O papel do diretor de escola na implementação de ações antirracistas na educação infantil: Reflexões sobre a prática

THE ROLE OF THE SCHOOL PRINCIPAL IN THE IMPLEMENTATION OF ANTIRACIST ACTIONS IN EARLY CHILDHOOD EDUCATION: REFLECTIONS ON PRACTICE

EL PAPEL DEL DIRECTOR ESCOLAR EN LA IMPLEMENTACIÓN DE ACCIONES ANTIRRACISTAS EN LA EDUCACIÓN INFANTIL: REFLEXIONES SOBRE LA PRÁCTICA

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/61C2DC

DOI

doi.org/10.63391/61C2DC

Jochi, Fabiana Aparecida Pereira. O papel do diretor de escola na implementação de ações antirracistas na educação infantil: Reflexões sobre a prática. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O racismo estrutural se manifesta de forma sistêmica em diversas instituições sociais, incluindo a escola. Na educação infantil, a promoção de ações antirracistas é fundamental para garantir a formação de crianças conscientes e respeitosas com a diversidade, uma vez que o racismo é uma prática estruturante das relações sociais brasileiras, encontrando eco nas práticas cotidianas das escolas, inclusive nessa etapa da educação. Propor uma reflexão sobre a promoção de práticas antirracistas na educação infantil, procurando analisar o papel do diretor de escola na implementação dessas ações afirmativas, uma vez que a gestão escolar pode contribuir tanto para a reprodução quanto para o enfrentamento das desigualdades raciais no cotidiano escolar, faz-se importante. O estudo se fundamenta em aportes teóricos contemporâneos e propõe caminhos para a construção de uma gestão comprometida com uma educação democrática e inclusiva, desvelando a necessidade urgente de uma gestão escolar que rompa com o silêncio, a omissão e a reprodução da lógica racial excludente. Com base em referenciais teóricos críticos e uma abordagem qualitativa, a reflexão aponta para a necessidade de uma liderança escolar que compreenda o racismo como fenômeno estrutural e atue de forma intencional para combatê-lo.
Palavras-chave
ações antirracistas; educação infantil; gestão escolar; racismo estrutural.

Summary

Structural racism manifests itself systemically in various social institutions, including schools. In early childhood education, the promotion of antiracist actions is essential to ensure the development of children who are conscious and respectful of diversity, since racism is a structuring practice of Brazilian social relations, echoing in the everyday practices of schools—even at this educational stage. Proposing a reflection on the promotion of antiracist practices in early childhood education, and analyzing the role of the school principal in the implementation of such affirmative actions, is crucial, as school management can either contribute to the reproduction or the confrontation of racial inequalities in the school context. This study is grounded in contemporary theoretical frameworks and proposes pathways for building school leadership committed to democratic and inclusive education, revealing the urgent need for school management that breaks with silence, omission, and the reproduction of an exclusionary racial logic. Based on critical theoretical references and a qualitative approach, the reflection highlights the need for school leadership that understands racism as a structural phenomenon and acts intentionally to combat it.
Keywords
antiracist actions; early childhood education; school management; structural racism.

Resumen

El racismo estructural se manifiesta de forma sistémica en diversas instituciones sociales, incluida la escuela. En la educación infantil, la promoción de acciones antirracistas es fundamental para garantizar la formación de niños y niñas conscientes y respetuosos con la diversidad, ya que el racismo es una práctica estructurante de las relaciones sociales brasileñas, encontrando eco en las prácticas cotidianas de las escuelas, incluso en esta etapa educativa. Proponer una reflexión sobre la promoción de prácticas antirracistas en la educación infantil, buscando analizar el papel del director escolar en la implementación de estas acciones afirmativas, resulta importante, ya que la gestión escolar puede contribuir tanto a la reproducción como al enfrentamiento de las desigualdades raciales en el entorno escolar. El estudio se fundamenta en aportes teóricos contemporáneos y propone caminos para la construcción de una gestión comprometida con una educación democrática e inclusiva, revelando la necesidad urgente de una gestión escolar que rompa con el silencio, la omisión y la reproducción de la lógica racial excluyente. Basado en referentes teóricos críticos y un enfoque cualitativo, el análisis señala la necesidad de un liderazgo escolar que comprenda el racismo como un fenómeno estructural y actúe de forma intencional para combatirlo.
Palavras-clave
acciones antirracistas; educación infantil; gestión escolar; racismo estructural.

INTRODUÇÃO

O racismo no Brasil é estrutural e historicamente constituído, perpassando todas as dimensões da vida social, incluindo as práticas escolares (Almeida, 2020). Assim, a escola, como espaço social de formação de subjetividades, não é neutra em relação às dinâmicas de reprodução das desigualdades raciais. Na educação infantil, fase crucial para o desenvolvimento identitário das crianças, a responsabilidade dos gestores escolares é ainda maior.

A lei 10.639, datada de 9 de janeiro de 2003, em que pese esses mais de vintes anos de sua vigência, não raro são presenciadas práticas racistas no contexto escolar, inclusive com crianças menores – etapa da educação infantil, as quais acontecem de forma direta, indireta ou até inconsciente. Importante ressaltar que apesar do amparo legal e a luta do movimento negro do Brasil, o tema nem sempre é motivo de estudos e discussões nas reuniões pedagógicas, o que não contribui para sua efetivação no currículo escolar, no Projeto Político Pedagógico (PPP) da unidade escolar e nas práticas pedagógicas diárias, impactando inclusive na percepção (ou não) de ações racistas e preconceituosas praticadas em seu contexto, perdurando o discurso que no país, nas instituições escolares, na sala de aula, não existe o racismo, o que acaba por não tratar de fato a problemática, mas perpetuá-la. Nessa perspectiva, sendo a escola um local onde se aprende e se ensina inclusive a ser como indivíduo dentro de uma sociedade politicamente organizada, é essencial que o espaço e os momentos de formação sejam utilizados na reflexão desse tema, sendo notório sua relevância social.

A escola pode ser tanto espaço de perpetuação do racismo quanto de enfrentamento a ele. Segundo Munanga (2005), é por meio da educação que se pode promover o respeito às diferenças e a valorização da cultura afro-brasileira, cumprindo o que determinam marcos legais como a Lei 10.639/2003. No entanto, a efetivação de práticas pedagógicas antirracistas depende de escolhas políticas e pedagógicas conscientes feitas pelas lideranças escolares. Assim, a equipe gestora pode organizar momentos da formação continuada dos professores e funcionários, utilizando de suas prerrogativas para incentivar a reflexão e ação das práticas pedagógicas de trabalho com relações étnico-raciais na instituição, podendo contribuir com a construção de novos valores pessoais, que serão refletidos no ambiente escolar.

Nessa toada, a atuação do diretor é central nesse processo, pois, como aponta Gomes (2017), o Projeto Político-Pedagógico (PPP) precisa ser orientado para a luta contra as desigualdades raciais de forma sistemática e contínua. O diretor tem o papel de garantir formação de professores, revisão de materiais didáticos e a promoção de uma cultura escolar que celebre a diversidade étnico-racial.

Djamila Ribeiro (2017) reforça que a transformação das instituições educativas exige a construção de um olhar crítico sobre as relações raciais. Em consonância, Freire (1996) lembra que a educação é um ato político, e a construção de uma sociedade mais justa passa necessariamente pela formação crítica de seus sujeitos desde a infância.

Nos dizeres de Macedo:

A discriminação racial na escola quase sempre se manifesta de forma velada e é acolhida por toda comunidade escolar, que ao passo de não a coibir acabam por ratifica-la. Noutro sentido, a escola tem o poder de criar diálogo e descortinar olhares mais fraternos e compreensivos à questão da diversidade. (Macedo, 2014, p. 7)

DESENVOLVIMENTO

O diretor escolar como influenciador social no ambiente escolar

A busca do diretor escolar pelo enfrentamento dessa temática, auxiliando através da mobilização de toda a máquina para atuar na eliminação do preconceito do tecido social em que está inserido é urgente, sendo a questão da implementação de ações antirracistas na educação infantil, para além das questões legais, as quais reforçam a obrigatoriedade de trabalhar a história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica, inclusive na educação infantil, é especialmente relevante uma vez que é o momento em que se desenvolve a formação da identidade, da autoestima e das relações sociais das crianças. Nesse período, as percepções sobre si mesmas e sobre o outro são profundamente moldadas, inclusive no que tange a diferenças étnico-raciais. Desenvolver ações antirracistas nesse contexto é essencial, uma vez que crianças, mesmo muito pequenas, percebem diferenças de cor, cabelo, traços, e podem já manifestar preconceitos que refletem o racismo estrutural da sociedade, dessa forma a escola tem o dever de intervir de forma pedagógica para desconstruir essas ideias, rompendo com a lógica da neutralidade.

Práticas antirracistas permitem que crianças negras, indígenas e de outras etnias se vejam representadas de forma positiva, fortalecendo sua autoestima e garantindo o direito à identidade. Quando a escola está engajada para o trabalho e tratamento do respeito às diferenças e a valorização da diversidade, formam-se indivíduos mais empáticos, críticos e capazes de construir uma sociedade mais justa e democrática. Nesse passo, estar num ambiente tão político e social como a escola e fechar os olhos para a realidade da existência do racismo como estrutura sistêmica, escola é contribuir para a sua manutenção. Ser antirracista é adotar uma postura ativa, e não apenas reativa, promovendo práticas pedagógicas inclusivas e transformadoras.

Como diz a educadora Bárbara Carine, “não basta não ser racista, é preciso ser ativamente antirracista desde as primeiras etapas da escolarização.” (2021, p. 30).

Refletir e agir para implementar ações antirracistas na Educação Infantil é um compromisso ético, pedagógico e legal, e um passo decisivo para romper com a estrutura de exclusão racial que atravessa a sociedade brasileira. Dessa forma, a relevância do papel desempenhado pelos diretores de escolas de educação infantil na promoção de práticas pedagógicas que enfrentem o racismo estrutural é real e significativa.

A escola brasileira, embora muitas vezes romantizada como espaço de igualdade, reproduz práticas e saberes que sustentam a exclusão racial desde a infância (Almeida, 2020). No cotidiano da educação infantil, o racismo se manifesta de forma sutil e contínua: na escolha dos materiais pedagógicos, nas músicas cantadas, nas histórias contadas, nos apelidos “brincalhões”, na invisibilidade de heróis e heroínas negras.

Munanga (2005) alerta que o mito da democracia racial brasileira contribuiu para o apagamento das denúncias de práticas discriminatórias. Dentro das escolas, essa falsa ideia de neutralidade é reforçada quando a gestão escolar se omite diante do racismo ou quando considera as questões étnico-raciais como temas “secundários”.

Embora existam políticas públicas voltadas à valorização da diversidade étnico-racial, sua efetiva implementação ainda enfrenta entraves, especialmente nas instituições de educação infantil, onde muitas vezes o racismo é naturalizado ou invisibilizado.

O diretor de escola ocupa, nesse cenário, um lugar estratégico. Sua postura, seja de enfrentamento, seja de omissão, define a capacidade da escola em construir práticas verdadeiramente antirracistas. Como afirma Nilma Lino Gomes (2017), não há espaço para neutralidade: toda gestão escolar que silencia diante do racismo, o alimenta, uma vez que além de ser responsável pela gestão administrativa e pedagógica, também é o articulador das políticas e práticas educacionais dentro de sua instituição. A gestão escolar deve, portanto, ser compreendida como um elemento central na implementação de ações afirmativas e antirracistas, garantindo que as diretrizes legais, como a Lei nº 10.639/2003 e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sejam efetivamente aplicadas.

Dessa forma este artigo tem como objetivo refletir, ainda que de forma singela, o papel do diretor de escola enquanto líder pedagógico e gestor da instituição, para a implementação dessas ações, fomentando tais discussões nos ambientes escolares, no sentido de incentivarem a construção de escolas mais inclusivas, equitativas, na promoção de um ambiente antirracista, reconhecendo que a infância é a etapa fundamental para a consolidação de valores sociais de respeito e justiça racial, engajando a comunidade escolar (alunos, professores, pais e funcionários), com base em autores relevantes para tal reflexão.

Segundo Almeida (2020), o racismo estrutural refere-se à maneira como o racismo se integra de forma invisível e permanente às instituições, incluindo a escola.

O racismo estrutural se apresenta como uma disposição coletiva, firmada em práticas e instituições sociais, que reproduzem a desigualdade racial independentemente da intenção dos indivíduos. (Almeida, 2020, p. 23)

Combater o racismo no espaço educativo exige mais do que ações pontuais: requer uma revisão das práticas, das relações e dos currículos escolares, apontando que o racismo não é resultado de ações individuais, mas de estruturas sociais e institucionais que naturalizam a exclusão de pessoas negras. A escola, enquanto instituição, não está à margem dessa estrutura: ela a reproduz diariamente. 

A educação étnico-racial teve um processo histórico de lutas para garantir sua visibilidade, demandando ainda ações para a efetividade na implementação de ações antirracistas no ambiente escolar, no fomento de formações continuadas e capacitações para a prática docente que tratam do tema. Cabe a escola contribuir para a ampliação das discussões sobre a educação étnico-racial e a implementação de ações antirracistas em seu ambiente, trazendo a temática como eixo inclusivo do PPP, compreendendo seu papel como influenciador social.

Destaca ainda Munanga (2005) que a escola deve promover uma educação emancipadora, que reconheça as contribuições históricas e culturais dos povos africanos e afro-brasileiros, não apenas porque consta em lei, mas porque é direito, tanto das pessoas pretas como todas as demais, é humano, é um valor social inestimável. Gomes (2017) complementa que as ações antirracistas precisam estar incorporadas ao cotidiano escolar, especialmente nos projetos pedagógicos.

No campo da gestão escolar, Paro (2010) argumenta que o diretor deve ser compreendido como agente político, e não apenas como gestor administrativo. É o seu compromisso com a transformação social que permitirá à escola superar as desigualdades, uma vez que seu cargo e posição não é apenas técnico, mas político. Portanto, cabe ao diretor liderar processos que combatam as violências simbólicas e práticas racistas cotidianas, incentivando atitudes antirracistas no meio social que ocupa.

Ao entender seu papel crucial para a garantia de ações afirmativas no ambiente escolar, o diretor escolar possibilita que todos, educadores, funcionários, crianças e suas famílias possam atuar de forma consciente, para além do combate ao racismo, mas agindo com atitudes antirracistas, corroborando com os dizeres de Barbára Carine (2021), quando propõe que o educador antirracista seja alguém que sonhe e lute por uma educação para a libertação, questionando: “Professor, professora, para qual sonho você educa?” (Carine, 2021, p. 17), desafiando todos os profissionais da educação a refletirem sobre seu papel na construção de um futuro antirracista, educando dessa maneira “para o sonho da libertação”, questionando para qual projeto de sociedade o ambiente escolar está formando as crianças, orientando a reflexão sobre os valores que sustentam o cotidiano escolar. Sem compromisso explícito com a luta antirracista, a educação apenas reproduz opressões.

Conforme os ditames para o cargo, o diretor de escola deve assegurar o cumprimento das leis e dos regulamentos de ensino, desta feita, a efetivação de uma gestão escolar antirracista não apenas se alinha com princípios éticos e pedagógicos, mas também constitui uma exigência legal no Brasil. Um dos marcos mais significativos nesse processo é a Lei nº 10.639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN – Lei nº 9.394/96) para tornar obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio, sendo posteriormente, ampliada pela Lei nº 11.645/08, que incluiu também a obrigatoriedade do ensino da história e cultura indígena. Esses dispositivos legais visam não apenas o reconhecimento das contribuições dos povos africanos e indígenas para a formação da sociedade brasileira, mas também a promoção de uma educação que combata o racismo, a discriminação e o preconceito no espaço escolar. 

A operacionalização dessas leis foi orientada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (Parecer CNE/CP nº 003/2004 e Resolução CNE/CP nº 001/2004). As Diretrizes estabelecem a necessidade de reestruturação dos currículos escolares, formação continuada dos profissionais da educação e elaboração de materiais didáticos que reflitam a diversidade étnico-racial do país. Nesse contexto, a gestão escolar ocupa papel central. Não basta a existência da lei: é o diretor, junto aos coordenadores e professores, quem organiza o Projeto Político-Pedagógico (PPP), define prioridades de formação docente, avalia materiais e projetos, criando condições para que as práticas antirracistas sejam efetivamente implementadas. Como enfatiza Nilma Lino Gomes (2017), a educação das relações étnico-raciais demanda um compromisso coletivo e uma atuação política que se manifeste em ações institucionais contínuas, e não em atividades isoladas ou meramente comemorativas. O racismo, como estrutura social (Almeida, 2020), exige da escola e de sua gestão uma postura crítica e intencional. Para além do mês de novembro e o dia 20, apesar de sua importância ser indiscutível, o trabalho de educadores antirracistas precisam ocorrer durante todos os dias letivos, sendo objeto de estudo, discussões e projetos, com os professores, crianças e toda a comunidade escolar.

A urgência do trabalho antirracista na educação infantil, auxiliará a construção de pessoas que conscientemente trabalharão para uma sociedade mais justa e igualitária, sendo que a ausência de ações efetivas por parte da direção escolar, pode configurar não apenas uma falha pedagógica, mas também um descumprimento das normativas educacionais vigentes. 

A reflexão verdadeira conduz à ação. Ao dizer sua palavra verdadeira, o homem transforma o mundo. A práxis é a ação e reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Portanto, não é na resignação, mas na luta por sua libertação que o homem se humaniza. A libertação é um parto, e um parto doloroso. A omissão ou a neutralidade em face da luta, ao invés de humanizar, torna os homens objetos da manipulação, da dominação, da exploração. (Freire, 1987, p. 40)

Paulo Freire (1987), continua nos provocando e incomodando quando nos convida a refletir sobre a educação ser um ato político, e a neutralidade diante das injustiças apenas reforça as estruturas opressoras. Assim, consolidar uma gestão escolar antirracista significa implementar um projeto educativo que garanta o direito das crianças a uma formação que reconheça sua identidade, valorize sua história e combata todas as formas de discriminação, concretizando os ideais de democracia, justiça social e equidade no ambiente escolar. 

O enfrentamento ao racismo no ambiente escolar não é uma tarefa isolada nem pontual. Trata-se de um processo contínuo que exige do diretor de escola a compreensão do fenômeno racial como estruturante das relações sociais e escolares e que a luta por sair desse sistema lhe atravessa e convida a ação. Ação que inclui o reconhecimento da estrutura racial da sociedade em que formam os indivíduos, crescem, aprendem e vivem, se recusando manter as lentes da naturalização das violências cotidianas. Diretores que se mantêm neutros ou omissos reforçam o ciclo de exclusão racial que marca a história educacional brasileira. Desse modo, é papel como diretor de escola, legal e social, agir para a implementação de práticas antirracistas na educação infantil, propiciar momentos de formação crítica dos professores, reformulação de práticas pedagógicas, repensar os currículos, revisitar os materiais pedagógicos, valorizar a cultura afro-brasileira e indígena no cotidiano escolar, agindo para a criação de ambientes escolares seguros e acolhedores para todas as crianças. 

A gestão escolar não se limita à administração burocrática; ela deve ser responsável pela construção de uma cultura democrática que respeite e valorize as diferenças, promovendo a inclusão e a equidade. (Mello, 2000, p. 32)

É possível considerar uma forma de ingenuidade pensar que tais ações são simples de efetivar no dia-a-dia, no entanto, é necessário iniciar esse processo. Provocar o processo de ação-reflexão-ação, conceito de Freire tão difundido entre os educadores deve ser mais uma vez recorrer, seja pelo fortalecimento do papel do diretor escolar mais comprometido com a justiça racial, seja em apontar caminhos para a consolidação de práticas antirracistas efetivas nas escolas de educação infantil, pois é certo o reconhecimento da importância do tema, todavia também persistem desafios em operacionalizar práticas antirracistas no seu cotidiano. 

Por outro lado, muitos materiais e práticas tem sido divulgado e praticado. Avanços como projetos que valorizam a cultura afro-brasileira, formações internas sobre relações étnico-raciais e reformulações nos acervos literários e brincantes de algumas escolas já são vistos, de modo a proporcionar o desenvolvimento do pensamento crítico das crianças, trazendo-as como protagonistas de uma sociedade mais justa, tornando-as conscientes e respeitosas com a diversidade. A exemplo disse recentemente Bárbara Carine nos presenteou com sua obra “Como ser um educador antirracista”, oferecendo uma visão minuciosa sobre como a educação deve ser prática e teoricamente transformadora, abordando a importância de ser intencional na luta contra o racismo na educação. Levando a todos, especialmente o líder da instituição educacional que trabalha com as infâncias se posicionar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O enfrentamento ao racismo na educação infantil exige mais do que boas intenções ou ações pontuais — requer uma gestão escolar intencional, crítica e comprometida com a transformação estrutural das práticas pedagógicas, curriculares e institucionais. Como evidenciado ao longo deste trabalho, o(a) diretor(a) de escola ocupa posição estratégica na construção de um ambiente educativo que não apenas reconhece a diversidade, mas atua firmemente na promoção da equidade racial desde os primeiros anos da vida escolar.

Ao compreendermos o racismo como fenômeno estrutural, que atravessa cotidianamente a organização das escolas, torna-se urgente romper com a neutralidade e adotar uma postura pedagógica e política antirracista. A gestão escolar tem, portanto, o dever ético, legal e formativo de incorporar a educação das relações étnico-raciais ao Projeto Político-Pedagógico, promovendo formações continuadas, revisão de acervos, inclusão de representatividade e o fomento de práticas que valorizem as culturas afro-brasileira e indígena.

Este estudo reafirma que ser antirracista não é uma escolha opcional para quem ocupa cargos de liderança na educação — é uma responsabilidade inadiável. O(a) diretor(a) de escola, ao assumir esse compromisso, amplia os horizontes da função gestora e contribui para o fortalecimento de uma escola democrática, inclusiva e socialmente justa. Nesse processo, formar professoras e professores conscientes, engajar as famílias e reconhecer as crianças como sujeitos históricos e culturais são ações concretas que potencializam a transformação.

A práxis freireana — ação-reflexão-ação — aqui ganha forma e propósito. É preciso agir com lucidez, refletir com profundidade e sustentar, no cotidiano, práticas que desmontem o mito da democracia racial e coloquem em evidência novas possibilidades de convivência, pertencimento e reconhecimento.

Que esta reflexão inspire gestores(as) escolares a assumirem com coragem o papel de educadores antirracistas e a liderarem, em suas instituições, o movimento por uma infância livre do racismo e plena de dignidade.

Ser um educador antirracista exige uma postura ativa, que vai além de uma ausência de atitudes racistas, sendo necessário integrar práticas pedagógicas que combatam a discriminação racial e promovam o reconhecimento da diversidade cultural no ambiente escolar. (Carine, 2021, p. 42)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista. Rio de Janeiro: Pallas, 2021.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GOMES, Nilma Lino. Movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.

MACEDO, A. Gestão escolar e educação antirracista: a implementação da Lei 10.639/2003 na perspectiva da educação como direito. Brasília, DF: UnB, 2014.

MELLO, Guiomar Namo de. Gestão educacional: novas perspectivas. São Paulo: Cortez, 2000.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

PARO, Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo: Ática, 2010.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

Jochi, Fabiana Aparecida Pereira. O papel do diretor de escola na implementação de ações antirracistas na educação infantil: Reflexões sobre a prática.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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