidencia que a qualidade da alfabetização não depende apenas do empenho individual do professor. As políticas educacionais, a formação inicial e continuada, os recursos pedagógicos disponíveis e o contexto familiar e social dos alunos são aspectos que também precisam ser considerados e enfrentados.

Portanto, é injusto e improdutivo culpabilizar o professor de forma isolada. Em vez disso, é necessário criar uma rede de corresponsabilidade entre escola, família, gestores e poder público. Quando todos assumem seu papel nesse processo, os desafios da alfabetização podem ser enfrentados com mais eficácia e humanidade.

Em síntese, os desafios da alfabetização vão muito além da sala de aula. Eles envolvem fatores sociais, estruturais, políticos e pedagógicos que precisam ser enfrentados com seriedade e compromisso coletivo. O professor tem um papel central, mas não pode ser o único responsável pelo sucesso ou fracasso desse processo. É necessário que ele seja valorizado, apoiado e respeitado em sua missão de ensinar a ler e escrever com sentido e sensibilidade.

RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO

Para que o processo de alfabetização alcance resultados positivos, é indispensável que escola e família estejam em sintonia. O que se constrói dentro da sala de aula precisa ser reconhecido, incentivado e continuado no ambiente familiar. Quando a família valoriza a aprendizagem da criança, acompanhando sua evolução e oferecendo apoio emocional, o caminho para a construção da leitura e da escrita se torna mais sólido e efetivo.

Contudo, essa participação vai além de comparecer a reuniões escolares. É necessário criar um vínculo verdadeiro entre a escola e os responsáveis, em que ambos compartilham o compromisso com a formação integral da criança, reconhecendo que educar é uma tarefa coletiva.

Paro (2000) chama atenção para isso ao afirmar:

A participação dos pais no processo educativo não pode se restringir a comparecer a reuniões ou assinar boletins. É preciso construir uma relação de confiança e corresponsabilidade, em que família e escola se vejam como parceiras na formação do sujeito (Paro, 2000, p. 89).

Essa parceria só se torna real quando há diálogo, confiança e valorização mútua. A escola deve se abrir para ouvir as famílias, compreender suas realidades e envolvê-las nas decisões pedagógicas. Por sua vez, os pais precisam entender que sua presença e apoio são fundamentais para o avanço da criança, principalmente nos primeiros anos de escolarização, quando se está aprendendo a ler e escrever.

A formação da criança ultrapassa os limites da sala de aula. O comportamento, os valores e o interesse pela aprendizagem são influenciados diretamente pela convivência familiar. Quando a família caminha ao lado da escola, a alfabetização ganha sentido e se fortalece como um projeto de vida compartilhado.

Freire (1996), ao refletir sobre o papel da educação, aponta:

A escola sozinha não dá conta da formação integral do aluno. É fundamental que a família esteja envolvida, respeitando e apoiando o trabalho do professor. Essa aliança é vital para que a educação se realize em sua plenitude (Freire, 1996, p. 87).

Essa aliança que Freire defende é essencial para o sucesso da alfabetização. O professor precisa do apoio da família para desenvolver com segurança sua proposta pedagógica, assim como a criança precisa perceber que existe coerência entre aquilo que aprende na escola e o que vive em casa. Quando há respeito e valorização do trabalho docente por parte da família, a criança se sente motivada a aprender.

Por isso, é preciso quebrar barreiras entre escola e comunidade. Muitas vezes, há desconfiança ou distanciamento entre esses dois espaços. Mas quando se estabelece o diálogo e a escuta verdadeira, a relação se transforma e passa a ser de cooperação, de cuidado e de construção conjunta do saber.

Para alcançar essa relação de confiança, a comunicação entre escola e família precisa ser aberta e constante. Os educadores devem criar oportunidades para envolver os pais em atividades, ouvir suas preocupações e mostrar que a educação dos filhos também passa por eles.

Costa (2014) ressalta essa ideia ao afirmar:

A construção de vínculos entre escola e família requer abertura ao diálogo, escuta ativa e respeito mútuo. Quando os pais se sentem parte do processo educativo, tornam-se aliados da escola e influenciam positivamente a trajetória escolar de seus filhos (Costa, 2014, p. 109).

Quando os pais se sentem valorizados e acolhidos pela escola, passam a se envolver mais ativamente e com mais segurança no processo educativo. Essa aproximação fortalece o vínculo afetivo entre todos os envolvidos e contribui diretamente para o desempenho da criança, especialmente no processo de alfabetização, que exige acompanhamento e incentivo constante.

Portanto, é fundamental que o ambiente escolar promova ações que fortaleçam essa relação, reconhecendo a importância da família no processo de ensino-aprendizagem. A alfabetização, quando vivida como responsabilidade compartilhada, torna-se mais significativa e afetuosa, respeitando o ritmo da criança e celebrando, junto à escola e à família, cada avanço conquistado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A alfabetização na idade certa continua sendo um dos maiores desafios da prática docente, especialmente diante das desigualdades sociais, da falta de estrutura em muitas escolas e das múltiplas demandas enfrentadas pelos professores. No entanto, é também uma das tarefas mais nobres e transformadoras da educação, pois permite à criança acessar o mundo da leitura, da escrita e do conhecimento.

Ao longo deste trabalho, foi possível refletir sobre os fundamentos do processo de alfabetização, o papel essencial do planejamento pedagógico alinhado à BNCC, os obstáculos enfrentados no cotidiano escolar e a importância da parceria entre escola e família. Esses elementos estão profundamente interligados e exigem uma atuação sensível, planejada e colaborativa por parte de todos os envolvidos no processo educacional.

Mais do que ensinar letras e sons, alfabetizar é criar condições para que cada criança se reconheça como sujeito capaz de compreender e transformar o mundo. Para isso, é necessário respeitar o tempo de aprendizagem de cada aluno, promover práticas significativas e garantir que o ambiente escolar seja acolhedor, motivador e coerente com a realidade vivida pelos estudantes.

A missão de alfabetizar é complexa, mas possível, quando se tem compromisso, escuta e ações fundamentadas. Com o apoio da comunidade escolar, o envolvimento das famílias e a valorização do trabalho docente, é possível construir caminhos sólidos para que todas as crianças tenham o direito de aprender na idade certa e de forma significativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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Acesso em: 2024-09-03.

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A alfabetização na idade certa: Desafios da prática docente

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