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Resumo
INTRODUÇÃO
Muitos tipos de transtornos ou psicopatologias podem se manifestar durante a etapa do desenvolvimento infantil (Cabral, Falcke & Marin, 2021). Um dos transtornos que possui maior incidência na infância é o transtorno do espectro autista o qual pode manifestar nos primeiros anos de vida dos sujeitos e, por isso, é diagnosticado antes ou durante o processo de formação humana desenvolvido na educação infantil (Weizenmann, Pezzi & Zanon, 2020). Esse tipo de transtorno, de acordo com Sampietri e Borges (2020), degenera uma série de limitações comportamentais, emocionais, gestuais, motoras, relacionais, verbais, sociais e outras, as quais interferem diretamente no desenvolvimento integral da criança.
Barlow (2016), menciona que o processo de desenvolvimento humano perpassa pelas estruturas neuropsicológicas dos sujeitos humanos, o que significa dizer que a presença de algum tipo de transtorno do neurodesenvolvimento, a exemplo do TEA, trará reverberações limitantes para o desenvolvimento pleno dos sujeitos, dificultando o processo de aprendizagem de diferentes tipos de habilidades. De acordo com o DSM-5, duas características representam o TEA, sendo elas os déficits persistentes de comunicação e interação social em contextos distintos e os comportamentos repetitivos e restritos (APA, 2014). Sampietri e Borges (2020), mencionam que tais características podem manifestar-se em níveis diferentes em distintos sujeitos autistas.
Santos Lopes (2020), compreende a criança quando diagnosticada com autismo impõe desafios consideráveis a família. Dentro disso, a participação dos pais nas intervenções terapêuticas e na criação de um ambiente estruturado e previsível corrobora de forma direta para o desenvolvimento da criança. Dentro disso, o treinamento parental para famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma das intervenções terapêuticas mais efetivas, pois capacita os pais no manejo de comportamentos desafiadores, na promoção de habilidades comunicativas e sociais, e na criação de um ambiente doméstico mais estruturado (Ferreira, 2023).
De acordo com Oliveira- Franco (2022), essas intervenções utilizam predominantemente abordagens fundamentadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que se mostram eficazes na modificação de padrões comportamentais e na potencialização do desenvolvimento infantil (Gomes et al., 2024). Entre as estratégias empregadas, destacam-se o ensino de técnicas de reforçamento positivo, a modelagem de comportamentos desejados e a utilização de sistemas de comunicação alternativa, como o Picture Exchange Communication System (PECS). Essas práticas são aplicadas tanto em contextos formais quanto informais, permitindo aos pais incorporarem as habilidades aprendidas na rotina diária com a criança (Silva et al., 2021).
Os estudos de Ferreira (2023), reforçam que indiscutivelmente a participação ativa dos pais contribui para o aumento da flexibilidade mental, tolerância e compreensão de diferentes formas de comportamento, facilitando as interações sociais e o aprendizado de novas habilidades. Observe-se a participação dos pais na implementação de estratégias terapêuticas em casa, reforçando comportamentos desejáveis e promovendo a generalização de habilidades adquiridas em contextos terapêuticos para o ambiente familiar é imprescindível (Santos Lopes, 2020).
A criação de rotinas estruturadas e a utilização de reforços positivos são práticas que auxiliam na redução de comportamentos desafiadores e no desenvolvimento de habilidades adaptativas (Sampietri; Borges, 2020). No afã de nortear a pesquisa foi levando a seguinte problemática: Como a aplicação do treinamento parental impacta o desenvolvimento social, comunicativo e comportamental de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?
Socialmente a pesquisa se justifica pela relevância de apontar que o Transtorno do Espectro Autista afeta não apenas a criança diagnosticada, mas também toda a dinâmica familiar.
O treinamento parental emerge como uma estratégia crucial para capacitar os cuidadores no manejo dos desafios comportamentais e no estímulo ao desenvolvimento infantil, promovendo benefícios tanto para a criança quanto para a família. Pais devidamente capacitados podem contribuir para a melhoria das habilidades sociais, comunicativas e cognitivas de seus filhos, ao mesmo tempo que reduzem os níveis de estresse e fortalecem os vínculos familiares. Como justificativa científica/profissional, é relevante que conteúdos científicos sejam produzidos sobre questões do campo da Psicologia de modo a se expandir o rol de materiais que podem agregar conhecimento aos profissionais atuantes no mercado.
O objetivo central da pesquisa foi analisar por meio de uma revisão integrativa apontar como a aplicação do treinamento parental impacta o desenvolvimento social, comunicativo e comportamental de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os objetivos secundários foram: 1- identificar os principais modelos de treinamento parental aplicados ao desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA); 2- analisar os impactos do treinamento parental nas habilidades sociais e comunicativas de crianças com TEA; 3- compreender a influência do treinamento parental na redução de comportamentos desafiadores apresentados por crianças com TEA e 4- discorrer como o treinamento parental contribui para o fortalecimento dos vínculos familiares e para a interação positiva entre pais e filhos.
O desenvolvimento da pesquisa está estruturado em três seções: a metodologia, onde são apresentados os procedimentos metodológicos utilizados na condução da pesquisa; a discussão dos resultados, onde os resultados relevantes são indicados e os estudos avaliados são discutidos em prol da produção dos resultados finais da pesquisa; e, por fim, as condições finais , onde os principais resultados são retomados para indicar o cumprimento dos objetivos e apresentar, com clareza, a resposta ao problema investigado, sob um posicionamento crítico-científico produzido pela autora.
METODOLOGIA
No desenvolvimento da pesquisa foi utilizada a metodologia de revisão integrativa de literatura, por meio da qual foi possível extrair resultados de outros estudos científicos, assim como utilizar dados providos por sites de órgãos públicos. Gil (2019), cita que este tipo de metodologia é altamente válido para que pesquisas básicas e secundárias – como esta – possam consolidar suas contribuições científicas, uma vez que possibilita a exploração do problema investigado sob o ponto de vista de inúmeros autores, o que amplia a segurança das conclusões finais da pesquisa secundária.
Esta foi uma pesquisa de abordagem qualitativa, uma vez que todos os resultados por ela alcançados e aqui apresentados, após serem analisados de forma comparativa, serviram para qualificar o problema investigado (Lakatos; Marconi, 2021). Sua natureza foi definida como básica, pois utilizou-se apenas de resultados produzidos por outras fontes (Gil, 2019). O objetivo da pesquisa foi definido como descritivo, considerando que todos os resultados alcançados, após serem interpretados, foram descritivos com as devidas indicações de autorias (Lakatos; Marconi, 2021). Enquanto o procedimento adotado para a confecção deste relatório em formato de artigo científico foi o de revisão integrativa de literatura (Gil, 2019).
Os estudos científicos utilizados pela pesquisa foram buscados nas bases de dados do Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs), do Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (Medline) e do Scientific Electronic Library Online (SciELO), mediante aplicação das palavras-chave nas buscas, com termos em espanhol, inglês e português, estando elas adequadas aos Descritores em Ciências da Saúde (DECS), definidas como: cuidados intensivos, fisioterapia, reabilitação funcional, tempo de internação e UTI. Utilizou-se como operadores booleanos o “AND”, “OR” e “NOT”, também nas variações em espanhol e em português, os quais, para Gil (2019), funcionam como conectores para as palavras-chave e, nas buscas, ampliam ou restringe o número de periódicos encontrados.
Como critérios de inclusão para os artigos científicos, foram utilizados os seguintes: a- ano de publicação entre 2018 e 2024 – com priorização para os estudos publicados nos últimos cinco anos (2019-2024); b- nos idiomas espanhol, inglês e/ou português; c- no formato de artigo científico. Já os critérios de exclusão adotados para a eliminação dos estudos científicos, foram: a- incompletude ou estudos resumidos; b- pouco aprofundamento da análise ao objeto de pesquisa (Treinamento parental para promover o desenvolvimento da criança com TEA); c- e impertinência temática. Ao todo, foram encontrados cerca de 30 artigos científicos sobre o tema, mas, após aplicação dos critérios, apenas 10 foram selecionados para fundamentar os resultados desta pesquisa. No Quadro 1 dispõe-se de um fluxograma sobre a seleção dos estudos científicos, por base de dados:
Quadro 1 – Seleção dos estudos científicos por base de dados

Fonte: Elaboração da autora (2024).
Na organização dos resultados foram aplicadas as técnicas procedimentais de fichamento e resumo e, após a leitura integral dos artigos científicos, utilizou-se dessas técnicas, sob suporte do Excel e Word, para organizá-los de forma estratégica, tendo por parâmetro a ordem cronológica dos objetivos da pesquisa, o que ampliou o nível de coerência da dialogicidade construída e apresentada na próxima seção.
DISCUSSÃO DE RESULTADOS
Nesta seção foi organizada a síntese dos resultados produzidos pelos 10 artigos científicos selecionados pela pesquisa, os quais foram posteriormente analisados e discutidos entre si sob a construção de texto interpretativo e fidedigno ao pensamento estabelecido pelos distintos autores. No Quadro 2 apresentado abaixo todos estes estudos são listados, em ordem alfabética, com a apresentação das informações preliminares pertinentes para caracterizá-los – autor, título, ano de publicação, objetivo geral, metodologia – e da compilação das conclusões por eles emitidos:
Quadro 2: Caracterização dos 10 artigos científicos e síntese dos resultados conclusivos




Fonte: Elaboração da autora (2024).
Os resultados apresentados pelos 10 estudos científicos selecionados para compor o levante científico realizado por esta pesquisa foram de grande relevância para atender aos objetivos pretendidos. De modo geral, estes resultados contribuem para evidenciar e validar os impactos do treinamento parental no desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm sido amplamente discutidos. Como mencionado por Souza et al. (2021) essa abordagem promove benefícios significativos em diversos aspectos do desenvolvimento infantil, incluindo a melhoria das habilidades sociais, comunicativas e comportamentais.
No âmbito comportamental, a implementação de estratégias como o treinamento parental, sobretudo baseadas em reforçamento positivo, promovem o aprendizado de habilidades funcionais e reduzem a ocorrência de comportamentos inadequados (Souza, 2018). Dessa maneira, essas técnicas, quando aplicadas no ambiente doméstico de forma consistente, contribuem para a generalização dos comportamentos aprendidos para outros contextos, como a escola e a comunidade (Lopes-Herrera et al., 2021).
Gomes et al. (2024), citam outro aspecto relevante é a redução do estresse familiar. O treinamento parental não apenas melhora o comportamento das crianças, mas também contribui para o bem-estar emocional dos pais, reduzindo a sobrecarga associada ao cuidado de crianças com TEA. Segundo os autores, países mais bem preparados se sentem mais confiantes e competentes em seu papel, o que reflete positivamente no relacionamento familiar como um todo. É importante refletir que os impactos do treinamento parental demonstram ser duradouros, especialmente quando os programas são aplicados de forma contínua e adaptados às necessidades individuais de cada família (Campos, 2023). Embora os avanços sejam significativos, ainda é necessário investir em estratégias que ampliem o acesso dessas intervenções, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e econômica (Souza et al., 2021).
Para Ferreira (2023), as intervenções parentais têm se consolidado como estratégias eficazes para o manejo e o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), oferecendo benefícios tanto para as crianças quanto para suas famílias. Um dos principais benefícios está relacionado ao fortalecimento das competências parentais, permitindo que os cuidadores desenvolvam habilidades para lidar com comportamentos desafiadores, estimular o aprendizado e promover interações mais positivas.
Assim como, programas de treinamento parental qie têm demonstrado impacto na sustentabilidade dos resultados das intervenções, pois permitem que os pais apliquem as técnicas aprendidas no cotidiano, promovendo a generalização dos comportamentos adquiridos pelas crianças para diferentes contextos. Lopes-Herrera et al., (2021) explica que as intervenções baseadas em evidências, como aquelas fundamentadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), têm eficácia comprovada na promoção de habilidades adaptativas e na melhoria da qualidade de vida das famílias.
No entanto, as intervenções parentais também apresentam limitações. Um dos desafios mais frequentemente relatados é a baixa adesão dos pais aos programas, que pode ser influenciada por fatores como sobrecarga de tarefas, dificuldades financeiras, barreiras geográficas ou falta de apoio social (Campo, 2022). Além disso, algumas intervenções não são suficientemente adaptadas às realidades culturais e socioeconômicas das famílias, limitando sua aplicabilidade em contextos mais vulneráveis (Gomes et al., 2024).
Outra limitação está relacionada à falta de padronização nos programas de treinamento parental, o que dificulta a comparação entre estudos e a identificação das melhores práticas. Além disso, embora intervenções à distância tenham se mostrado promissoras, elas dependem de infraestrutura tecnológica e conectividade, o que pode ser um obstáculo para famílias de regiões menos favorecidas (Oliveira- Franco, 2023). De acordo com Santos-Lopes (2020) apesar das limitações, o treinamento parental permanece uma ferramenta essencial no manejo do TEA, oferecendo suporte às famílias e potencializando o desenvolvimento infantil.
Existem diversos modelos de treinamento parental aplicados ao desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que visam capacitar os pais no manejo de comportamentos desafiadores e na promoção de habilidades sociais e comunicativas. Entre os principais modelos, destaca-se a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que utiliza técnicas baseadas no reforço positivo e na modificação de comportamentos, sendo altamente eficaz na melhoria das habilidades adaptativas da criança (Campos, 2023).
O Early Start Denver Model (ESDM) também é amplamente utilizado, especialmente em crianças pequenas, combinando intervenções comportamentais com abordagens mais naturais, como brincadeiras e interações cotidianas. Além disso, o Modelo TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication-Handicapped Children) enfoca a estruturação do ambiente e a promoção de habilidades de vida diária por meio de uma abordagem visual. Esses modelos, entre outros, têm mostrado resultados positivos, mas é fundamental que sejam adaptados às necessidades individuais das famílias e das crianças (Candido et al., 2020).
Gomes et al. (2024), observa que ao aprender técnicas de manejo comportamental, comunicação e resolução de problemas, os pais se tornam mais confiantes e competentes, o que resulta em um ambiente familiar mais harmonioso e estruturado. A utilização de abordagens baseadas em reforço positivo e na modulação de interações cotidianas, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e o modelo Early Start Denver Model (ESDM), permite que os pais proporcionem experiências de aprendizado mais envolventes e prazerosas para seus filhos, criando uma base sólida para a construção de vínculos afetivos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados levantados foram suficientes para responder o problema da pesquisa, bem como, os objetivos principais e secundários. A pesquisa apontou as contribuições do treinamento parental para o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), evidenciando sua relevância como uma estratégia eficaz e fundamentada para a promoção de habilidades sociais, comunicativas e comportamentais, além de contribuir para o fortalecimento dos vínculos familiares. Os resultados desta revisão destacaram a importância de intervenções parentais bem estruturadas, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), o Early Start Denver Model (ESDM) e o Modelo TEACCH, que têm demonstrado impacto positivo não apenas no desenvolvimento infantil, mas também na qualidade de vida das famílias.
O papel do treinamento parental no manejo do TEA, reforçando a eficácia de práticas baseadas em evidências e a necessidade de capacitação dos cuidadores como agentes ativos no desenvolvimento das crianças. Ao sistematizar os principais benefícios, limitações e desafios associados à implementação dessas intervenções, este estudo contribui para o aprimoramento de programas já existentes e serve como base para o desenvolvimento de políticas públicas e práticas mais inclusivas e acessíveis.
Apesar dos avanços observados, ainda há lacunas que precisam ser abordadas por meio de novas pesquisas. Recomenda-se a realização de estudos que investiguem a efetividade de treinamentos parentais em contextos de vulnerabilidade social e culturalmente diversificados, bem como a aplicação de programas híbridos (presenciais e on-line) que aumentem a acessibilidade para famílias em diferentes realidades. Além disso, há necessidade de explorar intervenções de longo prazo, avaliando a sustentabilidade dos impactos das práticas parentais no desenvolvimento infantil e na dinâmica familiar ao longo dos anos.
A importância de ampliar o número de estudos sobre o treinamento parental para promover o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é fundamental para o avanço do campo. Embora as evidências atuais demonstrem os benefícios dessas intervenções na promoção de habilidades sociais, comunicativas e comportamentais, ainda existem lacunas significativas relacionadas à diversidade cultural, às condições socioeconômicas e à aplicação em diferentes contextos.
Por fim, a integração de estratégias que considerem o bem-estar emocional dos cuidadores e a adaptação individualizada às necessidades das crianças com TEA deve ser um foco contínuo, assegurando que as intervenções sejam não apenas eficazes, mas também humanizadas e inclusivas.
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