Desatenção na educação infantil: Uma análise psicopedagógica e neuropsicológica

INATTENTION IN EARLY CHILDHOOD EDUCATION: A PSYCHOPEDAGOGICAL AND NEUROPSYCHOLOGICAL ANALYSIS

DESATENCIÓN EN LA EDUCACIÓN INFANTIL: UN ANÁLISIS PSICOPEDAGÓGICO Y NEUROPSICOLÓGICO

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/3D41E6

DOI

doi.org/10.63391/3D41E6

Silva, Glória Nascimento da . Desatenção na educação infantil: Uma análise psicopedagógica e neuropsicológica. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A desatenção na educação infantil representa um desafio multifatorial que envolve aspectos neurobiológicos, emocionais, pedagógicos e ambientais. Este artigo analisa, de forma aprofundada, os mecanismos que contribuem para o déficit atencional nesse período, destacando a importância da corresponsabilidade entre escola e família para a promoção da atenção e do desenvolvimento integral da criança. Fundamenta-se em teorias da neurociência, psicologia do desenvolvimento e educação inclusiva para apresentar práticas e estratégias que favorecem a autorregulação e o engajamento dos pequenos aprendizes. Propõe-se um olhar crítico e integrado para superar abordagens reducionistas, valorizando a singularidade e as interações significativas no processo educacional.
Palavras-chave
desatenção; educação infantil; autorregulação; inclusão.

Summary

Inattention in early childhood education represents a multifactorial challenge involving neurobiological, emotional, pedagogical, and environmental aspects. This article provides an in-depth analysis of the mechanisms contributing to attentional deficits during this developmental stage, emphasizing the importance of shared responsibility between school and family to promote attention and the child’s holistic development. Grounded in neuroscience, developmental psychology, and inclusive education theories, it presents practices and strategies that foster self-regulation and engagement among young learners. The article proposes a critical and integrated perspective to overcome reductionist approaches, valuing individuality and meaningful interactions in the educational process.
Keywords
inattention; early childhood education; self-regulation. inclusion.

Resumen

La desatención en la educación infantil representa un desafío multifactorial que involucra aspectos neurobiológicos, emocionales, pedagógicos y ambientales. Este artículo analiza en profundidad los mecanismos que contribuyen al déficit atencional en esta etapa del desarrollo, destacando la importancia de la corresponsabilidad entre la escuela y la familia para promover la atención y el desarrollo integral del niño. Basado en teorías de neurociencia, psicología del desarrollo y educación inclusiva, presenta prácticas y estrategias que fomentan la autorregulación y el compromiso de los pequeños aprendices. Se propone una mirada crítica e integrada para superar enfoques reduccionistas, valorando la singularidad y las interacciones significativas en el proceso educativo.
Palavras-clave
desatención; educación infantil; autorregulación. inclusión.

INTRODUÇÃO

A atenção, enquanto função psíquica superior, exerce papel decisivo no processo de aprendizagem, especialmente na educação infantil — fase em que se consolidam as bases cognitivas, afetivas e sociais do indivíduo. No entanto, a crescente incidência de comportamentos desatentos em sala de aula tem despertado inquietações entre professores, pesquisadores e famílias. Crianças que não mantêm o foco, se dispersam com facilidade ou demonstram agitação constante costumam ser percebidas como desinteressadas ou desmotivadas, quando, na verdade, podem estar revelando um sinal de alerta mais profundo sobre as condições estruturais, pedagógicas e emocionais do ambiente escolar.

A desatenção na infância não pode ser compreendida apenas sob a ótica de patologias individuais, como o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), embora este represente um fator relevante. Muitas vezes, tal manifestação está associada a um descompasso entre as necessidades infantis e as práticas pedagógicas tradicionais, pouco sensíveis à diversidade dos ritmos, estilos e formas de aprender. Ambientes super estimulantes, falta de previsibilidade nas rotinas, ausência de vínculo afetivo com os adultos mediadores e metodologias pouco interativas são alguns dos fatores que podem intensificar o quadro de desatenção e comprometer o desenvolvimento integral da criança.

A literatura neuropsicológica tem demonstrado que a atenção é um processo construído, e não inato, que requer maturação cerebral, estimulação adequada e experiências mediadas com o outro (Luria, 1979; Vygotsky, 2007). Crianças pequenas não possuem, por si sós, um controle voluntário da atenção; esse autocontrole precisa ser desenvolvido com o apoio do meio, através de estratégias educativas que favoreçam o foco, a autorregulação e a motivação. Quando tal apoio é negligenciado, a criança pode ser gradativamente excluída das experiências de aprendizagem, ainda que formalmente inserida no contexto escolar.

Diante disso, este artigo tem como objetivo analisar os impactos da desatenção no processo de aprendizagem na educação infantil, considerando suas causas, implicações cognitivas e possíveis caminhos de intervenção pedagógica. Parte-se da hipótese de que a desatenção, quando não compreendida em sua complexidade, pode ser mal interpretada como preguiça, desinteresse ou má conduta, resultando em práticas educativas excludentes e punitivas. Defende-se, portanto, uma abordagem multidimensional, que considere aspectos neurobiológicos, emocionais, sociais e didáticos, propondo estratégias práticas e fundamentadas que auxiliem professores e gestores no enfrentamento desse desafio.

Ao trazer à luz essa discussão, pretende-se contribuir para a construção de uma pedagogia mais atenta à atenção — que reconheça a criança como sujeito em desenvolvimento e que compreenda a escola como espaço de mediação afetiva, intelectual e social. O enfrentamento da desatenção infantil exige não apenas diagnósticos clínicos, mas sobretudo uma reorganização das práticas escolares que promova o engajamento ativo das crianças, em experiências de aprendizagem significativas, seguras e estimulantes.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

DESENVOLVIMENTO DA ATENÇÃO NA CRIANÇA

A atenção é considerada uma das funções psíquicas superiores fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem. Sua construção é gradual, envolvendo processos neurobiológicos, emocionais e sociais interligados, e demanda interações qualificadas com o meio. De acordo com Luria (1979), a atenção não é uma capacidade isolada, mas está integrada a um sistema funcional que articula percepção, memória, linguagem e funções executivas. Em crianças pequenas, o desenvolvimento da atenção ocorre em estágios, passando da atenção involuntária — típica da primeira infância — para formas mais voluntárias e dirigidas, conforme o córtex pré-frontal se desenvolve.

Vygotsky (2007) reforça essa perspectiva ao afirmar que funções como a atenção voluntária emergem na relação com o outro, especialmente em contextos culturalmente mediados. A internalização de signos sociais, como a linguagem, possibilita à criança regular seu comportamento atencional, controlando impulsos e organizando sua conduta em direção a objetivos. Assim, a atenção, nos marcos da psicologia histórico-cultural, não é entendida como um atributo biológico fixo, mas como um fenômeno psicológico que se desenvolve na e pela atividade com o outro — sobretudo no ambiente escolar.

Ainda nesse contexto, Barkley (2002), a partir da neurociência cognitiva, aponta que o controle da atenção envolve três dimensões principais: atenção sustentada, atenção seletiva e atenção alternada. A atenção sustentada refere-se à capacidade de manter o foco em uma tarefa por um período contínuo; a atenção seletiva diz respeito à habilidade de filtrar estímulos irrelevantes; e a atenção alternada permite a mudança de foco entre diferentes tarefas. Essas habilidades são mediadas por circuitos neurológicos complexos, principalmente nas áreas frontais e parietais, os quais amadurecem progressivamente até aproximadamente os 7 anos de idade — faixa crítica para intervenções educativas eficazes.

Além disso, Oliveira (1993) destaca que o exercício da atenção em ambientes pedagógicos deve considerar a etapa de desenvolvimento da criança, respeitando seu tempo de concentração, necessidade de movimento e forma de se relacionar com os objetos e pessoas. Exigir atenção prolongada de crianças pequenas, sem a mediação adequada ou recursos didáticos apropriados, tende a produzir não apenas desatenção, mas também desmotivação e resistência à aprendizagem.

A abordagem contemporânea da neuroeducação, representada por autores como Mora (2017) e Cypel (2018), reforça que a atenção é suscetível ao ambiente emocional. Estados emocionais negativos, como insegurança, medo ou rejeição, afetam diretamente o funcionamento do sistema atencional, uma vez que envolvem o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal e ativam o sistema límbico, em detrimento das funções executivas. Isso implica que o trabalho pedagógico com a atenção exige uma base afetiva sólida, com vínculos positivos, previsibilidade e acolhimento.

Assim, o desenvolvimento da atenção na infância não pode ser reduzido à maturação biológica nem atribuído unicamente à criança. Ele depende de condições escolares adequadas, que estimulem o engajamento ativo, o vínculo afetivo e a mediação intencional. Quando essas condições não estão presentes, a desatenção emerge como um sintoma da falência de processos educativos que deveriam garantir o acesso pleno às experiências de aprendizagem significativas.

A DESATENÇÃO NA SALA DE AULA: ENTRE FATORES INTERNOS E EXTERNOS 

A desatenção infantil é um fenômeno multifatorial que deve ser analisado a partir da interseção entre aspectos neurobiológicos, psicoemocionais e sociopedagógicos. Reduzir a desatenção a uma característica intrínseca da criança — como frequentemente ocorre em diagnósticos apressados — compromete não apenas o processo de aprendizagem, mas também a construção de uma prática pedagógica inclusiva e responsiva.

Do ponto de vista clínico, alguns quadros podem, de fato, justificar a presença acentuada de desatenção, como no caso do Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade (TDAH). De acordo com Barkley (2002), crianças com esse perfil apresentam déficits nas funções executivas, especialmente no controle inibitório, no planejamento e na memória de trabalho, o que impacta diretamente sua capacidade de manter o foco em atividades dirigidas. Contudo, o próprio autor ressalta que os sintomas do TDAH devem ser analisados em contexto e com critérios rigorosos de avaliação, evitando a patologização de comportamentos comuns à infância.

Ainda segundo Capellini et al. (2004), é fundamental distinguir entre desatenção estrutural — vinculada a condições neurológicas específicas — e desatenção funcional ou situacional, que pode surgir como resposta a ambientes escolares desorganizados, propostas pedagógicas pouco significativas, relações interpessoais frágeis e estímulos incompatíveis com o estágio de desenvolvimento infantil. Nesse sentido, a escola pode, inadvertidamente, tornar-se agente de intensificação da desatenção ao negligenciar as necessidades cognitivas e afetivas da criança.

Ambientes de aprendizagem que carecem de rotina estruturada, previsibilidade e variedade de estímulos adequados tendem a gerar confusão, ansiedade e dispersão. De acordo com Leal e Barreto (2015), a atenção infantil é sensível ao modo como o espaço, o tempo e as interações são organizados. A ausência de mediação ativa, o excesso de comandos autoritários ou a falta de estímulos desafiadores afetam negativamente a capacidade de concentração, sobretudo em crianças em processo de aquisição de autonomia.

Outro ponto crítico é o impacto das relações pedagógicas no engajamento atencional. Pianta et al. (2012) demonstraram que crianças que mantêm vínculos positivos com seus professores tendem a apresentar níveis mais altos de autorregulação e engajamento cognitivo. A figura do educador, nesse sentido, atua como co-regulador emocional e cognitivo da criança, oferecendo segurança afetiva para que ela se envolva nas tarefas escolares.

Ademais, fatores sociais e familiares também desempenham papel relevante. Exposição a ambientes domésticos estressantes, uso excessivo de telas, falta de sono adequado e insegurança alimentar são aspectos que comprometem diretamente o estado atencional da criança (Mora, 2017; Andrade & Benczik, 2010). Esses fatores interagem com o contexto escolar, produzindo efeitos cumulativos que se refletem na aprendizagem.

Portanto, é necessário romper com abordagens simplistas e dicotômicas que separam a criança do ambiente, e adotar uma visão ecossistêmica e dialógica da desatenção, conforme defendido por Bronfenbrenner (1996). A atenção é um fenômeno relacional, e sua manifestação na escola depende da qualidade dos estímulos oferecidos, da responsividade do educador e da coerência entre as propostas pedagógicas e as reais possibilidades infantis.

Negligenciar esses aspectos implica naturalizar a desatenção como falha individual, o que pode levar à rotulação precoce, exclusão silenciosa e cristalização de trajetórias escolares marcadas por fracasso. Assim, compreender a desatenção como um sintoma contextual — e não apenas como um déficit da criança — é condição fundamental para uma prática educativa mais justa, eficaz e humanizadora.

RELAÇÃO ENTRE A DESATENÇÃO E A APRENDIZAGEM 

A aprendizagem na educação infantil está intrinsecamente ligada ao funcionamento atencional, uma vez que este constitui a base sobre a qual se constroem os processos de percepção, memória, linguagem e autorregulação — todos indispensáveis à apropriação ativa do conhecimento. Quando a atenção é comprometida, mesmo que de forma leve, as experiências educativas perdem seu potencial formativo, sendo absorvidas de modo fragmentado, superficial ou até mesmo não assimiladas.

Segundo Fonseca (2014), a atenção atua como uma “porta de entrada” da aprendizagem. Ela permite que a criança selecione os estímulos relevantes no ambiente, mantenha o foco sobre uma tarefa e iniba distrações externas ou internas. A ausência ou fragilidade desses mecanismos impacta negativamente o desempenho acadêmico e o engajamento com as propostas pedagógicas, dificultando a construção de competências cognitivas fundamentais, como a leitura, a escrita e o raciocínio lógico.

Na fase da alfabetização — que frequentemente inicia-se no final da educação infantil —, a atenção sustentada e a atenção seletiva são habilidades-chave. De acordo com Cypel (2018), para que a criança relacione fonemas e grafemas, é necessário que mantenha o foco por períodos mínimos sobre os estímulos visuais e auditivos, além de conseguir filtrar informações irrelevantes. Crianças com dificuldades atencionais tendem a apresentar trocas de letras, omissões, regressões na leitura e maior tempo de resposta para tarefas que exigem análise sequencial, como a escrita de palavras.

Além disso, a desatenção está fortemente associada a déficits nas chamadas funções executivas — conjunto de habilidades que envolvem planejamento, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva. Zelazo e Carlson (2012) demonstram que essas funções são mediadas pelo córtex pré-frontal e têm papel decisivo na organização da ação, no controle da impulsividade e na capacidade de antecipar consequências. Quando essas funções estão imaturas ou prejudicadas, a criança apresenta dificuldades em iniciar e concluir tarefas, seguir instruções em etapas, organizar materiais e lidar com frustrações — o que compromete sua participação ativa na aprendizagem.

Em contextos inclusivos, a desatenção pode operar como barreira invisível à participação. Mantoan (2003) destaca que crianças com dificuldades de atenção — sejam ou não diagnosticadas — muitas vezes são excluídas de forma silenciosa, ao não conseguirem acompanhar o ritmo da turma ou ao serem rotuladas como “bagunceiras” ou “desinteressadas”. Tal exclusão simbólica compromete não apenas a aprendizagem, mas também o senso de pertencimento e autoestima da criança.

Vygotsky (2007) já apontava que o desenvolvimento ocorre na zona de desenvolvimento proximal, onde o aprendizado é potencializado pela mediação competente do outro. Entretanto, quando a criança desatenta não é acompanhada com intencionalidade pedagógica, ela pode permanecer em sua zona de desenvolvimento real — repetindo ações automatizadas, sem avanço cognitivo — o que leva à estagnação ou até à regressão em seu processo de aprendizagem.

É importante compreender, portanto, que a atenção não é um pré-requisito para a aprendizagem, mas uma condição constitutiva dela. Não se trata de esperar que a criança “preste atenção para aprender”, mas de criar contextos que favoreçam o engajamento atencional como parte integrante da ação pedagógica. Isso implica reorganizar o tempo didático, diversificar estratégias, flexibilizar demandas e promover o envolvimento emocional da criança com a tarefa, conforme apontam autores como Damásio (2012) e Mora (2017).

Em síntese, a desatenção afeta a aprendizagem não apenas pelo aspecto comportamental visível, mas pelas implicações cognitivas e afetivas profundas que desorganizam os processos de aquisição de conhecimento. Seu enfrentamento, portanto, exige uma pedagogia sensível ao funcionamento neuropsicológico da infância e comprometida com o desenvolvimento integral.

CAUSAS DA DESATENÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A desatenção, especialmente na fase da educação infantil, não pode ser compreendida de maneira reducionista ou unidimensional. Trata-se de um fenômeno complexo, interdependente e multideterminante, que emerge da interação entre fatores biológicos, emocionais, familiares e pedagógicos. Analisar suas causas exige um olhar integrador que ultrapasse a dicotomia entre natureza e cultura, sujeito e ambiente, indivíduo e escola.

FATORES BIOLÓGICOS E NEUROFUNCIONAIS

Do ponto de vista neurobiológico, a atenção está diretamente relacionada ao funcionamento do sistema nervoso central, mais especificamente às áreas pré-frontais do cérebro e aos circuitos dopaminérgicos e noradrenérgicos. Alterações nesses circuitos podem comprometer a regulação atencional e o controle da impulsividade, como observado em crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Segundo Barkley (2002), o TDAH não é apenas um transtorno da atenção, mas uma disfunção nas funções executivas, o que afeta diretamente a capacidade da criança de gerenciar sua atenção de forma voluntária e persistente. No entanto, é crucial destacar que nem toda desatenção é TDAH. Muitos quadros considerados “sintomáticos” são, na verdade, expressões normativas do desenvolvimento neurológico imaturo, particularmente entre 4 e 6 anos, fase marcada por intensa reorganização sináptica e plasticidade cerebral (Johnson & de Haan, 2015).

Além disso, fatores fisiológicos básicos como má qualidade do sono, má alimentação, carências nutricionais (ferro, zinco, vitaminas do complexo B) e exposição a toxinas ambientais (como chumbo) também podem impactar o estado de alerta e a capacidade de manter a atenção (Silva & Paula, 2010). Tais variáveis, frequentemente invisibilizadas nos contextos escolares, são fundamentais para o mapeamento da causa raiz do problema atencional.

FATORES EMOCIONAIS E RELACIONAIS 

No campo afetivo, a desatenção pode surgir como manifestação sintomática de conflitos emocionais não elaborados. Crianças expostas a ambientes familiares instáveis, negligência afetiva, separações traumáticas, ou violência doméstica frequentemente expressam seus conflitos por meio da desorganização da atenção, do comportamento ou do corpo (Winnicott, 1999).

A atenção, nesse sentido, não é apenas uma função cognitiva, mas uma função psicoafetiva que depende da segurança emocional da criança. De acordo com Damásio (2012), o cérebro aprende melhor quando está emocionalmente estável. Crianças inseguras, ansiosas, com autoestima fragilizada ou que não se sentem pertencentes ao ambiente escolar tendem a apresentar comportamentos evitativos ou dispersos como forma de proteção psíquica.

Relações pedagógicas empobrecidas ou mediadas por práticas autoritárias e despersonalizadas também interferem negativamente. A ausência de vínculo entre educador e educando afeta diretamente a motivação intrínseca e a responsividade da criança. Conforme Pianta et al. (2012), o vínculo afetivo positivo entre professor e criança é um dos preditores mais robustos de atenção sustentada e engajamento em sala de aula.

FATORES CONTEXTUAIS E PEDAGÓGICOS

O ambiente escolar também desempenha papel central. Espaços ruidosos, desorganizados, com baixa previsibilidade e excesso de estímulos simultâneos favorecem a dispersão. A criança, ainda em processo de desenvolvimento das habilidades autorregulatórias, não possui repertório suficiente para filtrar o excesso de informações e manter a concentração por longos períodos.

A desatenção, neste caso, não é “falta de interesse” ou “preguiça”, mas reflexo de um contexto pedagógico mal ajustado ao estágio de desenvolvimento infantil. Como defendem Oliveira & Boruchovitch (2001), o uso de métodos repetitivos, sem conexão com os interesses da criança, compromete sua motivação e engajamento. Além disso, a ausência de atividades lúdicas, desafios significativos e mediação ativa reduz drasticamente o potencial de mobilização da atenção.

Por fim, a exposição excessiva a telas (celulares, tablets, televisão) tem sido apontada como fator emergente de impacto na atenção infantil. Estudos como os de Christakis (2016) demonstram que o uso precoce e intensivo de dispositivos digitais altera os circuitos de recompensa cerebral, tornando a criança mais impulsiva e menos tolerante a atividades que exigem atenção prolongada e esforço cognitivo.

Compreender as causas da desatenção na infância implica reconhecer que ela é, muitas vezes, um sintoma — e não uma patologia em si. Ela denuncia desequilíbrios que podem estar no corpo, nas emoções, nos vínculos ou nos contextos. Somente com essa leitura multifatorial é possível promover intervenções verdadeiramente eficazes, respeitando a singularidade do desenvolvimento infantil e combatendo a tendência de culpabilização da criança.

ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA LIDAR COM A DESATENÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A atenção, ao contrário do que se pressupõe, não é um pré-requisito para a aprendizagem, mas um resultado dela, quando o processo educativo é significativo, afetivamente engajador e neuro compatível. Diante da complexidade das causas da desatenção, as intervenções devem ser multifacetadas, sustentadas por um projeto pedagógico que combine intencionalidade didática, sensibilidade relacional e conhecimento técnico sobre o funcionamento do cérebro infantil.

ESTRATÉGIAS PREVENTIVAS: PROMOVENDO AMBIENTES QUE FAVOREÇAM A ATENÇÃO

O primeiro nível de enfrentamento da desatenção é ambiental e didático, ou seja, deve-se garantir que o contexto de aprendizagem seja estruturado para favorecer o foco e o engajamento. Entre as ações preventivas, destacam-se:

Organização do espaço físico: Ambientes visualmente organizados, com áreas delimitadas para atividades específicas, ajudam a criança a manter-se concentrada. A previsibilidade espacial reduz estímulos desnecessários e favorece a atenção seletiva (Fonseca, 2014).

Ritualização do tempo: A previsibilidade temporal (rotinas claras, transições suaves, avisos antecipados de mudança de atividade) promove segurança emocional e ativa os circuitos de atenção sustentada (Perry, 2006).

Uso do lúdico como mediador atencional: Brincadeiras dirigidas, jogos de regras simples e propostas criativas têm poder de mobilização atencional superior às atividades puramente expositivas. O brincar promove o foco de maneira natural, pois alinha emoção e cognição (Vygotsky, 2007; Mora, 2017).

Movimento corporal: Atividades motoras rítmicas e sensoriais (como circuitos motores, dança, atividades de coordenação) ajudam na auto regulação atencional, pois integram corpo e cérebro, ativando a atenção tônica e inibitória (Ayres, 2005).

ESTRATÉGIAS ADAPTATIVAS: AJUSTANDO A PRÁTICA PEDAGÓGICA

A adaptação das práticas pedagógicas é essencial para manter o engajamento das crianças com diferentes perfis atencionais. Algumas estratégias eficazes incluem:

Fragmentação das tarefas: Dividir uma atividade em pequenos passos sequenciais, com metas intermediárias claras, facilita a atenção e reduz o sentimento de sobrecarga (Barkley, 2002).

Estímulo multimodal: Apresentar conteúdos usando diferentes canais sensoriais (visual, auditivo, tátil) favorece a atenção dividida e a consolidação da memória de trabalho (Sousa, 2011).

Reforço positivo e feedback imediato: Reforçar pequenos progressos com elogios específicos ou recompensas simbólicas ajuda a manter a motivação e a direcionar o foco da criança (Skinner, 1972; Bandura, 1986).

Modelagem da atenção pelo adulto: O professor pode modelar o comportamento atencional por meio de gestos, entonações e expressões que indicam onde e como focar. Isso é especialmente útil para crianças pequenas, que ainda aprendem pelo espelhamento (Fonseca, 2014; Vygotsky, 2007).

Pausas programadas: Inserir pequenos intervalos ativos ou sensoriais entre as atividades melhora a capacidade de concentração, reduz a fadiga cognitiva e reequilibra o sistema nervoso autônomo (Damásio, 2012).

ESTRATÉGIAS PERSONALIZADAS: ATENÇÃO À SINGULARIDADE E À INCLUSÃO

Alguns casos exigem intervenções mais individualizadas, sobretudo quando há suspeita ou confirmação de TDAH, dificuldades emocionais ou questões neurossensoriais. Para esses casos, sugere-se:

Plano de intervenção individualizado (PII): Deve-se estabelecer objetivos específicos, estratégias diferenciadas e critérios de acompanhamento contínuo para crianças com perfis atencionais atípicos, com apoio da equipe multidisciplinar (Mantoan, 2003).

Parceria com a família: O diálogo constante com os responsáveis é essencial para alinhar estratégias, identificar padrões e ampliar o apoio à criança. A família pode oferecer dados relevantes sobre sono, uso de telas, alimentação e rotinas domésticas (Pianta et al., 2012).

Acompanhamento psicopedagógico ou neuropsicológico: Casos persistentes e severos de desatenção podem demandar avaliação especializada para diagnóstico diferencial e orientações complementares ao trabalho pedagógico (Benczik, 2010).

Práticas restaurativas e acolhedoras: Evitar rotulagens como “bagunceiro” ou “desatento” e criar espaços de escuta, confiança e pertencimento são práticas essenciais para restaurar o vínculo da criança com o processo de aprender (Winnicott, 1999; Freire, 1996).

As estratégias pedagógicas contra a desatenção na infância não devem visar o controle do comportamento, mas a promoção do engajamento genuíno com a aprendizagem. Isso só é possível quando o educador compreende que a atenção é uma construção relacional e neuro afetiva, que depende da qualidade das interações, da intencionalidade das práticas e do respeito à singularidade do desenvolvimento infantil.

O PAPEL DA ESCOLA E DA FAMÍLIA NA PROMOÇÃO DA ATENÇÃO

A atenção infantil é modulada por uma complexa rede de influências que transcende o espaço escolar. Estudos da psicopedagogia e da neurociência confirmam que os fatores que sustentam ou comprometem a atenção estão profundamente enraizados nas relações interpessoais, nas rotinas familiares e no modelo educativo promovido pela escola (Bronfenbrenner, 1996; Damásio, 2012). Dessa forma, a corresponsabilidade entre escola e família torna-se não apenas desejável, mas indispensável.

A CORRESPONSABILIDADE NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO ATENCIONAL

A visão tradicional que depositava exclusivamente na escola a função de ensinar e disciplinar progressivamente os comportamentos atencionais das crianças é hoje considerada limitada. Conforme destaca Mantoan (2003), a educação inclusiva exige uma articulação intencional e colaborativa entre todos os atores envolvidos no processo de aprendizagem.

No modelo ecológico do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 1996), o ambiente familiar e o ambiente escolar compõem os sistemas mais imediatos de influência. Ambos interagem dinamicamente e impactam diretamente as funções executivas, a autorregulação e os processos motivacionais da criança – todos intimamente associados à atenção.

A CONTRIBUIÇÃO DA ESCOLA: FORMAÇÃO, ESCUTA E MEDIAÇÃO

A escola tem papel fundamental em criar um contexto que não apenas identifique sinais de desatenção, mas também proponha ações proativas, mediadoras e humanizadoras. Entre os compromissos institucionais mais relevantes, destacam-se:

Formação continuada dos docentes: Professores precisam ser capacitados para diferenciar desatenção situacional, desatenção por imaturidade e sinais de transtornos atencionais como o TDAH. A ausência dessa formação pode levar à rotulação precoce ou ao negligenciamento de sinais importantes (Benczik, 2010).

Criação de canais de escuta familiar: A escuta ativa da família não deve ocorrer apenas em momentos de crise, mas ser integrada à rotina institucional. Reuniões individualizadas, bilhetes construtivos e projetos conjuntos são formas de fortalecer esse elo.

Promoção da autorregulação emocional e comportamental: A escola pode trabalhar com projetos que envolvam práticas de atenção plena, atividades de respiração, rodas de conversa e alfabetização emocional. Essas práticas fortalecem os circuitos cerebrais que sustentam a atenção voluntária e o controle inibitório (Siegel, 2015).

A CONTRIBUIÇÃO DA FAMÍLIA: ROTINA, VÍNCULO E LIMITES

A família é o primeiro contexto onde a atenção é modelada, reforçada ou negligenciada. As experiências cotidianas que favorecem o desenvolvimento da atenção são simples, mas exigem presença consciente, vínculo afetivo e coerência de atitudes. Alguns pontos de atenção incluem:

Estabelecimento de rotinas saudáveis: Crianças expostas a rotinas instáveis, longos períodos de tela, alimentação desregulada e sono insuficiente tendem a apresentar maior desatenção, impulsividade e irritabilidade (Christakis, 2004; American Academy of Pediatrics, 2016).

Presença e escuta ativa: Brincar junto, contar histórias, responder com atenção às perguntas e validar as emoções da criança são comportamentos familiares que nutrem as funções atencionais por meio do vínculo emocional (Perry, 2006).

Definição de limites consistentes: Ao contrário do que se pensa, a atenção não se desenvolve melhor em contextos de liberdade irrestrita. A previsibilidade e os limites coerentes ajudam a criança a desenvolver atenção inibitória, ou seja, a capacidade de inibir impulsos e sustentar o foco (Barkley, 2002).

Parceria com a escola: A atitude colaborativa dos responsáveis, aliada ao acompanhamento regular do desenvolvimento da criança, possibilita intervenções precoces e mais eficazes.

O enfrentamento da desatenção infantil exige a superação do discurso culpabilizador e a construção de uma aliança entre escola e família. Mais do que cobrar comportamentos atencionais, é preciso cultivar as condições emocionais, cognitivas e relacionais que favorecem o foco, a curiosidade e o engajamento da criança. Só assim o processo educativo poderá ser verdadeiramente inclusivo, integral e promotor do desenvolvimento humano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A desatenção na educação infantil não deve ser compreendida como uma falha isolada da criança, mas como um fenômeno multifatorial, resultante da complexa interação entre fatores neurobiológicos, emocionais, pedagógicos e ambientais. Reduzi-la a um problema comportamental ou tratá-la com abordagens disciplinadoras e normativas, como ainda ocorre em muitas instituições escolares, é negligenciar os fundamentos do desenvolvimento humano e da aprendizagem significativa.

Ao longo deste artigo, procurou-se demonstrar que a atenção não é um dom inato, mas uma competência em desenvolvimento, que precisa ser cultivada em ambientes emocionalmente seguros, neuro compatíveis e pedagogicamente intencionais. Nesse contexto, a escola tem papel ativo na construção de práticas que favoreçam o engajamento, o foco e a autorregulação das crianças, desde que estas práticas estejam alinhadas a uma concepção de infância que valorize a singularidade, a ludicidade e o vínculo afetivo.

Paralelamente, a família exerce função estruturante na consolidação de hábitos e rotinas que sustentam o funcionamento atencional. Uma criança exposta a estímulos excessivos, sono irregular, ausência de limites ou vínculos frágeis, tende a apresentar maior vulnerabilidade atencional, independentemente de sua condição neurológica. Assim, é urgente romper com a lógica de culpabilização e avançar para uma perspectiva de corresponsabilidade entre escola, família e comunidade.

A neurociência, a psicologia do desenvolvimento e os estudos em educação inclusiva convergem ao apontar que a atenção emerge da qualidade das interações, da segurança afetiva e da coerência entre os estímulos externos e as necessidades internas da criança (Damásio, 2012; Vygotsky, 2007; Mantoan, 2003). Nesse sentido, promover a atenção é, acima de tudo, promover relações significativas e intencionalidade educativa.

Por fim, destaca-se que a desatenção não é, por si só, um impeditivo para a aprendizagem, mas um convite à escuta sensível, à prática pedagógica inovadora e à construção de um ambiente escolar realmente inclusivo. Isso exige professores bem formados, famílias acolhedoras, e políticas públicas comprometidas com o desenvolvimento integral da criança — não apenas com o rendimento acadêmico.

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WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1999.

Silva, Glória Nascimento da . Desatenção na educação infantil: Uma análise psicopedagógica e neuropsicológica.International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Edição

v. 5
n. 50
Desatenção na educação infantil: Uma análise psicopedagógica e neuropsicológica

Área do Conhecimento

O PLANTIO E O CULTIVO DE HORTALIÇAS NA ESCOLA
Cultivo; nutrição; custo flexível
Educação emocional na primeira infância: O alicerce para a resiliência na vida adulta
educação emocional; primeira infância; resiliência; terapia cognitivo-comportamental; disciplina positiva.
Gestão participativa e cultura democrática: Um estudo sobre os impactos da escuta ativa na tomada de decisões escolares
gestão participativa; cultura democrática; escuta ativa; tomada de decisão escolar; comunicação dialógica
Os caminhos do cérebro na primeira infância: Contribuições da neurociência para o processo de alfabetização
neurociência; aprendizagem infantil; alfabetização; emoção; plasticidade cerebral.
Jogos como ferramenta de alfabetização: A contribuição do programa recupera mais Brasil
jogos educativos; alfabetização; programa recupera mais Brasil.
Amor patológico, dependência afetiva e ciúme patológico: Uma revisão abrangente da literatura científica
amor patológico; dependência afetiva; ciúme patológico; comportamento; psicologia.

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