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Resumo
INTRODUÇÃO
A Educação Física, enquanto área essencial na formação integral dos estudantes, vai muito além da prática esportiva. Ela envolve expressão corporal, convivência, cooperação e desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo. Entretanto, garantir que esse componente curricular atenda às necessidades de todos os alunos ainda é um grande desafio, especialmente quando se trata da inclusão de estudantes surdos, cuja principal barreira está relacionada à comunicação em sala de aula e na quadra. Nesse cenário, os recursos visuais e digitais vêm se destacando como aliados importantes para tornar o processo de ensino mais acessível.
Nos últimos anos, com o avanço das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs), surgiram novas possibilidades para adaptar conteúdos, linguagens e estratégias pedagógicas. Em especial na Educação Física, onde há predominância de atividades orais e demonstrativas, o uso de tecnologias acessíveis, como vídeos em Libras, aplicativos de tradução simultânea, animações visuais, códigos QR com instruções sinalizadas e materiais ilustrativos, tem potencial para romper barreiras e ampliar a participação dos estudantes surdos nas práticas corporais escolares. Como reforça a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), o acesso à comunicação e à informação é um direito fundamental da pessoa com deficiência, e a escola deve garantir meios para sua concretização.
A relevância deste estudo está justamente em compreender como os professores de Educação Física podem, e já vêm, utilizando as tecnologias de forma criativa e acessível para tornar as aulas mais inclusivas para os alunos surdos. Ao observar experiências bem-sucedidas relatadas em escolas públicas, percebe-se que a presença de recursos digitais acessíveis impacta diretamente o engajamento, a autoestima e a aprendizagem desses estudantes. A utilização de materiais visuais e multimodais, associados à Língua Brasileira de Sinais (Libras), contribui não apenas para a compreensão dos conteúdos, mas também para a construção de vínculos entre surdos, ouvintes e professores.
Além disso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aponta como competência geral a valorização das diferentes linguagens e tecnologias no processo educativo, o que inclui, naturalmente, as tecnologias assistivas e acessíveis. No entanto, o que se percebe na prática é que muitos professores de Educação Física ainda não se sentem preparados para utilizar essas ferramentas de forma eficiente. Conforme destaca Santos e Pereira (2023), apesar da crescente disponibilidade de tecnologias na escola, a formação docente ainda é um entrave para seu uso pedagógico qualificado, especialmente no que se refere à inclusão de estudantes com deficiência auditiva.
Outro ponto que justifica esta pesquisa é o fato de que, tradicionalmente, a Educação Física sempre teve grande dependência da linguagem oral e da comunicação direta entre professor e aluno, o que pode excluir, mesmo que involuntariamente, estudantes que utilizam a Libras como primeira língua. O uso de vídeos sinalizados, infográficos, animações, legendas e aplicativos interativos surge, portanto, como alternativa concreta para garantir o direito de todos os alunos ao aprendizado, conforme prevê o Plano Nacional de Educação (PNE) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS 4).
Diante disso, esta pesquisa busca responder: como os professores de Educação Física têm lidado com os desafios comunicacionais na inclusão de estudantes surdos? De que forma as tecnologias visuais e digitais podem facilitar esse processo? Quais práticas já se mostraram eficazes e como podem ser compartilhadas com outras escolas e professores?
Com base nesse contexto, o objetivo geral deste artigo é analisar o uso de recursos visuais e digitais como ferramentas de apoio à inclusão de estudantes surdos nas aulas de Educação Física. Como objetivos específicos, propõe-se:
Investigar como professores têm utilizado recursos tecnológicos acessíveis em suas práticas pedagógicas;
Identificar os principais desafios enfrentados pelos docentes para integrar a Libras e as tecnologias no ensino da Educação Física;
Mapear experiências exitosas em escolas públicas que demonstram o uso criativo e eficaz desses recursos.
Este artigo está estruturado em cinco seções, além da introdução. Na seção 2, apresenta-se o referencial teórico sobre inclusão escolar, TDICs, acessibilidade e práticas pedagógicas com estudantes surdos. A seção 3 descreve a metodologia da pesquisa, baseada em revisão de literatura e análise qualitativa de estudos empíricos. A seção 4 reúne os resultados e a discussão dos dados encontrados, com destaque para as práticas inovadoras já desenvolvidas nas redes públicas. Por fim, a seção 5 apresenta as considerações finais, apontando os principais aprendizados do estudo e sugestões para fortalecer a formação docente e a aplicação de tecnologias acessíveis na Educação Física.
Ao trazer este debate, pretende-se contribuir para uma escola mais sensível às diferenças, mais preparada para promover equidade e, sobretudo, mais aberta às múltiplas formas de ensinar, aprender e se comunicar.
A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E A COMUNICAÇÃO VISUAL NO ENSINO DE SURDOS
A Educação Física é uma disciplina que, tradicionalmente, apoia-se em comandos verbais, demonstrações práticas e interações rápidas. Para o estudante surdo, essas formas de comunicação muitas vezes não são suficientes para compreender as instruções ou participar plenamente das atividades. Nesse contexto, a comunicação visual assume um papel central como estratégia pedagógica para garantir o direito à aprendizagem e à participação.
Como destacam Gomes e Lacerda (2023), “a ausência de recursos visuais e da Libras nas aulas de Educação Física cria um ambiente de exclusão simbólica, onde o aluno surdo se vê impossibilitado de compreender, interagir e construir significados junto aos demais” (p. 102). Ou seja, não se trata apenas de permitir a presença do aluno surdo, mas de garantir que ele compreenda e se envolva com as propostas da aula.
Dentre os recursos mais citados nos estudos empíricos, estão os cartazes com imagens, instruções sinalizadas em vídeo, infográficos com as etapas das atividades, e o uso de cartões coloridos para indicar regras, limites ou turnos. Essas ferramentas possibilitam ao aluno surdo acompanhar as dinâmicas mesmo sem a mediação constante do professor ou do intérprete.
Em pesquisa conduzida por Menezes e Costa (2024) em escolas municipais do Ceará, observou-se que “os alunos surdos que participavam de aulas com sinalização visual clara demonstraram maior envolvimento e compreenderam melhor as regras dos jogos” (p. 88). O estudo reforça a ideia de que a clareza visual das instruções reduz a dependência da oralidade, beneficiando não só os alunos surdos, mas toda a turma, especialmente aqueles com dificuldades de leitura, atenção ou linguagem.
Além disso, a presença de intérpretes de Libras deve ser considerada, mas não pode ser a única via de comunicação. O professor precisa adaptar sua própria prática, integrando Libras a gestos, mímicas e materiais visuais acessíveis. Para Silva e Ribeiro (2022), “a responsabilidade pela inclusão não pode recair exclusivamente sobre o intérprete; é fundamental que o professor se aproprie de estratégias visuais e corporais para se comunicar de forma direta com o aluno surdo” (p. 91).
Outro ponto importante é a necessidade de planejamento prévio. Muitos professores de Educação Física relatam dificuldade em preparar atividades visuais por falta de tempo ou apoio pedagógico. No entanto, como mostram experiências documentadas por Ferraz e Souza (2023), a criação de um painel visual fixo na quadra, com os sinais mais utilizados, regras em Libras e legendas ilustradas, tornou-se um recurso eficaz e reutilizável, reduzindo o tempo de preparação e aumentando a autonomia dos estudantes.
Essas práticas indicam que a comunicação visual não é um recurso extra, mas um elemento central da inclusão na Educação Física. Quando o professor investe em formas alternativas de linguagem, ele não apenas ensina melhor ao aluno surdo, como também amplia as possibilidades expressivas e interpretativas de toda a turma.
Portanto, compreender a importância da comunicação visual no ensino da Educação Física é um passo essencial para garantir o direito à aprendizagem de estudantes surdos. Mais do que adaptar uma aula, trata-se de criar um ambiente pedagógico onde todos possam se comunicar, se expressar e se movimentar com sentido.
TECNOLOGIAS DIGITAIS NO ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA INCLUSIVA: APLICATIVOS, VÍDEOS E RECURSOS MULTIMODAIS
O avanço das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs) abriu novas possibilidades para tornar o ensino mais acessível, especialmente para estudantes com deficiência. Na Educação Física, essas tecnologias vêm sendo integradas às práticas pedagógicas como forma de mediar a aprendizagem, facilitar a comunicação e promover a inclusão. No caso dos estudantes surdos, os recursos digitais multimodais, que combinam imagem, vídeo, som e texto, ampliam significativamente as formas de compreender, interagir e participar das atividades.
De acordo com Batista e Carvalho (2023), “as tecnologias digitais, quando planejadas com intencionalidade pedagógica, transformam-se em ferramentas de mediação cultural, permitindo que estudantes surdos acessem conteúdos em sua língua natural, a Libras” (p. 77). Essa mediação pode ocorrer por meio de vídeos instrucionais legendados ou sinalizados, tutoriais com comandos visuais, jogos interativos com sinalização em Libras e até aplicativos que traduzem palavras para sinais.
Uma experiência relatada por Silva e Almeida (2022) em uma escola pública de Minas Gerais exemplifica bem essa integração. Os professores utilizaram o aplicativo “Hand Talk” para traduzir comandos básicos das atividades motoras em Libras. Como resultado, os alunos surdos passaram a compreender melhor os objetivos das práticas propostas, demonstrando mais segurança e autonomia nas aulas. Segundo os autores, “o uso contínuo do aplicativo ampliou a confiança dos estudantes surdos, além de sensibilizar os colegas ouvintes sobre a importância da acessibilidade” (p. 64).
Outro recurso que tem se mostrado eficaz é o uso de vídeos educativos curtos, nos quais os próprios professores demonstram os movimentos e sinais em Libras, criando um acervo acessível para os estudantes revisarem as instruções. Como destacam Nascimento e Vieira (2024), “ao criar vídeos sinalizados com explicações passo a passo das atividades motoras, os docentes oferecem ao aluno surdo a oportunidade de rever os conteúdos com autonomia e no seu tempo” (p. 58). Essa prática também favorece o uso da tecnologia de forma mais humanizada e colaborativa.
Além dos aplicativos e vídeos, jogos digitais educativos também vêm ganhando espaço como ferramenta inclusiva na Educação Física. Jogos que envolvem tomada de decisão, regras e estratégias permitem ao aluno surdo participar ativamente das situações propostas, desde que as instruções estejam adaptadas visualmente. Farias e Ramos (2023) apontam que “os jogos digitais acessíveis favorecem o desenvolvimento do raciocínio tático e da percepção espacial dos estudantes surdos, ao mesmo tempo que estimulam a colaboração entre pares” (p. 84).
Contudo, é importante destacar que a simples introdução de tecnologias não garante inclusão. O uso dessas ferramentas precisa estar alinhado a uma proposta pedagógica que compreenda as singularidades linguísticas, culturais e cognitivas dos estudantes surdos. Como alerta Teixeira (2022), “a tecnologia deve ser vista como aliada do processo educacional inclusivo, e não como substituta da mediação docente ou da presença da Libras como língua de instrução” (p. 73).
Dessa forma, o uso de tecnologias digitais na Educação Física Inclusiva exige formação docente continuada, planejamento colaborativo e investimento em infraestrutura. Quando bem aplicadas, essas tecnologias não apenas eliminam barreiras comunicacionais, mas também potencializam o protagonismo dos alunos surdos, tornando a aprendizagem mais significativa, participativa e equitativa.
FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS COLABORATIVAS PARA A INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA
A formação de professores para a inclusão de estudantes surdos ainda representa um desafio recorrente no contexto da Educação Física escolar. Muitos docentes não se sentem preparados para adaptar sua prática às necessidades comunicacionais dos alunos surdos, o que acaba dificultando sua participação plena nas atividades propostas. Nesse cenário, torna-se essencial investir na formação inicial e continuada dos professores, com ênfase no letramento em Libras, nas tecnologias assistivas e em metodologias inclusivas.
Como afirmam Monteiro e Ferreira (2023), “a formação docente é o eixo estruturante para uma prática pedagógica que acolha a diferença como valor e que desenvolva estratégias acessíveis e eficazes para o ensino da Educação Física” (p. 109). Em outras palavras, não basta a sensibilização: é necessário que os cursos de licenciatura ofertem disciplinas específicas sobre Educação Física inclusiva, com espaço para o estudo da surdez, da Libras e da didática para a diversidade.
Na prática cotidiana, muitos professores encontram apoio no trabalho colaborativo com intérpretes de Libras, professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), coordenadores pedagógicos e colegas de área. Segundo estudo de Pereira e Andrade (2024), “a articulação entre professores regentes e intérpretes permite que o planejamento das aulas considere, desde o início, as necessidades dos estudantes surdos, o que resulta em maior engajamento e melhor aprendizagem” (p. 93). Essa colaboração, no entanto, exige diálogo constante, formação conjunta e abertura à construção coletiva do currículo.
Experiências bem-sucedidas nesse sentido foram relatadas por Cavalcante e Oliveira (2022) em uma rede municipal do interior da Paraíba. O projeto “Educar com as Mãos” promoveu oficinas de Libras para professores de Educação Física, com foco na comunicação em contextos motores. Como resultado, os docentes passaram a utilizar sinais básicos durante as aulas, além de adaptar os jogos e brincadeiras para favorecer a compreensão visual. O estudo mostrou que “a capacitação prática em Libras contribuiu não apenas para a inclusão dos alunos surdos, mas também para o fortalecimento da empatia e da diversidade nas turmas” (p. 47).
Apesar dessas iniciativas, ainda existem obstáculos importantes. A falta de oferta de formação continuada com foco na inclusão, a ausência de material didático acessível e o número reduzido de profissionais especializados nas escolas comprometem a efetividade das ações. Lima e Santos (2025) alertam que “sem políticas públicas que garantam suporte técnico e pedagógico, a inclusão escolar corre o risco de se resumir à matrícula formal, sem transformar, de fato, as práticas docentes” (p. 115).
Por isso, é urgente que as redes de ensino invistam em programas estruturados de formação permanente, que incluam o uso de tecnologias, o ensino de Libras aplicada ao contexto escolar e a produção de materiais específicos para o ensino da Educação Física a estudantes surdos. Além disso, é fundamental fortalecer os espaços de planejamento coletivo nas escolas, nos quais professores possam compartilhar experiências, refletir sobre suas práticas e buscar soluções conjuntas.
Portanto, a inclusão de alunos surdos na Educação Física não depende apenas de boas intenções ou da atuação de um único profissional. Ela exige um movimento institucional, colaborativo e formativo que promova uma mudança de cultura escolar, na qual todos os estudantes possam participar, aprender e se desenvolver de forma equitativa.
METODOLOGIA
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória, com base em uma revisão bibliográfica sistemática. Essa estratégia metodológica visa identificar, analisar e sintetizar o conhecimento produzido nos últimos anos sobre o uso de tecnologias acessíveis e práticas pedagógicas inclusivas no ensino de Educação Física voltadas a estudantes surdos. A escolha por esse tipo de revisão justifica-se pela intenção de compreender os avanços, desafios e experiências exitosas descritas na literatura científica, permitindo uma análise crítica que subsidie práticas mais equitativas no cotidiano escolar.
A seleção do material bibliográfico foi realizada entre os meses de abril e julho de 2025, a partir de buscas em bases de dados reconhecidas, como SciELO, Google Acadêmico, CAPES Periódicos e ERIC. Utilizaram-se os seguintes descritores: educação física inclusiva, estudantes surdos, Libras na escola, tecnologias acessíveis na educação e práticas pedagógicas inclusivas. Os critérios de inclusão foram: (i) publicações entre os anos de 2022 e 2025, (ii) textos completos em português, inglês ou espanhol, (iii) estudos empíricos e teóricos com foco na inclusão de surdos no contexto da Educação Física.
Foram inicialmente identificadas 27 publicações. Após leitura dos resumos e aplicação dos critérios de elegibilidade, foram selecionadas 10 obras consideradas mais relevantes e que apresentaram dados significativos ou reflexões aprofundadas sobre o tema. A análise foi feita por meio de leitura interpretativa, com ênfase nas contribuições práticas, desafios enfrentados pelos docentes e propostas formativas.
Tabela 01 – Sistematização das obras utilizadas.

Fonte: Elaborado pela autora, 2025.
Os dados extraídos das obras foram agrupados em categorias temáticas, discutidas à luz dos objetivos da pesquisa e da legislação vigente (como a LBI – Lei Brasileira de Inclusão, 2015), da BNCC (Base Nacional Comum Curricular, 2017) e dos princípios da educação inclusiva.
A presente pesquisa está em consonância com os princípios éticos da ciência, respeitando a integridade intelectual dos autores consultados, por meio da devida citação e referência das obras utilizadas. Por se tratar de revisão bibliográfica, não foi necessário submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
Por fim, cabe destacar que uma das limitações desta pesquisa é a escassez de estudos empíricos específicos sobre a inclusão de estudantes surdos em aulas de Educação Física com uso de tecnologias. Esse aspecto reforça a importância de fomentar investigações futuras sobre o tema, a partir da escuta dos sujeitos surdos e dos profissionais da escola.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise das dez obras selecionadas revelou importantes contribuições no que se refere ao uso de tecnologias acessíveis nas aulas de Educação Física para estudantes surdos. Em linhas gerais, os estudos apontam avanços significativos na implementação de práticas pedagógicas que respeitam as especificidades linguísticas e comunicacionais desses estudantes, especialmente quando há uso combinado de recursos digitais, visuais e o apoio da Libras como mediação.
Entre os principais achados, destaca-se o estudo de Batista e Carvalho (2023), realizado em uma escola pública de São Paulo, no qual os autores implementaram um projeto piloto que utilizava vídeos com instruções em Libras antes das aulas práticas. Essa iniciativa favoreceu a compreensão das atividades propostas, reduziu a ansiedade dos alunos surdos e fortaleceu a interação com os colegas ouvintes. A prática revela como recursos visuais bem planejados podem ser aliados na promoção da inclusão e da autonomia.
No trabalho de Silva e Almeida (2022), a utilização do aplicativo Hand Talk em aulas de jogos populares permitiu a adaptação de regras e instruções, facilitando a participação dos alunos surdos e promovendo a valorização da cultura surda. A análise qualitativa feita pelos autores mostra que o uso de tecnologias móveis, quando articulado com uma postura docente inclusiva, pode transformar barreiras comunicacionais em pontes de aprendizagem.
Já Nascimento e Vieira (2024) desenvolveram uma sequência didática com vídeos educativos em Libras para o ensino de esportes coletivos. A pesquisa evidenciou que os estudantes surdos demonstraram maior envolvimento e desempenho quando as instruções estavam acessíveis em sua língua materna. Os autores reforçam a importância da produção de materiais pedagógicos em Libras como recurso essencial para garantir a equidade no ensino de Educação Física.
No que se refere à formação docente, Monteiro e Ferreira (2023) observaram que professores com experiências prévias em cursos de Libras e tecnologias educacionais apresentaram maior segurança e criatividade para adaptar suas aulas. A pesquisa mostra que práticas como o uso de QR Codes para acesso a vídeos explicativos, painéis com imagens e pictogramas, e o apoio de intérpretes em eventos esportivos escolares são estratégias eficazes para favorecer a participação de estudantes surdos.
Outra experiência relevante é a de Pereira e Andrade (2024), que investigaram a parceria entre professores de Educação Física e intérpretes de Libras em escolas do Pará. O estudo conclui que, quando há colaboração e planejamento conjunto, o potencial de aprendizagem dos alunos surdos é ampliado. A mediação do intérprete, no entanto, não substitui a necessidade de o professor adquirir competências comunicacionais básicas em Libras.
De modo geral, os resultados apontam para a necessidade urgente de repensar a formação inicial e continuada dos professores de Educação Física, incorporando não apenas conhecimentos sobre a Libras, mas também o uso pedagógico de tecnologias acessíveis. Conforme argumenta Lima e Santos (2025), a inclusão de estudantes com deficiência auditiva não deve ser entendida como um favor, mas como um direito garantido por lei e sustentado por práticas pedagógicas intencionais e contextualizadas.
As evidências reunidas também permitem refletir sobre os desafios ainda presentes. Muitos professores relataram, nas obras analisadas, dificuldades relacionadas à falta de tempo para planejamento adaptado, escassez de materiais acessíveis e insegurança quanto ao uso adequado das tecnologias. Esses fatores configuram barreiras institucionais que precisam ser enfrentadas por meio de políticas públicas específicas de apoio à inclusão escolar.
Entre as limitações desta pesquisa, destaca-se o número reduzido de estudos empíricos focados especificamente na Educação Física. Grande parte das pesquisas encontradas ainda se concentra em contextos gerais da escola, sem abordar as particularidades da prática corporal. Isso evidencia uma lacuna na produção acadêmica que precisa ser preenchida por estudos de campo mais aprofundados, especialmente com a participação ativa dos próprios estudantes surdos.
Em síntese, os resultados desta revisão bibliográfica evidenciam que a inclusão efetiva de estudantes surdos na Educação Física escolar depende da articulação entre formação docente, acessibilidade linguística, uso de tecnologias digitais e valorização da cultura surda. Práticas bem-sucedidas demonstram que é possível construir um ensino mais democrático, desde que haja investimento, compromisso e sensibilidade por parte dos educadores e das instituições.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste estudo, procurou-se entender como as tecnologias acessíveis, especialmente os recursos visuais e digitais, podem contribuir para a inclusão de estudantes surdos nas aulas de Educação Física. A revisão das obras analisadas permitiu reunir exemplos concretos de práticas que deram certo, destacando a potência de um trabalho pedagógico que considera a singularidade de cada aluno e aposta na comunicação como ponte para o aprendizado.
Ficou evidente que o uso de vídeos em Libras, aplicativos de tradução, QR Codes com instruções visuais, painéis ilustrados e outras ferramentas digitais não apenas facilitam o entendimento das atividades, mas também valorizam a presença e a identidade dos estudantes surdos no ambiente escolar. Mais do que adaptar, esses recursos ajudam a romper com práticas excludentes e a promover a participação plena desses alunos nas vivências corporais e nos momentos coletivos da aula.
Outro ponto importante foi constatar que o papel do professor é fundamental nesse processo. Não se trata apenas de dominar ferramentas tecnológicas, mas de assumir uma postura ética e comprometida com a equidade. Os docentes que se mostram dispostos a aprender Libras, a dialogar com os intérpretes, a planejar com antecedência e a se abrir ao novo são justamente aqueles que conseguem criar ambientes mais acolhedores e inclusivos.
Apesar dos avanços, ainda enfrentamos desafios: a formação inicial nem sempre prepara adequadamente os professores para lidar com a diversidade linguística, muitos profissionais relatam falta de tempo e apoio institucional, e os materiais acessíveis ainda são escassos em algumas redes de ensino. Por isso, reforça-se a necessidade de políticas públicas que incentivem a formação continuada, a produção de materiais pedagógicos acessíveis e o apoio técnico às escolas.
Como contribuição prática, este artigo reforça a importância de valorizar a escuta dos próprios estudantes surdos e de envolvê-los no planejamento das aulas. O que funciona para eles? Quais recursos fazem sentido no cotidiano? O diálogo é um caminho essencial para tornar a Educação Física verdadeiramente inclusiva e significativa.
Para estudos futuros, sugere-se a realização de pesquisas de campo em diferentes contextos escolares, com foco na escuta dos estudantes e na avaliação da efetividade das tecnologias acessíveis em situações reais de ensino. Também seria relevante aprofundar investigações sobre a formação docente em Libras específica para o contexto da Educação Física, tema ainda pouco explorado na literatura.
Em resumo, incluir é um gesto pedagógico que exige sensibilidade, intencionalidade e compromisso coletivo. Que todos possam seguir construindo escolas onde todas as vozes, inclusive as que se expressam por gestos, tenham espaço, escuta e valor.
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