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Resumo
INTRODUÇÃO
O sociólogo Bauman (2001), postula que a sociedade moderna mudou de estruturas tradicionais, sólidas e rígidas para uma estrutura fluida, incerta e volátil. Essa modernidade “líquida” advém do fato de instituições, relações sociais e identidades individuais tornarem-se fluidas, voláteis e sujeitas a rápidas mudanças. A globalização, os avanços tecnológicos, a flexibilidade do trabalho e a crescente individualização são fatores-chave que contribuem para essa liquidez.
A sociedade contemporânea é analisada em termos de “gerações”, cada uma com características e experiências únicas. Algumas das gerações mais discutidas incluem Geração X (nascidos entre 1965 e 1980), Geração Y (nascidos entre 1981 e 1996), Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e Geração A (ou Alpha). Cada uma é marcada por experiências, valores e perspectivas únicas que moldam sua visão de mundo e influenciam suas interações sociais, escolhas profissionais e estilo de vida.
A compreensão das diferentes gerações pode ajudar a contextualizar as dinâmicas sociais e culturais em uma sociedade em constante evolução e o conhecimento das características dessa sociedade possibilita que as instituições de ensino atuem no sentido de promover uma aprendizagem significativa e que de fato cumpra seus objetivos com relação ao processo de ensino e aprendizagem.
Nesse contexto, a educação 5.0 busca preparar as gerações atuais (Z e A) ao desenvolver flexibilidade e estratégias de enfrentamento das incertezas do futuro. Assim, até que ponto o programa de ensino médio com técnico da escola técnica de São Paulo (ETEC) atende à proposta da educação 5.0?
O objetivo geral é levantar uma reflexão sobre a educação brasileira na sociedade líquida, e o objetivo específico é relacionar o ensino da ETEC com as características da educação 5.0. Para atingir esse objetivo, o método consiste na análise do plano de um dos cursos do ensino médio com técnico.
DESAFIOS DA VIDA LÍQUIDA
A sociedade líquida, conceito introduzido pelo sociólogo Bauman (2001), consiste em uma condição social caracterizada pela fluidez, incerteza e rápida mudança nas estruturas sociais, econômicas e culturais. O conceito oferece uma lente crítica para compreender as transformações profundas que ocorreram na sociedade contemporânea e suas implicações nas relações humanas e na vida em comunidade.
A principal característica da sociedade líquida é a ausência de formas sólidas e permanentes de organização social. Ao contrário da modernidade sólida, em que as estruturas e instituições eram estáveis e previsíveis, na sociedade líquida, essas estruturas se tornaram fluidas, flexíveis e voláteis. As relações sociais, econômicas e políticas são marcadas pela transitoriedade e pela falta de permanência.
Nesse contexto, as implicações na sociedade contemporânea são significativas. A fluidez das relações sociais torna as interações humanas mais efêmeras e superficiais, dificultando o estabelecimento de laços sólidos e duradouros. O sociólogo destaca, enfim, a fragilidade e a incerteza das relações sociais. A falta de compromisso e de investimento emocional nas relações interpessoais resulta em uma sensação de vulnerabilidade e instabilidade. As conexões humanas se tornam frágeis e sujeitas a rupturas a qualquer momento.
Outros fatores dessa sociedade referem-se à economia e ao mundo do trabalho. A incerteza econômica e a precarização do trabalho resultam em insegurança e ansiedade para muitos indivíduos. A globalização, ao eliminar fronteiras e encurtar distâncias, cria uma sensação de proximidade e interconexão, mas ao mesmo tempo gera uma série de incertezas e complexidades. Afinal, a globalização é frequentemente acompanhada por uma economia de mercado altamente volátil e pela flexibilização das relações de trabalho, o que contribui para a insegurança e a instabilidade na vida das pessoas.
A fragilidade e o declínio assolam as instituições tradicionais, como a família, o trabalho e a comunidade, que antes forneciam estabilidade e sentido de pertencimento. Além disso, o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas e culturais contribui para um sentido de desorientação e alienação. Percebe-se a ênfase no indivíduo e em seus interesses pessoais em detrimento do coletivo, bem como na cultura do consumo desenfreado, em que a posse de bens materiais é valorizada como um indicador de status e sucesso.
Bauman (2001), critica essa sociedade atual por sua tendência a promover a fragmentação e a alienação dos indivíduos. Ele argumenta que a falta de estruturas sólidas e de referências claras dificulta a formação de identidades coesas e a construção de relações significativas. Na sociedade líquida, as relações sociais tornam-se descartáveis, baseadas em interesses temporários e conveniências momentâneas.
Em suma, a crítica de Bauman (2001), à sociedade líquida ressalta a necessidade de repensar as formas de organização social e de promover uma ética de responsabilidade e solidariedade em um mundo caracterizado pela fluidez e pela incerteza. A compreensão das implicações e desafios dessa liquidez é essencial para o desenvolvimento de respostas e estratégias eficazes para lidar com as complexidades da sociedade contemporânea.
Bauman (2001), argumenta que a modernidade líquida afeta profundamente a formação de identidade e as interações sociais. Na ausência de estruturas sociais sólidas e duradouras, as pessoas são desafiadas a construir e reconstruir suas identidades de forma contínua, adaptando- se às demandas e expectativas em constante mudança da sociedade. As interações sociais também se tornam mais fluidas e superficiais, uma vez que as relações são baseadas em interesses temporários e conveniências momentâneas, em vez de laços duradouros e significativos.
Bauman (2001), introduz os conceitos de “amor líquido” e “medo líquido” para descrever aspectos das relações humanas. O “amor líquido” refere-se à natureza efêmera e descartável dos relacionamentos na sociedade contemporânea, onde as conexões interpessoais são transitórias e sujeitas a mudanças rápidas e imprevisíveis. Por outro lado, o “medo líquido” descreve a ansiedade e a insegurança que surgem da fluidez e da incerteza da vida moderna, onde as pessoas vivem com o constante temor de perder sua segurança financeira, identidade social ou relações pessoais.
O “amor líquido” e o “medo líquido” influenciam as dinâmicas sociais e afetam a forma como as pessoas se relacionam umas com as outras, contribuindo para um sentido de vulnerabilidade e instabilidade nas relações interpessoais.
Em resumo, a perspectiva de Bauman (2001), sobre a modernidade líquida, oferece uma análise crítica e provocativa dos desafios e complexidades da vida atual. Seus conceitos de “amor líquido” e “medo líquido” fornecem insights valiosos sobre as implicações emocionais e sociais da fluidez e da incerteza na sociedade contemporânea em um convite para refletir sobre as formas de enfrentar e responder a esses desafios nas vidas pessoais e em comunidade.
O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE LÍQUIDA
No que diz respeito à educação, Bauman (2001), não oferece considerações específicas sobre como a educação deve ser moldada para a geração atual de estudantes. Ele argumenta que a educação deve ser adaptável e flexível, capaz de equipar os estudantes com habilidades e competências que lhes permitam lidar com a complexidade e a mudança constante. Em vez de simplesmente transmitir conhecimento estático, a educação deve capacitar os alunos a aprenderem continuamente ao longo da vida, a se adaptarem a novos contextos e a questionarem as suposições existentes. Além disso, Bauman (2001), destaca a importância da educação para promover valores de tolerância, respeito pela diversidade e responsabilidade social. Em uma sociedade cada vez mais globalizada e interconectada, os alunos precisam desenvolver uma compreensão profunda das complexidades do mundo e a capacidade de se relacionar de forma ética e empática com os outros.
Diante da sociedade líquida, as instituições educacionais e os professores enfrentam desafios significativos que demandam uma abordagem adaptativa e flexível. O quadro 1 apresenta algumas orientações sobre como as instituições e os professores podem se comportar diante desse contexto.
Quadro 1 – Quadro de orientações para uma educação líquida


Fonte: Elaboração do autor (2025)
Em resumo, a educação mediante à sociedade atual deve ser adaptável, flexível e centrada no desenvolvimento de habilidades e competências que capacitam os alunos a prosperar em um mundo em constante mudança.
Nesse contexto, a educação 5.0 promove uma visão holística da aprendizagem, que valoriza não apenas o conhecimento académico, mas também o desenvolvimento emocional, social e ético dos alunos. Não só reconhece a necessidade de preparar os alunos para um mundo em constante mudança, mas também se compromete a desenvolver competências essenciais para a vida, como pensamento crítico, criatividade, colaboração e resolução de problemas.
Essa abordagem reconhece a importância da integração de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial, a realidade virtual e a aprendizagem adaptativa, para proporcionar experiências de aprendizagem mais personalizadas e eficazes.
Ao adotar os princípios da educação 5.0, as instituições de ensino podem capacitar os alunos para se tornarem cidadãos ativos, capazes de enfrentar os desafios do século XXI e de dar contributos significativos para a sociedade. Investir na educação 5.0 não beneficia apenas os indivíduos, mas também promove o avanço social, econômico e cultural de uma nação.
A educação 5.0 é crucial para capacitar as gerações futuras a prosperarem num mundo complicado e em constante evolução.
PROPOSTA DE PLANO DE ENSINO NA ETEC
As escolas técnicas de São Paulo (ETEC) são administradas pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza Governo do Estado de São Paulo (CPS) e servem para ofertar cursos modulares técnicos, que tornaram a ETEC extremamente respeitada pela qualidade de seus cursos. No entanto, essas escolas passaram a ofertar cursos de ensino médio com técnico (Ensino Médio com Administração, Desenvolvimento de Sistemas, Logística, Mecatrônica, entre outros). Esses cursos são para alunos que finalizam o ensino fundamental e tem 14, 15 anos. Desde 2024, porém, algumas vagas foram abertas para o período noturno para esse público juvenil e, em 2025, as vagas foram ampliadas.
Esse público é constituído pela geração Z e A, cujo perfil é diferente das gerações anteriores. Assim, até que ponto a proposta de ensino da ETEC está atendendo a essa geração inserida completamente na sociedade líquida?
Para chegar a uma resposta, delimita-se à análise de um plano de ensino, selecionando o plano do Ensino Médio Integrado com Administração, disponível ao público pela internet. A análise consiste na verificação de características da educação 5.0 presentes (ou ausentes) no plano de ensino com base em Bruno e Silva (2019) e Mello, Almeida Neto e Petrillo (2020).
A seguir, encontramos na figura 1, a página inicial do plano de curso do Ensino Médio Integrado com Técnico em Administração.
Figura 1 – Página inicial do plano do curso

Fonte: https://www.etecsjcampos.com.br/planos-de-curso/446da8571fd856b74396633d7ca5b378.pdf
O Ensino Médio Integrado com Técnico em Administração Noturno tem duração de três anos com componentes curriculares voltados tanto para área comum (ensino médio) quanto para o profissionalizante (técnico). A carga horária é de 3000 horas, sem estágio e 120 horas para TCC.
A base comum abrange as quatro áreas de conhecimento, sendo elas Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias, abrangendo os componentes curriculares: línguas (portuguesa, inglesa e espanhola), arte, educação física, matemática, física, química, biologia, história, geografia, filosofia e sociologia, totalizando 1800 horas.
Os componentes curriculares específicos, entre os indicados no quadro (Figura 4), são: Desenvolvimento das Ações de Marketing e dos Processos, Legislação Empresarial, Projeto Integrador I e II, Aplicativos informatizados, Custos, Processos e Operações contábeis, Administração da Produção e Serviços, Administração de Recursos Humanos, Desenvolvimento de Modelos de Negócios, Ética e Cidadania organizacional, Tecnologia da Informação em Administração.
O plano do curso está pautado em três instâncias: “demandas do mercado de trabalho, formação profissional do aluno e princípios contidos na LDB e demais legislações pertinentes” (CPS, 2022, p. 9). Quanto às bases legais para o curso:
O currículo do ENSINO MÉDIO COM HABILITAÇÃO PROFISSIONAL DE TÉCNICO EM ADMINISTRAÇÃO (NOTURNO) foi organizado dando atendimento ao que determinam as legislações: Lei Federal 9394, de 20-12-1996; Lei 13415, de 16-2-2017; Resolução CNE/CEB 2, de 15-12-2020; Resolução CNE/CP 1, de 5-1-2021; Resolução CNE/CEB 3, de 21-11-2018; Resolução SE 78, de 7-11-2008; Decreto Federal 5154, de 23-7-2004, alterado pelo Decreto 8.268, de 18-6-2014; Parecer CNE/CEB 11, de 12-6-2008; Deliberação CEE 207/2022 e Indicação CEE 215/2022, assim como as competências profissionais identificadas pelo Ceeteps, com a participação da comunidade escolar e de representantes do mundo do trabalho (CPS, 2022, p. 31).
Esse plano de curso é atualizado com apresentação mais reflexiva de dados sobre o mundo do trabalho. Na seção Justificativa (CPS, 2022), os tópicos atualizados referem-se:
– Ao impacto da tecnologia da informação e conhecimento no mundo dos negócios, os quais estão se adaptando às novas demandas.
– Ao novo perfil do profissional precisa atender tanto à formação acadêmica (conhecimento na área) quanto ao comportamento ético.
– A dados recentes do IBGE de 2020, noticiados pelo Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro (CRA-RJ), sobre a tendência de aumento de contratação de profissionais da área de Administração nos segmentos industrial, da tecnologia e da automação.
– Ao fato de o setor privado representar 58% das contratações na área da Administração.
Verifica-se que os autores do plano de curso exemplificado preocupam-se com a formação profissional dos alunos, mas não há uma atualização para estes que passaram a ingressar no curso noturno e que fazem parte da geração Z (ou A).
EDUCAÇÃO 5.0: PERSONALIZAÇÃO DA APRENDIZAGEM
De acordo com Bruno e Silva (2019) e Mello, Almeida Neto e Petrillo (2020), uma das principais características da educação 5.0 é a personalização da aprendizagem. A educação 5.0 reconhece que cada aluno é único, com estilos de aprendizagem, interesses e necessidades distintos. Assim, visa proporcionar experiências de aprendizagem personalizadas e adaptadas às características individuais de cada aluno.
Nesse caso, o processo de ensino-aprendizagem funciona com base nas seguintes características: 1. A avaliação é individual. Essa individualização não significa uma prova (ou outra atividade avaliativa) feita por aluno individualmente, mas o conteúdo é igual para todos os alunos da turma. Na aprendizagem personalizada, a avaliação individual implica um conhecimento profundo do perfil do aluno e a avaliação trabalha com os seus pontos fortes, suas dificuldades, bem como seus interesses e estilos de aprendizagem. 2. Conteúdo adaptado. O conteúdo é adaptado a cada aluno de acordo com o nível de conhecimento, os interesses e o ritmo de aprendizado. 3. Metodologias diversas. A personalização da aprendizagem requer, portanto, diferentes metodologias. 4. Autonomia do aluno. A autonomia implica escolha do aluno – de atividades, de objetivos e do desenvolvimento de seu próprio caminho de aprendizado. 5. Feedback constante. A devolutiva e acompanhamento dos resultados são contínuos por parte do professor.
Lamattina e Peralta (2024), nomeiam essa personalização de “aprendizagem adaptativa” e, entre outras, exemplificam com a plataforma Knewton, que:
avalia o desempenho do aluno em tempo real e modifica a apresentação do material didático conforme a necessidade do estudante. Se um aluno está tendo dificuldades com um determinado tópico, o sistema apresenta esse tópico de várias maneiras até que o aluno compreenda. Se o aluno demonstra proficiência em um conceito, o sistema ajusta o nível de dificuldade ou avança para tópicos mais complexos (Lamattina; Peralta, 2024, p. 6-7).
Devido à tecnologia digital, a personalização da aprendizagem passou a ser considerada um processo de automação, ou seja, a inteligência artificial, por exemplo, pode ser usada para identificação dos interesses do aluno e uma ferramenta para preparação e aplicação de atividades individuais.
Esses mesmos autores apresentam um esquema de feedback, que é um processo integrado ao sistema digital.
Figura 2 – Diagrama de fluxo do processo de aprendizagem adaptativa

Fonte: Lamattina e Peralta (2024, p. 8).
O processo de feedback é do próprio sistema digital. O sistema coleta dados do aluno (testes, atividades práticas ou a interação do aluno com o sistema), reúne informações sobre o desempenho anterior, preferências de aprendizagem e outros dados relevantes e identifica as necessidades específicas do aluno. Com base no acompanhamento do processo do aluno, o sistema identifica as dificuldades ou o avanço nos desafios e informa o aluno seu desempenho.
No plano de curso exemplificado, não há constatação da personalização da aprendizagem, ou seja, as aulas não são adaptadas individualmente. No caso da avaliação, o plano de curso aponta para os tipos de avaliação, sendo uma dela:
Avaliação Diagnóstica: tem o propósito de identificar os saberes adquiridos pelo aluno, bem como as lacunas de aprendizagem, servindo como parâmetro para o planejamento docente, por isso, geralmente ocorre no início do processo de ensino e de aprendizagem (CPS, 2022, p. 169).
Essa avaliação verifica o nível de aprendizagem do aluno, mas o resultado é geral no planejamento, não sendo este individualizado.
EDUCAÇÃO 5.0: TECNOLOGIA COMO FERRAMENTA FACILITADORA
A tecnologia desempenha um papel crucial na Educação 5.0, sendo utilizada como ferramenta facilitadora para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem. Esse processo inclui o uso de inteligência artificial, realidade aumentada, realidade virtual, aprendizagem adaptativa e outras tecnologias inovadoras.
Ressalta-se que a aprendizagem adaptativa corresponde à personalização da aprendizagem, já verificada que não consta no plano de curso exemplificado. Em relação às outras ferramentas, as ETECs possuem laboratórios de informática, em torno de 20 computadores por sala. A programação depende do componente curricular. No plano de curso de ensino médio integrado com Administração, há o componente curricular “Tecnologia da Informação em Administração”.
Quadro 2 – Competências e habilidades em Tecnologia da Informação em Administração

Fonte: CPS (2022, p. 165).
As ferramentas da tecnologia da informação e conhecimento limitam-se a determinados programas de gerenciamento e de elaboração de planilhas. Aparentemente, não há conteúdo explícito ou orientação sobre uso, por exemplo, de programas de realidade aumentada e inteligência artificial (IA). Talvez dependa do professor que ministra a aula para o uso mais ampliado e imersivo da tecnologia.
EDUCAÇÃO 5.0: DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS DO SÉCULO 21
A Educação 5.0 prioriza o cultivo de competências essenciais para o sucesso no século 21, como pensamento crítico, criatividade, colaboração, comunicação, resolução de problemas, alfabetização digital e outras competências socioemocionais.
Notbohm (2014, p. 99-100) diz que: “As habilidades sociais (comportamentos que queremos que nosso filho tenha) são o produto final de um organismo intrincado de elementos de desenvolvimento que denominamos ‘pensamento social’”.
Ao longo da vida, as pessoas passam por fases de aprendizagem e desenvolvimento em interação social. Aprendem a “pensar socialmente” e se modelam às regras estabelecidas pela sociedade. Tal pensamento provoca na pessoa a perspectiva de suas próprias ações, faz com que entenda que pensamentos e atitudes alheias nem sempre estão ao seu favor, baseado no que diz e faz, induz a imaginação compartilhada. Nesse sentido:
O pensamento social é a fonte da qual se originam os nossos comportamentos sociais, e essa inteligência socioemocional pode desempenhar um papel mais importante no sucesso do seu filho no longo prazo do que a inteligência cognitiva (Notbohm, 2014, p. 100).
O pensamento social é aprendido desde muito cedo, ou seja, a pessoa não nasce com “cérebro social”. Devido a esse fato, Notbohm (2014) destaca algumas ações importantes para o desenvolvimento social:
– Tomada de perspectiva: enxergar que o mundo tem outros pontos de vista, além dos seus, e encarar isso como oportunidade de aprendizado.
– Flexibilidade: fazer com que seja capaz de lidar com mudanças inesperadas na rotina ou em suas perspectivas e que os erros servem para seu próprio crescimento.
– Curiosidade: despertar o “porquê” das coisas, por que existem, por que sentem etc.
– Autoestima: acreditar em sua própria capacidade, ter respeito e amor-próprio e ensinar a não se importar com críticas de pessoas alheias.
– Visão abrangente: independente de interagir ou não com outras pessoas, é entender que o pensamento e a consciência social estão presentes em tudo que se faz.
– Comunicação: entender que existem diferentes formas de comunicação (verbal, corporal etc.) e que todas são fundamentais para interação social.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017) estabelece competências gerais, as quais abrangem as competências socioemocionais, sendo elas: autoconhecimento e autocuidado, pensamento crítico, científico e criativo e comunicação.
No plano de curso Ensino Médio Integrado com Técnico em Administração, ofertado aos alunos do período noturno desde 2024, esclarece-se que:
Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (CPS, 2022, p. 13).
Em outro ponto do plano, há relação entre a BNCC e o curso ao estabelecer o que se espera desenvolver nos alunos:
COMPETÊNCIAS PESSOAIS / SOCIOEMOCIONAIS
– Evidenciar autonomia na tomada de decisões;
– Assumir responsabilidade pelos atos praticados.
– Demonstrar tendência a ajustar situações e estabelecer acordos.
– Evidenciar capacidade de lidar com situações novas e inusitadas.
– Revelar capacidade e interesse na construção de relacionamentos.
– Demonstrar capacidade de conhecer-se, identificando seus pontos fortes e suas limitações (CPS, 2022, p. 19-20).
O plano de curso faz referência à BNCC, em especial, à competência socioemocional, bem como estabelece as competências pessoais/socioemocionais. No entanto, não se verificam componentes específicos para desenvolver tais competências nos alunos, tal como ocorre no plano de curso de ensino médio com técnico (em Administração, Desenvolvimento de Sistemas, Mecatrônica etc.) do período diurno.
Nos planos de curso diurnos, encontram-se compontentes curriculares como Laboratório de Mediação e Intervenção Sociocultural e Práticas de Empreendedorismo, que servem, especificamente, para trabalhar o pensamento crítico e criativo, além de adotarem metodologias que lidam com a colaboração e a comunicação entre os alunos. Práticas de Empreendedorismo, em especial, explora em seus objetos de conhecimento as competências socioemocionais com finalidade de desenvolver autoconhecimento e autonomia nos alunos.
Enfim, esses dois componentes curriculares estão excluídos do plano de curso do período noturno.
EDUCAÇÃO 5.0: APRENDIZAGEM EXPERIENCIAL E BASEADA EM PROJETOS
Em vez de focar apenas na memorização de fatos e informações, a Educação 5.0 promove a aprendizagem ativa e prática por meio de projetos, experiências imersivas e situações do mundo real que incentivam a aplicação do conhecimento em contextos significativos.
Nas ETECs, tanto no ensino médio quanto nos cursos de ensino médio com técnico, há uma concentração em trabalhar em projeto. No plano de curso exemplificado, o componente curricular Desenvolvimento das Ações de Marketing e dos Processos Comerciais tem, como orientações, o seguinte:
Este componente sugere atividades práticas como pesquisa de mercado realizada a partir de visita técnica a diferentes organizações, tais como empresas e comércio diverso (shopping center, centros comerciais, lojas e mercados de bairro, comércio popular, entre outros), assim como em variados setores (fábricas, escritórios, clínicas, outros) para observação direta do comportamento do consumidor e das características do mix de marketing, possibilitando uma melhor compreensão das ações mercadológicas. Sugere-se ainda, o desenvolvimento de propostas comerciais, respeitando as características de negociação para cada segmento, a partir da observação prática dos diferentes mercados (CPS, 2022, p. 67).
De acordo com as orientações, os alunos têm atividades práticas com base em visitas técnicas e aplicam a observação em suas pesquisas.
O componente curricular Projeto Integrador é específico para a aprendizagem baseada em projetos. Para cada ano escolar, há um tema proposto. Para a turma do 1º ano, a proposta é o tema Escola e Moradia como Ambientes de Aprendizagem e, para a turma do 2º, o tema é Contextualização regional (referente ao mundo do trabalho).
Já para a turma do 3º ano, há o componente curricular Desenvolvimento de Modelos de Negócios, cuja finalidade é levar o aluno a elaborar um modelo de negócio. Nessa elaboração, são consideradas características do pensamento crítico e, principalmente, o pensamento criativo, como é verificado a seguir.
Análise de valor:
Inovação; Criatividade; Sustentabilidade; Diversidade cultural; Inclusão social.
Etapas de processo de valor:
Descrição das diferentes tipologias de inovação; Ambiente inovador; Estruturação e planejamento de processo de inovação. Gestão empresarial. Estratégias competitivas; Processo criativo; Fontes de novas ideias, métodos de geração de ideias: Brainstorming; Grupos de discussão; Questionários; entre outros.
Ferramentas de gestão: Modelo Canvas de Negócios; Desing (sic) Thinking (CPS, 2022, p. 150).
A abordagem crítica da proposta de negócio está na sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social. O processo criativo está no valor inovação e criatividade; no valor inovação do ambiente, planejamento e tipos; no processo criativo com métodos para gerar ideias, desde o método brainstorming até troca de ideias em grupo.
Para essa elaboração, o plano de curso traz, também, uma metodologia ativa que é design thinking. Essa metodologia consiste na produção de um produto ou serviço como resolução para um problema centrado no ser humano. Essa produção é fruto de um trabalho criativo em grupo.
Pode-se afirmar que, no quesito aprendizagem experiencial e baseada em projetos, o plano exemplificado atende à educação 5.0.
EDUCAÇÃO 5.0: ABORDAGEM HOLÍSTICA DA APRENDIZAGEM
A Educação 5.0 enfatiza uma abordagem holística da aprendizagem, que vai além do desenvolvimento cognitivo e acadêmico, integrando aspectos emocionais, sociais, éticos e culturais no processo educacional. Já na década de 1990, Cardoso (1995, p. 45), esclarece que a educação holística é uma maneira de “estabelecer uma visão global”.
Nesse sentido, o plano de curso exemplificado abrange em sua proposta uma visão global na abordagem educacional. Na seção 4.5, de Fundamentos, lê-se:
4.5. Fundamentos Pedagógicos para o Ensino Médio com Itinerário Formativo – Formação Técnica e Profissional (FTP)
Os currículos do Centro Paula Souza, voltados ao Ensino Médio com Itinerário Formativo, têm como fundamentos pedagógicos o reconhecimento de que “[…] a educação tem um compromisso com a formação e o desenvolvimento humano global, em suas dimensões intelectual, física, afetiva, social, ética, moral e simbólica.” (Brasil, 2018, p. 16) (CPS, 2022, p. 168).
Os autores do plano de curso recorrem à BNCC (indicada na citação como Brasil, 2018) para ressaltar a proposta de ensino global, que abrange as várias dimensões do ser humano. Essa educação global é caracterizada como integral, como se verifica no plano de curso.
Para tanto, busca-se a educação integral, que preconiza:
o rompimento da fragmentação por componente curricular, propondo um trabalho interdisciplinar por área de conhecimento. No Centro Paula Souza, essa abordagem abrange tanto a Formação Geral, na linha do que propõe a BNCC, como também a Parte Diversificada, na qual orienta-se o diálogo entre os componentes curriculares para a pesquisa, o planejamento, a criação e o desenvolvimento de projetos;
uma ressignificação da realidade a partir de temas contemporâneos que envolvam o âmbito local, regional e mundial; a Educação deve acompanhar as mudanças do mundo, garantindo um processo de ensino que parte da contextualização para que se chegue ao aprendizado (CPS, 2022, p. 168).
No trecho citado, aponta-se tanto para uma educação global ou integral, cuja preocupação é com o conhecimento global (e não mais fragmentado por disciplina) e com a relação com os acontecimentos locais e mundiais.
Nesse contexto, pode-se afirmar que o plano de curso atende à educação 5.0.
EDUCAÇÃO 5.0: PROMOÇÃO DA AUTONOMIA E AUTODIRECIONAMENTO
A educação 5.0 visa promover a autonomia e auto direcionamento dos alunos no seu próprio processo de aprendizagem, incentivando-os a assumir a responsabilidade pela sua educação e a tornarem-se aprendizes ao longo da vida.
Na seção 4.5, de fundamentos, o plano de curso exemplificado indica a adoção de metodologias ativas para justamente promover a autonomia e auto direcionamento dos alunos. Assim, “foca-se o protagonismo do aluno como sujeito do seu conhecimento, com a capacidade de análise crítica, argumentação, expressão do pensamento de maneira criativa e ética (CPS, 2022, p. 169).
O plano de curso, em seu todo documento, ressalta o protagonismo do corpo discente ao ressaltar as competências e habilidades em cada componente curricular, nas propostas metodológicas e na inserção de projeto integrador e trabalho de conclusão de curso (TCC).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A perspectiva de Bauman (2001), fornece insights valiosos sobre as implicações emocionais e sociais da fluidez e da incerteza da sociedade contemporânea nas gerações mais jovens, como a geração Z. A essa sociedade, há o acréscimo do ambiente digital e suas tecnologias.
A sociedade líquida apresenta desafios significativos para as instituições educacionais, mas também oferece oportunidades para inovação e transformação. As instituições que conseguem se adaptar e responder de forma eficaz à fluidez dessa sociedade estarão bem posicionadas para preparar os alunos para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades de um mundo em constante mudança.
No momento deste artigo, a educação proposta é a 5.0, cujas características refletem uma mudança de paradigma na forma como se concebe e administra a educação, visando preparar os alunos não apenas para o sucesso acadêmico, mas também desenvolver a competência socioemocional para enfrentamento dos desafios e oportunidades do mundo contemporâneo.
Analisou-se o plano de curso Ensino Médio Integrado com Técnico em Administração (Noturno) que passou a vigorar desde 2024 em ETEC. O público desse curso é o jovem das gerações Z e A, cujo nível de imersão na tecnologia da informação e conhecimento é ininterrupto, bem como o modo de conceber o modo de conhecer é diferente do ensino tradicional.
Verificou-se que o plano de curso não atende à demanda da competência socioemocional com a exclusão de componentes curriculares específicos e existentes no curso diurno. O plano, porém, atende ao buscar uma proposta mais integradora, em que se busca um conhecimento global.
Em síntese, não se pode afirmar que o curso exemplificado de fato atende ao novo público. Na verdade, ao comparar com os planos de curso do diurno, há um retrocesso no processo de ensino-aprendizagem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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