A evolução da pornografia no Brasil

THE EVOLUTION OF PORNOGRAPHY IN BRAZIL

LA EVOLUCIÓN DE LA PORNOGRAFÍA EN BRASIL

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/2AB70D

DOI

doi.org/10.63391/2AB70D

Melchor, Iara Azarias Maximo. A evolução da pornografia no Brasil. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo oferece uma análise crítica da trajetória da pornografia no Brasil, traçando sua evolução desde as manifestações subterrâneas do período colonial até sua massificação na era digital contemporânea. Com uma abordagem teórico-bibliográfica e fundamentação na hermenêutica crítica, o estudo investiga os profundos impactos socioculturais da pornografia, seus efeitos na formação de subjetividades e as complexas implicações éticas e políticas de seu consumo, com foco especial no público jovem. Dialogando com pensadores como Michel Foucault, Zygmunt Bauman, Guy Debord e Paula Sibilia, o trabalho busca compreender como a pornografia não apenas reflete, mas também molda as relações de poder, desejo e identidade na sociedade brasileira. O objetivo é desvelar as camadas que conectam a produção e o consumo de pornografia às dinâmicas sociais mais amplas, contribuindo para um debate mais informado e crítico sobre o tema.
Palavras-chave
pornografia;sexualidade; sociedade brasileira; cultura digital; educação sexual.

Summary

This article offers a critical analysis of the trajectory of pornography in Brazil, tracing its evolution from underground manifestations in the colonial period to its massification in the contemporary digital age. Employing a theoretical-bibliographical approach and grounded in critical hermeneutics, the study investigates the profound sociocultural impacts of pornography, its effects on the formation of subjectivities, and the complex ethical and political implications of its consumption, with a special focus on young audiences. Engaging with thinkers such as Michel Foucault, Zygmunt Bauman, Guy Debord, and Paula Sibilia, this work aims to understand how pornography not only reflects but also shapes power relations, desire, and identity in Brazilian society. The objective is to unveil the layers connecting the production and consumption of pornography to broader social dynamics, contributing to a more informed and critical debate on the topic.
Keywords
pornography; sexuality; brazilian society; digital culture; sex education.

Resumen

Este artículo ofrece un análisis crítico de la trayectoria de la pornografía en Brasil, rastreando su evolución desde las manifestaciones clandestinas del período colonial hasta su masificación en la era digital contemporánea. Con un enfoque teórico-bibliográfico y fundamentado en la hermenéutica crítica, el estudio investiga los profundos impactos socioculturales de la pornografía, sus efectos en la formación de subjetividades y las complejas implicaciones éticas y políticas de su consumo, con un enfoque especial en el público joven. Dialogando con pensadores como Michel Foucault, Zygmunt Bauman, Guy Debord y Paula Sibilia, el trabajo busca comprender cómo la pornografía no solo refleja, sino que también moldea las relaciones de poder, deseo e identidad en la sociedad brasileña. El objetivo es desvelar las capas que conectan la producción y el consumo de pornografía con dinámicas sociales más amplias, contribuyendo a un debate más informado y crítico sobre el tema.
Palavras-clave
pornografía; sexualidad; sociedad brasileña; cultura digital; educación sexual.

INTRODUÇÃO

A pornografia configura-se como um fenômeno cultural complexo, cujas manifestações atravessam os tempos e os contextos socioculturais. Ainda que muitas vezes associada exclusivamente à era digital e aos avanços tecnológicos contemporâneos, suas origens remontam às primeiras representações artísticas da humanidade, nas quais o erotismo já se fazia presente como forma de expressão simbólica e ritualística. No cenário brasileiro, a trajetória da pornografia reflete uma interseção densa entre normas sociais, moralidades hegemônicas, transformações políticas e inovações midiáticas.

Mais do que um produto de consumo, a pornografia constitui-se como construção histórica e discursiva, que influencia e é influenciada por valores culturais, estruturas de poder, dinâmicas econômicas e práticas cotidianas. Nesse sentido, a presente análise propõe uma abordagem crítica da evolução da pornografia no Brasil, com ênfase em suas diferentes fases e repercussões socioculturais, sobretudo nas últimas décadas. Parte-se da premissa de que compreender a pornografia é compreender também os modos como o corpo, o desejo e a sexualidade são moldados socialmente.

Para tanto, recorre-se a um diálogo interdisciplinar com autores clássicos e contemporâneos — como Foucault, Bauman, Debord e Sibilia —, cuja contribuição teórica permite aprofundar a reflexão sobre os sentidos atribuídos à pornografia, bem como os seus efeitos subjetivos, sociais e políticos no contexto nacional.

DESENVOLVIMENTO

OS PRIMÓRDIOS DA PORNOGRAFIA NO BRASIL

Durante os períodos colonial e imperial, a sexualidade no Brasil era rigidamente controlada por valores religiosos, especialmente os dogmas católicos trazidos pelos colonizadores portugueses. A repressão moral imposta pelas instituições religiosas e pelo Estado não eliminava o erotismo da vida social, mas o empurrava para espaços simbólicos, velados e periféricos.

Apesar das tentativas de controle, manifestações eróticas emergiram nas festas populares, nos rituais afro-brasileiros e nas narrativas orais transmitidas entre gerações. A convivência entre culturas indígenas, africanas e europeias possibilitou a circulação de práticas corporais e compreensões do desejo que escapavam ao moralismo dominante.

Como afirma Foucault (2009), “o poder não reprime, mas produz discursos sobre o sexo”. Ou seja, ainda que disfarçada ou interditada, a sexualidade sempre esteve presente como tema político e cultural, sendo regulada por instituições que a nomeavam, catalogavam e enquadravam dentro de uma lógica disciplinar. A pornografia, nesse cenário, existia como forma subterrânea de resistência simbólica e prazer privado.

PORNOGRAFIA IMPRESSA E O “BOOM” DO SÉCULO XX

O desenvolvimento da imprensa, aliado à urbanização e ao crescimento da classe média, possibilitou uma nova etapa na visibilidade da pornografia no Brasil. A partir da década de 1950, revistas como O Cruzeiro, Status, Ele e Ela e Sexy passaram a explorar o erotismo de forma mais explícita, desafiando os limites da moral pública, ainda que sob constante ameaça da censura estatal, especialmente durante o regime militar.

Esse processo marcou uma inflexão na maneira como o conteúdo pornográfico era consumido: de um objeto clandestino, passou a ocupar as bancas e circular amplamente entre leitores urbanos. Como observa Russo (2012), “a pornografia impressa representou um divisor de águas ao aproximar o erotismo da esfera pública, desafiando os limites do aceitável e do proibido”.

Ao mesmo tempo, essa fase consolidou uma imagem estereotipada da mulher — hipersexualizada, passiva e objetificada — que seria amplamente reproduzida nas décadas seguintes. A pornografia impressa não apenas refletia desejos, mas também moldava imaginários e reforçava desigualdades de gênero e padrões normativos de beleza e comportamento.

A EXPLOSÃO DA PORNOGRAFIA NOS ANOS 1980 E 1990

Com o fim da ditadura militar (1964–1985) e o processo de redemocratização, o Brasil vivenciou um período de maior liberdade de expressão. A flexibilização da censura e o avanço da tecnologia — sobretudo com a popularização do videocassete — possibilitaram a produção e o consumo em larga escala de filmes pornográficos nacionais.

Nesse contexto, destaca-se a “pornochanchada”, gênero cinematográfico que mesclava humor, crítica social e erotismo, consolidando-se como uma das principais formas de pornografia da época. Atrizes como Rita Cadillac e Gretchen se tornaram ícones culturais, simbolizando ao mesmo tempo a liberdade sexual e a mercantilização do corpo feminino.

Sibilia (2008) argumenta que “a intimidade começou a ser explorada como espetáculo, antecipando o que hoje se vê na internet e nas redes sociais”. A pornografia, portanto, deixava de ser apenas um produto marginalizado e passava a ocupar um espaço legítimo no entretenimento popular, contribuindo para a espetacularização da sexualidade e a estetização do desejo.

A INTERNET E A ERA DA PORNOGRAFIA DIGITAL

A partir dos anos 2000, a internet revolucionou o acesso à pornografia, tornando-o instantâneo, gratuito e praticamente irrestrito. Plataformas como XVideos, PornHub, OnlyFans e redes sociais ampliaram exponencialmente a produção, a diversidade e o consumo de conteúdos adultos, além de promoverem o surgimento de um mercado amador e autogerido por usuários.

No Brasil, essa transformação impactou especialmente crianças e adolescentes, expostos precocemente à pornografia sem filtros, mediações ou orientações críticas. Segundo estudos recentes, a idade média de primeiro contato com conteúdos pornográficos gira em torno dos 10 anos (OLIVEIRA, 2020), revelando uma grave lacuna na educação sexual e na regulamentação digital.

Bauman (2004) alerta para os riscos de uma sociedade marcada pela fluidez dos vínculos e pela lógica do consumo imediato: “a liquidez das relações humanas transforma o outro em objeto de desejo momentâneo e descartável”. Nesse cenário, a pornografia digital intensifica padrões irrealistas de beleza e performance, contribuindo para frustrações afetivas, solidão emocional e práticas sexuais descoladas do afeto, do cuidado e do consentimento.

IMPACTOS SOCIOCULTURAIS E DESAFIOS ATUAIS

A presença maciça da pornografia na sociedade contemporânea, especialmente em ambientes digitais, suscita uma série de questões éticas, sociais e educacionais. Dentre os principais impactos, destacam-se: a objetificação sistemática dos corpos — sobretudo femininos —, a banalização da violência sexual, a erotização precoce de crianças e adolescentes, e a disseminação de estereótipos de gênero.

Debord (1997), ao discutir a lógica do espetáculo, observa que “o espetáculo é a principal produção da sociedade moderna, não apenas como entretenimento, mas como forma de mediação social”. A pornografia, enquanto produto cultural, atua como um desses espetáculos, moldando subjetividades e naturalizando formas de dominação simbólica.

A ausência de políticas públicas efetivas, a carência de uma educação sexual emancipadora e o silêncio institucional sobre os impactos da pornografia agravam ainda mais o cenário. A escola, muitas vezes limitada por tabus e resistências culturais, não assume sua função formativa nesse campo. A família, por sua vez, também se mostra despreparada. Já o Estado falha ao não regulamentar de forma eficaz as plataformas digitais, permitindo a permanência e a propagação de conteúdos nocivos, inclusive envolvendo pornografia infantil.

Frente a esse panorama, torna-se urgente a criação de políticas intersetoriais que articulem educação, saúde, cultura e tecnologia, com foco na proteção integral de crianças e adolescentes e no fortalecimento de uma cultura do respeito, da ética e do cuidado com o corpo e a sexualidade.

METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como de natureza qualitativa, com abordagem teórico-bibliográfica, pautada nos pressupostos da hermenêutica crítica. Essa metodologia busca interpretar os sentidos e significados atribuídos à pornografia em diferentes momentos históricos, compreendendo suas implicações simbólicas, políticas, sociais e culturais no contexto brasileiro. As fontes utilizadas incluem obras clássicas e contemporâneas das ciências humanas e sociais, artigos acadêmicos, documentos institucionais e materiais de mídia, possibilitando uma abordagem interdisciplinar.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise histórica e sociológica revela que a pornografia no Brasil passou de uma manifestação marginalizada a um fenômeno massificado e naturalizado, especialmente com o advento da era digital. As transformações tecnológicas e culturais intensificaram a exposição precoce à pornografia, impactando negativamente a construção da sexualidade e das relações interpessoais. Observa-se que, enquanto a pornografia democratizou o acesso à representação do desejo, também reforçou estereótipos de gênero e aprofundou desigualdades simbólicas, exigindo intervenções críticas e educativas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória da pornografia no Brasil, desde suas formas veladas até sua consolidação como fenômeno midiático e digital, revela muito mais do que mudanças tecnológicas ou de costumes: evidencia disputas simbólicas, normativas e políticas em torno da sexualidade, do corpo e da liberdade. Ao longo das décadas, a pornografia passou de expressão marginalizada a produto amplamente acessível, incorporando-se à lógica do consumo e da espetacularização típica da sociedade contemporânea.

Contudo, o crescimento exponencial do acesso à pornografia — especialmente entre crianças e adolescentes — impõe sérios desafios éticos, educacionais e sociais. Quando desvinculada de responsabilidade, criticidade e mediação, a liberdade de consumo pode converter-se em um instrumento de alienação, perpetuando violências simbólicas, desigualdades de gênero e expectativas distorcidas sobre o prazer e o relacionamento humano.

Conforme discutido ao longo deste trabalho, a pornografia não é um fenômeno isolado: ela se insere em redes discursivas mais amplas que moldam a subjetividade, a identidade sexual e os valores de uma sociedade. Pensadores como Foucault, Bauman, Debord e Sibilia ajudam a compreender que o modo como lidamos com a sexualidade reflete, em grande medida, os mecanismos de poder, vigilância e normatização que operam sobre os corpos e desejos.

Diante desse cenário, torna-se urgente a implementação de políticas públicas que articulem educação sexual crítica, regulação do conteúdo digital e proteção integral de crianças e adolescentes. A escola, a família e o Estado devem assumir uma postura ativa na construção de espaços dialógicos que promovam o respeito, a ética e a autonomia, superando os tabus que ainda dificultam o enfrentamento consciente e responsável do tema.

Por fim, este estudo defende que a verdadeira liberdade não se realiza no consumo irrestrito ou na permissividade desenfreada, mas na capacidade de refletir, escolher e agir com responsabilidade social e consciência ética. A educação, o pensamento crítico e o diálogo plural são caminhos indispensáveis para transformar a liberdade em bem comum — e não em privilégio individual nem em ferramenta de opressão disfarçada de desejo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade – Vol. I: A vontade de saber. São Paulo: Graal, 2009.

SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

RUSSO, Jane. Pornografia e sexualidade: novas formas de ver e desejar. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, 2012.

OLIVEIRA, Luiz. Pornografia e sociedade: uma análise crítica da cultura de massa. Revista de Ciências Sociais, 2020.

BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.

Melchor, Iara Azarias Maximo. A evolução da pornografia no Brasil.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Edição

v. 5
n. 49
A evolução da pornografia no Brasil

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