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Resumo
INTRODUÇÃO
A inclusão social é um desafio cotidiano na vida das pessoas com Necessidades Educativas Especiais (NEE). Embora a Constituição Federal garanta a igualdade de todos perante a lei, os direitos plenos à educação ainda são negados a esse segmento social, que enfrenta dificuldades para ser aceito nos parâmetros regulares. A Constituição Federal, Capítulo II, art. 205, afirma que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.
Desde a implementação da Lei de Diretrizes e Bases, que tornou obrigatória a aceitação de alunos especiais em turmas regulares das escolas públicas, muitas dúvidas e mitos cercam pais e educadores. Acredita-se que a proteção excessiva oferecida pelas famílias e escolas especiais pode prejudicar o desenvolvimento das habilidades e competências das pessoas com deficiência.
Piaget (1972), Vygotsky (1984) e Wallon (1979), são importantes teóricos da concepção construtivista ou dialética do conhecimento. Partindo de distintas questões e com diferentes posições sobre a influência do social nos processos de desenvolvimento e de aprendizagem, todos concordam que a interação do sujeito com o meio é essencial para esses processos (La Taille; Oliveira; Dantas, 2014). A interação social pode ser compreendida como toda e qualquer forma de estabelecer relações com as pessoas e contextos vividos na sociedade, pois dependemos da natureza e da comunidade (Macedo, 2014, p. 125).
A educação inclusiva teve início em 1975 nos Estados Unidos (Mrech, 1998, p. 37), como uma reação às políticas integracionistas. A inclusão busca responder às necessidades pedagógicas de todos os alunos no mesmo contexto através de atividades comuns, embora adaptadas (Sapon-Shein, 1992; Frien e BursucK, 1996, apud Saint-Laurent, 2017, p. 68). Essa política educacional procura inserir não somente os alunos deficientes, mas todos os alunos nas escolas regulares, de forma mais completa e sistemática.
O conceito de inclusão coloca um grande desafio para o sistema educacional, pois o direito à educação na escola comum deve ser garantido a todos, incluindo crianças com deficiência, superdotadas, aquelas que vivem nas ruas, de minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e de outros grupos desfavorecidos ou marginalizados (Brasil, 1997, p. 17-18). O conceito de inclusão reflete que todas as crianças devem ser incluídas na vida social e educacional da escola e classe de seu bairro, e não somente colocadas no curso geral; a ênfase nas escolas inclusivas deve-se aos meios de se construir um sistema que considere as necessidades de cada um (Stainback e Stainback, 1992 apud Doré, Wagner, Brunet, 2017, p. 176).
A discussão sobre a efetivação da educação inclusiva é recorrente entre pedagogos e profissionais da educação básica. No entanto, é crucial que licenciandos em áreas específicas, como Biologia, Língua Portuguesa, Física e Matemática, sejam preparados para desenvolver metodologias inclusivas em todos os níveis de ensino. A intenção de enfatizar o tema em estudo justifica-se pela necessidade de formar professores atentos à legislação e capacitados para estimular adequadamente o aprendizado de todos os alunos, respeitando suas particularidades e sendo justos com as necessidades de cada aluno.
Diante desse contexto, o objetivo principal deste artigo é compreender os principais desafios no ensino de matemática dentro dos princípios da educação inclusiva. A metodologia utilizada neste estudo é descritiva e qualitativa, abrangendo uma revisão bibliográfica e um estudo de caso. Do ponto de vista dos objetivos, o trabalho enfoca conceitos e visões específicas sobre o tema da educação inclusiva no ensino de matemática. Foi realizada uma revisão de literatura por meio de levantamento bibliográfico de textos, livros e artigos científicos, além de um estudo de caso em uma escola que implementa práticas inclusivas.
Neste sentido, este artigo justifica-se pela necessidade de formar professores atentos à legislação e capacitados para estimular adequadamente o aprendizado de todos os alunos, respeitando suas particularidades. A estrutura deste trabalho está dividida em seções que abordam a fundamentação teórica sobre educação inclusiva, a dificuldade da aprendizagem da disciplina de matemática, a metodologia adotada para o estudo e a análise dos resultados, concluindo com as considerações finais sobre os desafios e as estratégias para a inclusão eficaz no ensino de matemática.
DESENVOLVIMENTO
A EDUCAÇÃO INCLUSIVA
A Educação Inclusiva é um marco na história da Educação Especial, e pressupõe uma realidade onde os educadores estejam orientados sobre as especificidades, necessidades e instrumentos adequados para que todo aluno encontre na escola um ambiente adequado, sem discriminação, buscando a permanência, adaptação e qualidade deste ambiente escolar. Com base nisso, o presente trabalho teve o auxílio das ideias de teóricos que abordam a temática da Inclusão Social. Ana Rita (2017), ressalta a importância de uma escola preparada para receber estes alunos, com materiais que possam satisfazê-los no processo de ensino, e a importância que a família tem nesse processo. Rosângela Santos (2018, p. 134), fala da importância do educador em conhecer e saber lidar com os diferentes tipos de deficiência, a fim de amenizar o pânico comum enfrentado por profissionais da área da educação.
Outro fundamento, com base nos pressupostos legais da Constituição Federal de 1988, o artigo 205 prevê o direito de todos à educação e o artigo 208 prevê o atendimento educacional especializado, e a inclusão escolar, fundamentada na atenção à diversidade, exigindo mudanças estruturais nas escolas comuns e especiais.
Vale destacar que na Resolução CNE/CEB nº 02, no seu artigo 5º, oficializa que os educandos com Necessidades Educacionais Especiais são todos aqueles que, durante o processo educacional, apresentarem: dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares, compreendidas em dois grupos; dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a utilização de linguagens e códigos aplicáveis; altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimento e atitudes. Através da educação inclusiva, permite-se às pessoas portadoras de necessidades especiais melhores condições de vida e acesso às atividades que antes eram praticamente impossíveis de serem realizadas.
A MATEMÁTICA E A INCLUSÃO
A Matemática, a qual é considerada uma das disciplinas de maior dificuldade no tocante à abstração de conceitos adquiridos, tais como trigonometria e geometria no Ensino Fundamental, para videntes (Brasil, 1998), é também para os deficientes visuais, devido ao seu grau de complexidade.
O pesquisador Elcio Schuhmacher ressalta que o ideal para se trabalhar a matemática com alunos cegos, se dá através de materiais concretos, trabalhando com recursos em que o aluno possa valorizar os sentidos que por natureza, os alunos cegos já têm aguçados: “Trabalhar matemática com alunos deficientes visuais não é uma tarefa fácil. Isso porque esses alunos precisam estar em contato direto com o que está sendo ensinado. Ou seja, eles precisam literalmente sentir para poderem fazer suas abstrações. Não que os outros alunos não tenham essa necessidade, mas é que no caso dos deficientes visuais, o concreto é um dos únicos meios possíveis de conhecimento das coisas que os cercam” (Schuhmacher; Rosa, 2019, p. 747).
Como os alunos deficientes estão incluídos em escolas regulares é importante reconhecer o papel do professor, como agente transformação do processo de ensino e aprendizagem que garantirá um ensino de qualidade a esses alunos. Ao pensar sobre os métodos pedagógicos a serem seguidos pelo professor na educação inclusiva, Mantoan (2019, p. 80), explica que “não são os especialistas nem os métodos especiais de ensino escolar que garantem a inserção de todos os alunos à escola regular, mas que é necessário um esforço efetivo e coletivo, visando transformar as escolas e aprimorar a formação dos professores para trabalhar com as diferenças nas salas de aula”. Segundo Machado (2018), proporcionar aos deficientes condições para a inclusão requer, além de espaços de integração, professores constantemente atualizados em suas especialidades com a ampliação destas, para trabalhar com estes educandos tanto em nível social quanto no educacional.
Para que a educação inclusiva de fato aconteça, de acordo com Ferreira et al. (2017), é urgente que os sistemas de ensino e a formação continuada invistam no professor, preparando-o para a utilização de materiais didáticos adaptados às necessidades educativas especiais dos deficientes incluídos na Educação Regular.
A DIFICULDADE DA APRENDIZAGEM DA DISCIPLINA DE MATEMÁTICA
No âmbito escolar, a educação da matemática é vista como uma linguagem capaz de traduzir a realidade e estabelecer suas diferenças. Na escola, o aluno deve envolver-se com atividades matemáticas que a educam nas quais, ao manipulá-las, ele construa a aprendizagem de forma significativa, pois o conhecimento matemático se manifesta como uma estratégia para a realização das intermediações criadas pelo homem, entre sociedade e natureza.
Infelizmente, o ensino da Matemática em muitas escolas e por muitos professores ainda está direcionado para atuar como um instrumento disciplinador e excludente. Um grande número de professores tem como objetivo ensinar a Matemática sem se preocupar em repassar para o aluno um conhecimento matemático significativo.
Na vida, ninguém quer enfrentar dificuldades, suportar dores ou ter sofrimentos indevidos. Por outro lado, as coisas que são capazes de provocar satisfação real nas pessoas não causam aborrecimento a elas, porque nessas situações as pessoas sempre descobrem experiências novas. É razoável, então, pensar que as abordagens da aprendizagem que não conseguem dar satisfação às pessoas ou manter seu interesse não trarão mais alegria e plenitude para a vida delas. Assim, para fazer com que o aluno aprenda, é necessário fazer com que o objeto da aprendizagem do aluno lhe seja agradável.
Avaliar a aprendizagem corresponde a uma necessidade social. A escola recebe o mandato social de educar as novas gerações e, por isso, deve responder por este mandato, obtendo dos seus educandos a manifestação de suas condutas aprendidas e desenvolvidas (Luckesi, 2018, p. 174).
A Matemática sempre foi vista como uma das disciplinas mais difíceis do currículo escolar e para alguns, chega a tornar-se um entrave na vida acadêmica. Quando se pensa em Educação Inclusiva, a situação fica pior, pois se o aluno tido como normal em termos de canais de comunicação já sente esta rejeição, os alunos com necessidades especiais sofrem além do preconceito, as intempéries da falta de preparo de profissionais da Educação para tratar deste problema específico.
Apesar do avanço da Educação no tocante à Educação Inclusiva ainda se observa na prática docente da maioria dos professores de Matemática, uma certa insegurança para ensinar Matemática aos alunos com Necessidades Especiais. O despreparo desses professores, faz com que eles deixem de lado esse conteúdo, abrindo com isso uma grande lacuna no aprendizado do aluno, trazendo-lhe consequentemente grandes dificuldades posteriores. Esse despreparo se deve, entre outras coisas, à formação deficiente do professor de Matemática. No entanto, tais obstáculos não podem servir de justificativa para o descaso com o ensino deste conteúdo, necessitando de uma postura crítica dos docentes no sentido da reflexão de suas práticas com o objetivo de enfrentar um novo desafio: a reformulação de sua própria postura profissional tanto na superação de suas lacunas de formação do conteúdo a novas técnicas de abordagem dos conteúdos referentes à Matemática.
Esses alunos necessitam vivenciar todo o universo que os cerca, para que possam desenvolver um nível de aprendizado maior. Canziani (2015, p. 12), ressalta que “a pessoa portadora de deficiência deve receber uma educação que lhe permita adaptar-se ao ambiente que a rodeia e também encontrar o caminho e os meios que lhe permitam adaptar-se às situações futuras”.
Há de se entender que os portadores de Necessidades Educativas Especiais têm condições de estudar, namorar, trabalhar como todas as pessoas ditas normais. O que muitas vezes lhes falta é a oportunidade de mostrar o seu potencial para o mundo que os cerca. É sabido que o processo de inclusão é, sem dúvida, um grande passo positivo, quanto à possibilidade de socialização do indivíduo deficiente. No entanto, percebe-se ainda, que na questão educacional, ela ainda caminha a passos lentos e curtos, pois verifica-se nas classes regulares, professores mal ou não preparados para atuar com o aluno com deficiência e observa-se também a falta de recursos didáticos adequados e necessários em sala de aula normal que abriga esses alunos.
A Educação Inclusiva na Matemática é um desafio para os professores em formação inicial e continuada da Educação Básica. Pesquisas realizadas, como por exemplo, a de Gessinger (2016), que traz em sua dissertação de mestrado relatos de professores de Matemática que tiveram em suas classes, ditas comuns, alunos com necessidades educacionais especiais, busca compreender a atuação docente na perspectiva da inclusão, verificando quais práticas são realizadas pelos diferentes professores, de modo a favorecer a construção de conhecimentos matemáticos por esses alunos com necessidades especiais inseridos nesse processo de inclusão escolar. Também há casos em sala de aula, como o relato de Oliveira (2016), que apresenta o projeto Matemática Inclusiva, desenvolvido em uma escola pública de um bairro da periferia em sua cidade, na busca da superação das dificuldades impostas pelas condições sociais e da inclusão de alunos não apenas com limitações físicas, mas também psicológicas e de raciocínio lógico.
A APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA NA ESCOLA INCLUSIVA
Estudos têm mostrado que crianças com necessidades especiais em situações de ensino regular têm melhor desempenho social e acadêmico, quando comparadas às que só recebem Educação Especial, destacando a importância da fusão da Educação Especial com a Educação Regular, pois o sucesso deste processo tende a relacionar-se com as condições oferecidas e grau de comprometimento da deficiência. Enfatizam que a inclusão pode ser realizada mediante o apoio da família, iniciando precocemente e colocando os suportes possíveis centrados na sala de aula comum.
Nas práticas de ensino de matemática em escolas inclusivas há indicações de que vem existindo grande dificuldade na relação entre uma educação matemática “informal” e “formal”, constituindo-se em um ponto de tensão a ser melhor compreendido. Adaptar materiais da Matemática escrita de uso comum: destacar alguns aspectos que necessitam serem apreendidos com cores, desenhos e traços: incluir desenhos, gráficos que ajudem na compreensão: destacar imagens: modificar conteúdos de material escrito de modo a tomar a matemática mais acessível à compreensão, etc.
Providenciar adaptação de instrumentos de avaliação e de ensino de aprendizagem em matemática. Apoiar o uso dos materiais de ensino e de aprendizagem em matemática de uso comum. Entretanto, como nosso compromisso profissional tem se voltado para população específica, temos que ressaltar o fato de que o fracasso escolar pode afetar com mais intensidade a população com necessidades educacionais especiais, menos em função de suas limitações, mas muito mais pelas limitações impostas pelo nosso sistema educacional. Essa possibilidade pode ser agravada se a ideia de que a inserção desse alunado na classe comum do ensino regular visa apenas à socialização for assumida e que o desempenho escolar pode ser desprezado.
As políticas deveriam adotar um conceito de educação inclusiva que garantisse o acesso ao conhecimento, ao desempenho escolar através de um melhor rendimento, e não apenas a socialização.
MATEMÁTICA INCLUSIVA: UMA POSSIBILIDADE
Educar para a diversidade exige uma escola inclusiva, que acomoda todos os alunos independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras, sendo o principal desafio do educador desenvolver uma prática de trabalho centrada no aluno, uma pedagogia capaz de educar e incluir além dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, aqueles que apresentam dificuldades temporárias ou permanentes na escola, acarretadas principalmente por situações de trabalho forçado, de miséria e abusos.
Independente das dificuldades acentuadas de aprendizagem vinculadas ou não a uma causa orgânica específica, é necessário assumir uma postura ativa de mudança de comportamento em relação ao currículo, promovendo a colaboração das famílias envolvidas e a cooperação dos serviços de Saúde e Justiça, quando necessários. Deve-se também valorizar a criatividade do aluno, levando em consideração sua história e seu entorno social, priorizando o trabalho com desafios, tornando-os sensíveis aos estímulos do ambiente e fazendo com que sejam capazes de adaptar-se às mudanças resolvendo problemas não convencionais. Mudando assim as concepções acerca da importância do cálculo, da geometria e da álgebra em suas vidas.
A escola desenvolve um esforço coletivo no propósito de rever concepções e paradigmas, respeitando e valorizando a diversidade desses alunos, exigindo assim que a escola atue com responsabilidade e criando espaços inclusivos. Fazendo com que a escola trace alguns objetivos voltados a esse tipo de alunado, objetivos nos quais possam estudar as causas das dificuldades de aprendizagem dos alunos, organizando o atendimento educacional de forma a assegurar a qualidade do ensino.
Na Matemática inclusiva o professor deve analisar alguns critérios para o ensinamento da Matemática a esses alunos, deve-se levar em conta o que o aluno deverá aprender, como e quando deverá aprender, que forma de organização do ensino seria mais eficiente para o processo de aprendizagem e como e quando ocorre a avaliação do educando. O planejamento do currículo escolar deve ser adaptado a fim de torná-lo apropriado às peculiaridades dos alunos, priorizarem os conteúdos que serão essenciais e instrumentais definidos por procedimentos didáticos mais acessíveis aos alunos.
Assim, não é somente o aluno que deve ser objeto de estudo, mas também as atividades propostas, o modo como o professor orienta o trabalho, a cultura da sala de aula e do contexto escolar, pois o estudante aprende significativamente quando consegue atribuir sentido às ideias e, sobre elas, é capaz de pensar, estabelecer relações, justificar, analisar, discutir e criar.
A Matemática ensinada para o aluno deficiente é a mesma ensinada para qualquer aluno, diferenciando somente na forma de aplicação e adaptação dos conteúdos, portanto o professor deve, também, conhecer os conceitos ou noções básicas da matemática, a fim de melhor aplicar os procedimentos de ensino. Entre algumas deficiências temos:
De acordo com Barbosa (2015), deficientes visuais são aqueles alunos que têm redução ou perda total da capacidade de ver com o melhor olho mesmo após correção ótica. Manifesta-se como cegueira total ou visão reduzida. Em qualquer abordagem sobre o ensino da Matemática a esses alunos, deve-se considerar que esses educandos apresentam as mesmas condições que os alunos videntes, para o aprendizado dessa disciplina, ressaltando as adaptações necessárias quanto às representações gráficas e aos recursos didáticos.
Segundo Barbosa (2015), a busca por recursos mais adequados para trabalhar com alunos portadores de deficiência visual é tarefa que exige do professor enxergar além da deficiência, lembrando que há peculiaridades no desenvolvimento de todas as crianças, tendo elas deficiência ou não. A criatividade foi e continua sendo um elemento indispensável para o homem superar problemas e desafios gerados pelo seu ambiente físico e social. É encarada como uma construção do indivíduo em suas interações com as propriedades do objeto. O trabalho voltado para a criatividade auxilia muito no processo ensino-aprendizagem de Geometria.
Sacks (2018), diz que a deficiência auditiva é a perda total ou parcial, congênita ou adquirida, da capacidade de compreender a fala por intermédio do ouvido. O desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem está subordinado ao aprendizado da linguagem oral, assim o professor deve falar de forma lenta e explicada para que o aluno possa utilizar seus outros sentidos principalmente por meio da leitura labial. Quando o professor for expor um conteúdo matemático deve repassar também de forma escrita com elementos que favoreçam a sua compreensão, utilizando materiais visuais para favorecer a apreensão das informações expostas verbalmente.
Explicar o conteúdo por meio de sintaxe matemática específica constitui uma barreira à aprendizagem, mesmo que o professor seja usuário da língua de sinais ou que haja um intérprete na classe. Para que o aprendizado se realize em uma classe de surdos, o educador deve estar apoiado em um tripé educacional. Devem estar presentes: a Língua de Sinais, o Conhecimento Matemático e uma Metodologia apropriada.
A deficiência intelectual ou mental é conhecida por problemas com origem no cérebro e que causam baixa produção de conhecimento, dificuldade de aprendizagem e um baixo nível intelectual. Entre as causas mais comuns deste transtorno estão os fatores de ordem genética, as complicações ocorridas ao longo da gestação ou durante o parto e as pós-natais. O grande enigma que se coloca diante dos pesquisadores é como detectar ainda na vida dentro do útero estas características. Nos casos mais sutis, os testes de inteligência direcionados para os pequenos não são nada confiáveis, tornando-se então difícil detectar esse problema. Nos centros educacionais as exigências intelectuais aumentam e aí a deficiência mental torna-se mais explícita.
Segundo Kishimoto (2017), ao permitir à ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de representação da criança ou suas múltiplas inteligências, contribuindo para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Em relação à importância do jogo para o desenvolvimento da criança deficiente, o autor supracitado afirma que o jogo possibilita ao deficiente mental aprender de acordo com seu ritmo e suas capacidades, além de propiciar a integração com o mundo por meio de relações e de vivências. A aquisição do conhecimento físico e a exploração do meio ambiente e dos objetos que o constituem possibilitam à criança ter elementos para estabelecer relações e desenvolver seu raciocínio lógico-matemático, o que é importante para o desenvolvimento da capacidade de calcular, de ler e de escrever.
A deficiência física é muito variada, podendo ser observada em alunos com problemas ósseos (artrite reumatóide, fraturas, deformações congênitas), com alterações clínicas (anemias, subnutrições, verminoses) e com alterações neuromusculares (paralisia cerebral, poliomielite), fatores que podem interferir na aprendizagem e são os mais encontrados nas classes comuns de ensino regular. Assim como para as outras deficiências, o deficiente físico também deve ter acesso a materiais concretos e imagens.
Segundo Kamii (2017), os jogos possibilitam a agilidade mental, a iniciativa e a curiosidade presentes nas diversas situações que se estendem naturalmente para assuntos acadêmicos. Assim, as estruturas aritméticas, em geral, construídas também pelo processo de abstração reflexiva, podem ser propiciadas e incentivadas pelos jogos com regras, realizados preferencialmente em grupo. A criança com deficiência física, devido ao déficit motor, encontra maiores dificuldades e poucas oportunidades para participar de jogos e brincadeiras, pois o seu próprio corpo, às vezes, não funciona como um recurso inicial.
O PROFESSOR DE MATEMÁTICA NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Os portadores de necessidades especiais têm os seus direitos garantidos por lei. Sabemos que vários acordos foram feitos durante alguns anos para melhorar a educação inclusiva, no entanto, esses acordos apesar de justos, são motivos que trazem muitas preocupações para os professores de Matemática, já que dentro da realidade das faculdades, os cursos de magistério e licenciatura, em geral, não possuem disciplinas que habilitem os futuros professores a trabalharem com alunos com necessidades especiais e quando possuem esta disciplina ela é dada muito superficial, muito teórica, os futuros professores não têm nenhum tipo de contato com alunos portadores de necessidades especiais. Os futuros professores não têm o preparo suficiente para o ensino da matemática a essas crianças, tornando-se assim um grande desafio a tarefa que a docência representa nos dias de hoje numa sociedade que sofre constantes mudanças.
Segundo César (2017), a Matemática tem um rigor formal e é vista como uma Ciência desvinculada das outras áreas, formada por verdades absolutas e incontestáveis, às quais nem todos conseguem ter acesso e cuja aprendizagem é considerada difícil, sendo ainda considerada a disciplina com maior insucesso escolar e mais alta taxa de rejeição.
Os questionamentos são muitos em relação aos conhecimentos que o professor da escola regular precisa para incluir os alunos com deficiências em sua classe. Ferreira (2018), afirma que o educador do ensino regular não precisa ter formação especializada, mas é necessário que se torne um pesquisador do seu saber e do seu fazer.
O professor de matemática colabora quando manifesta sua personalidade adequada ao tipo de trabalho que irá desenvolver, necessitando, antes de tudo, ter equilíbrio emocional, para que possa encarar os problemas que lhe apresentem, com serenidade, compreensão e tolerância. Esse professor deve possuir uma boa formação profissional, mas sabemos que existe uma falta de conhecimento sobre necessidades educacionais especiais, o que provoca insegurança ao receberem alunos em situação de deficiência em suas classes. Torna-se evidente que cada vez mais os professores precisam investir em sua formação e que a presença de alunos com necessidades especiais em sala de aula deve ser um estímulo para a busca de novos conhecimentos, através de cursos, oficinas, seminários e conversas com profissionais dentro e fora da escola. Também cabe ao professor passar do querer para o saber como fazer. Com o passar dos anos o papel do professor tem mudado constantemente, exigindo que as aulas de Matemática sejam mais atraentes e que contribuam para a vivência dos alunos no dia-a-dia.
Segundo Vygotsky (1988), para a aquisição de conceitos é necessário que o professor identifique os conhecimentos que os alunos já têm, que construíram nas mais diferentes interações e aqueles que estão em fase de construção, que o autor chama de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), e que poderão ser consolidados com a mediação do professor. Assim, podemos entender que é função do professor localizar ou criar sucessivas zonas de desenvolvimento proximal para consolidá-las.
O professor precisa identificar os conceitos matemáticos espontâneos de seus alunos, pois, a partir do momento em que os próprios conhecimentos começarem a fazer parte do processo, consegue-se estabelecer relações entre os conceitos que têm e os que irão surgir no decorrer da aprendizagem, visto que o desconhecimento sobre o conteúdo de noções básicas por parte do professor causa consequentemente prejuízo quanto às aquisições realizadas por parte do aluno deficiente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados desta pesquisa confirmam a importância da adaptação e utilização de recursos específicos para o ensino de Matemática a alunos com deficiência. A Matemática faz parte do currículo básico de toda instituição, e embora muitos a considerem abstrata, ela é um conteúdo indispensável no ensino desses alunos. Sua aplicabilidade é amplamente reconhecida em diversas áreas do conhecimento. D’Ambrósio (2016), afirma que “a tendência de todas as Ciências é cada vez mais de se matematizar em função do desenvolvimento de modelos matemáticos que descrevem fenômenos naturais de maneira adequada.”
Para que o aluno com deficiência visual assimile os conteúdos dessa disciplina, é necessária a utilização de recursos específicos e a adaptação de material, sempre pensando em como oferecer a atividade para que ela possa ser realizada por meio da exploração tátil, auditiva e olfativa, possibilitando, desse modo, a acessibilidade curricular. A inclusão cresce a cada ano e o desafio de garantir uma educação de qualidade para todos também acompanha esse crescimento. O que se busca é uma escola em que os alunos aprendam a conviver com a diferença e se tornem cidadãos solidários. O professor é fundamental nesse processo, pois é ele quem conduzirá sua aula para que essa realidade aconteça.
As aulas de matemática costumam ser expositivas, o que acaba por criar uma concepção de uma aprendizagem construída apenas com a visão, justamente o sentido que falta a esses alunos. Daí a iniciativa de buscar estratégias para facilitar a formação de conceitos matemáticos por deficientes visuais, contribuindo para uma efetiva inclusão escolar. A pesquisa revela que a formação contínua dos professores e a adaptação das práticas pedagógicas são essenciais para garantir a inclusão efetiva de todos os alunos, respeitando suas particularidades e necessidades específicas.
Enfim, acreditamos que alunos com algum tipo de deficiência têm o mesmo potencial de aprendizagem e podem demonstrar um desempenho escolar equivalente ou superior ao de alunos que enxergam, mediante condições e recursos adequados que promovam assim uma educação verdadeiramente inclusiva. É fundamental que as escolas e os educadores continuem a buscar formas de adaptar o ensino e criar ambientes de aprendizagem que sejam acessíveis a todos, promovendo a igualdade de oportunidades e a inclusão plena.
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