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Resumo
INTRODUÇÃO
A alfabetização na idade certa constitui uma das metas mais relevantes das políticas públicas educacionais brasileiras, sendo entendida como um direito fundamental de toda criança e um indicador de qualidade do ensino nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Garantir que os alunos estejam alfabetizados até os oito anos de idade significa não apenas assegurar o domínio do sistema alfabético de escrita, mas também promover a compreensão, produção e uso social da linguagem escrita de forma significativa e contextualizada.
No entanto, apesar dos avanços legais e pedagógicos, a prática docente enfrenta inúmeros desafios para alcançar essa meta. Entre os principais obstáculos estão a ausência de planejamento pedagógico eficaz, a carência de formação continuada, a sobrecarga de demandas impostas aos professores, a fragilidade na relação entre escola e família e, sobretudo, as desigualdades sociais que afetam diretamente o desenvolvimento escolar das crianças. A problemática que se impõe, portanto, é: como garantir uma alfabetização efetiva e significativa na idade certa diante de tantos entraves estruturais, pedagógicos e sociais?
A compreensão do que significa estar alfabetizado vai além da simples decodificação de palavras. Envolve o domínio do sistema de escrita e a capacidade de utilizá-lo em contextos reais, compreendendo e produzindo significados. Como bem define Soares (2004):
Alfabetizar é mais do que ensinar a decodificar; é garantir o domínio do sistema de escrita e sua funcionalidade no cotidiano do aluno. Uma criança alfabetizada não é apenas aquela que lê, mas aquela que compreende, interpreta e produz textos que fazem sentido em sua realidade (Soares, 2004, p. 68).
Essa concepção amplia a responsabilidade da escola e do professor, exigindo práticas pedagógicas mais intencionais e conectadas ao cotidiano dos estudantes. Ensinar a ler e escrever, portanto, implica promover experiências significativas com a linguagem, valorizando a leitura e a escrita como práticas sociais que contribuem para a formação de sujeitos críticos e autônomos.
Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo analisar os desafios enfrentados pela prática docente no processo de alfabetização na idade certa, à luz das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), bem como destacar o papel da família como parceira indispensável na formação leitora e escritora da criança. Para isso, recorre-se à pesquisa bibliográfica e documental, com ênfase em autores que discutem os fundamentos teóricos da alfabetização e as políticas públicas voltadas ao ensino nos anos iniciais.
A justificativa para este estudo reside na urgência de refletir sobre a realidade da alfabetização nas escolas públicas brasileiras, considerando que os baixos índices de aprendizagem em leitura e escrita evidenciam a necessidade de rever práticas pedagógicas, fortalecer a formação dos professores e construir ações conjuntas entre escola, família e comunidade. Compreender os desafios da alfabetização e propor caminhos possíveis para superá-los é, portanto, uma tarefa imprescindível para garantir o direito à educação de qualidade e para formar sujeitos críticos, autônomos e participativos.
Além disso, a relevância acadêmica deste trabalho se manifesta na contribuição que oferece para o campo da Educação, ao sistematizar conhecimentos teóricos e práticos sobre um tema central para a formação inicial e continuada de professores alfabetizadores. Ao promover um diálogo entre as concepções contemporâneas de alfabetização, os princípios orientadores da BNCC e a realidade vivida nas escolas, este artigo amplia a compreensão sobre os desafios da prática docente e fortalece a construção de saberes pedagógicos mais sensíveis, intencionais e contextualizados.
Em suma, refletir sobre a alfabetização na idade certa é refletir sobre a qualidade da educação oferecida às crianças brasileiras. É reconhecer a complexidade do processo alfabetizador e a importância de uma atuação docente comprometida, planejada e acolhedora. Nesse sentido, esta pesquisa busca contribuir para o aprimoramento das práticas pedagógicas, reafirmando a alfabetização como um direito que precisa ser garantido com justiça, sensibilidade e equidade.
CONCEITO DE ALFABETIZAÇÃO
A alfabetização é um dos pilares fundamentais da formação educacional e social do indivíduo. Trata-se de muito mais do que ensinar a ler e escrever no sentido técnico; alfabetizar é proporcionar à criança o acesso a um universo de significados e possibilidades, permitindo que ela compreenda e se expresse no mundo em que vive. A apropriação da linguagem escrita é um processo que envolve a construção ativa de conhecimentos e a interação com diferentes práticas sociais.
Nesse sentido, Ferreiro e Teberosky (1986) revolucionaram o entendimento sobre o processo de alfabetização ao destacarem a participação ativa da criança na construção do conhecimento sobre a escrita:
A escrita não é apenas um código a ser memorizado, mas um sistema de representação que exige da criança a construção de hipóteses sobre seu funcionamento. Essa construção não se dá de forma passiva; ao contrário, a criança elabora, testa e reformula ideias sobre a escrita à medida que interage com textos e com adultos mais experientes” (Ferreiro; Teberosky, 1986, p. 20).
Essa visão rompe com o modelo tradicional mecanicista de ensino, valorizando a criança como sujeito ativo e pensante, capaz de formular hipóteses sobre o funcionamento da linguagem escrita. Ao interagir com o meio, com os textos e com os interlocutores, a criança realiza experimentações que a levam à reconstrução constante do conhecimento.
Considerar a alfabetização como um processo de descoberta e construção permite ao professor mediar a aprendizagem de forma mais consciente, respeitando os diferentes ritmos e hipóteses que cada aluno formula. A prática pedagógica deve, portanto, oferecer um ambiente rico em textos e em interações, que estimule a curiosidade e o desejo de compreender e produzir significados por meio da escrita.
A discussão sobre alfabetização também exige diferenciar este conceito do letramento, embora ambos estejam profundamente interligados. A alfabetização está relacionada ao domínio do sistema alfabético, enquanto o letramento envolve o uso desse sistema em práticas sociais reais e significativas.
Como afirma Soares (2003):
Alfabetização diz respeito à aquisição do sistema alfabético de escrita. Já o letramento refere-se à utilização dessa escrita em práticas sociais concretas. Portanto, não basta que a criança saiba decodificar; é necessário que compreenda o que lê e seja capaz de produzir textos com sentido (Soares, 2003, p. 45).
Essa diferenciação é essencial para que o ensino da leitura e da escrita não se limite ao aspecto técnico, mas seja voltado para a formação de leitores e escritores autônomos e críticos. A criança precisa ter oportunidades de ler e escrever com sentido, em contextos variados, que façam parte de sua realidade.
O trabalho pedagógico que visa à alfabetização plena deve, portanto, integrar práticas de letramento desde os primeiros anos escolares. É nessa articulação entre aprender a ler/escrever e compreender o uso social da linguagem que se dá uma alfabetização efetiva e transformadora.
Compreender a alfabetização como um processo implica reconhecer que ela se dá de forma gradual, influenciada por múltiplos fatores, inclusive o contexto sociocultural do aluno. O ato de alfabetizar vai além da sala de aula e envolve o cotidiano e as experiências pessoais de cada estudante.
Morais (2012) aprofunda essa ideia ao afirmar:
A alfabetização precisa ser compreendida como um processo dinâmico e progressivo, em que o aluno constrói, desconstrói e reconstrói seu conhecimento, influenciado pelas interações que estabelece e pelo contexto sociocultural em que está inserido (Morais, 2012, p. 87).
Essa perspectiva reforça a importância de práticas pedagógicas que dialoguem com a realidade dos alunos, permitindo que eles atribuam sentido ao que aprendem. O conhecimento não é transferido de forma direta, mas construído de maneira interativa, com base nas vivências e nas trocas estabelecidas no ambiente escolar.
Assim, a alfabetização torna-se um percurso único para cada criança, marcado por avanços, recuos e redescobertas. Cabe ao professor criar situações didáticas significativas, que favoreçam esse processo, respeitando a diversidade de saberes e ritmos de aprendizagem.
Outro ponto importante é considerar que o letramento amplia o olhar sobre o ato de alfabetizar, ao integrá-lo às finalidades sociais da linguagem escrita. A leitura e a escrita não são neutras; elas fazem parte de práticas culturais, políticas e econômicas que moldam o modo como o indivíduo participa da sociedade.
Kleiman (1995) contribui com essa reflexão ao afirmar:
A perspectiva do letramento amplia nossa compreensão do ato de alfabetizar, pois nos faz refletir sobre as finalidades sociais da leitura e da escrita, e sobre o papel da escola na inserção dos alunos nas práticas letradas (Kleiman, 1995, p. 29).
Essa ampliação de perspectiva leva o educador a considerar não apenas o conteúdo a ser ensinado, mas também as formas como os alunos utilizam a linguagem em seu cotidiano e como podem ser inseridos nas práticas letradas da sociedade. Alfabetizar com letramento é, portanto, ensinar a ler e escrever com sentido, com propósito e com vínculo com a realidade.
A escola, nesse contexto, tem um papel social de extrema relevância: deve formar leitores e escritores capazes de atuar de forma crítica no mundo. O acesso à cultura escrita não pode ser um privilégio, mas um direito de todos, assegurado por meio de práticas pedagógicas inclusivas e significativas.
A ação pedagógica, portanto, precisa ser planejada de forma intencional, levando em consideração as características de cada aluno, suas experiências e necessidades. Não se trata de aplicar um método único, mas de construir estratégias que dialoguem com a diversidade presente em sala de aula.
Franchi (2007) chama atenção para esse aspecto ao dizer:
A alfabetização não pode ser pensada como um evento isolado e estanque. Ela integra um processo educacional mais amplo que envolve práticas sociais, valores culturais e relações pedagógicas que respeitam a singularidade de cada aprendiz (Franchi, 2007, p. 51).
A prática alfabetizadora precisa estar inserida em um projeto pedagógico maior, que considere a criança como um ser em desenvolvimento integral. Os aspectos cognitivos, emocionais, sociais e culturais se entrelaçam no processo de aprender a ler e escrever, exigindo do educador sensibilidade e compromisso.
Valorizar a singularidade de cada aprendiz é reconhecer que todos têm potencial para aprender, mas que cada um seguirá seu caminho conforme suas vivências, motivações e oportunidades. É nesse olhar acolhedor que se constrói uma alfabetização significativa e humanizada.
Por fim, é necessário compreender que os desafios da alfabetização não estão apenas nas metodologias ou nos alunos, mas também nas condições de trabalho e formação dos professores. A política educacional deve considerar a realidade das salas de aula e dar suporte efetivo à prática docente.
Oliveira (2011) reforça essa ideia ao afirmar:
Os desafios para alfabetizar na idade certa estão intimamente ligados às condições de trabalho dos professores, à formação docente e à valorização da prática pedagógica, elementos muitas vezes negligenciados nas políticas públicas (Oliveira, 2011, p. 104).
Esse alerta evidencia que a alfabetização na idade certa só será possível com investimentos reais na valorização do magistério, na formação continuada e nas condições adequadas de ensino. O professor precisa ser reconhecido como peça central no processo educacional, recebendo o apoio necessário para desempenhar sua função com qualidade.
Portanto, refletir sobre o conceito de alfabetização é também refletir sobre o papel do professor, sobre a escola que temos e a que desejamos, e sobre as políticas públicas que sustentam (ou não) as práticas educativas. A alfabetização exige mais que técnica: requer sensibilidade, compromisso e uma ação pedagógica crítica e transformadora.
PLANEJAMENTO ALINHADO À BNCC COMO MEIO PARA ALFABETIZAÇÃO
O planejamento pedagógico é um instrumento essencial para o trabalho do professor, principalmente quando se trata da alfabetização. Ensinar a ler e escrever exige organização, metas claras e ações bem pensadas, que respeitem as necessidades e as possibilidades dos alunos. Sem planejamento, as atividades ficam soltas e o processo de aprendizagem perde força e direção.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vem justamente para orientar esse planejamento, trazendo objetivos de aprendizagem que ajudam o professor a construir uma proposta coerente e significativa para o ensino. Quando o professor se apoia na BNCC, ele tem mais clareza do que precisa desenvolver em cada etapa da alfabetização.
Nesse sentido, a própria BNCC orienta que:
A alfabetização deve ocorrer de forma intencional, contextualizada, sistemática e significativa, considerando as vivências e conhecimentos prévios dos alunos, respeitando suas especificidades e ritmos de aprendizagem (Brasil, 2017, p. 59).
Essa orientação reforça que a alfabetização não pode ser feita de qualquer maneira. É preciso ter intenção pedagógica, isto é, saber o porquê de cada atividade e qual o objetivo que se quer alcançar com ela. Além disso, o ensino deve estar ligado à realidade dos alunos, respeitando o que cada um já sabe e seu ritmo de aprendizagem.
Um planejamento alinhado à BNCC contribui para que o professor não apenas organize o conteúdo, mas também pense em metodologias e avaliações que estejam de acordo com as competências que se espera desenvolver. Dessa forma, a alfabetização deixa de ser um processo mecânico e passa a ser significativa para o aluno, pois está conectada com sua vida e com seus saberes.
Outro ponto importante é compreender que o planejamento não é algo engessado. Ele precisa ser flexível e se adaptar às situações que surgem no dia a dia escolar. Cada turma é única, e os alunos possuem ritmos e dificuldades diferentes, por isso o professor precisa sempre refletir sobre o que está dando certo e o que pode ser melhorado.
Nesse contexto, Libâneo (2013) contribui afirmando que:
O planejamento é uma atividade de previsão e organização do trabalho docente em função dos objetivos educativos. Ele deve considerar não apenas o conteúdo, mas também os métodos, os recursos e a avaliação. Um bom planejamento é aquele que está em constante reelaboração, conforme as necessidades dos alunos (Libâneo, 2013, p. 101).
Essa visão de Libâneo mostra que planejar não é apenas listar conteúdos em uma folha, mas pensar em todo o processo de ensino. Envolve escolher as melhores formas de ensinar, os recursos que serão usados e os instrumentos que ajudarão a verificar se os alunos realmente aprenderam. E mais do que isso, é saber que o planejamento precisa ser revisto com frequência, conforme as respostas dos alunos.
Quando o professor tem esse olhar atento, ele consegue perceber quais alunos precisam de mais apoio, quais atividades precisam ser adaptadas e quais estratégias estão dando resultado. Isso fortalece a prática pedagógica e torna o processo de alfabetização mais eficiente e humano.
Infelizmente, em muitas escolas ainda se vê práticas improvisadas, sem planejamento adequado. Isso compromete não só o aprendizado dos alunos, mas também o trabalho do professor, que acaba sem rumo e sem alcançar bons resultados. A ausência de organização pedagógica impacta diretamente na qualidade do ensino.
Sobre isso, Oliveira e Silva (2010) observam que:
A ausência de um planejamento coerente, que respeite os princípios da progressão e da integração curricular, é um dos maiores entraves à consolidação de uma prática alfabetizadora eficiente. O improviso, ainda comum em muitas escolas, compromete o processo de ensino-aprendizagem (Oliveira; Silva, 2010, p. 123).
Essa citação chama a atenção para o risco de uma prática desorganizada. Quando o professor não segue um planejamento claro, alinhado aos objetivos curriculares, todo o processo de alfabetização fica prejudicado. O conteúdo não avança de forma progressiva e os alunos acabam não se desenvolvendo como deveriam.
Por isso, planejar com seriedade é uma atitude de respeito ao aluno e ao seu direito de aprender. Quando o professor sabe aonde quer chegar e como vai chegar, ele transmite segurança, organização e clareza. E isso influencia diretamente no desempenho dos alunos e no sucesso da alfabetização.
Para que o planejamento seja de fato eficiente, ele precisa ser construído com base nas necessidades reais dos alunos e nos objetivos de aprendizagem propostos. Não basta repetir modelos prontos ou seguir uma rotina fixa. É preciso refletir, adaptar e escolher o que faz mais sentido para aquela turma, naquele momento.
Zabala (1998) reforça esse entendimento ao afirmar:
Planejar é decidir antecipadamente o que se deseja alcançar com o ensino e como se pretende alcançar. É um processo que envolve reflexão, análise das necessidades dos alunos e seleção dos conteúdos mais significativos para seu desenvolvimento (Zabala, 1998, p. 55).
Essa definição mostra que o planejamento é uma ação pensada com base em propósitos e na realidade da sala de aula. O professor deve observar sua turma, identificar os desafios e as potencialidades, e a partir disso, escolher os conteúdos e as metodologias que mais favorecem o avanço dos estudantes.
Portanto, planejar é muito mais do que cumprir uma exigência burocrática. É uma ferramenta fundamental para garantir um ensino de qualidade. Ao planejar com consciência e sensibilidade, o professor consegue criar experiências de aprendizagem significativas, que ajudam os alunos a avançarem na leitura e na escrita.
Em resumo, o planejamento pedagógico é um caminho necessário para a alfabetização na idade certa. Quando bem-feito, ele respeita a BNCC, considera o contexto do aluno e permite ao professor tomar decisões mais assertivas. A prática alfabetizadora se fortalece quando é organizada, consciente e voltada para o desenvolvimento integral da criança. Por isso, planejar é também um ato de cuidado e compromisso com o direito de aprender.
PRINCIPAIS DESAFIOS DA ALFABETIZAÇÃO
A alfabetização é um processo complexo e influenciado por inúmeros fatores. Na prática cotidiana da escola, o professor enfrenta desafios que vão desde a heterogeneidade das turmas até a escassez de recursos materiais e humanos. Muitas vezes, ele precisa lidar com alunos em diferentes níveis de desenvolvimento da leitura e da escrita, o que exige um trabalho diversificado e cuidadoso, nem sempre possível diante da realidade de muitas instituições.
Além disso, a ausência de formação continuada, a cobrança por resultados imediatos e a precariedade na infraestrutura dificultam a consolidação de uma prática alfabetizadora eficaz. A alfabetização exige tempo, paciência, planejamento e apoio, mas o ambiente escolar nem sempre proporciona as condições necessárias para que isso aconteça de forma adequada.
Nesse contexto, Cagliari (2009) destaca:
A alfabetização sofre com a padronização de métodos e com a pressão por resultados rápidos. Isso gera ansiedade nos professores e frustração nos alunos, comprometendo a qualidade do processo. Cada criança tem seu tempo e sua forma de aprender, e o sistema escolar nem sempre respeita essa diversidade (Cagliari, 2009, p. 76).
Essa reflexão é extremamente relevante, pois evidencia o quanto o sistema educacional ainda insiste em aplicar métodos uniformes a realidades muito distintas. Ao buscar padronizar a aprendizagem, desconsidera-se que cada criança possui uma trajetória, um ritmo e uma forma singular de construir o conhecimento. Essa desatenção à diversidade contribui para o aumento da desigualdade de aprendizagem nas salas de aula.
A ansiedade gerada por metas rígidas e resultados quantitativos acaba sufocando tanto o professor quanto os alunos. O foco em números muitas vezes distancia o olhar humano e sensível que a alfabetização exige. A educação precisa respeitar o tempo de cada aluno e criar um ambiente onde o erro seja visto como parte do processo e não como sinal de fracasso.
Outro fator que merece destaque é a vulnerabilidade social em que muitas crianças estão inseridas. A realidade de pobreza, violência e instabilidade familiar interfere diretamente no rendimento escolar, e isso se reflete no processo de alfabetização. Ensinar em contextos assim exige mais do que técnicas; requer empatia, sensibilidade e estratégias pedagógicas contextualizadas.
No entanto, nem sempre os professores recebem apoio ou formação específica para lidar com essas situações. A falta de suporte institucional faz com que muitos docentes atuem com limitações, mesmo quando têm boa vontade e dedicação.
Soares (2016) ressalta essa questão ao afirmar:
Os processos de alfabetização em contextos de vulnerabilidade social exigem uma prática pedagógica diferenciada, que considere a realidade das crianças e promova uma aprendizagem significativa. No entanto, muitas vezes os professores não têm suporte nem condições para isso (Soares, 2016, p. 119).
Essa fala nos leva a refletir sobre a importância de políticas públicas voltadas para a formação e valorização dos profissionais da educação. Não basta cobrar resultados sem oferecer estrutura. Um professor bem-preparado, amparado por uma rede de apoio e com recursos adequados, tem muito mais chances de alcançar seus objetivos com os alunos.
Por isso, é fundamental que o sistema educacional compreenda que ensinar a ler e escrever vai além do conteúdo programático. Envolve compreender o contexto em que a criança vive, adaptar estratégias e reconhecer que as desigualdades sociais interferem diretamente nos processos de aprendizagem. Alfabetizar em realidades de vulnerabilidade exige um olhar mais amplo e solidário.
Além das dificuldades já mencionadas, há ainda um problema recorrente na educação: a responsabilização individual do professor pelos insucessos da alfabetização. Quando os alunos não aprendem no tempo esperado, rapidamente o olhar se volta para o docente, ignorando os muitos fatores externos que interferem nesse processo.
Esse tipo de cobrança injusta gera um peso emocional e profissional que desmotiva e, por vezes, adoece o professor. É preciso compreender que a alfabetização envolve um conjunto de elementos interligados, e nenhum educador consegue superar sozinho as deficiências estruturais do sistema.
Mortatti (2000) discute esse ponto com clareza:
É comum a responsabilização exclusiva do professor pelos insucessos da alfabetização, desconsiderando os múltiplos fatores que envolvem esse processo, como a política educacional, a formação docente e as condições socioculturais dos alunos (Mortatti, 2000, p. 71).
Essa afirmação evidencia que a qualidade da alfabetização não depende apenas do empenho individual do professor. As políticas educacionais, a formação inicial e continuada, os recursos pedagógicos disponíveis e o contexto familiar e social dos alunos são aspectos que também precisam ser considerados e enfrentados.
Portanto, é injusto e improdutivo culpabilizar o professor de forma isolada. Em vez disso, é necessário criar uma rede de corresponsabilidade entre escola, família, gestores e poder público. Quando todos assumem seu papel nesse processo, os desafios da alfabetização podem ser enfrentados com mais eficácia e humanidade.
Em síntese, os desafios da alfabetização vão muito além da sala de aula. Eles envolvem fatores sociais, estruturais, políticos e pedagógicos que precisam ser enfrentados com seriedade e compromisso coletivo. O professor tem um papel central, mas não pode ser o único responsável pelo sucesso ou fracasso desse processo. É necessário que ele seja valorizado, apoiado e respeitado em sua missão de ensinar a ler e escrever com sentido e sensibilidade.
RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO
Para que o processo de alfabetização alcance resultados positivos, é indispensável que escola e família estejam em sintonia. O que se constrói dentro da sala de aula precisa ser reconhecido, incentivado e continuado no ambiente familiar. Quando a família valoriza a aprendizagem da criança, acompanhando sua evolução e oferecendo apoio emocional, o caminho para a construção da leitura e da escrita se torna mais sólido e efetivo.
Contudo, essa participação vai além de comparecer a reuniões escolares. É necessário criar um vínculo verdadeiro entre a escola e os responsáveis, em que ambos compartilham o compromisso com a formação integral da criança, reconhecendo que educar é uma tarefa coletiva.
Paro (2000) chama atenção para isso ao afirmar:
A participação dos pais no processo educativo não pode se restringir a comparecer a reuniões ou assinar boletins. É preciso construir uma relação de confiança e corresponsabilidade, em que família e escola se vejam como parceiras na formação do sujeito (Paro, 2000, p. 89).
Essa parceria só se torna real quando há diálogo, confiança e valorização mútua. A escola deve se abrir para ouvir as famílias, compreender suas realidades e envolvê-las nas decisões pedagógicas. Por sua vez, os pais precisam entender que sua presença e apoio são fundamentais para o avanço da criança, principalmente nos primeiros anos de escolarização, quando se está aprendendo a ler e escrever.
A formação da criança ultrapassa os limites da sala de aula. O comportamento, os valores e o interesse pela aprendizagem são influenciados diretamente pela convivência familiar. Quando a família caminha ao lado da escola, a alfabetização ganha sentido e se fortalece como um projeto de vida compartilhado.
Freire (1996), ao refletir sobre o papel da educação, aponta:
A escola sozinha não dá conta da formação integral do aluno. É fundamental que a família esteja envolvida, respeitando e apoiando o trabalho do professor. Essa aliança é vital para que a educação se realize em sua plenitude (Freire, 1996, p. 87).
Essa aliança que Freire defende é essencial para o sucesso da alfabetização. O professor precisa do apoio da família para desenvolver com segurança sua proposta pedagógica, assim como a criança precisa perceber que existe coerência entre aquilo que aprende na escola e o que vive em casa. Quando há respeito e valorização do trabalho docente por parte da família, a criança se sente motivada a aprender.
Por isso, é preciso quebrar barreiras entre escola e comunidade. Muitas vezes, há desconfiança ou distanciamento entre esses dois espaços. Mas quando se estabelece o diálogo e a escuta verdadeira, a relação se transforma e passa a ser de cooperação, de cuidado e de construção conjunta do saber.
Para alcançar essa relação de confiança, a comunicação entre escola e família precisa ser aberta e constante. Os educadores devem criar oportunidades para envolver os pais em atividades, ouvir suas preocupações e mostrar que a educação dos filhos também passa por eles.
Costa (2014) ressalta essa ideia ao afirmar:
A construção de vínculos entre escola e família requer abertura ao diálogo, escuta ativa e respeito mútuo. Quando os pais se sentem parte do processo educativo, tornam-se aliados da escola e influenciam positivamente a trajetória escolar de seus filhos (Costa, 2014, p. 109).
Quando os pais se sentem valorizados e acolhidos pela escola, passam a se envolver mais ativamente e com mais segurança no processo educativo. Essa aproximação fortalece o vínculo afetivo entre todos os envolvidos e contribui diretamente para o desempenho da criança, especialmente no processo de alfabetização, que exige acompanhamento e incentivo constante.
Portanto, é fundamental que o ambiente escolar promova ações que fortaleçam essa relação, reconhecendo a importância da família no processo de ensino-aprendizagem. A alfabetização, quando vivida como responsabilidade compartilhada, torna-se mais significativa e afetuosa, respeitando o ritmo da criança e celebrando, junto à escola e à família, cada avanço conquistado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A alfabetização na idade certa continua sendo um dos maiores desafios da prática docente, especialmente diante das desigualdades sociais, da falta de estrutura em muitas escolas e das múltiplas demandas enfrentadas pelos professores. No entanto, é também uma das tarefas mais nobres e transformadoras da educação, pois permite à criança acessar o mundo da leitura, da escrita e do conhecimento.
Ao longo deste trabalho, foi possível refletir sobre os fundamentos do processo de alfabetização, o papel essencial do planejamento pedagógico alinhado à BNCC, os obstáculos enfrentados no cotidiano escolar e a importância da parceria entre escola e família. Esses elementos estão profundamente interligados e exigem uma atuação sensível, planejada e colaborativa por parte de todos os envolvidos no processo educacional.
Mais do que ensinar letras e sons, alfabetizar é criar condições para que cada criança se reconheça como sujeito capaz de compreender e transformar o mundo. Para isso, é necessário respeitar o tempo de aprendizagem de cada aluno, promover práticas significativas e garantir que o ambiente escolar seja acolhedor, motivador e coerente com a realidade vivida pelos estudantes.
A missão de alfabetizar é complexa, mas possível, quando se tem compromisso, escuta e ações fundamentadas. Com o apoio da comunidade escolar, o envolvimento das famílias e a valorização do trabalho docente, é possível construir caminhos sólidos para que todas as crianças tenham o direito de aprender na idade certa e de forma significativa.
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