Funções executivas e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Implicações cognitivas e educacionais.

EXECUTIVE FUNCTIONS AND ATTENTION DEFICIT HYPERACTIVITY DISORDER (ADHD): COGNITIVE AND EDUCATIONAL IMPLICATIONS

FUNCIONES EJECUTIVAS Y TRASTORNO POR DÉFICIT DE ATENCIÓN CON HIPERACTIVIDAD (TDAH): IMPLICACIONES COGNITIVAS Y EDUCATIVAS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/7CDFB3

DOI

doi.org/10.63391/7CDFB3

Balbi, Lidinalva Fernandes Príncipe . Funções executivas e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Implicações cognitivas e educacionais.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) caracteriza-se por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que impactam o desenvolvimento acadêmico, social e emocional dos indivíduos. Entre os fatores cognitivos mais associados ao transtorno estão os déficits nas funções executivas, um conjunto de habilidades neuropsicológicas responsáveis pelo planejamento, autorregulação, memória de trabalho e controle inibitório. Este artigo tem como objetivo discutir as implicações cognitivas e educacionais das funções executivas em estudantes com TDAH, a partir de uma revisão teórica fundamentada em autores clássicos e contemporâneos, como Barkley (2020), Diamond (2013) e Rangel (2020). Os resultados da análise apontam que déficits executivos comprometem significativamente a aprendizagem escolar, exigindo adaptações pedagógicas e intervenções psicopedagógicas direcionadas. O artigo também explora a inter-relação entre as funções executivas e a memória de trabalho, enfatizando como a capacidade de manter e manipular informações temporárias é crucial para a execução eficaz das funções executivas. A demais, destaca a necessidade de intervenções que abordem as defasagens, as quais podem impactar negativamente o desempenho acadêmico e o bem estar geral dos estudantes. Em síntese, a promoção das funções executivas revela-se vital para o desenvolvimento humano, contribuindo para a formação de indivíduos resilientes e capacitados a enfrentar os desafios contemporâneos. Conclui-se que a compreensão da relação entre TDAH e funções executivas é fundamental para a implementação de práticas inclusivas que favoreçam a aprendizagem e o desenvolvimento integral dos estudantes.
Palavras-chave
TDAH; funções executivas; cognição; educação; inclusão escolar.

Summary

Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD) is characterized by persistent patterns of inattention, hyperactivity, and impulsivity, which impact individuals’ academic, social, and emotional development. Among the cognitive factors most associated with the disorder are deficits in executive functions, a set of neuropsychological skills responsible for planning, self-regulation, working memory, and inhibitory control. This article aims to discuss the cognitive and educational implications of executive functions in students with ADHD, based on a theoretical review grounded in classic and contemporary authors such as Barkley (2020), Diamond (2013), and Rangel (2020). The results of the analysis indicate that executive deficits significantly compromise academic learning, requiring pedagogical adaptations and targeted psychopedagogical interventions. The article also explores the interrelationship between executive functions and working memory, emphasizing how the ability to retain and manipulate temporary information is crucial for the effective execution of executive functions. Furthermore, it highlights the need for interventions that address these gaps, which can negatively impact students’ academic performance and overall well-being. In summary, promoting executive functions is vital for human development, contributing to the development of resilient individuals capable of facing contemporary challenges. It is concluded that understanding the relationship between ADHD and executive functions is fundamental to implementing inclusive practices that promote students’ learning and comprehensive development.
Keywords
ADHD; executive functions; cognition; education; school inclusion.

Resumen

El Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad (TDAH) se caracteriza por patrones persistentes de inatención, hiperactividad e impulsividad, que afectan el desarrollo académico, social y emocional de las personas. Entre los factores cognitivos más comúnmente asociados con este trastorno se encuentran los déficits en las funciones ejecutivas, un conjunto de habilidades neuropsicológicas responsables de la planificación, la autorregulación, la memoria de trabajo y el control inhibitorio. Este artículo analiza las implicaciones cognitivas y educativas de las funciones ejecutivas en estudiantes con TDAH, basándose en una revisión teórica fundamentada en autores clásicos y contemporáneos como Barkley (2020), Diamond (2013) y Rangel (2020). Los resultados del análisis indican que los déficits ejecutivos comprometen significativamente el aprendizaje académico, requiriendo adaptaciones pedagógicas e intervenciones psicopedagógicas específicas. El artículo también explora la interrelación entre las funciones ejecutivas y la memoria de trabajo, destacando cómo la capacidad de retener y manipular información temporal es crucial para el desempeño efectivo de las funciones ejecutivas. Además, se destaca la necesidad de intervenciones que aborden estas brechas, las cuales pueden afectar negativamente el rendimiento académico y el bienestar general de los estudiantes. En resumen, promover las funciones ejecutivas es vital para el desarrollo humano, contribuyendo al desarrollo de individuos resilientes capaces de afrontar los desafíos contemporáneos. Se concluye que comprender la relación entre el TDAH y las funciones ejecutivas es esencial para implementar prácticas inclusivas que promuevan el aprendizaje y el desarrollo integral de los estudiantes.
Palavras-clave
TDAH; funciones ejecutivas; cognición; educación; inclusión escolar.

INTRODUÇÃO

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais prevalentes na infância e adolescência, com continuidade em parte significativa da vida adulta (APA, 2014). Estima-se que entre 5% e 7% das crianças em idade escolar apresentem o transtorno, o que evidencia a relevância do tema para as políticas públicas educacionais e de saúde (Barkley, 2020).

No Brasil, o reconhecimento do TDAH como condição que demanda apoio educacional especializado ainda é um desafio, especialmente no contexto das escolas públicas. A ausência de formação específica para professores, a escassez de equipes multiprofissionais e a pouca articulação entre saúde e educação constituem barreiras para a inclusão escolar efetiva de estudantes com TDAH (Torres, 2020).

Nas últimas décadas, pesquisas vêm destacando o papel das funções executivas (FE) como um dos principais núcleos de prejuízo associados ao transtorno. Este artigo discute a relação entre FE e TDAH, com base em evidências recentes (2020-2025), analisando implicações cognitivas, comportamentais e educacionais, além de apontar perspectivas de intervenção multiprofissional.

Nesse cenário, compreender o papel das funções executivas é crucial, pois estas se apresentam como um dos principais déficits associados ao transtorno. Diamond (2013) destaca que funções executivas, como memória de trabalho, que é capacidade de reter e manipular informações por curto períodos; flexibilidade cognitiva, aptidão para mudar de perspectiva, adaptar-se a novas regras e estratégias e controle inibitório, habilidades de inibir respostas automáticas em prol de respostas mais adequadas são indispensáveis ao processo de aprendizagem formal. Quando comprometidas, podem afetar a aquisição de habilidades acadêmicas e a regulação do comportamento.

Essas funções de desenvolvem gradualmente desde a infância até o início da vida adulta, sendo altamente dependentes da maturação do córtex pré-frontal (Anderson, 2010). Quando comprometidas, como no TDAH, repercutem em dificuldades de autorregulação, planejamento e aprendizagem. 

Assim, este artigo busca analisar, sob perspectiva teórica, as implicações cognitivas e educacionais das funções executivas em estudantes com TDAH, refletindo sobre práticas pedagógicas inclusivas que possam favorecer sua aprendizagem e desenvolvimento integral.

METODOLOGIA 

Este artigo fundamenta-se em uma pesquisa de natureza qualitativa, uma vez que busca compreender em profundidade a relação entre funções executivas e TDAH, analisando suas implicações cognitivas e educacionais a partir de referenciais teóricos e evidências científicas. De acordo com Minayo (2016), a abordagem qualitativa é apropriada para investigações em que se pretende explorar fenômenos complexos, considerando múltiplas dimensões do objeto de estudo. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e exploratória. É bibliográfica porque se fundamenta em levantamento, leitura e análise crítica de livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais relacionados ao tema (Gil, 2019). É exploratória porque objetiva aprofundar a compreensão das funções executivas e as suas relações com o TDAH, oferecendo subsídios para a prática pedagógica inclusiva (Severino, 2018). 

A construção do corpus teórico envolveu três etapas principais: foram selecionados estudos clássicos e contemporâneos que abordam funções executivas, TDAH e as suas repercussões na aprendizagem; A busca concentrou-se em bases como SciELO, PePSIC, LILACS, CAPES Periódicos e em livros de referência na área da neuropsicologia, psicopedagogia e educação inclusiva. Foram incluídos trabalhos publicados entre 2020 e 2025, privilegiando valor científicos, revisões sistemáticas e meta-análises sobre funções executivas e TDAH. Excluíram-se publicações que abordam somente aspectos médicos/farmacológicos, sem articulação com a dimensão cognitiva ou educacional, visto que o foco do artigo está na interface entre funções executivas, implicações cognitivas e educacional.

O material coletado foi categorizado de acordo com três eixos: a) conceituação das funções executivas; b) déficits executivos no TDAH; c) implicações cognitivas e educacionais. A análise foi orientada pela técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), que permite identificar regularidades, contradições e inferências nos discursos dos autores selecionados.

Para garantir a confiabilidade do estudo, foram utilizados autores amplamente reconhecidos na literatura internacional (Barkley, Diamond, Willcutt) e nacional (Torres, Rangel), além de documentos oficiais como o DSM-5-TR (APA, 2014). Essa triangulação de fontes aumenta a validade interna da pesquisa, ao combinar evidências de diferentes contextos e perspectivas teóricas (Yin, 2016).

Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, o estudo não inclui dados empíricos coletados diretamente em campo. Dessa forma, a suas conclusões estão condicionadas às evidências já produzidas pela literatura, demandando cautela na generalização dos resultados. Entretanto, a amplitude e diversidade das fontes utilizadas conferem robustez à análise teórica apresentada.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

DEFINIÇÃO E COMPONENTES DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS

O TDAH é definido pelo DSM-5-TR (APA,2014), como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, presentes em pelo menos em dois contextos, casa, escola ou trabalho. Barkley (2020), reforça que o transtorno não deve ser entendido somente como um problema de atenção, mas como uma falha no funcionamento executivo, especialmente na capacidade de autocontrole. 

No contexto brasileiro, estudos como os de Rangel (2020), apontam que a escolarização de crianças com TDAH é frequentemente marcada por reprovações. Estigmatizados e encaminhamentos equivocados para sala de recursos ou instituições especializadas, quanto muitas vezes bastariam adaptações pedagógicas simples e suporte multiprofissionais. 

As funções executivas são entendidas como processos cognitivos de alto nível que regulam e coordenam pensamentos e comportamentos dirigidos a objetivos. Friedman e Miyake (2017) descrevem como mecanismos que, ao modular processos de nível inferior, possibilitam o planejamento, a autorregulação e a adaptação às demandas ambientais. Esse conceito já havia sido antecipado por Luria (1981 apud Bosa, 2001), que destacou o papel do córtex pré-frontal no planejamento de estratégias para resolução de problemas.

Autores clássicos como Banich (2009), Diamond (2013) e Jurado e Rosselli (2007 apud Friedman & Miyake, 2017) descrevem as funções executivas como um conjunto de habilidades que incluem planejamento, tomada de decisão, controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. Mais recentemente, Trossman et al. (2020) reforçam serem habilidades de autorregulação interrelacionadas, fundamentais para o engajamento em comportamentos intencionais e orientados a metas.

Corroborando com a ideia do autor, as funções executivas representam um conjunto crucial de habilidades cognitivas que desempenham um papel fundamental na regulação do comportamento, na tomada de decisões e na capacidade de aprendizagem. Essas habilidades permitem que indivíduos gerenciem os seus pensamentos, emoções e ações de maneira eficaz, adaptando-se a novas situações e desafios. Entre as funções executivas básicas, essenciais para o desenvolvimento cognitivo, com aplicação direta em estratégias didáticas, destaca-se a capacidade de reter e manipular informações, a habilidade de suprimir respostas impulsivas ou irrelevantes e a flexibilidade para ajustar o pensamento ou a abordagem perante novas informações ou mudanças no ambiente.

FUNÇÕES EXECUTIVAS E DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL

Pesquisas recentes demonstram que as funções executivas desempenham um papel decisivo no desempenho escolar e no desenvolvimento socioemocional. Segundo Kuhn, Willcough e Bierman (2021), déficits executivos estão diretamente relacionados as dificuldades em leitura, escrita e matemática, visto que essas habilidades dependem fortemente da memória de trabalho e do controle inibitório.

Torres (2020) observa que tais dificuldades resultam em trajetórias escolares fragmentadas, caracterizadas por notas baixas, repetências e elevado risco de evasão.

As implicações educacionais do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade exigem estratégias pedagógicas flexíveis, entre as práticas recomendadas estão: a divisão das tarefas em etapas menores; uso de instruções claras, diretas e repetidas quando necessários; disponibilização de apoio visual como: quadro, agenda, checklists; flexibilização do tempo para realização de provas e atividades. (APA, 2014; Rangel, 2020)

Além disso, a intervenção psicopedagógica tem se mostrado eficaz na estimulação de funções executivas, utilizando jogos cognitivos, atividades lúdicas e estratégias metacognitivas (Diamond, 2013). Articuladas entre escola, família e equipe multiprofissional que se configura como elemento central no processo de aprendizagem. 

Estudos longitudinais confirmam essa relação: crianças com TDAH e comprometimentos nas funções executivas apresentam maior risco de baixo desempenho acadêmico ao longo dos anos (Van Ewijk; Zwiers; Bouma, 2020). Zelazo, Anderson e Jacobson (2022) ressaltam que o desenvolvimento das funções executivas na infância e adolescência segue trajetórias específicas e que intervenções educacionais precoces podem favorecer a adaptação escolar e social.

DÉFICITS EXECUTIVOS NO TDAH

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade, frequentemente associados a déficits executivos. Rapport et al. (2023), em uma metanálise abrangente, identificaram que crianças e adolescentes com TDAH apresentam comprometimentos significativos em memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, os quais explicam, em parte, as dificuldades acadêmicas e comportamentais observadas em contexto escolar.

Essa perspectiva confirma que o TDAH não se restringe a um quadro de atenção dispersa, mas envolve alterações cognitivas profundas, que impactam diretamente os processos de aprendizagem e a adaptação educacional (Cheng et al., 2023).

Com base na literatura recente, diversas intervenções têm demonstrado eficácia no fortalecimento das funções executivas em crianças e adolescentes com TDAH. Uma revisão sistemática conduzida por Cheng et al. (2023) identificou efeitos moderados a grandes em programas de treinamento cognitivo, exercícios físicos, currículos específicos de Funções executivas, mindfulness e neurofeedback.

Yu et al. (2024) acrescentam que métodos de estimulação digital e esportiva são promissores para a melhoria de subcomponentes das funções executivas, ampliando o repertório de práticas pedagógicas que podem ser aplicadas no ambiente escolar. De forma complementar, Chen et al. (2025) mostram que intervenções digitais baseadas em jogos oferecem ganhos significativos na autorregulação e no desempenho acadêmico de estudantes com TDAH.

Aplicativos para dispositivos móveis e tablets têm se tornado ferramentas acessíveis e eficazes para a estimulação cognitiva. Eles oferecem jogos e exercícios projetados para trabalhar áreas específicas do cérebro, como memória, atenção, raciocínio lógico e solução de problemas. Além disso, os aplicativos de estimulação cognitiva podem ser personalizados de acordo com as necessidades individuais do usuário, adaptando-se ao seu nível de habilidade e fornecendo feedback imediato sobre o desempenho.

Estudos indicam que o uso de aplicativos de estimulação cognitiva pode ser eficaz no tratamento de condições como demência, Alzheimer, TDAH e lesões cerebrais traumáticas. Além disso, esses aplicativos têm sido utilizados em contextos educacionais, ajudando alunos a aprimorar habilidades cognitivas de maneira divertida e envolvente.

Esses achados reforçam a necessidade de que a escola não apenas reconheça os déficits executivos associados ao TDAH, mas também adote práticas pedagógicas e estratégias de ensino que estimulem tais habilidades.

Os resultados da literatura analisada indicam que os déficits em funções executivas constituem um dos principais fatores explicativos para as dificuldades acadêmicas e comportamentais de estudantes com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Essa relação, já apontada por Luria (1981) e reforçada por Diamond (2013), é amplamente confirmada em estudos recentes que demonstram a associação entre o TDAH e prejuízos significativos em memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva (Rapport et al., 2023).

A partir dessa perspectiva, torna-se evidente que as dificuldades escolares frequentemente atribuídas apenas à falta de atenção ou ao comportamento no TDAH são, na realidade, manifestações de déficits neurocognitivo mais profundos. Kuhn, Willcough e Bierman (2021) evidenciam que a aprendizagem em leitura, escrita e matemática depende fortemente de componentes executivos. Isso implica que os estudantes com TDAH não apenas enfrentam barreiras atencionais, mas também desafios estruturais em sua capacidade de organizar informações, manter metas em mente e inibir respostas inadequadas.

Os estudos longitudinais de Van Ewijk, Zwiers e Bouma (2020) reforçam essa compreensão ao demonstrar que déficits executivos são preditores consistentes de desempenho escolar insatisfatório ao longo do tempo. Em outras palavras, sem intervenções adequadas, as dificuldades tendem a se acumular e ampliar desigualdades acadêmicas. Nesse ponto, Zelazo, Anderson e Jacobson (2022) destacam a relevância de intervenções educacionais precoces, capazes de alterar trajetórias de desenvolvimento e promover maior adaptação socioemocional e acadêmica.

A literatura recente também evidencia que há alternativas eficazes para o fortalecimento das funções executivas em crianças e adolescentes com TDAH. As revisões de Cheng et al. (2023) e Yu et al. (2024) mostram que programas de intervenção não farmacológicos — como treinamento cognitivo, atividades físicas estruturadas, mindfulness, currículos específicos e jogos digitais — apresentam resultados positivos e sustentáveis na melhoria de funções executivas e no desempenho escolar. Complementarmente, Chen et al. (2025) confirmam que intervenções digitais baseadas em jogos oferecem não apenas ganhos cognitivos, mas também impacto positivo na motivação e no engajamento dos estudantes.

Do ponto de vista educacional, esses achados sugerem a necessidade de rever práticas pedagógicas tradicionais que pouco consideram os processos executivos. Estratégias como a instrução explícita de habilidades de autorregulação, a organização de rotinas claras, o uso de jogos pedagógicos digitais e a integração de atividade física ao currículo podem favorecer tanto o engajamento quanto o desenvolvimento das funções executivas, impactando diretamente o desempenho acadêmico e a inclusão escolar.

No contexto brasileiro, esse debate dialoga diretamente com as políticas públicas de educação inclusiva. Embora as legislações enfatizem o direito de acesso e permanência escolar para estudantes com TDAH, observa-se que ainda há lacunas significativas na formação docente e na implementação de estratégias pedagógicas baseadas em evidências científicas. Portanto, além de reforçar a necessidade de capacitação dos professores, os resultados sugerem a urgência de investimentos em metodologias inovadoras e em tecnologias educacionais que atendam às especificidades cognitivas dessa população.

Assim, a discussão converge para três pontos centrais:

Déficits executivos como núcleo das dificuldades educacionais no TDAH;

Eficácia de intervenções baseadas em evidências (2020–2025), que comprovam ganhos cognitivos e acadêmicos;

Desafio da transposição para a realidade escolar brasileira, que demanda políticas públicas mais efetivas, formação docente continuada e práticas pedagógicas inovadoras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo discutiu as funções executivas e sua relação com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), destacando as implicações cognitivas e educacionais. A partir da revisão teórica, verificou-se que as funções executivas, especialmente memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, são componentes fundamentais para a aprendizagem escolar e o desenvolvimento socioemocional. Déficits nessas funções explicam, em grande parte, as dificuldades persistentes vivenciadas por estudantes com TDAH, indo além dos sintomas de desatenção e hiperatividade.

Os estudos recentes (Kuhn; Willcough; Bierman, 2021; Rapport et al., 2023; Van Ewijk; Zwiers; Bouma, 2020) confirmam que prejuízos em funções executivas estão diretamente associados a baixo desempenho acadêmico e que tais dificuldades tendem a se agravar ao longo do tempo quando não há intervenções adequadas. Esse cenário reforça a importância de uma abordagem educacional que considere os aspectos neuropsicológicos do TDAH.

A literatura também aponta caminhos promissores: revisões sistemáticas e meta-análises (Cheng et al., 2023; Yu et al., 2024; Chen et al., 2025) evidenciam a eficácia de intervenções não farmacológicas — como treinamento cognitivo, currículos voltados às funções executivas, atividades físicas estruturadas, práticas de mindfulness e jogos digitais, na melhoria das funções executivas e, consequentemente, no desempenho escolar.

Diante desse panorama, algumas recomendações emergem:

Para os professores: adotar metodologias que estimulem a autorregulação e a autonomia do estudante, como rotinas organizadas, instruções claras, uso de recursos visuais, gamificação e integração de atividades físicas às práticas pedagógicas.

Para as escolas: investir em formações continuadas voltadas ao TDAH e às funções executivas, além de implementar práticas pedagógicas baseadas em evidências científicas, garantindo que os estudantes tenham oportunidades de desenvolver habilidades cognitivas essenciais para a aprendizagem.

Para as políticas públicas: ampliar o suporte às escolas públicas, garantindo recursos, formação docente e acesso a tecnologias educacionais inovadoras que auxiliem no fortalecimento das funções executivas em estudantes com TDAH, contribuindo para sua inclusão efetiva.

Conclui-se que compreender e intervir sobre as funções executivas é um passo decisivo para promover não apenas o desempenho escolar, mas também o desenvolvimento integral e a inclusão social de crianças e adolescentes com TDAH. Ao alinhar os avanços da neurociência cognitiva às práticas pedagógicas, abre-se um caminho para transformar desafios em possibilidades, tornando a escola um espaço verdadeiramente inclusivo e equitativo.

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Referencias

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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Funções executivas e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Implicações cognitivas e educacionais.

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