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Resumo
INTRODUÇÃO
O ensino de Língua Inglesa em escolas públicas no Brasil vem demonstrando ser insuficiente para o aprendizado integral do estudante, especialmente no que diz respeito às quatro habilidades linguísticas. Pucci (2019) afirma que existem discursos presentes no senso comum que apontam para uma ineficácia do ensino de inglês na escola pública. Corroborando esse discurso, o British Council, em 2013, constatou que apenas 5,1% dos brasileiros com 16 anos ou mais possuíam algum conhecimento de língua inglesa.
No tocante às escolas públicas, o cerne do problema pode estar não somente na metodologia de ensino escolhida pelo profissional docente, mas também em outros fatores que impactam diretamente o processo de ensino-aprendizagem. É possível citar, como exemplo, a falta de recursos na escola, a infraestrutura inadequada para a criação de um ambiente de aprendizado apropriado, tempo escasso de ensino, superlotação de sala de aula, material didático descompassado com o nível da turma e com conteúdos que, por vezes, carecem de relevância e significado para os estudantes, comprometendo seu engajamento e a eficácia do processo de ensino-aprendizagem.
Essa realidade contribui para o agravamento de um desafio cada vez mais presente: a inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais (NEEs) nas aulas de Língua Inglesa. Afinal, nesse contexto, faz-se necessário não apenas adaptar o currículo, mas também oferecer formação docente adequada e garantir a disponibilidade de recursos didáticos. Embora existam políticas públicas que asseguram a educação inclusiva nas escolas públicas — como, por exemplo, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) —, muitos professores enfrentam dificuldades na aplicação prática dessas diretrizes. Paiva (2022) reforça essa constatação em um estudo realizado com docentes de escolas de idiomas, as quais, em muitos casos, dispõem de mais recursos financeiros para a aquisição de materiais adequados aos alunos com NEEs do que as escolas da rede pública.
Ante o exposto, o profissional docente da rede pública encontra, diante de si, um enorme desafio que gera questionamentos quanto à execução assertiva do processo de ensino-aprendizagem de inglês para os estudantes regulares e, com ainda mais complexidade, para estudantes com necessidades educacionais especiais (NEEs). Tais questionamentos dizem respeito ao grau em que as práticas metodológicas, os materiais didáticos disponíveis e a formação de cada professor estão alinhados às necessidades reais dos estudantes com NEEs inseridos na rede pública de ensino.
Por essa razão, este trabalho tem como objetivo investigar os principais desafios enfrentados no processo de ensino-aprendizagem de inglês voltado a alunos com NEEs, bem como identificar estratégias pedagógicas presentes na literatura que possam ser adaptadas à realidade do ensino público. A partir disso, formulam-se as seguintes questões norteadoras: Quais são os maiores obstáculos enfrentados pelos docentes de inglês ao promover a inclusão de alunos com NEEs? Que estratégias pedagógicas vêm sendo discutidas na literatura acadêmica como alternativas para um ensino mais inclusivo e eficaz?
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, uma vez que se fundamenta na análise de produções acadêmicas já publicadas, tais como livros, artigos científicos, dissertações e teses, com vistas a compreender os principais desafios e possibilidades relacionados à inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais (NEEs) no ensino de língua inglesa em escolas públicas.
De acordo com Gil (2017), a pesquisa bibliográfica permite ao pesquisador o contato com uma ampla variedade de estudos que já trataram do tema em questão, possibilitando uma análise mais aprofundada, crítica e contextualizada. Lakatos e Marconi (2003) ressaltam que a revisão bibliográfica é essencial para a delimitação do problema, formulação de hipóteses e embasamento teórico-metodológico de qualquer investigação científica.
A elaboração da metodologia seguiu as seguintes etapas: (1) levantamento do referencial teórico utilizando palavras-chave como “ensino de inglês”, “educação inclusiva”, “alunos com necessidades especiais” e “práticas pedagógicas inclusivas”; (2) seleção de materiais pertinentes, considerando a relevância, atualidade e relação com os objetivos da pesquisa; (3) leitura crítica das obras escolhidas; (4) análise e categorização dos dados encontrados conforme as questões norteadoras do estudo.
APORTE TEÓRICO
A educação inclusiva é um direito garantido a todos os brasileiros, assegurado na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil 2008), que preconiza o ingresso de estudantes NEEs nas escolas públicas regulares. A esses estudantes são garantidos a superação de obstáculos físicos, pedagógicos e atitudinais que eventualmente os impeçam de alcançar bons resultados no processo de ensino-aprendizagem.
Uma experiência concreta de adaptação no ensino de inglês pode ser observada no estudo de Araújo, Saraiva e Tiraboschi (2020), que acompanhou um aluno com baixa acuidade visual em uma escola pública. O estudo mostra que, mesmo com recursos simples, o professor foi capaz de ajustar suas estratégias para garantir a participação efetiva do aluno. Os autores destacam que “nota-se, nesta atividade, a preocupação do docente em fazer com que as limitações do aluno fossem atendidas e que ele conseguisse realizar as atividades de maneira autônoma” (p. 10). Isso demonstra que ações pedagógicas planejadas com intencionalidade, sensibilidade e conhecimento do perfil do aluno podem contribuir para uma prática inclusiva, mesmo em contextos escolares com limitações estruturais.
No entanto, essa não é a realidade encontrada em muitas escolas. Mantoan (2015) assevera que a mera presença física do estudante em sala não assegura sua inclusão. A autora também afirma que a escola tradicional apresenta dificuldade em adaptar suas práticas pedagógicas à inclusão dos alunos NEEs, chegando ao ponto de questionar a aplicação prática de uma das funções primordiais da escola: promover a consciência cidadã no corpo discente. Dessa forma, a inclusão envolve um ambiente escolar amparador, formação contínua e especializada para o professor, bem como práticas pedagógicas sensíveis e flexíveis.
Concernente ao ensino de inglês há desafios ainda mais consideráveis, pois se trata de disciplina que raramente é dominada pelos professores de apoio que acompanham o estudante dando-lhe auxílio pedagógico. Vale ressaltar que existem casos em que esse profissional não é disponibilizado para acompanhar o estudante no processo de aprendizagem. Em ambos os casos, o estudante fica restringido do conhecimento dessa área específica.
Diante desse cenário, é importante pensar em maneiras diferentes de ensinar inglês, que ajudem todos os alunos a aprender, incluindo aqueles com NEEs. Uma dessas formas é utilizar atividades que envolvam os sentidos, como a visão, a audição e o movimento. Essas estratégias podem tornar as aulas mais interessantes e facilitar o entendimento dos conteúdos. A seguir, serão apresentadas algumas dessas práticas com base em estudos da área.
ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS ATRAVÉS DOS SENTIDOS
O MOVIMENTO – TATO
A teoria de Vygotsky (1991) mostra que os alunos aprendem melhor quando têm ajuda de alguém mais experiente, como um professor ou colega. Essa ajuda acontece na chamada “zona de desenvolvimento proximal”, que é o espaço entre o que o aluno consegue fazer sozinho e o que ele só consegue fazer com apoio. No caso dos estudantes com NEEs, esse apoio é ainda mais importante. O professor precisa mediar a aprendizagem de forma mais cuidadosa, usando estratégias que respeitem as dificuldades e potencialidades de cada aluno. Por isso, a interação entre professor e estudante é essencial para que todos tenham chances reais de aprender.
Uma forma de colocar essa teoria em prática é com o método Total Physical Response (TPR) desenvolvido por Asher (Apud Richards and Rodgers 2014), que usa movimentos do corpo para ensinar inglês. Com esse método, os alunos aprendem palavras e frases por meio de ações, como levantar a mão, andar ou pegar um objeto. O TPR parte da ideia de que os alunos aprendem melhor quando conseguem relacionar o que ouvem com ações concretas. Assim, eles não precisam falar logo no início, mas podem participar das atividades seguindo comandos simples e usando o corpo. Isso ajuda a diminuir a pressão de falar inglês e torna o processo mais leve.
A IMAGEM – VISÃO
O uso de imagens, como parte dos apoios visuais, tem se mostrado uma estratégia eficaz para auxiliar crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em atividades escolares e rotinas do dia a dia. Segundo Meadan et al. (2011), “professores utilizam os apoios visuais principalmente para melhorar a compreensão da linguagem, preparar os alunos para mudanças no ambiente e auxiliar na realização de tarefas específicas.” (p. 29, tradução livre). Esses recursos permitem que os estudantes antecipem atividades, compreendam regras e se organizem de forma mais independente, o que é especialmente benéfico para aqueles que enfrentam dificuldades de comunicação e comportamento.
Além disso, os autores destacam que “algumas pessoas com TEA compreendem com mais facilidade os apoios visuais do que outros modos de comunicação.” (p. 29, tradução livre), indicando que os recursos visuais não apenas facilitam o acesso à informação, mas também promovem maior engajamento na aprendizagem. Fotografias, desenhos e objetos reais podem ser utilizados conforme a necessidade individual dos alunos, oferecendo um meio acessível e eficaz de construir sentido e promover a autonomia no ambiente escolar.
A MÚSICA – AUDIÇÃO
De acordo com Gobbi (2001), a música atua como uma estratégia afetiva, influenciando positivamente variáveis emocionais como ansiedade, autoestima, motivação e interação social – aspectos fundamentais para a aprendizagem da língua. Além disso, por suas características relacionadas ao ritmo e melodia, há um favorecimento da internalização e memorização de vocabulário e estruturas linguísticas, o que pode ocorrer de forma espontânea, mesmo quando o estudante não pratica ativamente a fala. Em outras palavras, isso significa que, ao ouvir músicas em inglês, os alunos são estimulados de maneira lúdica e prazerosa, o que facilita a assimilação de conteúdo sem a pressão típica de métodos tradicionais de memorização mecânica de vocábulos.
Salvaña e Protacio (2025) destacam que a atuação inclusiva dos professores de inglês está diretamente relacionada à sua capacidade de compreender as necessidades específicas dos alunos com deficiência e ajustar o ensino com base nesse conhecimento. Ao acompanhar práticas docentes em sala de aula, os autores observaram que adaptações bem-sucedidas surgem quando o professor leva em consideração as características dos estudantes e propõe estratégias coerentes com seus perfis. Isso reforça a ideia de que, mesmo em contextos com poucos recursos, o planejamento pedagógico sensível pode tornar o ensino mais acessível e significativo.
DISCUSSÕES
Apesar dos estudos que apresentam estratégias pedagógicas para se trabalhar com estudantes NEEs, a presença deles nas aulas de inglês exige adaptações ainda mais criteriosas. Paiva (2022), em estudo com docentes de escolas de idiomas, verificou que mesmo em instituições com melhores recursos, os professores sentem-se despreparados para lidar com as necessidades desses alunos. Nas escolas públicas, esse despreparo é potencializado por restrições orçamentárias, falta de formação específica e, em alguns casos, ausência de suporte especializado.
Mas o que fazer apesar dessas restrições? No caso da ausência de formação específica, uma estratégia viável é o investimento individual em formação continuada por meio de cursos online gratuitos, webinars, grupos de estudo e materiais produzidos por instituições confiáveis, como universidades públicas, associações de professores (ex.: APLIESP, BRAZ-TESOL) e órgãos do próprio MEC. Mesmo que não substituam uma formação inicial adequada, essas alternativas contribuem para ampliar o repertório pedagógico do docente e possibilitam o contato com práticas inclusivas atualizadas.
Além disso, a troca de experiências com outros professores que já atuam com alunos com NEEs pode servir como importante ferramenta de aprendizagem colaborativa. A construção de uma rede de apoio entre colegas e o uso de recursos de acesso aberto favorecem o desenvolvimento de práticas mais sensíveis à diversidade, mesmo em contextos marcados por limitações.
No tocante as restrições orçamentárias, o profissional de Língua Inglesa pode optar por alternativas menos custosas e simples. O desenvolvimento de atividades multissensoriais, propostas por Vygotsky (1991), e discutidas anteriormente, é uma dessas alternativas, pois facilita o entendimento, principalmente para alunos que têm dificuldade em aprender apenas ouvindo ou lendo. O método de ensino TPR, desenvolvido por Asher, é um modo de colocar em prática a teoria de Vygotsky nas aulas de Língua Inglesa. Esse método permite que o professor acompanhe de perto o que os alunos estão conseguindo fazer, oferecendo ajuda quando necessário, criando um ambiente mais participativo e acessível para estudantes com NEEs, e ajudando a desenvolver a aprendizagem de forma mais eficaz e inclusiva. Ele pode ser eficaz no ensino de Inglês, pois respeita o tempo de cada um, oferece estímulos diferentes (visuais e físicos) e facilita o entendimento. Além disso, o TPR pode ser usado mesmo em escolas com poucos recursos, já que muitas das atividades envolvem apenas o corpo e objetos comuns do dia a dia.
Outra estratégia que pode ser usada pelo professor em sala de aula é o uso das imagens no ensino da língua. A teoria de Meadan et al. (2011) sobre o uso de imagens na prática docente destaca que esse recurso pode ajudar os alunos a entender melhor os conteúdos e a se comunicar, especialmente quando há dificuldades com a linguagem verbal. No caso do ensino de inglês em escolas públicas com poucos recursos financeiros, as imagens se mostram uma alternativa viável, pois podem ser encontradas em materiais acessíveis como livros, revistas, cartazes e vídeos, ou até produzidas pelos próprios alunos e professores. Além disso, seguem os autores, as imagens ajudam a ligar o que os estudantes já sabem com os novos conteúdos o que acaba facilitando a aprendizagem de palavras, frases e aspectos culturais da língua. Elas também tornam a aula mais interessante e incentivam a participação dos alunos, o que é importante no trabalho com estudantes com NEEs, que muitas vezes aprendem melhor com estímulos visuais.
Ainda em relação a alternativas de baixo custo que podem ser trabalhadas com estudantes com NEEs em escolas públicas, é possível mencionar a inserção de músicas para o aprendizado de vocabulário e estruturas gramaticais como discutido anteriormente no trabalho de Gobbi (2001). A música facilita o contato com estruturas linguísticas básicas, vocabulário e pronúncia, de maneira lúdica e acessível. Para estudantes com deficiência intelectual, TDAH ou TEA, por exemplo, o ritmo e a repetição das canções podem ajudar na retenção de palavras e frases e na organização da linguagem. Além disso, o uso de músicas pode mitigar a ansiedade, criar um ambiente mais acolhedor e fomentar a interação social – o que favorece a inclusão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inclusão de estudantes com NEE no ensino de Língua Inglesa representa um desafio significativo, especialmente em escolas públicas com limitações orçamentárias, pedagógicas e formativas. Os dados analisados demonstram que, embora existam políticas voltadas à educação inclusiva, sua efetivação na prática ainda enfrenta desafios como a ausência de profissionais especializados, a escassez de recursos e a escassa formação docente.
Diante desse cenário, o presente trabalho reforça a importância de estratégias pedagógicas acessíveis e multissensoriais, como o uso da música, das imagens e de metodologias baseadas no movimento, que favorecem o engajamento e a compreensão de conteúdos por parte dos alunos com NEE. Tais estratégias se mostram viáveis mesmo em contextos de baixos recursos, o que as torna especialmente relevantes para a realidade das escolas públicas brasileiras.
Para que essas estratégias possam ser realmente úteis na prática, é possível que professores comecem a aplicá-las de forma simples no dia a dia da sala de aula incorporadas na sua metodologia de ensino. Por exemplo, ao ensinar novas palavras, o professor pode usar imagens feitas pelos próprios alunos ou retiradas de revistas, ou ainda utilizar músicas com vocabulário acessível para praticar a pronúncia. Atividades com comandos físicos, como as propostas pelo método TPR, também podem ser implementadas sem a necessidade de materiais caros, apenas com o uso do corpo e da movimentação no espaço da sala
Essas práticas podem ser testadas em turmas regulares que incluam alunos com NEE, observando-se como esses estudantes reagem, participam e aprendem ao longo do tempo. A partir dessas observações, sugere-se que os professores ajustem as atividades conforme as necessidades da turma. Além disso, registrar os resultados por meio de portfólios, relatórios ou conversas com os alunos e suas famílias pode ajudar a avaliar se as estratégias estão realmente funcionando.
Conclui-se, portanto, que a formação continuada do professor (mesmo que por iniciativa própria e não institucionalizada), a criatividade na escolha de recursos e o compromisso com uma prática pedagógica inclusiva são elementos-chave para tornar o ensino de inglês mais acessível e significativo a todos os estudantes, respeitando suas individualidades e ampliando suas oportunidades de aprendizagem.
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